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Cultura Pop

Várias coisas que você já sabia sobre Electric Ladyland, de Jimi Hendrix

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Várias coisas que você já sabia sobre Electric Ladyland, de Jimi Hendrix

Nada continuou o mesmo depois que Electric ladyland, terceiro disco de Jimi Hendrix (ou melhor, de sua banda, o Experience) foi feito, em 1968. Ponto final.

Black Sabbath, estreia do grupo homônimo, formatou o heavy metal, certo? Já o álbum duplo de Hendrix fez só um pouco mais que isso: foi a pedra inicial do hard rock setentista, do metal, do stoner rock, da união de som pesado e psicodelia, do rock progressivo. Inspirou blueseiros, jazzistas e músicos como Santana e Prince. Deu razões para vários músicos resolverem controlar seus próprios discos, sem nenhum produtor almofadinha por trás. Pôs no imaginário pop a figura do músico que usa a sala de gravação como um instrumento – e na época do disco, Hendrix já concebia seu estúdio, que ficaria pronto em 1970 e se chamava (se chama, aliás) justamente Electric Lady.

Electric ladyland, comparado com a produção do rock da mesma época, deixou um furo tão grande no tempo que, em 1968, não havia tanta gente capaz de dimensionar isso. Por mais que Sgt Pepper’s, dos Beatles, tivesse sido lançado no ano anterior, Hendrix e seus colegas Mitch Mitchell (bateria) e Noel Redding (baixo) conseguiram transformar a psicodelia em algo quase palpável, criando um modelo para quem quisesse unir peso, distorções e viagens psicodélicas. Não havia orquestras, letras “cinematográficas” ou algo do tipo. E boa parte do material era só guitarra, baixo e bateria gravados com apuro técnico, além de improvisos de grosso calibre.

Hendrix e o técnico de som Eddie Kramer faziam brincadeiras com a estereofonia (a guitarra que-passa-de-um-canal-para-o-outro de All along the watchtower, cover de Bob Dylan, causou uivos em músicos em 1968) e inseriam nos sulcos do vinil canções tão cheias de efeitos (como a vinheta introdutória …And the gods made love) que faziam com que muita gente pensasse que o disco estava com defeito de prensagem. Sim, isso aconteceu bastante.

No mais, havia improvisos de mais de dez minutos, em Voodoo child (Slight return). Havia instrumentais meditativos, como na segunda parte de 1983… (A merman I should turn to be). Tinha também balanços pesados como Cross town traffic e Gipsy eyes. E numa época em que a sofisticação barroco-progressiva começava a invadir o terreno das baladas radiofônicas (A whiter shade of pale, do Procol Harum, tinha virado chiclete de ouvido em 1967), Hendrix respondia à altura com Burning of midnight lamp.

Lembrando dos 50 anos da saída de cena de Jimi Hendrix, vai aí nosso relatório sobre Electric ladyland. Leia e ouça em alto volume.

SUCESSO, ENFIM. O Jimi Hendrix Experience já fazia sucesso em 1968. Mas a sensação do trio naquele ano era de que as coisas tinham dado certo de verdade. Não faltava grana, a perspectiva era de que o terceiro disco do grupo fosse gravado com tempo ilimitado de estúdio e, em especial, Jimi poderia gravar as canções assim que elas fossem feitas – o que cortava um pouco da pressão que rolou nos primeiros discos.

ISSO PORQUE os primeiros discos de Hendrix, Are you experienced? e Axis: bold as love, ambos de 1967, foram gravados rapidamente. Além da necessidade de ter algo nas lojas para satisfazer os fãs, o circo em torno de Hendrix exigia trabalho e lucros rápidos, e shows a todo momento. O ano de 1968 iniciou com a primeira grande turnê do grupo pelos Estados Unidos – com direito à volta triunfal de Hendrix à sua cidade natal, Seattle, em 12 de fevereiro.

