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Cultura Pop

Várias coisas que você já sabia sobre The Who Sell Out, do Who

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Várias coisas que você já sabia sobre The Who Sell Out, do Who

O Who não parecia ser exatamente o tipo da banda “psicodélica”, que vingaria no mercado da música pop-experimental, como os Beatles e Donovan, entre outros nomes. Em 1967, estava fazendo sucesso com um power pop de boa qualidade, Pictures of Lily, e vinha de um segundo LP profundamente mod, A quick one (1966).

Mas no caminho de Roger Daltrey (voz), Pete Townshend (guitarra), John Entwistle (baixo) e Keith Moon (bateria) tinham algumas mudanças chegando. Todas elas causadas pela chegada de Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles (1967), pelo esvaziamento da subcultura mod (substituída pela psicodelia nos corações e mentes de vários jovens) e pelo fim do Ready, steady, go!, programa de TV no qual haviam se apresentado dezoito vezes. E com o qual eram identificados a ponto de terem gravado um EP chamado Ready, steady, Who, em 1966.

Outra mudança era o evidente crescimento de Pete Townshend como compositor, e seu crescente domínio de todos os processos na produção de uma música e de um disco. Isso aumentou demais as tensões no Who em vários momentos, já que Roger, Keith e John se sentiam subaproveitados. Mas, de fato, Pete inovou levando a cultura das operetas-rock para dentro do grupo (com A quick one while he’s away) e investindo na criação de personagens, além de letras com plots bem definidos (bom, Entwistle respondeu a isso compondo Whiskey man, Boris the Spider e Silas Stingy).

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Várias coisas que você já sabia sobre The Who Sell Out, do Who

Foi sob esse signo que nasceu o terceiro disco do Who, o conceitual The Who sell out (“The Who se vende”), com os quatro integrantes posando de garotos-propaganda de produtos na capa (Pete e Roger) e na contracapa (Keith e John), em 1967. O álbum oferecia um passeio por uma rádio pirata imaginária, com jingles roubados da bucaneira Radio London, e canções compostas para produtos que existiam de verdade, como o creme para acne Medac e o desodorante Odorono. O disco já teve diversas reedições e está voltando às lojas numa superedição com vários bônus, além do “pôster psicodélico” que saiu nos LPs originais. Para quem deseja ao menos a experiência de ouvir o disco turbinado, as músicas já estão nas plataformas.

E eis o nosso relatório sobre The Who sell out. Ouça lendo, leia ouvindo.

O WHO estava em plena atividade em 1967, fazendo vários shows e apresentações históricas pelos Estados Unidos. No Fillmore, em Nova York, tiveram apresentações abertas pelo saxofonista de jazz Cannonball Adderley. “Mal pude acreditar, isso explodiu minha mente. E ele era um cara legal”, contou Pete Townshend. Paralelamente a isso, o principal compositor do Who passava todo o tempo escrevendo canções novas, a ponto de ter um material realmente enorme e desafiador quando a banda decidiu fechar um novo disco, no fim de 1967.

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O MATERIAL que o Who tinha em mãos era bastante inovador para o rock da época. Mesmo hinos rebeldes como Help, dos Beatles, soavam ingênuos diante de canções que falavam de assuntos metafísicos, manias, depressões e questionamentos existenciais. Não por acaso, saiu uma canção chamada Melancholia, que quase se chamou The virus (“a ideia era trabalhar com a doença mental como um vírus”, afirmou Pete).

ESSA MÚSICA era quase um plot maluco que tratava a melancolia juvenil como um vírus, adiantando um pouco do que rolaria com Tommy ou a abandonada Lifehouse. Mas para ter uma ideia do quanto a banda, com Pete na liderança, descartava coisas, Melancholia foi deixada de lado e só reapareceu em coletâneas e reedições de The Who sell out.

