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Cultura Pop

Várias coisas que você já sabia sobre The Who Sell Out, do Who

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Várias coisas que você já sabia sobre The Who Sell Out, do Who

O Who não parecia ser exatamente o tipo da banda “psicodélica”, que vingaria no mercado da música pop-experimental, como os Beatles e Donovan, entre outros nomes. Em 1967, estava fazendo sucesso com um power pop de boa qualidade, Pictures of Lily, e vinha de um segundo LP profundamente mod, A quick one (1966).

Mas no caminho de Roger Daltrey (voz), Pete Townshend (guitarra), John Entwistle (baixo) e Keith Moon (bateria) tinham algumas mudanças chegando. Todas elas causadas pela chegada de Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles (1967), pelo esvaziamento da subcultura mod (substituída pela psicodelia nos corações e mentes de vários jovens) e pelo fim do Ready, steady, go!, programa de TV no qual haviam se apresentado dezoito vezes. E com o qual eram identificados a ponto de terem gravado um EP chamado Ready, steady, Who, em 1966.

Outra mudança era o evidente crescimento de Pete Townshend como compositor, e seu crescente domínio de todos os processos na produção de uma música e de um disco. Isso aumentou demais as tensões no Who em vários momentos, já que Roger, Keith e John se sentiam subaproveitados. Mas, de fato, Pete inovou levando a cultura das operetas-rock para dentro do grupo (com A quick one while he’s away) e investindo na criação de personagens, além de letras com plots bem definidos (bom, Entwistle respondeu a isso compondo Whiskey man, Boris the Spider e Silas Stingy).

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Várias coisas que você já sabia sobre The Who Sell Out, do Who

Foi sob esse signo que nasceu o terceiro disco do Who, o conceitual The Who sell out (“The Who se vende”), com os quatro integrantes posando de garotos-propaganda de produtos na capa (Pete e Roger) e na contracapa (Keith e John), em 1967. O álbum oferecia um passeio por uma rádio pirata imaginária, com jingles roubados da bucaneira Radio London, e canções compostas para produtos que existiam de verdade, como o creme para acne Medac e o desodorante Odorono. O disco já teve diversas reedições e está voltando às lojas numa superedição com vários bônus, além do “pôster psicodélico” que saiu nos LPs originais. Para quem deseja ao menos a experiência de ouvir o disco turbinado, as músicas já estão nas plataformas.

E eis o nosso relatório sobre The Who sell out. Ouça lendo, leia ouvindo.

O WHO estava em plena atividade em 1967, fazendo vários shows e apresentações históricas pelos Estados Unidos. No Fillmore, em Nova York, tiveram apresentações abertas pelo saxofonista de jazz Cannonball Adderley. “Mal pude acreditar, isso explodiu minha mente. E ele era um cara legal”, contou Pete Townshend. Paralelamente a isso, o principal compositor do Who passava todo o tempo escrevendo canções novas, a ponto de ter um material realmente enorme e desafiador quando a banda decidiu fechar um novo disco, no fim de 1967.

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O MATERIAL que o Who tinha em mãos era bastante inovador para o rock da época. Mesmo hinos rebeldes como Help, dos Beatles, soavam ingênuos diante de canções que falavam de assuntos metafísicos, manias, depressões e questionamentos existenciais. Não por acaso, saiu uma canção chamada Melancholia, que quase se chamou The virus (“a ideia era trabalhar com a doença mental como um vírus”, afirmou Pete).

ESSA MÚSICA era quase um plot maluco que tratava a melancolia juvenil como um vírus, adiantando um pouco do que rolaria com Tommy ou a abandonada Lifehouse. Mas para ter uma ideia do quanto a banda, com Pete na liderança, descartava coisas, Melancholia foi deixada de lado e só reapareceu em coletâneas e reedições de The Who sell out.

AO MESMO TEMPO, Pete começou a direcionar o disco para uma onda de paródia dos comerciais de rádio, tendo em mente a programação das emissoras piratas da Inglaterra. A ideia de fazer um disco dessa forma não surgiu do nada. Richard Barnes, escritor e amigo do Who, havia ficado animado com a versão que a banda fizera do tema do Batman no EP Ready, Steady, Who. Sugeriu a Daltrey e a Townshend que a banda gravasse jingles comerciais. O guitarrista achou a ideia a maior viagem e reagiu com ironia. Mas ao longo do ano o Who podia ser visto gravando jingles para as baterias Premier e até para um par de comerciais “mod” da Coca-Cola.