SEM PRESSA. Essa rapidez para gravar era justamente o que Hendrix não queria repetir. Grande fã de improvisos musicais, ele estava cada vez mais envolvido com a ideia de gravar um álbum autoproduzido e cheio de jams – e, por acaso, estava meio cansado de ser vendido como um “artista pop”.

ALIÁS E A PROPÓSITO, Hendrix também costumava se queixar em entrevistas que os técnicos e produtores americanos só queriam manter a máquina funcionando e não estavam “nem aí” para o artista ou para a qualidade da música. “Dá para sentir que falta o ser humano, que o estúdio só está interessado na conta, nos 123 dólares por hora”, resmungava com o primeiro repórter que encontrasse.

CHAS SAIU. Em busca de mais liberdade no estúdio, Hendrix definiu que ele próprio tomaria conta das gravações de Electric ladyland – alienando um de seus principais colaboradores, o empresário e produtor Chas Chandler, que começou dividindo os serviços de produção com ele. Chas tinha investido na carreira de Hendrix, pagou do próprio bolso a gravação do single Hey Joe e produzira os primeiros discos. Só que ao reparar que as sessões de gravação estavam ficando meio descontroladas, com músicas feitas em cima da hora e jams que não tinham hora para acabar, achou que estava na hora de deixar o disco para lá. Acabou deixando Hendrix e foi empresariar o Slade, banda glam-casca-grossa que iniciava carreira na Inglaterra.

DO MAL. O guitarrista não ficou sozinho: o empresário Mike Jeffery, que dividia o trabalhos com Chas desde 1967 e financiava parte dos serviços, ficou tomando conta do Experience. Mas antes só do que pessimamente acompanhado. Quase todos os biógrafos de Hendrix concordam que Jeffery foi o maior vilão que Hendrix teve naquele período: enriqueceu graças ao trabalho duro do guitarrista, desviava cachês de shows para contas nas Bahamas, roubava direitos autorais do músico e, dizem várias testemunhas, chegou a simular o sequestro de Hendrix para ameaçá-lo caso denunciasse os roubos ou o dispensasse.

ALIÁS E A PROPÓSITO Pessoas ligadas a Hendrix contam que o guitarrista reclamava de ter que fazer shows em tudo quanto era canto em meio às gravações de Electric ladyland, justamente por causa de uma agenda extenuante montada por Jeffery.

APERTA O PLAY. A gravação de Electric ladyland havia sido iniciada pelo Experience de maneira absolutamente informal, em diversos estúdios nos Estados Unidos e no Reino Unido, entre julho de 1967 e janeiro de 1968. Em março de 1968, o trio, ainda ao lado de Chas, entrou no moderníssimo Record Plant Studios, em Nova York, para dar um acabamento naquele monte de jams e ideias. O objetivo de Hendrix era criar um disco que mostrasse os vários lados de seu trabalho como guitarrista, e de sua banda, mas que apontasse para um “funk elétrico”.

EDDIE KRAMER. O “técnico de som de Jimi Hendrix”, como ficou conhecido, já tinha trabalhado com bandas como Kinks e Beatles e vinha trabalhando com o guitarrista havia alguns anos. Foi tão responsável pelas experiências de Electric ladyland quanto ele, e embarcava em todas as viagens de Hendrix. Em entrevistas, lembrou que o grande trauma do guitarrista era sua voz, que considerava horrível. “Mas eu não diria que ele tivesse pontos fracos”, contou Eddie.

GARY KELLGREN. O outro técnico de som de Ladyland não era fraco, não. Gary trabalhara como engenheiro de som em discos como The Velvet Underground and Nico (1967) e foi um dos fundadores da pequena rede de estúdios Record Plant, que iniciara em 1967 em Manhattan. Electric ladyland seria o primeiro a sair das salas do recém-inaugurado estúdio em Nova York. Kellgren foi encontrado morto sob circunstâncias misteriosas ao lado da namorada na piscina de casa em 1977 aos 38 anos. Existe um site recordando seu trabalho.

