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Cultura Pop

Várias coisas que você já sabia sobre The Who Sell Out, do Who

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Várias coisas que você já sabia sobre The Who Sell Out, do Who

O Who não parecia ser exatamente o tipo da banda “psicodélica”, que vingaria no mercado da música pop-experimental, como os Beatles e Donovan, entre outros nomes. Em 1967, estava fazendo sucesso com um power pop de boa qualidade, Pictures of Lily, e vinha de um segundo LP profundamente mod, A quick one (1966).

Mas no caminho de Roger Daltrey (voz), Pete Townshend (guitarra), John Entwistle (baixo) e Keith Moon (bateria) tinham algumas mudanças chegando. Todas elas causadas pela chegada de Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles (1967), pelo esvaziamento da subcultura mod (substituída pela psicodelia nos corações e mentes de vários jovens) e pelo fim do Ready, steady, go!, programa de TV no qual haviam se apresentado dezoito vezes. E com o qual eram identificados a ponto de terem gravado um EP chamado Ready, steady, Who, em 1966.

Outra mudança era o evidente crescimento de Pete Townshend como compositor, e seu crescente domínio de todos os processos na produção de uma música e de um disco. Isso aumentou demais as tensões no Who em vários momentos, já que Roger, Keith e John se sentiam subaproveitados. Mas, de fato, Pete inovou levando a cultura das operetas-rock para dentro do grupo (com A quick one while he’s away) e investindo na criação de personagens, além de letras com plots bem definidos (bom, Entwistle respondeu a isso compondo Whiskey man, Boris the Spider e Silas Stingy).

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Várias coisas que você já sabia sobre The Who Sell Out, do Who

Foi sob esse signo que nasceu o terceiro disco do Who, o conceitual The Who sell out (“The Who se vende”), com os quatro integrantes posando de garotos-propaganda de produtos na capa (Pete e Roger) e na contracapa (Keith e John), em 1967. O álbum oferecia um passeio por uma rádio pirata imaginária, com jingles roubados da bucaneira Radio London, e canções compostas para produtos que existiam de verdade, como o creme para acne Medac e o desodorante Odorono. O disco já teve diversas reedições e está voltando às lojas numa superedição com vários bônus, além do “pôster psicodélico” que saiu nos LPs originais. Para quem deseja ao menos a experiência de ouvir o disco turbinado, as músicas já estão nas plataformas.

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E eis o nosso relatório sobre The Who sell out. Ouça lendo, leia ouvindo.

O WHO estava em plena atividade em 1967, fazendo vários shows e apresentações históricas pelos Estados Unidos. No Fillmore, em Nova York, tiveram apresentações abertas pelo saxofonista de jazz Cannonball Adderley. “Mal pude acreditar, isso explodiu minha mente. E ele era um cara legal”, contou Pete Townshend. Paralelamente a isso, o principal compositor do Who passava todo o tempo escrevendo canções novas, a ponto de ter um material realmente enorme e desafiador quando a banda decidiu fechar um novo disco, no fim de 1967.

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O MATERIAL que o Who tinha em mãos era bastante inovador para o rock da época. Mesmo hinos rebeldes como Help, dos Beatles, soavam ingênuos diante de canções que falavam de assuntos metafísicos, manias, depressões e questionamentos existenciais. Não por acaso, saiu uma canção chamada Melancholia, que quase se chamou The virus (“a ideia era trabalhar com a doença mental como um vírus”, afirmou Pete).

ESSA MÚSICA era quase um plot maluco que tratava a melancolia juvenil como um vírus, adiantando um pouco do que rolaria com Tommy ou a abandonada Lifehouse. Mas para ter uma ideia do quanto a banda, com Pete na liderança, descartava coisas, Melancholia foi deixada de lado e só reapareceu em coletâneas e reedições de The Who sell out.