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ANTES DE The Who sell out virar o que se tornou, houve um lançamento importante na vida do grupo: o single Pictures of Lily. Lançado em abril de 1967, ele espremia em menos de três minutos um storytelling que caberia melhor num romance, num conto ou num filme. Um garoto insone ganhava de seu pai imagens em que aparecia uma moça chamada Lily, e aquilo lhe trazia paz e calma. Só que ao tentar obter mais detalhes sobre Lily, o pai lhe contava que ela havia morrido em 1929, o que partia o coração do garoto.

ALIÁS E A PROPÓSITO, Pictures of Lily é tida como uma música sobre masturbação, mas não há referência alguma a isso na letra. The Who sell out, por sua vez, tinha uma música bem mais explícita e safada sobre o assunto, Mary-Anne with the shaky hand.

POR SINAL, Pictures of Lily foi tão importante na vida do Who que, num rascunho inicial, The Who sell out quase se chamou Who’s Lily.

ALIÁS E A PROPÓSITO, um site chamado Albums That Never Were reconstituiu a lista de Who’s Lily, com músicas como Armenia city in the sky e Our live was, que foram para The Who sell out, misturadas a Girl’s eyes, o instrumental Sodding about e In the hall of Mountain King, que não foram aproveitadas no LP original.

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ANTES mesmo de Who’s Lily, o Who – um tanto abalado com a chegada da psicodelia às páginas de jornais e com o sucesso de Sgt. Pepper’s, dos Beatles – havia pensado na hipótese de lançar um EP instrumental. A ideia foi deixada de lado porque: 1) Pete não parava de compor e de fazer letras; 2) seria melhor permitir que os outros três integrantes contribuíssem com pelo menos uma faixa cada um, para acalmar os ânimos na banda. Com o disco mais ou menos bolado, o grupo tinha gravado músicas como Armenia city in the sky, Relax e I can’t reach you e partiu para uma turnê de três meses pelos EUA com Herman’s Hermits, durante a qual deveria concluir o disco.

QUASE ÓPERA. O tom diversificado e maluco que The Who sell out teria acabou sendo dado por uma primeira tentativa de Pete Townshend de compor uma ópera-rock. No esqueleto inicial escrito por Townshend, Rael teria trinta minutos. A letra falava sobre o soldado anônimo de um país imaginário (Rael, que muita gente interpreta como uma referência a Israel) que se lançava ao mar para lutar contra os “red chins” (que costuma ser interpretada como uma referência à China comunista).

O PROJETO de Rael foi deixado de lado pela exigência de que o Who fizesse singles. Para caber em The who sell out foi reduzida a dez, depois a seis minutos.

PETE nunca foi exatamente claro sobre Rael e sobre o que ela significa, mas sua obra é repleta de referências judaicas – apesar de ele não ser judeu. Um artigo de Seth Ragovoy esmiúça o judaísmo na obra de Townshend e recorda que o compositor do Who sempre protestou contra o antissemitismo em entrevistas. “Morávamos em uma casa que se dividia em duas, e na parte de cima vivia uma família judia bastante devota. Judeus poloneses eram as crianças com quem eu brincava. Eles eram meu povo”, afirmou Townshend.

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POR OUTRO LADO, interpretar a letra de Rael como uma crítica ao comunismo pode ser um erro: Pete foi do Partido Comunista Jovem da Inglaterra na juventude (pouco antes de The Who sell out, por sinal) e, nos anos 1970, dava entrevistas dizendo que “era capitalista nas atitudes, mas comunista nos ideais”.

ROGER DALTREY considera Rael “um pequeno pedaço de Tommy“, por incluir no final trechos de uma canção instrumental que apareceria na ópera-rock, Sparks. E diz que The Who sell out era basicamente uma coleção de pedaços de canções de Pete que foram unidas nos estúdios pelos quais a banda passou. “Esses pedaços juntos nem formavam um álbum. Acho que Chris Stamp (empresário) veio com a ideia de fazer o disco como se fosse uma rádio”, contou.