NÃO É BAGUNÇA, NÃO. Logo que as gravações se iniciaram no Record Plant, ficou claro que o trabalho precisava de uma gerência mais firme – Chas, descontente com isso, como você já leu lá atrás, pulou fora. Hendrix fazia questão de repetir músicas diversas vezes, regravar diversas partes, compor no estúdio, etc. Em vários momentos, convidados e amigos apareciam no estúdio, tiravam o foco de todo o mundo e transformavam o clima em algo mais parecido com o de uma festa. Aos trancos e barrancos foi dando certo.

TRIO? Apesar do projeto ser creditado a Jimi Hendrix Experience, Electric Ladyland era o trabalho mais solo de Hendrix até então. O guitarrista tocou baixo em diversas músicas, até porque Noel Redding já estava com um pé fora do grupo e planejava outras coisas. Hendrix tocou também piano, percussão e até kazoo (é o barulho que aparece logo após a introdução de Cross town traffic). Animado com os trabalhos em estúdio, Hendrix achava que tocar várias coisas o ajudaria a pesquisar efeitos musicais e via seu baixo como sendo mais funky que o do amigo.

CONVIDADOS. O próprio Hendrix já estava com o pé fora do Experience, que considerava limitador, e chamou um monte de gente para tocar com ele no disco. A ficha técnica de Electric ladyland, como era comum naquela época, não creditava ninguém, mas passaram pelo Record Plant nomes como Steve Winwood (Traffic, órgao), Dave Mason (Traffic, vocais de apoio), Buddy Miles (bateria). Outro integrante do Traffic, Chris Wood, tocou flauta em 1983.

BRIAN JONES. O guitarrista dos Rolling Stones, que morreria em 1969, tocou percussão em All along the watchtower. E não só isso: ele também tocou piano numa versão da música que ficou de fora do disco. Bom, “tocou”, em termos: segundo testemunhas, Brian estava doidão e começou a tocar o instrumento durante a gravação sem ser solicitado, atrapalhando Hendrix e os outros músicos. Eddie Kramer resolveu o problema convidando Jones para “ouvir o que tinha sido gravado” – o músico levantou do banquinho, desabou na mesa de som e todo mundo terminou o trabalho rapidamente.

PEGADOR. Mesmo sempre envolvido com alguma namorada, Hendrix aproveitou bastante o clima de paz e amor dos anos 1960. Tanto que Electric ladyland era dedicado a elas, as groupies do Experience – que ele costumava chamar de “electric ladies”. São elas as mulheres elétricas da letra de Have you ever been (To Electric Ladyland).

DYLAN. Em Electric ladyland, Hendrix aproveitou para homenagear Bob Dylan, gravando sua All along the watchtower. A gravação de Hendrix se tornou o single mais vendido do Experience. O tema acústico gravado pelo autor no disco John Wesley Harding, de 1967, virou funk elétrico nas mãos de Hendrix, com as tais guitarras com “eco panorâmico”.

POR SINAL, a homenagem vinha na hora certa: foi justamente Dylan, com seu vocal esganiçado, que deu a Hendrix a certeza de que poderia também cantar. O compositor passou a cantar sua própria música com arranjo parecido com o de Hendrix e chegou a afirmar que ele melhorou a canção.

APERTA O STOP. Em outubro de 1968, Hendrix colocou o último acorde em Electric ladyland, em meio a mais uma turnê pelos Estados Unidos. As novas turnês foram dando mais ainda no saco do guitarrista, que se via como um prisioneiro de plateias e vendedores de shows. “Quem quer passar oito dias por semana sentado num avião para chegar e ver a cara das pessoas dizendo: ‘Você vai tocar fogo na guitarra hoje?'”, chegou a afirmar. “Os produtores nos veem como máquinas de fazer dinheiro e não têm confiança na gente. É um mundo cão. Eu sempre sei diferençar quem está sendo artificial e quem faz música de verdade, quem se importa com a música e com o que os músicos estão fazendo”.