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AO MESMO TEMPO, Pete começou a direcionar o disco para uma onda de paródia dos comerciais de rádio, tendo em mente a programação das emissoras piratas da Inglaterra. A ideia de fazer um disco dessa forma não surgiu do nada. Richard Barnes, escritor e amigo do Who, havia ficado animado com a versão que a banda fizera do tema do Batman no EP Ready, Steady, Who. Sugeriu a Daltrey e a Townshend que a banda gravasse jingles comerciais. O guitarrista achou a ideia a maior viagem e reagiu com ironia. Mas ao longo do ano o Who podia ser visto gravando jingles para as baterias Premier e até para um par de comerciais “mod” da Coca-Cola.

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ANTES DE The Who sell out virar o que se tornou, houve um lançamento importante na vida do grupo: o single Pictures of Lily. Lançado em abril de 1967, ele espremia em menos de três minutos um storytelling que caberia melhor num romance, num conto ou num filme. Um garoto insone ganhava de seu pai imagens em que aparecia uma moça chamada Lily, e aquilo lhe trazia paz e calma. Só que ao tentar obter mais detalhes sobre Lily, o pai lhe contava que ela havia morrido em 1929, o que partia o coração do garoto.

ALIÁS E A PROPÓSITO, Pictures of Lily é tida como uma música sobre masturbação, mas não há referência alguma a isso na letra. The Who sell out, por sua vez, tinha uma música bem mais explícita e safada sobre o assunto, Mary-Anne with the shaky hand.

POR SINAL, Pictures of Lily foi tão importante na vida do Who que, num rascunho inicial, The Who sell out quase se chamou Who’s Lily.

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ALIÁS E A PROPÓSITO, um site chamado Albums That Never Were reconstituiu a lista de Who’s Lily, com músicas como Armenia city in the sky e Our live was, que foram para The Who sell out, misturadas a Girl’s eyes, o instrumental Sodding about e In the hall of Mountain King, que não foram aproveitadas no LP original.

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ANTES mesmo de Who’s Lily, o Who – um tanto abalado com a chegada da psicodelia às páginas de jornais e com o sucesso de Sgt. Pepper’s, dos Beatles – havia pensado na hipótese de lançar um EP instrumental. A ideia foi deixada de lado porque: 1) Pete não parava de compor e de fazer letras; 2) seria melhor permitir que os outros três integrantes contribuíssem com pelo menos uma faixa cada um, para acalmar os ânimos na banda. Com o disco mais ou menos bolado, o grupo tinha gravado músicas como Armenia city in the sky, Relax e I can’t reach you e partiu para uma turnê de três meses pelos EUA com Herman’s Hermits, durante a qual deveria concluir o disco.

QUASE ÓPERA. O tom diversificado e maluco que The Who sell out teria acabou sendo dado por uma primeira tentativa de Pete Townshend de compor uma ópera-rock. No esqueleto inicial escrito por Townshend, Rael teria trinta minutos. A letra falava sobre o soldado anônimo de um país imaginário (Rael, que muita gente interpreta como uma referência a Israel) que se lançava ao mar para lutar contra os “red chins” (que costuma ser interpretada como uma referência à China comunista).

O PROJETO de Rael foi deixado de lado pela exigência de que o Who fizesse singles. Para caber em The who sell out foi reduzida a dez, depois a seis minutos.

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PETE nunca foi exatamente claro sobre Rael e sobre o que ela significa, mas sua obra é repleta de referências judaicas – apesar de ele não ser judeu. Um artigo de Seth Ragovoy esmiúça o judaísmo na obra de Townshend e recorda que o compositor do Who sempre protestou contra o antissemitismo em entrevistas. “Morávamos em uma casa que se dividia em duas, e na parte de cima vivia uma família judia bastante devota. Judeus poloneses eram as crianças com quem eu brincava. Eles eram meu povo”, afirmou Townshend.

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POR OUTRO LADO, interpretar a letra de Rael como uma crítica ao comunismo pode ser um erro: Pete foi do Partido Comunista Jovem da Inglaterra na juventude (pouco antes de The Who sell out, por sinal) e, nos anos 1970, dava entrevistas dizendo que “era capitalista nas atitudes, mas comunista nos ideais”.