VALE CITAR QUE esse excesso de material de Pete não vinha à toa: o guitarrista do Who tinha sido um dos primeiros músicos da Inglaterra a investir num estúdio caseiro. Já tinha uma máquina de gravação em 1963, antes da fama, e insistia com amigos famosos, como Jimi Hendrix, para que fizessem o mesmo investimento.

ALIÁS E A PROPÓSITO, havia um outro vislumbre de Tommy na bela I can’t reach you, música de amor platônico em que o personagem não conseguia nem alcançar, nem “ver, sentir ou ouvir” nada da mulher amada.

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O DISCO. The Who sell out acabou ganhando esse formato porque, além dos vários jingles gravados pela banda, Pete decidiu fazer uma homenagem às rádios piratas da Inglaterra, que faziam um papel que a estatal BBC não costumava fazer, e tocavam muita música jovem – a ponto de influenciarem a emissora grandalhona. Eram emissoras que, não raro, funcionavam em barcos no meio do mar, e não estavam sujeitas às leis territoriais de broadcasting.

A FARRA das rádios piratas acabou em 14 de agosto de 1967, quando uma nova lei mandou fechar todas as rádios que funcionavam nos mares do Reino Unido. “A ideia de que uns garotos podiam entrar num barco e transmitir rádio sem licença era um anátema para o governo da época”, lembrou Pete, recordando também que a BBC teve papel único de transmissão de notícias durante a Segunda Guerra Mundial. “Mas sem essas rádios piratas, você não teria como ouvir nem Small Faces, nem Beatles, nem Kinks, nem nenhuma das forças criativas da época”.

NUM PAPO COM o site Consequence of Sound, Pete contou que a ideia do disco veio de horas a fio que o músico passava no escritório dos empresários tentando bolar algo novo para o próximo lançamento do Who. Ele diz que não é verdade que Sgt Pepper’s tenha influenciado The Who sell out, apesar de haverem semelhanças conceituais evidentes – até mesmo no final com uma imitação de sulco arranhado, lembrando o palavreado incompreensível do álbum dos Beatles.

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TOWNSHEND e a banda chegaram a ter mesmo a ideia de vender comerciais entre as faixas e chegaram a propor isso a seus empresários e produtores. A banda fez um anúncio para a American Cancer Society com a música Little Billy, cujo objetivo era desencorajar os jovens a fumarem (Pete chama o anúncio de “hipocrisia, já que eu fumava”). Mas viria coisa bem mais complexa na frente: em 1967 Townshend gravou um estranho anúncio de rádio encorajando os jovens a ingressarem na Força Aérea Americana, em plena Guerra do Vietnã.

A RIGOR, segundo Pete, só mesmo a fábrica de baterias Premier e as cordas Rotosound (cujos jingles estão no LP, o primeiro depois de Marianne e o segundo antes de I can see for miles) se interessaram em ter um espaço pago no disco. As duas empresas mantiveram Keith Moon e John Entwistle munidos de, respectivamente, peças de bateria e cordas de baixo até o fim de suas vidas. Kit Lambert, empresário do grupo ao lado de Chris Stamp, ligou para a Coca-Cola a pedido de Townshend, para oferecer espaço no LP. A empresa desligou na cara de Kit quando nem ele nem Pete souberam dizer quantas cópias o grupo venderia.

O CARA QUE FEZ “ARMENIA”. Armenia city in the sky, a psicodélica faixa de abertura do disco, foi composta por um sujeito chamado Speedy Keen, que dividiu apartamento com Pete e foi motorista do amigo no começo do Who. Speedy compôs o hit Something in the air para a banda Thunderclap Newman, e depois gravou dois discos solo, em 1973 e 1975, além de produzir bandas como Motörhead. Morreu em 2002, pouco antes da morte do baixista John Entwistle.

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A CAPA. As imagens de The Who sell out foram feitas por David Montgomery, o mesmo cara que fez a foto da capa de Electric ladyland, de Jimi Hendrix. As imagens foram tiradas num mesmo estúdio, com os quatro juntos, mas clicados em separado. Tanto que há um outtake com os quatro. Olha aí.

