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Cultura Pop

Várias coisas que você já sabia sobre Electric Ladyland, de Jimi Hendrix

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Várias coisas que você já sabia sobre Electric Ladyland, de Jimi Hendrix

Nada continuou o mesmo depois que Electric ladyland, terceiro disco de Jimi Hendrix (ou melhor, de sua banda, o Experience) foi feito, em 1968. Ponto final.

Black Sabbath, estreia do grupo homônimo, formatou o heavy metal, certo? Já o álbum duplo de Hendrix fez só um pouco mais que isso: foi a pedra inicial do hard rock setentista, do metal, do stoner rock, da união de som pesado e psicodelia, do rock progressivo. Inspirou blueseiros, jazzistas e músicos como Santana e Prince. Deu razões para vários músicos resolverem controlar seus próprios discos, sem nenhum produtor almofadinha por trás. Pôs no imaginário pop a figura do músico que usa a sala de gravação como um instrumento – e na época do disco, Hendrix já concebia seu estúdio, que ficaria pronto em 1970 e se chamava (se chama, aliás) justamente Electric Lady.

Electric ladyland, comparado com a produção do rock da mesma época, deixou um furo tão grande no tempo que, em 1968, não havia tanta gente capaz de dimensionar isso. Por mais que Sgt Pepper’s, dos Beatles, tivesse sido lançado no ano anterior, Hendrix e seus colegas Mitch Mitchell (bateria) e Noel Redding (baixo) conseguiram transformar a psicodelia em algo quase palpável, criando um modelo para quem quisesse unir peso, distorções e viagens psicodélicas. Não havia orquestras, letras “cinematográficas” ou algo do tipo. E boa parte do material era só guitarra, baixo e bateria gravados com apuro técnico, além de improvisos de grosso calibre.

Hendrix e o técnico de som Eddie Kramer faziam brincadeiras com a estereofonia (a guitarra que-passa-de-um-canal-para-o-outro de All along the watchtower, cover de Bob Dylan, causou uivos em músicos em 1968) e inseriam nos sulcos do vinil canções tão cheias de efeitos (como a vinheta introdutória …And the gods made love) que faziam com que muita gente pensasse que o disco estava com defeito de prensagem. Sim, isso aconteceu bastante.

No mais, havia improvisos de mais de dez minutos, em Voodoo child (Slight return). Havia instrumentais meditativos, como na segunda parte de 1983… (A merman I should turn to be). Tinha também balanços pesados como Cross town traffic e Gipsy eyes. E numa época em que a sofisticação barroco-progressiva começava a invadir o terreno das baladas radiofônicas (A whiter shade of pale, do Procol Harum, tinha virado chiclete de ouvido em 1967), Hendrix respondia à altura com Burning of midnight lamp.

Lembrando dos 50 anos da saída de cena de Jimi Hendrix, vai aí nosso relatório sobre Electric ladyland. Leia e ouça em alto volume.

SUCESSO, ENFIM. O Jimi Hendrix Experience já fazia sucesso em 1968. Mas a sensação do trio naquele ano era de que as coisas tinham dado certo de verdade. Não faltava grana, a perspectiva era de que o terceiro disco do grupo fosse gravado com tempo ilimitado de estúdio e, em especial, Jimi poderia gravar as canções assim que elas fossem feitas – o que cortava um pouco da pressão que rolou nos primeiros discos.

ISSO PORQUE os primeiros discos de Hendrix, Are you experienced? e Axis: bold as love, ambos de 1967, foram gravados rapidamente. Além da necessidade de ter algo nas lojas para satisfazer os fãs, o circo em torno de Hendrix exigia trabalho e lucros rápidos, e shows a todo momento. O ano de 1968 iniciou com a primeira grande turnê do grupo pelos Estados Unidos – com direito à volta triunfal de Hendrix à sua cidade natal, Seattle, em 12 de fevereiro.

SEM PRESSA. Essa rapidez para gravar era justamente o que Hendrix não queria repetir. Grande fã de improvisos musicais, ele estava cada vez mais envolvido com a ideia de gravar um álbum autoproduzido e cheio de jams – e, por acaso, estava meio cansado de ser vendido como um “artista pop”.

ALIÁS E A PROPÓSITO, Hendrix também costumava se queixar em entrevistas que os técnicos e produtores americanos só queriam manter a máquina funcionando e não estavam “nem aí” para o artista ou para a qualidade da música. “Dá para sentir que falta o ser humano, que o estúdio só está interessado na conta, nos 123 dólares por hora”, resmungava com o primeiro repórter que encontrasse.