AO MESMO TEMPO, Pete começou a direcionar o disco para uma onda de paródia dos comerciais de rádio, tendo em mente a programação das emissoras piratas da Inglaterra. A ideia de fazer um disco dessa forma não surgiu do nada. Richard Barnes, escritor e amigo do Who, havia ficado animado com a versão que a banda fizera do tema do Batman no EP Ready, Steady, Who. Sugeriu a Daltrey e a Townshend que a banda gravasse jingles comerciais. O guitarrista achou a ideia a maior viagem e reagiu com ironia. Mas ao longo do ano o Who podia ser visto gravando jingles para as baterias Premier e até para um par de comerciais “mod” da Coca-Cola.

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ANTES DE The Who sell out virar o que se tornou, houve um lançamento importante na vida do grupo: o single Pictures of Lily. Lançado em abril de 1967, ele espremia em menos de três minutos um storytelling que caberia melhor num romance, num conto ou num filme. Um garoto insone ganhava de seu pai imagens em que aparecia uma moça chamada Lily, e aquilo lhe trazia paz e calma. Só que ao tentar obter mais detalhes sobre Lily, o pai lhe contava que ela havia morrido em 1929, o que partia o coração do garoto.

ALIÁS E A PROPÓSITO, Pictures of Lily é tida como uma música sobre masturbação, mas não há referência alguma a isso na letra. The Who sell out, por sua vez, tinha uma música bem mais explícita e safada sobre o assunto, Mary-Anne with the shaky hand.

POR SINAL, Pictures of Lily foi tão importante na vida do Who que, num rascunho inicial, The Who sell out quase se chamou Who’s Lily.

ALIÁS E A PROPÓSITO, um site chamado Albums That Never Were reconstituiu a lista de Who’s Lily, com músicas como Armenia city in the sky e Our live was, que foram para The Who sell out, misturadas a Girl’s eyes, o instrumental Sodding about e In the hall of Mountain King, que não foram aproveitadas no LP original.

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ANTES mesmo de Who’s Lily, o Who – um tanto abalado com a chegada da psicodelia às páginas de jornais e com o sucesso de Sgt. Pepper’s, dos Beatles – havia pensado na hipótese de lançar um EP instrumental. A ideia foi deixada de lado porque: 1) Pete não parava de compor e de fazer letras; 2) seria melhor permitir que os outros três integrantes contribuíssem com pelo menos uma faixa cada um, para acalmar os ânimos na banda. Com o disco mais ou menos bolado, o grupo tinha gravado músicas como Armenia city in the sky, Relax e I can’t reach you e partiu para uma turnê de três meses pelos EUA com Herman’s Hermits, durante a qual deveria concluir o disco.

QUASE ÓPERA. O tom diversificado e maluco que The Who sell out teria acabou sendo dado por uma primeira tentativa de Pete Townshend de compor uma ópera-rock. No esqueleto inicial escrito por Townshend, Rael teria trinta minutos. A letra falava sobre o soldado anônimo de um país imaginário (Rael, que muita gente interpreta como uma referência a Israel) que se lançava ao mar para lutar contra os “red chins” (que costuma ser interpretada como uma referência à China comunista).

O PROJETO de Rael foi deixado de lado pela exigência de que o Who fizesse singles. Para caber em The who sell out foi reduzida a dez, depois a seis minutos.

PETE nunca foi exatamente claro sobre Rael e sobre o que ela significa, mas sua obra é repleta de referências judaicas – apesar de ele não ser judeu. Um artigo de Seth Ragovoy esmiúça o judaísmo na obra de Townshend e recorda que o compositor do Who sempre protestou contra o antissemitismo em entrevistas. “Morávamos em uma casa que se dividia em duas, e na parte de cima vivia uma família judia bastante devota. Judeus poloneses eram as crianças com quem eu brincava. Eles eram meu povo”, afirmou Townshend.

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POR OUTRO LADO, interpretar a letra de Rael como uma crítica ao comunismo pode ser um erro: Pete foi do Partido Comunista Jovem da Inglaterra na juventude (pouco antes de The Who sell out, por sinal) e, nos anos 1970, dava entrevistas dizendo que “era capitalista nas atitudes, mas comunista nos ideais”.