Várias coisas que você já sabia sobre The Who Sell Out, do Who

SIM, é verdade, pelo menos segundo Roger Daltrey: o cantor do Who pegou uma baita pneumonia por causa da foto em que aparecia mergulhado em feijões. “Eles estavam congelando de frio! Fiquei sentado nos feijões por vinte minutos, até que tiveram a grande ideia de colocar fogo elétrico na parte de trás da banheira em que eu estava sentado, o que funcionou por um tempo”, contou. “Só que o feijão começou a cozinhar. Então, minha bunda estava assando enquanto o resto do meu corpo estava congelando”.

OS COMERCIAIS DA CAPA não eram de verdade. Os produtos, você deve saber, existiam de verdade, até mesmo o tal programa de musculação de Charles Atlas, que John Entwistle “propagandeou”. Cada produto ganhava uma música inteira ou jingle no álbum. A de Odorono, escrita por Pete Townshend, é a melhor e mais radiofônica.

ALIÁS E A PROPÓSITO, a introdução de London calling, do Clash, lembra bastante a dessa música do Who. Ou será que é impressão nossa?

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ODORONO. Possivelmente, se você buscar “Odorono” no Google vai achar a canção do Who antes mesmo de chegar em qualquer referência à marca. Que originalmente se chamava Odor-o-no e havia sido iniciada em 1910 em Ohio, nos EUA, como fabricante de antitranspirantes, numa época em que as pessoas não só não achavam que precisavam de desodorantes, como achavam que fazia mal à saúde. Olha aí um reclame de 1913 da empresa, quando Townshend nem havia nascido ainda. A Odorono ainda resiste no mercado – até mesmo aqui no Brasil – como marca registrada da grandalhona Unilever.

Várias coisas que você já sabia sobre The Who Sell Out, do Who

HEINZ. Roger Daltrey poderia ter evitado a pneumonia se tivesse feito ao fotógrafo a proposta de trocar o panelão de feijões por uma pizza ou um hambúrguer tamanho-família. Isso porque a empresa (que não patrocina o POP FANTASMA mas se quiser pode) é ate mais conhecida pela sua linha de ketchup. A Heinz existe desde 1869, foi fundada em Pittsburgh, Pensilvânia. e introduziu seu molho vermelho no mercado em 1876. É bastante popular no Brasil. O site da empresa não faz nenhuma referência a The Who sell out.

MEDAC. Apesar de existir uma empresa farmacêutica alemã com esse nome, o remédio cantado em verso por Keith Moon é um creme para espinhas bastante popular na Inglaterra dos anos 1960, e fabricado por uma empresa chamada Genatosan Ltd. Um detalhe: a edição australiana substituía o medicamento pela marca de skin care Clearasil. O baterista foi escolhido para posar com o remédio porque, em suas memórias, ele era o mais novo da banda e poderia passar por um adolescente espinhudo.

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CHARLES ATLAS. Assim como os comerciais da capa de The Who sell out eram farsas, Charles também não se chamava Charles Atlas. Ele era um fisiculturista italiano cujo nome era Angelo Siciliano (1892-1972), e que, já morando em Nova York, adotara o nome “artístico” ao ver uma estátua de Atlas no topo de um hotel em Coney Island. Criou uma série de exercícios baseados na isometria (treinamento que consiste, entre outras coisas, em fazer força contra objetos imóveis), que eram divulgados em revistas em quadrinhos e ficaram extremamente populares. Também abriu uma rede de academias. Na edição canadense, o nome Charles Atlas não pôde ser mencionado e foi trocado para “treinamento isométrico” mesmo.

NÃO MANDE DINHEIRO AGORA. Os tais quadrinhos, aliás, serviam para Charles vender livros com seus programas de musculação – que poderiam ser treinados em casa, na base do seja-seu-próprio-personal. Num dos mais populares, um sujeito magrelo sofria bullying de um valentão parrudo. Comprava o livro de Charles, treinava, ficava forte e ia lá sentar a mão na cara do folgado.

A GAROTA DA CAPA. A modelo que posa ao lado de John Entwistle é Jill Langham, que durante vários anos foi conhecida como a dancing queen de Palm Springs, e aos 44 anos, bem depois de The Who sell out, se tornou fisiculturista e passou a competir. Ela já lançou até uma autobiografia. Na época do disco, tinha vinte e poucos anos e havia acabado de ter um filho.