ROGER DALTREY considera Rael “um pequeno pedaço de Tommy“, por incluir no final trechos de uma canção instrumental que apareceria na ópera-rock, Sparks. E diz que The Who sell out era basicamente uma coleção de pedaços de canções de Pete que foram unidas nos estúdios pelos quais a banda passou. “Esses pedaços juntos nem formavam um álbum. Acho que Chris Stamp (empresário) veio com a ideia de fazer o disco como se fosse uma rádio”, contou.

VALE CITAR QUE esse excesso de material de Pete não vinha à toa: o guitarrista do Who tinha sido um dos primeiros músicos da Inglaterra a investir num estúdio caseiro. Já tinha uma máquina de gravação em 1963, antes da fama, e insistia com amigos famosos, como Jimi Hendrix, para que fizessem o mesmo investimento.

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ALIÁS E A PROPÓSITO, havia um outro vislumbre de Tommy na bela I can’t reach you, música de amor platônico em que o personagem não conseguia nem alcançar, nem “ver, sentir ou ouvir” nada da mulher amada.

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O DISCO. The Who sell out acabou ganhando esse formato porque, além dos vários jingles gravados pela banda, Pete decidiu fazer uma homenagem às rádios piratas da Inglaterra, que faziam um papel que a estatal BBC não costumava fazer, e tocavam muita música jovem – a ponto de influenciarem a emissora grandalhona. Eram emissoras que, não raro, funcionavam em barcos no meio do mar, e não estavam sujeitas às leis territoriais de broadcasting.

A FARRA das rádios piratas acabou em 14 de agosto de 1967, quando uma nova lei mandou fechar todas as rádios que funcionavam nos mares do Reino Unido. “A ideia de que uns garotos podiam entrar num barco e transmitir rádio sem licença era um anátema para o governo da época”, lembrou Pete, recordando também que a BBC teve papel único de transmissão de notícias durante a Segunda Guerra Mundial. “Mas sem essas rádios piratas, você não teria como ouvir nem Small Faces, nem Beatles, nem Kinks, nem nenhuma das forças criativas da época”.

NUM PAPO COM o site Consequence of Sound, Pete contou que a ideia do disco veio de horas a fio que o músico passava no escritório dos empresários tentando bolar algo novo para o próximo lançamento do Who. Ele diz que não é verdade que Sgt Pepper’s tenha influenciado The Who sell out, apesar de haverem semelhanças conceituais evidentes – até mesmo no final com uma imitação de sulco arranhado, lembrando o palavreado incompreensível do álbum dos Beatles.

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TOWNSHEND e a banda chegaram a ter mesmo a ideia de vender comerciais entre as faixas e chegaram a propor isso a seus empresários e produtores. A banda fez um anúncio para a American Cancer Society com a música Little Billy, cujo objetivo era desencorajar os jovens a fumarem (Pete chama o anúncio de “hipocrisia, já que eu fumava”). Mas viria coisa bem mais complexa na frente: em 1967 Townshend gravou um estranho anúncio de rádio encorajando os jovens a ingressarem na Força Aérea Americana, em plena Guerra do Vietnã.

A RIGOR, segundo Pete, só mesmo a fábrica de baterias Premier e as cordas Rotosound (cujos jingles estão no LP, o primeiro depois de Marianne e o segundo antes de I can see for miles) se interessaram em ter um espaço pago no disco. As duas empresas mantiveram Keith Moon e John Entwistle munidos de, respectivamente, peças de bateria e cordas de baixo até o fim de suas vidas. Kit Lambert, empresário do grupo ao lado de Chris Stamp, ligou para a Coca-Cola a pedido de Townshend, para oferecer espaço no LP. A empresa desligou na cara de Kit quando nem ele nem Pete souberam dizer quantas cópias o grupo venderia.

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O CARA QUE FEZ “ARMENIA”. Armenia city in the sky, a psicodélica faixa de abertura do disco, foi composta por um sujeito chamado Speedy Keen, que dividiu apartamento com Pete e foi motorista do amigo no começo do Who. Speedy compôs o hit Something in the air para a banda Thunderclap Newman, e depois gravou dois discos solo, em 1973 e 1975, além de produzir bandas como Motörhead. Morreu em 2002, pouco antes da morte do baixista John Entwistle.