ROGER DALTREY considera Rael “um pequeno pedaço de Tommy“, por incluir no final trechos de uma canção instrumental que apareceria na ópera-rock, Sparks. E diz que The Who sell out era basicamente uma coleção de pedaços de canções de Pete que foram unidas nos estúdios pelos quais a banda passou. “Esses pedaços juntos nem formavam um álbum. Acho que Chris Stamp (empresário) veio com a ideia de fazer o disco como se fosse uma rádio”, contou.

VALE CITAR QUE esse excesso de material de Pete não vinha à toa: o guitarrista do Who tinha sido um dos primeiros músicos da Inglaterra a investir num estúdio caseiro. Já tinha uma máquina de gravação em 1963, antes da fama, e insistia com amigos famosos, como Jimi Hendrix, para que fizessem o mesmo investimento.

ALIÁS E A PROPÓSITO, havia um outro vislumbre de Tommy na bela I can’t reach you, música de amor platônico em que o personagem não conseguia nem alcançar, nem “ver, sentir ou ouvir” nada da mulher amada.

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O DISCO. The Who sell out acabou ganhando esse formato porque, além dos vários jingles gravados pela banda, Pete decidiu fazer uma homenagem às rádios piratas da Inglaterra, que faziam um papel que a estatal BBC não costumava fazer, e tocavam muita música jovem – a ponto de influenciarem a emissora grandalhona. Eram emissoras que, não raro, funcionavam em barcos no meio do mar, e não estavam sujeitas às leis territoriais de broadcasting.

A FARRA das rádios piratas acabou em 14 de agosto de 1967, quando uma nova lei mandou fechar todas as rádios que funcionavam nos mares do Reino Unido. “A ideia de que uns garotos podiam entrar num barco e transmitir rádio sem licença era um anátema para o governo da época”, lembrou Pete, recordando também que a BBC teve papel único de transmissão de notícias durante a Segunda Guerra Mundial. “Mas sem essas rádios piratas, você não teria como ouvir nem Small Faces, nem Beatles, nem Kinks, nem nenhuma das forças criativas da época”.

NUM PAPO COM o site Consequence of Sound, Pete contou que a ideia do disco veio de horas a fio que o músico passava no escritório dos empresários tentando bolar algo novo para o próximo lançamento do Who. Ele diz que não é verdade que Sgt Pepper’s tenha influenciado The Who sell out, apesar de haverem semelhanças conceituais evidentes – até mesmo no final com uma imitação de sulco arranhado, lembrando o palavreado incompreensível do álbum dos Beatles.

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TOWNSHEND e a banda chegaram a ter mesmo a ideia de vender comerciais entre as faixas e chegaram a propor isso a seus empresários e produtores. A banda fez um anúncio para a American Cancer Society com a música Little Billy, cujo objetivo era desencorajar os jovens a fumarem (Pete chama o anúncio de “hipocrisia, já que eu fumava”). Mas viria coisa bem mais complexa na frente: em 1967 Townshend gravou um estranho anúncio de rádio encorajando os jovens a ingressarem na Força Aérea Americana, em plena Guerra do Vietnã.

A RIGOR, segundo Pete, só mesmo a fábrica de baterias Premier e as cordas Rotosound (cujos jingles estão no LP, o primeiro depois de Marianne e o segundo antes de I can see for miles) se interessaram em ter um espaço pago no disco. As duas empresas mantiveram Keith Moon e John Entwistle munidos de, respectivamente, peças de bateria e cordas de baixo até o fim de suas vidas. Kit Lambert, empresário do grupo ao lado de Chris Stamp, ligou para a Coca-Cola a pedido de Townshend, para oferecer espaço no LP. A empresa desligou na cara de Kit quando nem ele nem Pete souberam dizer quantas cópias o grupo venderia.

O CARA QUE FEZ “ARMENIA”. Armenia city in the sky, a psicodélica faixa de abertura do disco, foi composta por um sujeito chamado Speedy Keen, que dividiu apartamento com Pete e foi motorista do amigo no começo do Who. Speedy compôs o hit Something in the air para a banda Thunderclap Newman, e depois gravou dois discos solo, em 1973 e 1975, além de produzir bandas como Motörhead. Morreu em 2002, pouco antes da morte do baixista John Entwistle.