ALIÁS, Jill, que na época tinha aparecido no filme Um golpe à italiana, ao lado de Michael Caine, declarou ao livro The Who FAQ: All that’s left to know about fifty years of Maximum R&B, de Mike Segretto, que nem sequer se lembrava muito da sessão. “Posar com o Who nem era algo tão especial para mim. Eu era mais fã dos Beatles”, recordou.

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TONY RAMOS DO WHO. Segundo Keith Moon, Entwistle – mesmo estando longe de possuir um porte atlético – foi escolhido para o comercial da Charles Atlas porque “tinha um peito cabeludo” (na foto isso não aparece, enfim).

MAS POR OUTRO LADO, Entwistle conta outra história sobre isso. O baixista diz que originalmente, ele é que deveria mergulhar no feijão, e Daltrey, que ainda não era o sex symbol dos anos 1970, posaria com a modelo. Só que o baixista espertinho resolveu chegar mais cedo ao estúdio de propósito e acabou posando com Jill.

ATRASOU. The Who sell out havia sido programado para 17 de novembro de 1967 e precisou ser adiado justamente porque a banda e a gravadora estavam esperando as autorizações das marcas.

ALIÁS E A PROPÓSITO, DEU MERDA. Os criadores dos jingles da Radio London se estressaram com o Who por causa do uso alegadamente não-autorizado das gravações. A Heinz, conta-se, estressou-se no começo, mas depois ficou animada com a publicidade gratuita.

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PÔSTER GRÁTIS. As primeiras edições de The Who sell out vinham com um aceno à mania dos pôsteres, que começavam a ficar bastante populares entre a juventude da época. Na capa, um adesivo anunciava “pôster psicodélico grátis”. Dentro, o fã do Who encontrava um desenho psicodélico feito pelo artista gráfico Adrian George, um dos nomões da Osiris Vision, negócio de pôsteres dirigido por Joe Boyd, que dirigia o clube UFO, e Barry Miles, proprietário da livraria Indica Books e do jornal de contracultura International Times. Os primeiros LPs de The Who sell out valem uma boa nota por causa desse pôster, mas depois ele foi acrescentado em algumas reedições.

Várias coisas que você já sabia sobre The Who Sell Out, do Who

RECEPTIVIDADE. The Who sell out é um disco de 1967 na Inglaterra e um álbum de 1968 nos Estados Unidos – saiu no Reino Unido em 15 de dezembro, e nos EUA em 6 de janeiro. Na terra do Who chegou ao número 13 nas paradas. O álbum foi muito bem recebido pela crítica, e de modo geral, foi visto como um foco da arte pop no universo do rock, por misturar publicidade e música. Mas foi consenso quase geral que o fato da banda ter optado por um storytelling maluco prejudicou as vendas.

BOM, NEM TANTO. Alguns críticos detestaram o fato do Who “se vender”. Bruno Bornino, do Cleveland Press, classificou os anúncios como “revoltantes” e sugeriu que os fãs comprassem o disco e jogassem a capa no lixo. Joe Bogart, diretor da rádio WMCA, de Nova York, mandou um “disgusting” quando viu Roger Daltrey mergulhando no feijão e proibiu o disco de ir ao ar em sua emissora.

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ALIÁS E A PROPÓSITO, The Who sell out é um dos raros discos do Who que nunca foram lançados em formato algum no Brasil.

MAS E DEPOIS? O Who, mesmo valorizando os LPs conceituais, passou o ano de 1968 investindo em singles, como Call me lightining, Dogs e Magic bus. Também saíram coletâneas como Direct hits (nos EUA) e Magic bus: The Who on tour (no Reino Unido). Chegou a ser imaginado um disco de estúdio chamado Who’s for tennis?, que sairia em 1968. O projeto original, bolado antes mesmo de The Who sell out ser fechado, incluía até mesmo músicas como Silas Stingy, além do futuro hit Magic bus. A banda teria descartado a ideia por não botar fé na seleção final de músicas. Disco novo só mesmo em 1969, com Tommy.

E BOA PARTE do material deste texto foi tirado dessa entrevista recente de Pete e Roger.