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A CAPA. As imagens de The Who sell out foram feitas por David Montgomery, o mesmo cara que fez a foto da capa de Electric ladyland, de Jimi Hendrix. As imagens foram tiradas num mesmo estúdio, com os quatro juntos, mas clicados em separado. Tanto que há um outtake com os quatro. Olha aí.

Várias coisas que você já sabia sobre The Who Sell Out, do Who

SIM, é verdade, pelo menos segundo Roger Daltrey: o cantor do Who pegou uma baita pneumonia por causa da foto em que aparecia mergulhado em feijões. “Eles estavam congelando de frio! Fiquei sentado nos feijões por vinte minutos, até que tiveram a grande ideia de colocar fogo elétrico na parte de trás da banheira em que eu estava sentado, o que funcionou por um tempo”, contou. “Só que o feijão começou a cozinhar. Então, minha bunda estava assando enquanto o resto do meu corpo estava congelando”.

OS COMERCIAIS DA CAPA não eram de verdade. Os produtos, você deve saber, existiam de verdade, até mesmo o tal programa de musculação de Charles Atlas, que John Entwistle “propagandeou”. Cada produto ganhava uma música inteira ou jingle no álbum. A de Odorono, escrita por Pete Townshend, é a melhor e mais radiofônica.

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ALIÁS E A PROPÓSITO, a introdução de London calling, do Clash, lembra bastante a dessa música do Who. Ou será que é impressão nossa?

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ODORONO. Possivelmente, se você buscar “Odorono” no Google vai achar a canção do Who antes mesmo de chegar em qualquer referência à marca. Que originalmente se chamava Odor-o-no e havia sido iniciada em 1910 em Ohio, nos EUA, como fabricante de antitranspirantes, numa época em que as pessoas não só não achavam que precisavam de desodorantes, como achavam que fazia mal à saúde. Olha aí um reclame de 1913 da empresa, quando Townshend nem havia nascido ainda. A Odorono ainda resiste no mercado – até mesmo aqui no Brasil – como marca registrada da grandalhona Unilever.

Várias coisas que você já sabia sobre The Who Sell Out, do Who

HEINZ. Roger Daltrey poderia ter evitado a pneumonia se tivesse feito ao fotógrafo a proposta de trocar o panelão de feijões por uma pizza ou um hambúrguer tamanho-família. Isso porque a empresa (que não patrocina o POP FANTASMA mas se quiser pode) é ate mais conhecida pela sua linha de ketchup. A Heinz existe desde 1869, foi fundada em Pittsburgh, Pensilvânia. e introduziu seu molho vermelho no mercado em 1876. É bastante popular no Brasil. O site da empresa não faz nenhuma referência a The Who sell out.

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MEDAC. Apesar de existir uma empresa farmacêutica alemã com esse nome, o remédio cantado em verso por Keith Moon é um creme para espinhas bastante popular na Inglaterra dos anos 1960, e fabricado por uma empresa chamada Genatosan Ltd. Um detalhe: a edição australiana substituía o medicamento pela marca de skin care Clearasil. O baterista foi escolhido para posar com o remédio porque, em suas memórias, ele era o mais novo da banda e poderia passar por um adolescente espinhudo.

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CHARLES ATLAS. Assim como os comerciais da capa de The Who sell out eram farsas, Charles também não se chamava Charles Atlas. Ele era um fisiculturista italiano cujo nome era Angelo Siciliano (1892-1972), e que, já morando em Nova York, adotara o nome “artístico” ao ver uma estátua de Atlas no topo de um hotel em Coney Island. Criou uma série de exercícios baseados na isometria (treinamento que consiste, entre outras coisas, em fazer força contra objetos imóveis), que eram divulgados em revistas em quadrinhos e ficaram extremamente populares. Também abriu uma rede de academias. Na edição canadense, o nome Charles Atlas não pôde ser mencionado e foi trocado para “treinamento isométrico” mesmo.