CHAS SAIU. Em busca de mais liberdade no estúdio, Hendrix definiu que ele próprio tomaria conta das gravações de Electric ladyland – alienando um de seus principais colaboradores, o empresário e produtor Chas Chandler, que começou dividindo os serviços de produção com ele. Chas tinha investido na carreira de Hendrix, pagou do próprio bolso a gravação do single Hey Joe e produzira os primeiros discos. Só que ao reparar que as sessões de gravação estavam ficando meio descontroladas, com músicas feitas em cima da hora e jams que não tinham hora para acabar, achou que estava na hora de deixar o disco para lá. Acabou deixando Hendrix e foi empresariar o Slade, banda glam-casca-grossa que iniciava carreira na Inglaterra.

DO MAL. O guitarrista não ficou sozinho: o empresário Mike Jeffery, que dividia o trabalhos com Chas desde 1967 e financiava parte dos serviços, ficou tomando conta do Experience. Mas antes só do que pessimamente acompanhado. Quase todos os biógrafos de Hendrix concordam que Jeffery foi o maior vilão que Hendrix teve naquele período: enriqueceu graças ao trabalho duro do guitarrista, desviava cachês de shows para contas nas Bahamas, roubava direitos autorais do músico e, dizem várias testemunhas, chegou a simular o sequestro de Hendrix para ameaçá-lo caso denunciasse os roubos ou o dispensasse.

ALIÁS E A PROPÓSITO Pessoas ligadas a Hendrix contam que o guitarrista reclamava de ter que fazer shows em tudo quanto era canto em meio às gravações de Electric ladyland, justamente por causa de uma agenda extenuante montada por Jeffery.

APERTA O PLAY. A gravação de Electric ladyland havia sido iniciada pelo Experience de maneira absolutamente informal, em diversos estúdios nos Estados Unidos e no Reino Unido, entre julho de 1967 e janeiro de 1968. Em março de 1968, o trio, ainda ao lado de Chas, entrou no moderníssimo Record Plant Studios, em Nova York, para dar um acabamento naquele monte de jams e ideias. O objetivo de Hendrix era criar um disco que mostrasse os vários lados de seu trabalho como guitarrista, e de sua banda, mas que apontasse para um “funk elétrico”.

EDDIE KRAMER. O “técnico de som de Jimi Hendrix”, como ficou conhecido, já tinha trabalhado com bandas como Kinks e Beatles e vinha trabalhando com o guitarrista havia alguns anos. Foi tão responsável pelas experiências de Electric ladyland quanto ele, e embarcava em todas as viagens de Hendrix. Em entrevistas, lembrou que o grande trauma do guitarrista era sua voz, que considerava horrível. “Mas eu não diria que ele tivesse pontos fracos”, contou Eddie.

GARY KELLGREN. O outro técnico de som de Ladyland não era fraco, não. Gary trabalhara como engenheiro de som em discos como The Velvet Underground and Nico (1967) e foi um dos fundadores da pequena rede de estúdios Record Plant, que iniciara em 1967 em Manhattan. Electric ladyland seria o primeiro a sair das salas do recém-inaugurado estúdio em Nova York. Kellgren foi encontrado morto sob circunstâncias misteriosas ao lado da namorada na piscina de casa em 1977 aos 38 anos. Existe um site recordando seu trabalho.

NÃO É BAGUNÇA, NÃO. Logo que as gravações se iniciaram no Record Plant, ficou claro que o trabalho precisava de uma gerência mais firme – Chas, descontente com isso, como você já leu lá atrás, pulou fora. Hendrix fazia questão de repetir músicas diversas vezes, regravar diversas partes, compor no estúdio, etc. Em vários momentos, convidados e amigos apareciam no estúdio, tiravam o foco de todo o mundo e transformavam o clima em algo mais parecido com o de uma festa. Aos trancos e barrancos foi dando certo.

TRIO? Apesar do projeto ser creditado a Jimi Hendrix Experience, Electric Ladyland era o trabalho mais solo de Hendrix até então. O guitarrista tocou baixo em diversas músicas, até porque Noel Redding já estava com um pé fora do grupo e planejava outras coisas. Hendrix tocou também piano, percussão e até kazoo (é o barulho que aparece logo após a introdução de Cross town traffic). Animado com os trabalhos em estúdio, Hendrix achava que tocar várias coisas o ajudaria a pesquisar efeitos musicais e via seu baixo como sendo mais funky que o do amigo.