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(agradecemos a Marcelo Fróes pela dica da Jill)

Cultura Pop

Bono trapalhão? U2 antes da fama, na TV irlandesa, usando fantasias de palhaço

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Bono trapalhão? U2 antes da fama, na TV irlandesa, usando fantasias de palhaço

RESUMO: Antes da fama, o U2 tocou Out of control na TV irlandesa vestido de palhaço. Tem gente achando que é obra da IA, mas não é não.

Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução

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No comecinho de sua história, prestes a fazer as primeiras gravações, o U2 fez um vídeo de Out of control na TV irlandesa em clima de circo, com maquiagens faciais e roupas de palhaço. Tá aí o vídeo.

O vídeo é de 1979 e pertence aos arquivos da RTÉ, emissora pública irlandesa – e pelo que a emissora diz, apareceu no programa Our times. Já teve gente levantando a hipótese de ser obra de IA. Não é, pelo visto. “Embora a estética crua e a qualidade amadora das possam levar os espectadores a questionar a sua autenticidade, este vídeo específico foi documentado e discutido pela comunidade de fãs do U2 como uma peça genuína da história da banda”, diz um comentário publicado no canal do YouTube @DutchU2Fan.

Não foi a primeira vez que a banda esteve na atração: em 13 de novembro de 1978, tocaram a música The fool, numa apresentação que acabou sendo reprisada em 27 de novembro. Aliás, a primeira vez que Bono, The Edge, Larry Mullen e Adam Clayton foram à RTE rolou em 2 de março de 1978, quando ainda se chamavam The Hype – na ocasião, foram a programa Youngline e cantaram Street mission.

Além das maquiagens, Bono surge usando apetrechos teatrais e fazendo caras e bocas para a câmera – em alguns momentos, tudo parece uma cena de humorístico brasileiro dos anos 1970. E naquela altura, Out of control era praticamente o cartão de visitas do U2. Em agosto de 1979, o radialista Dave Fanning apresentou três músicas do grupo em seu programa na RTÉ — Out of control, Stories for boys e Boy/Girl — e deixou os ouvintes escolherem qual delas deveria ocupar o lado A do primeiro lançamento da banda. Out of control venceu. No mês seguinte, as três músicas apareceram no EP Three, cuja primeira edição teve mil cópias numeradas.

A canção também tinha uma origem bastante pessoal. Bono a escreveu quando completou 18 anos, pensando no desconforto de perceber que dois dos acontecimentos mais importantes da existência estão totalmente fora das nossas mãos: ninguém decide nascer e, em última instância, também não controla a própria morte.

Agora: por que diabos eles estão vestidos daquele jeito?

Bom, não há, pelo menos na documentação conhecida sobre a apresentação, uma explicação de Bono, The Edge, Adam Clayton ou Larry Mullen Jr. para as roupas, mas maquiagens e os apetrechos. Também não aparece nos arquivos disponibilizados pela RTÉ uma justificativa para o figurino. Pode ter sido uma ideia do programa, uma brincadeira da própria banda ou simplesmente parte da estética daquela atração

O vídeo pertence a uma fase realmente embrionária do U2, que ainda traria uma apresentação no programa Aspects Of rock em setembro de 1979, tocando Life on a distant planet. Em janeiro de 1980, a banda chegou ao Late late show com Stories for boys. E pouco depois, aquela banda de garotos que ainda podia surgir fantasiada na televisão começaria a gravar a estreia Boy, lançada em outubro de 1980. Um primeiro passo na construção do U2 que a gente conhece hoje.

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Cultura Pop

Video Vanguard Award: afinal, que prêmio é esse que o Nirvana recebeu?

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Video Vanguard Award: afinal, que prêmio é esse que o Nirvana recebeu?

RESUMO: O Nirvana recebeu o Video Vanguard Award no VMA e entrou numa história que começou em 1984 com Beatles e David Bowie. Entenda como surgiu e por que o prêmio mudou ao longo das décadas.

Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução

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O Nirvana voltou ao VMA neste domingo (27) para receber um prêmio que, de certa forma, conta a própria história da MTV. Dave Grohl, Krist Novoselic e Pat Smear subiram ao palco para buscar o Video Vanguard Award, homenagem pelo conjunto da obra audiovisual da banda.

Recebendo a honraria, os mais ilustres três ex-integrantes vivos da baanda entraram numa lista que começou com Beatles e David Bowie e, ao longo de mais de quatro décadas, passou por Madonna, Michael Jackson, R.E.M., Beastie Boys, U2, Beyoncé e vários outros.