NÃO MANDE DINHEIRO AGORA. Os tais quadrinhos, aliás, serviam para Charles vender livros com seus programas de musculação – que poderiam ser treinados em casa, na base do seja-seu-próprio-personal. Num dos mais populares, um sujeito magrelo sofria bullying de um valentão parrudo. Comprava o livro de Charles, treinava, ficava forte e ia lá sentar a mão na cara do folgado.

A GAROTA DA CAPA. A modelo que posa ao lado de John Entwistle é Jill Langham, que durante vários anos foi conhecida como a dancing queen de Palm Springs, e aos 44 anos, bem depois de The Who sell out, se tornou fisiculturista e passou a competir. Ela já lançou até uma autobiografia. Na época do disco, tinha vinte e poucos anos e havia acabado de ter um filho.

ALIÁS, Jill, que na época tinha aparecido no filme Um golpe à italiana, ao lado de Michael Caine, declarou ao livro The Who FAQ: All that’s left to know about fifty years of Maximum R&B, de Mike Segretto, que nem sequer se lembrava muito da sessão. “Posar com o Who nem era algo tão especial para mim. Eu era mais fã dos Beatles”, recordou.

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TONY RAMOS DO WHO. Segundo Keith Moon, Entwistle – mesmo estando longe de possuir um porte atlético – foi escolhido para o comercial da Charles Atlas porque “tinha um peito cabeludo” (na foto isso não aparece, enfim).

MAS POR OUTRO LADO, Entwistle conta outra história sobre isso. O baixista diz que originalmente, ele é que deveria mergulhar no feijão, e Daltrey, que ainda não era o sex symbol dos anos 1970, posaria com a modelo. Só que o baixista espertinho resolveu chegar mais cedo ao estúdio de propósito e acabou posando com Jill.

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ATRASOU. The Who sell out havia sido programado para 17 de novembro de 1967 e precisou ser adiado justamente porque a banda e a gravadora estavam esperando as autorizações das marcas.

ALIÁS E A PROPÓSITO, DEU MERDA. Os criadores dos jingles da Radio London se estressaram com o Who por causa do uso alegadamente não-autorizado das gravações. A Heinz, conta-se, estressou-se no começo, mas depois ficou animada com a publicidade gratuita.

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PÔSTER GRÁTIS. As primeiras edições de The Who sell out vinham com um aceno à mania dos pôsteres, que começavam a ficar bastante populares entre a juventude da época. Na capa, um adesivo anunciava “pôster psicodélico grátis”. Dentro, o fã do Who encontrava um desenho psicodélico feito pelo artista gráfico Adrian George, um dos nomões da Osiris Vision, negócio de pôsteres dirigido por Joe Boyd, que dirigia o clube UFO, e Barry Miles, proprietário da livraria Indica Books e do jornal de contracultura International Times. Os primeiros LPs de The Who sell out valem uma boa nota por causa desse pôster, mas depois ele foi acrescentado em algumas reedições.

Várias coisas que você já sabia sobre The Who Sell Out, do Who

RECEPTIVIDADE. The Who sell out é um disco de 1967 na Inglaterra e um álbum de 1968 nos Estados Unidos – saiu no Reino Unido em 15 de dezembro, e nos EUA em 6 de janeiro. Na terra do Who chegou ao número 13 nas paradas. O álbum foi muito bem recebido pela crítica, e de modo geral, foi visto como um foco da arte pop no universo do rock, por misturar publicidade e música. Mas foi consenso quase geral que o fato da banda ter optado por um storytelling maluco prejudicou as vendas.

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BOM, NEM TANTO. Alguns críticos detestaram o fato do Who “se vender”. Bruno Bornino, do Cleveland Press, classificou os anúncios como “revoltantes” e sugeriu que os fãs comprassem o disco e jogassem a capa no lixo. Joe Bogart, diretor da rádio WMCA, de Nova York, mandou um “disgusting” quando viu Roger Daltrey mergulhando no feijão e proibiu o disco de ir ao ar em sua emissora.

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ALIÁS E A PROPÓSITO, The Who sell out é um dos raros discos do Who que nunca foram lançados em formato algum no Brasil.