CONVIDADOS. O próprio Hendrix já estava com o pé fora do Experience, que considerava limitador, e chamou um monte de gente para tocar com ele no disco. A ficha técnica de Electric ladyland, como era comum naquela época, não creditava ninguém, mas passaram pelo Record Plant nomes como Steve Winwood (Traffic, órgao), Dave Mason (Traffic, vocais de apoio), Buddy Miles (bateria). Outro integrante do Traffic, Chris Wood, tocou flauta em 1983.

BRIAN JONES. O guitarrista dos Rolling Stones, que morreria em 1969, tocou percussão em All along the watchtower. E não só isso: ele também tocou piano numa versão da música que ficou de fora do disco. Bom, “tocou”, em termos: segundo testemunhas, Brian estava doidão e começou a tocar o instrumento durante a gravação sem ser solicitado, atrapalhando Hendrix e os outros músicos. Eddie Kramer resolveu o problema convidando Jones para “ouvir o que tinha sido gravado” – o músico levantou do banquinho, desabou na mesa de som e todo mundo terminou o trabalho rapidamente.

PEGADOR. Mesmo sempre envolvido com alguma namorada, Hendrix aproveitou bastante o clima de paz e amor dos anos 1960. Tanto que Electric ladyland era dedicado a elas, as groupies do Experience – que ele costumava chamar de “electric ladies”. São elas as mulheres elétricas da letra de Have you ever been (To Electric Ladyland).

DYLAN. Em Electric ladyland, Hendrix aproveitou para homenagear Bob Dylan, gravando sua All along the watchtower. A gravação de Hendrix se tornou o single mais vendido do Experience. O tema acústico gravado pelo autor no disco John Wesley Harding, de 1967, virou funk elétrico nas mãos de Hendrix, com as tais guitarras com “eco panorâmico”.

POR SINAL, a homenagem vinha na hora certa: foi justamente Dylan, com seu vocal esganiçado, que deu a Hendrix a certeza de que poderia também cantar. O compositor passou a cantar sua própria música com arranjo parecido com o de Hendrix e chegou a afirmar que ele melhorou a canção.

APERTA O STOP. Em outubro de 1968, Hendrix colocou o último acorde em Electric ladyland, em meio a mais uma turnê pelos Estados Unidos. As novas turnês foram dando mais ainda no saco do guitarrista, que se via como um prisioneiro de plateias e vendedores de shows. “Quem quer passar oito dias por semana sentado num avião para chegar e ver a cara das pessoas dizendo: ‘Você vai tocar fogo na guitarra hoje?'”, chegou a afirmar. “Os produtores nos veem como máquinas de fazer dinheiro e não têm confiança na gente. É um mundo cão. Eu sempre sei diferençar quem está sendo artificial e quem faz música de verdade, quem se importa com a música e com o que os músicos estão fazendo”.

SAIU! As primeiras cópias de Electric ladyland saíram em setembro de 1968. O esmero de Hendrix, ainda que tenha desagradado colaboradores, deu certo: o álbum foi o maior sucesso comercial de Hendrix e voou para o topo das paradas nos EUA. No Brasil, o disco saiu – como aconteceu também com Tommy, do Who – resumido a um só disco.

CD CONFUSO. Quando Electric ladyland saiu em CD, as primeiras edições traziam um erro que se tornou comum na transcrição de antigos LPs duplos para o formato. Boa parte das antigas edições em vinil de álbuns duplos trazia os lados A e D num disco e B e C num outro. A ideia era facilitar as coisas para quem ouvia o álbum em toca-discos automáticos.  Os primeiros CDs trazem os lados 1 e 4 no primeiro CD e assim por diante.

BAIXINHOS DO HENDRIX. O assunto “capas de disco” sempre foi delicado para Hendrix e para o Experience, desde o primeiro disco – as gravadoras sempre faziam modificações ou impunham ideias que ele detestava. No caso de Electric ladyland, Hendrix havia enviado para a Reprise, sua gravadora nos Estados Unidos, uma carta manuscrita pedindo que a firma usasse na capa uma foto de Linda Eastman (futura esposa de Paul McCartney) em que a banda posava com crianças na escultura de Alice No País das Maravilhas no Central Park.

Várias coisas que você já sabia sobre Electric Ladyland, de Jimi Hendrix

SEM BAIXINHOS. A Reprise fez questão de ignorar os pedidos de Hendrix e pôs na edição americana uma foto do guitarrista feita por Karl Ferris (o site Dangerous Minds publicou o histórico dessas capas indesejadas do terceiro álbum do Experience, com várias imagens, inclusive da tal carta do guitarrista). É a imagem que ilustra essa matéria.