SAIU! As primeiras cópias de Electric ladyland saíram em setembro de 1968. O esmero de Hendrix, ainda que tenha desagradado colaboradores, deu certo: o álbum foi o maior sucesso comercial de Hendrix e voou para o topo das paradas nos EUA. No Brasil, o disco saiu – como aconteceu também com Tommy, do Who – resumido a um só disco.

CD CONFUSO. Quando Electric ladyland saiu em CD, as primeiras edições traziam um erro que se tornou comum na transcrição de antigos LPs duplos para o formato. Boa parte das antigas edições em vinil de álbuns duplos trazia os lados A e D num disco e B e C num outro. A ideia era facilitar as coisas para quem ouvia o álbum em toca-discos automáticos.  Os primeiros CDs trazem os lados 1 e 4 no primeiro CD e assim por diante.

BAIXINHOS DO HENDRIX. O assunto “capas de disco” sempre foi delicado para Hendrix e para o Experience, desde o primeiro disco – as gravadoras sempre faziam modificações ou impunham ideias que ele detestava. No caso de Electric ladyland, Hendrix havia enviado para a Reprise, sua gravadora nos Estados Unidos, uma carta manuscrita pedindo que a firma usasse na capa uma foto de Linda Eastman (futura esposa de Paul McCartney) em que a banda posava com crianças na escultura de Alice No País das Maravilhas no Central Park.

Várias coisas que você já sabia sobre Electric Ladyland, de Jimi Hendrix

SEM BAIXINHOS. A Reprise fez questão de ignorar os pedidos de Hendrix e pôs na edição americana uma foto do guitarrista feita por Karl Ferris (o site Dangerous Minds publicou o histórico dessas capas indesejadas do terceiro álbum do Experience, com várias imagens, inclusive da tal carta do guitarrista). É a imagem que ilustra essa matéria.

MULHERADA. A edição britânica, lançada pela Track Records, acabou se tornando a mais célebre: o fotógrafo David Montgomery reuniu mulheres das mais diversas etnias, nuas num estúdio, e clicou a imagem. Deu merda: várias lojas se recusaram a vender o disco e o próprio Hendrix detestou a imagem, que classificou de apelativa (“e elas ainda por cima ficaram feias na foto”, reclamou).

Várias coisas que você já sabia sobre Electric Ladyland, de Jimi Hendrix

COMPRA, TIO. Montgomery vende cópias dessa foto em seu site pela bagatela de três mil dólares.

DEU MAIS MERDA DEPOIS. O Experience acabou durante a turnê de Electric ladyland. Hendrix, que nos últimos tempos falava até que queria “montar uma grande orquestra” e se dizia influenciado por compositores eruditos, foi tocar com outras pessoas. Em 1970, gravou Band of gypsys, seu último disco, com Billy Cox no baixo e Buddy Miles na bateria. E a capa teve mais problemas: a Track Records decidiu fazer das suas e pôs na capa um cenário que mais lembra um canteiro de obras, ou uma telha de amianto. Na frente, bonecos de Hendrix, Brian Jones, Bob Dylan e do DJ John Peel, meio amontoados. Na contracapa, um boneco de Hendrix. O guitarrista, canhoto, é retratado como destro na imagem (e já falamos disso aqui).

E já que você chegou até aqui, adivinha só que artista brasileiro é bastante influenciado por Jimi Hendrix e por Electric ladyland? Acertou quem disse Falcão, o humorista cearense. No clássico Prometo não ejacular na sua boca, ele incluiu na cara de pau o verso “e pelas marcas de pneu nas suas costas/eu vejo que você também andou se divertindo”, tradução literal do “tire tracks all across your back, uh-huh, I can see you had your fun”, de Cross town traffic.