MAS E DEPOIS? O Who, mesmo valorizando os LPs conceituais, passou o ano de 1968 investindo em singles, como Call me lightining, Dogs e Magic bus. Também saíram coletâneas como Direct hits (nos EUA) e Magic bus: The Who on tour (no Reino Unido). Chegou a ser imaginado um disco de estúdio chamado Who’s for tennis?, que sairia em 1968. O projeto original, bolado antes mesmo de The Who sell out ser fechado, incluía até mesmo músicas como Silas Stingy, além do futuro hit Magic bus. A banda teria descartado a ideia por não botar fé na seleção final de músicas. Disco novo só mesmo em 1969, com Tommy.

E BOA PARTE do material deste texto foi tirado dessa entrevista recente de Pete e Roger.

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(agradecemos a Marcelo Fróes pela dica da Jill)

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No podcast do POP FANTASMA, Stranglers!

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Nada pode parar os Stranglers e impedir uma das maiores bandas da história do rock britânico de fazer bonito – e tem disco novo deles rolando nas plataformas, Dark matters. Recentemente, a covid levou o tecladista do grupo, Dave Greenfield, um desses músicos que estavam sempre algumas jogadas à frente no tabuleiro. O Stranglers, que vinha ficando acostumado a mudanças na formação desde a saída do vocalista Hugh Cornwell, em 1990, hoje é um trio comandado pelo baixista e vocalista Jean Jacques Burnel, o único a permanecer na banda desde o comecinho.

Na nona edição do Pop Fantasma Documento, nosso podcast, lembramos a carreira dos Stranglers, um pouco das histórias de discos clássicos como No more heroes (1977), Black and white (1978) e La folie (1981) e falamos um pouco das novidades da banda. Ah, cansamos um pouco de falar para as paredes e dessa vez tem convidado: o músico, produtor e jornalista André Mansur ajuda a falar da história da banda e do impacto dos Stranglers no rock brasileiro (sim, teve!).

O Pop Fantasma Documento é o podcast semanal do site Pop Fantasma. Episódios novos todas as sextas-feiras. Roteiro, apresentação, edição, produção: Ricardo Schott. Músicas do BG tiradas do disco Jurassic rock, de Leandro Souto Maior. Estamos no SpotifyDeezerCastbox Mixcloud: escute, siga e compartilhe!

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Cultura Pop

SSV: quando Sisters Of Mercy fizeram um disco só pra cumprir contrato (e que nem saiu)

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SSV: quando os Sisters Of Mercy fizeram um disco só pra cumprir contrato (e que nem saiu)

Não existe disco de inéditas do Sisters Of Mercy desde 1990, quando saiu o terceiro álbum, Vision thing. Os fãs não perdem a esperança e sempre cobram material novo do líder do grupo, Andrew Eldritch. Em 2016, aliás, vale citar, Andrew deu certa esperança a seus fãs, quando disse que “se Donald Trump chegasse à presidência” poderia lançar um disco novo. Trump entrou, saiu, e nada veio.

Bom, quase nada: em 1992, para acalmar os fãs, saiu uma coletânea de singles Some girls wander by mistake. Andrew passou, com seu grupo, a se dedicar apenas aos shows, e a gravação de novos álbuns ficou para outro momento, que nunca chegava. Mas ainda assim, além dos fãs, outro problema foi criado com o selo do grupo, a East West, que os havia contratado em 1989.

Você possivelmente escutou falar da East West pela primeira vez nos anos 1990, mas a gravadora iniciou atividades em 1955, como um selinho da Atlantic. Lançou bem pouca coisa memorável (discos dos Kingsmen saíram por lá) e passou vários anos engrossando a lista de selinhos defuntos. Voltou lá pra 1989 empurrando a porta das paradas com artistas como En Vogue, Pantera e algumas outras.

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O Sisters acabou não sendo uma das bandas vitoriosas do selo: fez várias turnês, mas teve mil problemas financeiros, e resolveram se emputecer com a própria gravadora. A ponto de declarar uma “greve” contra a East West que muita gente nem sequer entendeu direito, mas que tinha a ver com direitos que Andrew acreditava não estar recebendo. O processo foi se arrastando e a gravadora foi cobrando discos novos, que nunca saíam.