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A CAPA. As imagens de The Who sell out foram feitas por David Montgomery, o mesmo cara que fez a foto da capa de Electric ladyland, de Jimi Hendrix. As imagens foram tiradas num mesmo estúdio, com os quatro juntos, mas clicados em separado. Tanto que há um outtake com os quatro. Olha aí.

Várias coisas que você já sabia sobre The Who Sell Out, do Who

SIM, é verdade, pelo menos segundo Roger Daltrey: o cantor do Who pegou uma baita pneumonia por causa da foto em que aparecia mergulhado em feijões. “Eles estavam congelando de frio! Fiquei sentado nos feijões por vinte minutos, até que tiveram a grande ideia de colocar fogo elétrico na parte de trás da banheira em que eu estava sentado, o que funcionou por um tempo”, contou. “Só que o feijão começou a cozinhar. Então, minha bunda estava assando enquanto o resto do meu corpo estava congelando”.

OS COMERCIAIS DA CAPA não eram de verdade. Os produtos, você deve saber, existiam de verdade, até mesmo o tal programa de musculação de Charles Atlas, que John Entwistle “propagandeou”. Cada produto ganhava uma música inteira ou jingle no álbum. A de Odorono, escrita por Pete Townshend, é a melhor e mais radiofônica.

ALIÁS E A PROPÓSITO, a introdução de London calling, do Clash, lembra bastante a dessa música do Who. Ou será que é impressão nossa?

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ODORONO. Possivelmente, se você buscar “Odorono” no Google vai achar a canção do Who antes mesmo de chegar em qualquer referência à marca. Que originalmente se chamava Odor-o-no e havia sido iniciada em 1910 em Ohio, nos EUA, como fabricante de antitranspirantes, numa época em que as pessoas não só não achavam que precisavam de desodorantes, como achavam que fazia mal à saúde. Olha aí um reclame de 1913 da empresa, quando Townshend nem havia nascido ainda. A Odorono ainda resiste no mercado – até mesmo aqui no Brasil – como marca registrada da grandalhona Unilever.

Várias coisas que você já sabia sobre The Who Sell Out, do Who

HEINZ. Roger Daltrey poderia ter evitado a pneumonia se tivesse feito ao fotógrafo a proposta de trocar o panelão de feijões por uma pizza ou um hambúrguer tamanho-família. Isso porque a empresa (que não patrocina o POP FANTASMA mas se quiser pode) é ate mais conhecida pela sua linha de ketchup. A Heinz existe desde 1869, foi fundada em Pittsburgh, Pensilvânia. e introduziu seu molho vermelho no mercado em 1876. É bastante popular no Brasil. O site da empresa não faz nenhuma referência a The Who sell out.

MEDAC. Apesar de existir uma empresa farmacêutica alemã com esse nome, o remédio cantado em verso por Keith Moon é um creme para espinhas bastante popular na Inglaterra dos anos 1960, e fabricado por uma empresa chamada Genatosan Ltd. Um detalhe: a edição australiana substituía o medicamento pela marca de skin care Clearasil. O baterista foi escolhido para posar com o remédio porque, em suas memórias, ele era o mais novo da banda e poderia passar por um adolescente espinhudo.

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CHARLES ATLAS. Assim como os comerciais da capa de The Who sell out eram farsas, Charles também não se chamava Charles Atlas. Ele era um fisiculturista italiano cujo nome era Angelo Siciliano (1892-1972), e que, já morando em Nova York, adotara o nome “artístico” ao ver uma estátua de Atlas no topo de um hotel em Coney Island. Criou uma série de exercícios baseados na isometria (treinamento que consiste, entre outras coisas, em fazer força contra objetos imóveis), que eram divulgados em revistas em quadrinhos e ficaram extremamente populares. Também abriu uma rede de academias. Na edição canadense, o nome Charles Atlas não pôde ser mencionado e foi trocado para “treinamento isométrico” mesmo.