Com material dos livros Jimi Hendrix’s Electric Ladyland, da série 33 1/3, escrito por John Perry, e Jimi Hendrix por ele mesmo, organizado por Alan Douglas e Peter Neal.

Veja também no POP FANTASMA:
– Demos o mesmo tratamento a Physical graffiti (Led Zeppelin), a Substance (New Order), ao primeiro disco do Black Sabbath, a End of the century (Ramones), ao rooftop concert, dos Beatles, e a London calling (Clash). E a Fun house (Stooges). E a New York (Lou Reed). E aos primeiros shows de David Bowie no Brasil.
– Demos uma mentidinha e oferecemos “coisas que você não sabe” ao falar de Rocket to Russia (Ramones) e Trompe le monde (Pixies).
– Mais Jimi Hendrix no POP FANTASMA aqui.

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Billy Corgan e Butch Vig juntos no estúdio de novo após 33 anos

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Billy Corgan e Butch Vig juntos no estúdio de novo após 33 anos

RESUMO: Billy Corgan e Butch Vig retomam a parceria de Gish e Siamese dream em Black stars, faixa da trilha de Jogos vorazes. Um reencontro com o produtor que ajudou a criar o som do Smashing Pumpkins. Relembre o histórico.

Texto: Ricardo Schott – Fotos: Reprodução

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Imagine você entrar num estúdio com Billy Corgan, no começo dos anos 1990, e descobrir que ele quer gravar uma música com dezenas de guitarras. E que, se uma delas não soar exatamente como ele imaginou, vai ter que fazer tudo de novo. Agora imagine que o produtor, em vez de mandar o sujeito sossegar, acha a ideia ótima. Pois era mais ou menos assim que funcionava a parceria entre o Smashing Pumpkins e Butch Vig. E, 33 anos depois, os dois resolveram repetir a experiência.

A novidade é Black stars, música lançada nesta sexta-feira (16) e incluída na trilha sonora de Jogos vorazes: Amanhecer na colheita. A trilha completa sai em 13 de novembro, uma semana antes da estreia do filme. É a primeira gravação lançada pelo Smashing Pumpkins com produção de Vig desde o álbum Siamese dream, de 1993. A faixa também entrou no repertório da atual turnê Rats in the cage.

A história dos dois começou em 1990, quando o Smashing Pumpkins gravou Tristessa, compacto lançado pela Sub Pop, sob a produção dele. Isso foi antes de Vig produzir Nevermind, do Nirvana (1991). Corgan gostou do cara logo de primeira. Numa entrevista à Tape Op, contou que o produtor não tinha pose, trabalhava pra caramba e não se assustava com as ideias que ele e o baterista Jimmy Chamberlin levavam para o estúdio. Pelo contrário: parecia gostar da complicação.

Foi assim que chegaram a Gish (1991), álbum de estreia da banda, primeiro no qual trabalharam juntos. Corgan queria um disco com peso, psicodelia, melodias bonitas e guitarras aparecendo de todos os lados – um baita rock de arena, com ambiência, totalmente o oposto daquela onda da época, de simplesmente colocar quatro músicos numa sala e apertar o botão de gravar. Vig comprou a ideia e ajudou a organizar tudo aquilo. Dá para ouvir o resultado em Siva, Rhinoceros e Daydream, três músicas bem diferentes que parecem fazer parte do mesmo universo.

Só que os dois tinham um problema: não sabiam a hora de parar. Corgan contou à Rolling Stone italiana que Vig pegava pesado com afinação, ritmo e vocais. Fazia Billy cantar a mesma parte tantas vezes que ele começava a achar que não sabia cantar. O engraçado é que, olhando para trás, o vocalista reconhece que aquela cobrança fez toda a diferença.