E aí que em 1997, Andrew decidiu encerrar o contrato com a gravadora da forma mais mole possível. Sequer gravou um disco novo: simplesmente pagou duas pessoas para fazerem um disco, participou com alguns vocais e pronto, a East West entendeu que ele poderia ser liberado. Foi o que aconteceu quando Andrew gravou Go figure, o disco do grupo SSV. Ou SSV-NSMABAAOTWMODAACOTIATW, que é o nome completo.

Ao que consta, o tal nome enorme do SSV significa Screw Shareholder Value – not so much a band as another opportunity to waste money on drugs and ammunition, courtesy of the idiots at Time Warner (“não tanto uma banda, mas outra oportunidade de gastar dinheiro com drogas e munições, cortesia dos idiotas da Time Warner”). No site do Sisters, há um texto negando que o título seja esse, já que “exigiria uma vírgula”.

O próprio site, aliás, explica o rolê complicado do álbum. “Ele apresenta música de P.Bellendir e palavras de T.Schroeder. Foi produzido por P.Bellendir em 1997. Não traz nada de Andrew Eldritch, exceto alguns vocais sampleados.  Por causa desses vocais sampleados, a East West comprou o disco (sem tê-lo ouvido) e concordou em liberar Andrew de seu contrato de gravação. O que os levou a fazer uma coisa tão estranha, após anos de intransigência?”, perguntam.

Bom, a explicação que a banda arrisca é a de que a grande preocupação da gravadora era a de que um juiz considerasse que o contrato estava morto, após a greve de sete anos. “Então eles pegaram o que puderam. Andrew não tem dinheiro nem desejo de passar anos em um processo judicial e ficou feliz em aceitar a liberdade imediata nesses termos específicos”, explicam lá.

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O fato é que a East West odiou o disco do SSV e decidiu não lançar nada. De qualquer jeito, a gravadora mandou cópias para a imprensa. Por causa disso, os fãs e não fãs do Sisters deparam com vídeos contendo o repertório do disco, além de arquivos p2p. Olha ele aí.

Se você escutou o disco, percebeu de cara: sim, é ruim. Uma confusão dos diabos, privativa dos maiores fãs do Sisters e olhe lá. O próprio Andrew não esconde isso no texto do site. “Não é muito bom – para dizer o mínimo. É razoável supor que ‘techno sem bateria’ é projetado apenas para entediar e irritar”, diz o texto. “Não achamos que valha a pena baixar o disco, de qualquer maneira. Descobrimos que East West remixou duas faixas, mas eles não têm permissão para remixar mais. Um dia, East West pode decidir lançar o álbum SSV. Não podemos recomendar”.

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Cultura Pop

Qual era a de Frank, estreia de Amy Winehouse?

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Qual era a de Frank, estreia de Amy Winehouse?

Missão difícil essa: falar de um disco que se bobear você já ouviu algumas (ou inúmeras) vezes. E que dependendo do seu gosto musical, você já deve ter repetido por aí mil vezes que se trata do melhor disco da artista em questão. Mas como é aniversário de Amy Winehouse, a gente faz questão de dizer que Frank, o primeiro disco dela, merece muito ser ouvido.

Quando Frank saiu, havia expectativa (muita, por sinal) sobre Amy, mas ninguém nem de longe imaginaria aquele sucesso todo que ela teria em Back to black, o segundo disco (2006). Até porque três anos se passaram do primeiro para o segundo disco. Frank é de 2003, e um ano antes ela ainda era um dos segredos mais bem guardados da indústria musical, com contrato assinado com o poderoso Simon Fuller, ex-empresário das Spice Girls e criador da franquia Idol.

Antes de Frank sair (o título alude tanto à franqueza algo excessiva das letras quanto à sua paixão por Frank Sinatra), Amy já tinha sido alvo de uma pequena disputa entre gravadoras, com EMI e Island procurando a garota de 20 anos para assinar um contrato. A Island ganhou e Frank saiu, revelando uma sonoridade que aludia ao neo soul dos anos 1990 (enfim, o soul renovado com elementos de r&b e hip hop), mas mais ainda ao jazz. Era algo bem novo para a época em que saiu, mas não chamou a menor atenção. O disco saiu em 20 de outubro de 2003 e demorou quatro meses para chegar à 13ª posição na parada de álbuns do Reino Unido – e não ficou muito tempo por lá. Os demais países europeus só conheceram o disco no ano seguinte.