NÃO MANDE DINHEIRO AGORA. Os tais quadrinhos, aliás, serviam para Charles vender livros com seus programas de musculação – que poderiam ser treinados em casa, na base do seja-seu-próprio-personal. Num dos mais populares, um sujeito magrelo sofria bullying de um valentão parrudo. Comprava o livro de Charles, treinava, ficava forte e ia lá sentar a mão na cara do folgado.

A GAROTA DA CAPA. A modelo que posa ao lado de John Entwistle é Jill Langham, que durante vários anos foi conhecida como a dancing queen de Palm Springs, e aos 44 anos, bem depois de The Who sell out, se tornou fisiculturista e passou a competir. Ela já lançou até uma autobiografia. Na época do disco, tinha vinte e poucos anos e havia acabado de ter um filho.

ALIÁS, Jill, que na época tinha aparecido no filme Um golpe à italiana, ao lado de Michael Caine, declarou ao livro The Who FAQ: All that’s left to know about fifty years of Maximum R&B, de Mike Segretto, que nem sequer se lembrava muito da sessão. “Posar com o Who nem era algo tão especial para mim. Eu era mais fã dos Beatles”, recordou.

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TONY RAMOS DO WHO. Segundo Keith Moon, Entwistle – mesmo estando longe de possuir um porte atlético – foi escolhido para o comercial da Charles Atlas porque “tinha um peito cabeludo” (na foto isso não aparece, enfim).

MAS POR OUTRO LADO, Entwistle conta outra história sobre isso. O baixista diz que originalmente, ele é que deveria mergulhar no feijão, e Daltrey, que ainda não era o sex symbol dos anos 1970, posaria com a modelo. Só que o baixista espertinho resolveu chegar mais cedo ao estúdio de propósito e acabou posando com Jill.

ATRASOU. The Who sell out havia sido programado para 17 de novembro de 1967 e precisou ser adiado justamente porque a banda e a gravadora estavam esperando as autorizações das marcas.

ALIÁS E A PROPÓSITO, DEU MERDA. Os criadores dos jingles da Radio London se estressaram com o Who por causa do uso alegadamente não-autorizado das gravações. A Heinz, conta-se, estressou-se no começo, mas depois ficou animada com a publicidade gratuita.

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PÔSTER GRÁTIS. As primeiras edições de The Who sell out vinham com um aceno à mania dos pôsteres, que começavam a ficar bastante populares entre a juventude da época. Na capa, um adesivo anunciava “pôster psicodélico grátis”. Dentro, o fã do Who encontrava um desenho psicodélico feito pelo artista gráfico Adrian George, um dos nomões da Osiris Vision, negócio de pôsteres dirigido por Joe Boyd, que dirigia o clube UFO, e Barry Miles, proprietário da livraria Indica Books e do jornal de contracultura International Times. Os primeiros LPs de The Who sell out valem uma boa nota por causa desse pôster, mas depois ele foi acrescentado em algumas reedições.

Várias coisas que você já sabia sobre The Who Sell Out, do Who

RECEPTIVIDADE. The Who sell out é um disco de 1967 na Inglaterra e um álbum de 1968 nos Estados Unidos – saiu no Reino Unido em 15 de dezembro, e nos EUA em 6 de janeiro. Na terra do Who chegou ao número 13 nas paradas. O álbum foi muito bem recebido pela crítica, e de modo geral, foi visto como um foco da arte pop no universo do rock, por misturar publicidade e música. Mas foi consenso quase geral que o fato da banda ter optado por um storytelling maluco prejudicou as vendas.

BOM, NEM TANTO. Alguns críticos detestaram o fato do Who “se vender”. Bruno Bornino, do Cleveland Press, classificou os anúncios como “revoltantes” e sugeriu que os fãs comprassem o disco e jogassem a capa no lixo. Joe Bogart, diretor da rádio WMCA, de Nova York, mandou um “disgusting” quando viu Roger Daltrey mergulhando no feijão e proibiu o disco de ir ao ar em sua emissora.

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ALIÁS E A PROPÓSITO, The Who sell out é um dos raros discos do Who que nunca foram lançados em formato algum no Brasil.