Em Siamese dream (1993), o segundo disco, a situação ficou ainda mais complicada. A banda já tinha uma gravadora grande esperando resultados, Billy passava por uma fase emocional difícil e os integrantes não se entendiam nada bem. Foram gravar em Atlanta, mas os problemas viajaram com a banda nas malas.

Corgan acabou tocando praticamente todas as guitarras e boa parte dos baixos. Algumas músicas ganharam tantas camadas que Vig precisava descobrir como fazer tudo caber na mixagem. Era guitarra em cima de guitarra, com mais uma guitarra aparecendo quando você achava que já tinha acabado. E, se alguma coisa não estivesse perfeita, lá iam eles gravar de novo. O disco demorou, custou caro e deu um trabalhão. Só que saiu dali Siamese dream, com Cherub rock, Today, Disarm e vários clássicos.

Corgan nunca escondeu o quanto Vig foi importante. Nos textos da reedição de Siamese dream, em 2011, escreveu: “Butch me apoiou o tempo todo nessa visão maluca”. E completou: “Butch era a única pessoa que poderia ter feito aquele disco conosco, porque o respeitávamos tanto que queríamos estar à altura dos padrões elevados dele”.

Mas aí chegou a hora de fazer o duplo Mellon Collie And The Infinite Sadness (1995), e Billy resolveu mudar tudo. Chamou Flood e Alan Moulder para produzir, porque queria sair daquela maneira de trabalhar. Numa entrevista ao Grammy.com, explicou que Vig havia ajudado a construir uma versão quase idealizada do Smashing Pumpkins. Flood queria outra coisa: ouvir a banda como ela realmente soaria nos shows.

E não, a troca não aconteceu por causa de alguma briga. Em 2011, perguntaram a Corgan se ele toparia trabalhar novamente com Vig. “Eu amo Butch e temos uma relação muito boa. Adoraria. Ele provavelmente é uma das únicas pessoas com quem eu voltaria a entrar em estúdio”, respondeu. Vig também sempre pareceu adorar Corgan, embora já tenha declarado algumas vezes que o músico foi “um pentelho” no estúdio (quem conhece a história de Billy sabe que isso é um nome até carinhoso).

Pois bem: demorou 15 anos para aquela declaração virar realidade. Black stars coloca novamente os dois no estúdio, agora com décadas de experiência acumulada e sem a obrigação de repetir o que fizeram em 1993.

Ainda não há indicação de que a parceria vá render um álbum inteiro. Por enquanto, é uma música para uma trilha sonora. Mas já dá para imaginar a cena: Billy aparece com uma ideia complicada, Butch escuta, pensa um pouco e resolve que dá para melhorar. E lá vem outra guitarra…

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Bono trapalhão? U2 antes da fama, na TV irlandesa, usando fantasias de palhaço

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Bono trapalhão? U2 antes da fama, na TV irlandesa, usando fantasias de palhaço

RESUMO: Antes da fama, o U2 tocou Out of control na TV irlandesa vestido de palhaço. Tem gente achando que é obra da IA, mas não é não.

Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução

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No comecinho de sua história, prestes a fazer as primeiras gravações, o U2 fez um vídeo de Out of control na TV irlandesa em clima de circo, com maquiagens faciais e roupas de palhaço. Tá aí o vídeo.

O vídeo é de 1979 e pertence aos arquivos da RTÉ, emissora pública irlandesa – e pelo que a emissora diz, apareceu no programa Our times. Já teve gente levantando a hipótese de ser obra de IA. Não é, pelo visto. “Embora a estética crua e a qualidade amadora das possam levar os espectadores a questionar a sua autenticidade, este vídeo específico foi documentado e discutido pela comunidade de fãs do U2 como uma peça genuína da história da banda”, diz um comentário publicado no canal do YouTube @DutchU2Fan.