Mas o que exatamente é o Video Vanguard? Bom, temos duas respostas, uma curta e uma longa. A resposta curta: é uma espécie de prêmio pelo conjunto da obra do VMA, dedicado a artistas que tiveram impacto importante sobre o videoclipe e a cultura pop. Não está ligado a um vídeo específico lançado naquele ano e nem sequer é entregue em todas as edições.

A resposta longa é… a própria história do prêmio. E é a melhor resposta, já que o prêmio nasceu junto com o próprio VMA, em 1984. E não custa lembrar que nessa época videoclipe ainda era uma linguagem em formação e a MTV tinha apenas três anos. Na primeira cerimônia, só pra você ter uma ideia, David Bowie ganhou o prêmio, e houve menção especial aos Beatles e a Richard Lester, que dirigiu os filmes Help e A hard days night, do quarteto.

No caso dos Beatles e Lester, a escolha reconhecia especialmente a importância dos filmes do grupo para aquilo que, anos depois, se consolidaria como a linguagem do videoclipe – e da mesma forma, Bowie havia desenvolvido muito do idioma dos clipes vários anos antes. Na real, como ainda nem sequer havia uma “história” do videoclipe, era fundamental apontar quem havia ajudado a inventar aquela nova linguagem.

Nos anos seguintes, por sua vez, já estava claro que o grande lance era premiar quem já estava fazendo história ali mesmo, com a linguagem dos clipes. Em 1985, ganharam o prêmio David Byrne (então apenas o líder dos Talking Heads) e os diretores Russell Mulcahy e Godley & Creme. Madonna recebeu em 1986. Peter Gabriel, em 1987.

Detalhe: Michael Jackson ganhou em 1988 e, a partir de 1991, seu nome passou a ser associado oficialmente à honraria, que durante décadas ficou conhecida como Michael Jackson Video Vanguard Award. Em 2019, a MTV silenciosamente, mas nem tanto, tirou o nome do astro do prêmio. Nesse ano, a vencedora foi a rapper Missy Elliott.

Na década seguinte, a lista parece quase um resumo do período em que rock e MTV andavam grudados. Bon Jovi recebeu o Vanguard em 1991; Guns N’ Roses, em 1992; Tom Petty e Rolling Stones, em 1994; R.E.M., em 1995; Red Hot Chili Peppers, em 2000; U2, em 2001; e Duran Duran, em 2003. Exceções à regra: em 1997 o rapper LL Cool J levou a estatueta pra casa. No ano seguinte, os Beastie Boys ganharam o prêmio.

Depois, o perfil foi mudando junto com a própria MTV e com a cultura pop. Britney Spears, Justin Timberlake, Beyoncé, Kanye West, Rihanna, Pink, Jennifer Lopez e Missy Elliott estão entre os homenageados. Nos últimos anos vieram Nicki Minaj, Shakira, Katy Perry e Mariah Carey. Agora o prêmio volta ao rock com o Nirvana.

Dá pra dizer que poucos grupos carregam uma ligação tão evidente com a era clássica da MTV. Smells like teen spirit não apenas virou um dos clipes mais associados aos anos 1990 como ajudou a transformar a imagem do rock no canal. Come as you are, In bloom e Heart-shaped box reforçaram uma identidade visual que misturava estranheza, humor, desconforto e uma boa dose de antipatia pelos padrões do estrelato.

No VMA deste ano, coube a Chuck D, do Public Enemy, entregar o prêmio. Novoselic aproveitou o discurso para colocar Kurt Cobain no centro da história e lembrou que muitas ideias dos vídeos vinham da visão artística do vocalista. Para ele, a permanência do Nirvana também tem relação com uma busca do público por autenticidade.

Grohl, Novoselic e Smear receberam a homenagem sem Cobain, morto em 1994, mas com sua imagem aparecendo durante a cerimônia. A escolha fecha um círculo curioso: uma banda que ajudou a definir a MTV dos anos 1990 recebe, mais de três décadas depois, um prêmio criado justamente para reconhecer quem mudou a maneira de juntar música e imagem.