MAS E DEPOIS? O Who, mesmo valorizando os LPs conceituais, passou o ano de 1968 investindo em singles, como Call me lightining, Dogs e Magic bus. Também saíram coletâneas como Direct hits (nos EUA) e Magic bus: The Who on tour (no Reino Unido). Chegou a ser imaginado um disco de estúdio chamado Who’s for tennis?, que sairia em 1968. O projeto original, bolado antes mesmo de The Who sell out ser fechado, incluía até mesmo músicas como Silas Stingy, além do futuro hit Magic bus. A banda teria descartado a ideia por não botar fé na seleção final de músicas. Disco novo só mesmo em 1969, com Tommy.

E BOA PARTE do material deste texto foi tirado dessa entrevista recente de Pete e Roger.

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(agradecemos a Marcelo Fróes pela dica da Jill)

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No nosso podcast, os primeiros anos do Soft Cell

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No nosso podcast, os primeiros anos do Soft Cell

O Soft Cell tá vindo aí pela primeira vez. A dupla de Marc Almond e Dave Ball se apresenta no Brasil em maio, e vai trazer – claro – seu principal hit, Tainted love. Uma música que marcou os anos 1980 e vem marcando todas as décadas desde então, e que deu ao Soft Cell um conceito todo próprio – mesmo não sendo (você deve saber) uma canção autoral. Era um dos destaques de seu álbum de estreia, Non stop erotic cabaret (1981), um dos grandes discos da história do synth pop.

No nosso podcast, o Pop Fantasma Documento, voltamos lá no comecinho do Soft Cell, mostramos a relação da dupla com uma das cidades mais fervilhantes da Inglaterra (Leeds) e damos uma olhada no que é que está impresso no DNA musical dos dois – uma receita que une David Bowie, T Rex, filmes de terror, Kenneth Anger, sadomasoquismo e vários outros elementos.

Século 21 no podcast: Red Cell e Noporn.

Estamos no Castbox, no Mixcloud, no Spotify, no Deezer e no Google Podcasts. 

Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch. Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.

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Relembrando: Mick Ronson, “Play don’t worry”

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Guitarrista de David Bowie na fase Spiders From Mars, Mick Ronson foi uma promessa injustamente não cumprida como artista solo. Inicialmente teve cobertura da Mainman (mesma empresa que cuidava de Bowie nessa fase), contrato com a RCA, interesse da mesma imprensa que cobria o dia a dia dos popstars do glam rock, certa migração de fãs do cantor de Starman.

Até porque Ronson estreou com treze shows no Reino Unido em março de 1974, quando Bowie estava fora dos palcos. E o guitarrista volta e meia era chamado de “substituto” de seu patrão. Ironicamente o próprio Bowie ficaria com ciúmes de sua “cria”, começando a armar sua volta aos palcos a partir daí. Esbarraria no fato de que a turnê solo do guitarrista havia comido uma boa parte da grana que seria investida em sua própria carreira, mas isso é outra história.

No começo, Ronson era um músico desprotegido a ponto de, mesmo sendo mais velho que Bowie e sua mulher Angie, ser cuidado pelo casal como se fosse um irmão mais novo. Com Bowie, chamou a atenção das plateias e foi um quase parceiro. Merecia ter ganhado crédito de co-autor em faixas de discos como The man who sold the world, de 1970, cuja gravação havia sido marcada pelo desapego do maior interessado, que era o próprio Bowie. Como compensação, fica o fato de que é impossível lembrar de músicas como Life on Mars? e Starman sem lembrar das guitarras de Ronson.

Surgiu a chance de tornar-se artista solo, quando Bowie havia resolvido ficar longe dos palcos. O repertório da estreia de Ronson, Slaughter on 10h avenue (1974), unia as duas faces do músico, um cara que tocava guitarra como se o instrumento viesse do espaço sideral, e também regia orquestras, além de tocar piano.