Não foi a primeira vez que a banda esteve na atração: em 13 de novembro de 1978, tocaram a música The fool, numa apresentação que acabou sendo reprisada em 27 de novembro. Aliás, a primeira vez que Bono, The Edge, Larry Mullen e Adam Clayton foram à RTE rolou em 2 de março de 1978, quando ainda se chamavam The Hype – na ocasião, foram a programa Youngline e cantaram Street mission.

Além das maquiagens, Bono surge usando apetrechos teatrais e fazendo caras e bocas para a câmera – em alguns momentos, tudo parece uma cena de humorístico brasileiro dos anos 1970. E naquela altura, Out of control era praticamente o cartão de visitas do U2. Em agosto de 1979, o radialista Dave Fanning apresentou três músicas do grupo em seu programa na RTÉ — Out of control, Stories for boys e Boy/Girl — e deixou os ouvintes escolherem qual delas deveria ocupar o lado A do primeiro lançamento da banda. Out of control venceu. No mês seguinte, as três músicas apareceram no EP Three, cuja primeira edição teve mil cópias numeradas.

A canção também tinha uma origem bastante pessoal. Bono a escreveu quando completou 18 anos, pensando no desconforto de perceber que dois dos acontecimentos mais importantes da existência estão totalmente fora das nossas mãos: ninguém decide nascer e, em última instância, também não controla a própria morte.

Agora: por que diabos eles estão vestidos daquele jeito?

Bom, não há, pelo menos na documentação conhecida sobre a apresentação, uma explicação de Bono, The Edge, Adam Clayton ou Larry Mullen Jr. para as roupas, mas maquiagens e os apetrechos. Também não aparece nos arquivos disponibilizados pela RTÉ uma justificativa para o figurino. Pode ter sido uma ideia do programa, uma brincadeira da própria banda ou simplesmente parte da estética daquela atração

O vídeo pertence a uma fase realmente embrionária do U2, que ainda traria uma apresentação no programa Aspects Of rock em setembro de 1979, tocando Life on a distant planet. Em janeiro de 1980, a banda chegou ao Late late show com Stories for boys. E pouco depois, aquela banda de garotos que ainda podia surgir fantasiada na televisão começaria a gravar a estreia Boy, lançada em outubro de 1980. Um primeiro passo na construção do U2 que a gente conhece hoje.

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Video Vanguard Award: afinal, que prêmio é esse que o Nirvana recebeu?

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Video Vanguard Award: afinal, que prêmio é esse que o Nirvana recebeu?

RESUMO: O Nirvana recebeu o Video Vanguard Award no VMA e entrou numa história que começou em 1984 com Beatles e David Bowie. Entenda como surgiu e por que o prêmio mudou ao longo das décadas.

Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução

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O Nirvana voltou ao VMA neste domingo (27) para receber um prêmio que, de certa forma, conta a própria história da MTV. Dave Grohl, Krist Novoselic e Pat Smear subiram ao palco para buscar o Video Vanguard Award, homenagem pelo conjunto da obra audiovisual da banda.

Recebendo a honraria, os mais ilustres três ex-integrantes vivos da baanda entraram numa lista que começou com Beatles e David Bowie e, ao longo de mais de quatro décadas, passou por Madonna, Michael Jackson, R.E.M., Beastie Boys, U2, Beyoncé e vários outros.

Mas o que exatamente é o Video Vanguard? Bom, temos duas respostas, uma curta e uma longa. A resposta curta: é uma espécie de prêmio pelo conjunto da obra do VMA, dedicado a artistas que tiveram impacto importante sobre o videoclipe e a cultura pop. Não está ligado a um vídeo específico lançado naquele ano e nem sequer é entregue em todas as edições.

A resposta longa é… a própria história do prêmio. E é a melhor resposta, já que o prêmio nasceu junto com o próprio VMA, em 1984. E não custa lembrar que nessa época videoclipe ainda era uma linguagem em formação e a MTV tinha apenas três anos. Na primeira cerimônia, só pra você ter uma ideia, David Bowie ganhou o prêmio, e houve menção especial aos Beatles e a Richard Lester, que dirigiu os filmes Help e A hard days night, do quarteto.