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E antes que você pergunte como Frank se deu na parada americana, os EUA não conheceram o primeiro disco de Amy até 2007, quando Back to black já tinha sido lançado havia um ano. O site Concert Archives diz que os primeiros shows de Amy nos EUA aconteceram em março de 2007 no festival SXSW. Quando Frank finalmente saiu nos EUA, ganhou uma resenha pouco amistosa da Pitchfork, criticando a “rotina autodestrutiva do artista torturado”.

Em termos de letras, a grande diferença entre Frank e Back to black é que Amy no começo já falava de dores de cotovelo sérias e de enormes problemas amorosos, mas a artista com certeza não era a mesma – e a narradora-personagem das letras talvez não fosse a mesma. A Amy do primeiro disco talvez não gravasse algo como Rehab e You know I’m no good. Mas lá tinha Stronger than me, cuja letra causaria problemas a Amy hoje em dia (já que ela pergunta ao namorado que depende emocionalmente dela: “você é gay?”). Tinha a releitura dela para um standard de jazz gravado por meio mundo, There is no greater love. A confusão amorosa de I heard love is blind. E Help yourself, mais uma canção sobre namorada de atitude vs namorado imaturo.

A capa de Frank também chama a atenção pelo astral bem diferente da de Back to black. Em comecinho de carreira e ainda sem pretensão de estourar, Amy aparece bem feliz na foto e capa, clicada por um fotógrafo iniciante, Charles Moriarty, que recordou depois ter sido o primeiro a clicá-la com penteado beehive. Anos depois, ele lançou o livro Before Frank, mostrando o período pré-fama de Amy.

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“Eu a conheci no dia em que fiz a capa de seu álbum. Ela veio ao meu apartamento em Spitalfields. Ela colocou maquiagem e um pouco de música. Eu não era fotógrafo na época. Eu ia com minha câmera quando meus amigos iam a uma discoteca. Um amigo em comum pediu que eu fizesse um teste com ela para conseguir o visual que ela queria para seu álbum. Uma dessas imagens se tornou a capa de Frank“, contou Charles, recordando também que ela queria evitar cair na armadilha de posar usando uma guitarra, ou algo do tipo.

Os cães que aparecem na foto (na verdade só um cão, além do laço da coleira de outro animal) foram emprestados naquele momento, por uma pessoa que estava passando. “Acho que os cães foram uma boa distração da câmera para Amy. Eles permitiram que ela se concentrasse neles, em vez de no fato de que eu estava tirando uma fotografia”, contou Charles aqui. Amy, como se sabe, não curtia ser fotografada e deixá-la à vontade era uma missão para Moriarty.

O lançamento de Frank foi bem discreto, mas as portas estavam abertas para Amy nos programas da BBC. Ela esteve até no prestigioso Never mind the Buzzcocks, game show com artistas no qual era possível ver Slash (Guns N Roses) pegando o banquinho e saindo de mansinho após errar a letra de Paradise city, entre outras cenas. Foi nessa que uma bela e jovial Amy teve que fazer o solo de Mr Blue Sky, da Electric Light Orchestra, com a boca.

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No fim das contas, Frank é uma excelente descoberta para quem conhece a Amy apenas do pós-fama. Vale dizer que é um disco que ela própria já detonou várias vezes, muitas vezes culpando o excesso de produtores (ela cuidou disso ao lado de Commissioner Gordon, Jimmy Hogarth, Salaam Remi e Matt Rowe). “Nunca ouvi o álbum do início ao fim. Eu não tenho em minha casa. Bem, o marketing foi fodido, a promoção foi terrível. Tudo estava uma bagunça”, disse ela ao The Guardian. Exagero: a Amy pré-Back to black era encantadora.

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