Era o disco da hard roqueira Only after dark, do blues glam I’m the one (de Annette Peacock, musicista pioneira dos sons eletrônicos que também gravava pela RCA naquele período). E da grandiloquência da faixa título (uma canção dos anos 1930 revisitada), do romantismo de Love me tender (aquela mesma, imortalizada por Elvis Presley). Mick, por sua vez, era o guitarrista experiente que tinha talento dramático a ponto de fazer um anúncio-curta metragem para divulgar Slaughter – a foto da capa, que trazia o guitarrista chorando, era um trecho do tal filme.

Muita coisa contribuiria para afastar a Mainman de Ronson e entre elas, estava o fato da relação entre Bowie e o empresário Tony Defries estar saindo do controle e ter chegado a um ponto bem complicado em 1974.Por acaso, foi em janeiro de 1975 que saiu Play don’t worry, o segundo disco do guitarrista.

Era mais um disco realizado sob as barbas de Pin-ups, disco de covers de Bowie (1973). O primeiro de Ronson havia sido gravado com a mesma banda do cantor na época, assim que o serviço no disco do patrão terminara. Já em Play, Mick reaproveitava uma backing track realizada para Pin ups, e nunca lançada: a da versão de White light/white heat, do Velvet Underground, mais viva e pesada que a original, e uma das melhores faixas do disco de um compositor e guitarrista que, ao se tornar um intérprete e fazedor de covers, quase sempre acertava.

Play don’t worry tinha a mesma aparência ora melancólica, ora feliz do disco anterior. Era o disco da balada glam Angel nº9, releitura do grupo country-rock Pure Prairie League (de cuja gravação original Mick havia participado fazendo arranjos), e do agito de Girl can’t help it, clássico do repertório de Little Richard, relido em clima protopunk. Outro rock countryficado do Pure Prairie League, Woman, encerrava o álbum. Por outro lado, Empty bed, versão de Io me ne andrei, do pop-roqueiro italiano Claudio Baglioni, era um baladão romântico, pronto para entrar em trilha de novela no Brasil (infelizmente não entrou).

Ronson aparecia como autor apenas em duas faixas, talvez escolhidas a dedo para mostrar que nem tudo ali eram flores. Play don’t worry, feita ao lado do amigo produtor e compositor Bob Sargeant, falava sobre os altos e baixos da vida, e era a provável admissão de que a vida de potencial rockstar havia trazido mais problemas do que soluções. Hazy days, faixa-solo, trazia aquelas discussões sobre a obsolescência programada do pop, típicas da própria música de Bowie (“o que você vai fazer agora, quando você achar que estou no passado?”, diz a letra).

Parecia recado para alguém. Talvez para o próprio Ronson, que não se sentia nem um pouco confortável ou feliz como artista solo. “Sabia que as pessoas perceberiam meu desconforto na plateia e eu não queria isso”, chegou a afirmar o músico, que também considerava a vida de popstar solo algo parecido como ter dúvidas e ter que responder suas próprias dúvidas, sem contar com a parceria de ninguém.

Mick respondeu suas próprias dúvidas quando resolveu, ainda com Play don’t worry em curso, juntar-se ao Mott The Hoople, banda do amigo Ian Hunter. O Mott estava com os dias contados e restou a Mick voltar à vida de músico contratado. Gravou com muita gente, mas ficou conhecido pelas colaborações com Ian, com quem chegou a gravar um disco em dupla – Yui orta, de 1990. Infelizmente tornou-se menos reconhecido do que deveria, e a decepção com as expectativas do pop tornou-se um vazio nunca devidamente preenchido.

Mick morreu em 29 de abril de 1993, já resgatado para as novas gerações. Pouco antes, havia produzido Your arsenal, de Morrissey, e tinha se juntado a David Bowie, a Ian Hunter e aos remanescentes do Queen no concerto de tributo a Freddie Mercury. A notícia de sua partida ressoa até hoje como os últimos ruídos de guitarra de Play don’t worry, a canção. São sons que desaparecem aos poucos, como numa transmissão de TV cheia de interferências que vai sumindo. Nossa sorte é que o recado estava dado: “Não pense muito neles/comece a sonhar novamente com o amanhã”.