No caso dos Beatles e Lester, a escolha reconhecia especialmente a importância dos filmes do grupo para aquilo que, anos depois, se consolidaria como a linguagem do videoclipe – e da mesma forma, Bowie havia desenvolvido muito do idioma dos clipes vários anos antes. Na real, como ainda nem sequer havia uma “história” do videoclipe, era fundamental apontar quem havia ajudado a inventar aquela nova linguagem.

Nos anos seguintes, por sua vez, já estava claro que o grande lance era premiar quem já estava fazendo história ali mesmo, com a linguagem dos clipes. Em 1985, ganharam o prêmio David Byrne (então apenas o líder dos Talking Heads) e os diretores Russell Mulcahy e Godley & Creme. Madonna recebeu em 1986. Peter Gabriel, em 1987.

Detalhe: Michael Jackson ganhou em 1988 e, a partir de 1991, seu nome passou a ser associado oficialmente à honraria, que durante décadas ficou conhecida como Michael Jackson Video Vanguard Award. Em 2019, a MTV silenciosamente, mas nem tanto, tirou o nome do astro do prêmio. Nesse ano, a vencedora foi a rapper Missy Elliott.

Na década seguinte, a lista parece quase um resumo do período em que rock e MTV andavam grudados. Bon Jovi recebeu o Vanguard em 1991; Guns N’ Roses, em 1992; Tom Petty e Rolling Stones, em 1994; R.E.M., em 1995; Red Hot Chili Peppers, em 2000; U2, em 2001; e Duran Duran, em 2003. Exceções à regra: em 1997 o rapper LL Cool J levou a estatueta pra casa. No ano seguinte, os Beastie Boys ganharam o prêmio.

Depois, o perfil foi mudando junto com a própria MTV e com a cultura pop. Britney Spears, Justin Timberlake, Beyoncé, Kanye West, Rihanna, Pink, Jennifer Lopez e Missy Elliott estão entre os homenageados. Nos últimos anos vieram Nicki Minaj, Shakira, Katy Perry e Mariah Carey. Agora o prêmio volta ao rock com o Nirvana.

Dá pra dizer que poucos grupos carregam uma ligação tão evidente com a era clássica da MTV. Smells like teen spirit não apenas virou um dos clipes mais associados aos anos 1990 como ajudou a transformar a imagem do rock no canal. Come as you are, In bloom e Heart-shaped box reforçaram uma identidade visual que misturava estranheza, humor, desconforto e uma boa dose de antipatia pelos padrões do estrelato.

No VMA deste ano, coube a Chuck D, do Public Enemy, entregar o prêmio. Novoselic aproveitou o discurso para colocar Kurt Cobain no centro da história e lembrou que muitas ideias dos vídeos vinham da visão artística do vocalista. Para ele, a permanência do Nirvana também tem relação com uma busca do público por autenticidade.

Grohl, Novoselic e Smear receberam a homenagem sem Cobain, morto em 1994, mas com sua imagem aparecendo durante a cerimônia. A escolha fecha um círculo curioso: uma banda que ajudou a definir a MTV dos anos 1990 recebe, mais de três décadas depois, um prêmio criado justamente para reconhecer quem mudou a maneira de juntar música e imagem.

Mais do que um troféu para quem acumulou clipes famosos, o Video Vanguard começou como uma homenagem a quem empurrou o videoclipe para algum lugar novo. E sua lista de vencedores acabou registrando também as mudanças da própria MTV: dos Beatles e dos diretores pioneiros ao domínio do rock, daí às grandes estrelas do pop e do hip hop.

Agora o Nirvana entrou nessa história. Digamos que, para uma banda que chegou à MTV parecendo não pertencer àquele mundo, demorou bastante.

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