Mais do que um troféu para quem acumulou clipes famosos, o Video Vanguard começou como uma homenagem a quem empurrou o videoclipe para algum lugar novo. E sua lista de vencedores acabou registrando também as mudanças da própria MTV: dos Beatles e dos diretores pioneiros ao domínio do rock, daí às grandes estrelas do pop e do hip hop.

Agora o Nirvana entrou nessa história. Digamos que, para uma banda que chegou à MTV parecendo não pertencer àquele mundo, demorou bastante.

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Cultura Pop

Qual é a do The Coverups, banda de covers de Billie Joe (Green Day) e amigos?

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The Coverups: Billie Joe recebe Bruce Dickinson (Foto: Reprodução Internet)

Antes de Bruce Dickinson, cantor do Iron Maiden, aparecer de surpresa no palco em Québec, o The Coverups já dava muitos sinais de vida havia anos. O projeto paralelo de Billie Joe Armstrong continua funcionando exatamente como nasceu: como uma desculpa para tocar músicas que seus integrantes amam, sem a pressão de lançar discos ou sair em turnê.

Criado em 2018, o grupo reúne integrantes e colaboradores do Green Day em apresentações pequenas, normalmente em clubes da Califórnia. A formação original contava com Billie Joe Armstrong (voz e guitarra), Mike Dirnt (baixo e voz), Jason White (guitarra), Bill Schneider (baixo) e Chris Dugan (bateria) – Mike e Jason são os únicos que fazem parte também do Green Day, sendo que Jason atua como músico de turnê. Nos últimos anos, porém, Dirnt deixou de participar dos shows, e o The Coverups passou a atuar como quarteto.

O repertório é uma carta de amor ao rock e ao punk. Clássicos de Ramones, David Bowie, The Clash, Cheap Trick, Joan Jett, Tom Petty, Misfits, Nirvana, Rolling Stones e até Strokes costumam aparecer nas apresentações, que muitas vezes são anunciadas poucas horas antes de acontecer. Diferentemente de outros projetos paralelos de Billie Joe, como Foxboro Hot Tubs e The Longshot, o The Coverups nunca teve a intenção de gravar músicas próprias. A proposta é apenas revisitar clássicos em um ambiente intimista, recriando um pouco da atmosfera dos primeiros dias do Green Day nos clubes da região de Berkeley e Oakland.

Mesmo sem lançar um único álbum de estúdio, a banda conquistou um público fiel justamente por isso: oferece a rara oportunidade de ver Billie Joe tocando as músicas que ajudaram a moldar sua formação musical, longe das grandes produções e da rotina de estádios do Green Day.

Nos últimos meses, o The Coverups voltou a fazer apresentações esporádicas na Califórnia, mantendo esse espírito despretensioso. Não havia qualquer indicação de mudanças de rumo, nem anúncios de gravações ou turnês. A maior novidade acabou sendo justamente a participação-surpresa de Bruce Dickinson em um show realizado em Québec. Sem aviso prévio, o vocalista do Iron Maiden subiu ao palco para cantar All the young dudes, clássico do Mott the Hoople escrito por David Bowie, num encontro improvável que reuniu dois dos nomes mais conhecidos do rock em um contexto bastante informal.

Houve uma outra novidade recente, que rolou durante o show da banda no Roxy, na Califórnia, dia 21, uma segunda-feira. Antes de tocar Drain you, clássico do Nirvana (do disco Nevermind, de 1991), Armstrong dedicou a música a Jennifer Finch, baixista do L7, que morreu recentemente. Antes, Adrienne Armstrong, esposa do músico, havia doado US$ 5 mil para uma campanha criada para ajudar a custear o tratamento de Finch.

De qualquer jeito, Bruce fi a primeira participação especial de grande repercussão na história recente do The Coverups e, naturalmente, chamou muito mais atenção do que os próprios shows da banda. Ainda assim, tudo indica que o projeto continuará exatamente como sempre foi: um grupo de amigos reunidos para tocar os discos que mudaram suas vidas, sem maiores pretensões além da diversão.

Ah, sim: importante falar que All the young dudes faz parte do repertório solo de Bruce há bastante tempo. Ele a havia regravado em seu primeiro álbum solo, Tattoed millionaire, de 1990. Na época, teve até clipe da faixa.

Foto: Reprodução Internet

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