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Os discos do poeta John Sinclair

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Os discos do poeta John Sinclair

O nome de John Sinclair, morto nesta terça (2) aos 82 anos. não é tão estranho assim para o fã de rock clássico. Afinal, ele foi empresário do MC5 na época do disco Kick out the jams (1969), foi homenageado por John Lennon numa música justamente chamada John Sinclair (de 1972) e até mesmo aquele discurso que o ativista Abbie Hoffman tentou fazer durante o show do Who no Festival de Woodstock (1969) aconteceria para conscientizar as pessoas em relação à situação de John. Que estava encarcerado por tráfico após vender maconha a um policial disfarçado.

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John havia sido condenado a dez anos de prisão, uma arbitrariedade. Mas foi solto em 1971 quatro deias depois de Lennon organizar um comício por sua liberdade, ao lado de Bob Seger, Stevie Wonder, Bobby Seale (do Partido dos Panteras Negras) e outros. Assim que saiu da prisão, Sinclair mergulhou de cabeça no ativismo pró-maconha e na produção de livros e escritos de poesia. Só que como seu estilo de texto tem tudo a ver com a cadência do jazz, pela maneira como é escrito e declamado, normal que ele não tenha ficado restrito aos livros, jornais e revistas. Tanto que dos anos 1990 para cá, ele vinha acumulando uma discografia bem grande.

Em 1994, por exemplo, saiu Full moon night, primeiro disco no qual Sinclair aparecia acompanhado pela agremiação variável de músicos que ganhou o nome de The Blues Scholars. O disco trazia textos como Homage to John Coltrane, Spiritual e Like Sonny, e saiu direto em CD por um selo chamado Total Energy, responsável por lançamentos retrospectivos de pré-punk – álbuns escarafunchando os baús de grupos como The Deviants, The New Race e o próprio MC5 saíram por esta etiqueta. Em 1996 saiu Full circle, mais um CD de Sinclair e sua banda, com participação de ninguém menos que o ex-MC5 Wayke Kramer, morto recentemente.

Um outro álbum bastante significativo de Sinclair saiu em 2008, com o nome de sua banda modificado para His Motor City Blues Scholars. É o ao vivo Detroit life, trazendo 15 faixas entre o jazz e o blues, com John declamando (às vezes bem alto, com voz gutural) textos de inspiração beat como The screamers, April in Paris, Let’s call this e Walking on a tightrope. As músicas são grandes, e boa parte dos números é quase instrumental, cabendo intervenções de John lá pelos dois minutos de faixa, em alguns casos.

A discografia de Sinclair inclui também vários discos apenas com seu nome (o mais recente é Beatnik youth, de 2017) além de álbuns impressionante feitos com a banda de jazz experimental e ruidoso Hollow Bones – como Honoring the local gods, de 2011. Já o percussivo PeyoteMind, de 2002, foi gravado ao lado da banda de psicojazzfolk Monster Island, e traz recordações de uma viagem feita em 1963 sob o efeito do psicoativo peiote.

Esse material vem encontrando relativamente poucos ouvintes nas plataformas – no Spotify, John tem apenas 207 (207!) ouvintes mensais. Não são discos muito divulgados –  enfim, poesia e jazz não formam exatamente uma combinação de sucesso. E saíram por selos independentes de alcance restrito. Mas boa parte do que Sinclair gravou está lá, e está ao alcance de futuros fãs – mesmo com a barreira da língua, tem a declamação de John e a maneira como ele faz tudo parecer uma espécie de jazz maldito e tribal. Além do seu ativismo anti-capitalismo, pró-maconha e pró-liberdade de expressão, perceptível em vários versos.

E só pra complementar, um material multimídia recente e importantíssimo saiu justamente da última aparição ao vivo de Sinclair. Em Paris, no dia 16 de fevereiro, ele leu o longo poema 21 days in jail, gravado por uma pessoa da plateia. A letra já havia sido musicada e gravada por ele com os Blues Scholars, mas aqui aparece sendo lida pelo autor.

Foto: Wikipedia.

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