MULHERADA. A edição britânica, lançada pela Track Records, acabou se tornando a mais célebre: o fotógrafo David Montgomery reuniu mulheres das mais diversas etnias, nuas num estúdio, e clicou a imagem. Deu merda: várias lojas se recusaram a vender o disco e o próprio Hendrix detestou a imagem, que classificou de apelativa (“e elas ainda por cima ficaram feias na foto”, reclamou).

Várias coisas que você já sabia sobre Electric Ladyland, de Jimi Hendrix

COMPRA, TIO. Montgomery vende cópias dessa foto em seu site pela bagatela de três mil dólares.

DEU MAIS MERDA DEPOIS. O Experience acabou durante a turnê de Electric ladyland. Hendrix, que nos últimos tempos falava até que queria “montar uma grande orquestra” e se dizia influenciado por compositores eruditos, foi tocar com outras pessoas. Em 1970, gravou Band of gypsys, seu último disco, com Billy Cox no baixo e Buddy Miles na bateria. E a capa teve mais problemas: a Track Records decidiu fazer das suas e pôs na capa um cenário que mais lembra um canteiro de obras, ou uma telha de amianto. Na frente, bonecos de Hendrix, Brian Jones, Bob Dylan e do DJ John Peel, meio amontoados. Na contracapa, um boneco de Hendrix. O guitarrista, canhoto, é retratado como destro na imagem (e já falamos disso aqui).

E já que você chegou até aqui, adivinha só que artista brasileiro é bastante influenciado por Jimi Hendrix e por Electric ladyland? Acertou quem disse Falcão, o humorista cearense. No clássico Prometo não ejacular na sua boca, ele incluiu na cara de pau o verso “e pelas marcas de pneu nas suas costas/eu vejo que você também andou se divertindo”, tradução literal do “tire tracks all across your back, uh-huh, I can see you had your fun”, de Cross town traffic.

Com material dos livros Jimi Hendrix’s Electric Ladyland, da série 33 1/3, escrito por John Perry, e Jimi Hendrix por ele mesmo, organizado por Alan Douglas e Peter Neal.

Veja também no POP FANTASMA:
– Demos o mesmo tratamento a Physical graffiti (Led Zeppelin), a Substance (New Order), ao primeiro disco do Black Sabbath, a End of the century (Ramones), ao rooftop concert, dos Beatles, e a London calling (Clash). E a Fun house (Stooges). E a New York (Lou Reed). E aos primeiros shows de David Bowie no Brasil.
– Demos uma mentidinha e oferecemos “coisas que você não sabe” ao falar de Rocket to Russia (Ramones) e Trompe le monde (Pixies).
– Mais Jimi Hendrix no POP FANTASMA aqui.

Crítica

Ouvimos: Paul McCartney e Wings, “One hand clapping”

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One hand clapping era uma espécie de tesouro secreto-mas-nem-tanto da era Wings de Paul McCartney. Primeiro porque o material já vinha surgindo havia anos em gravações piratas, e muita coisa chegou a reaparecer como bônus de relançamentos de luxo. Gravado “ao vivo no estúdio” (em Abbey Road) entre os dias 16 e 30 de agosto de 1974, em áudio e filme, deu a entender que Paul estava disposto a viver com sua nova banda tudo o que não havia vivido com os Beatles.

Lançado finalmente agora em disco, traz um conjunto precioso de canções – muitas delas pertencendo a era Band on the run (1973) – executadas de maneira urgente e despojada, mas com o rigor que Paul sempre se impôs. Há arranjos de orquestra (a London Symphony Orchestra tocou com traje de gala), as músicas soam similares às gravações em disco e não há espaços desocupados. Vocais, guitarras e sintetizadores (além do saxofone de Jet) estão todos ali, tocados pelo núcleo duro dos Wings (Paul, Linda McCartney e Denny Laine), ao lado de Jimmy McCulloch (guitarra), Geoff Britton (bateria) e convidados.

O conceito original de One hand clapping era igualmente mais despojado ainda. Isso porque a ideia de Paul (conforme o exposto em biografias do cantor) variava entre duas ideias. A primeira: fazer uma espécie de Get back/Let it be dos Wings, com a banda sendo filmada 24 horas por dia durante um ensaio. A outra: apenas gravar uma sessão do grupo em videotape para saber como a banda completa, que ainda não havia excursionado, se sairia no palco.

  • Temos episódio do nosso podcast sobre a era de Band on the run.
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O cineasta era o então inexperiente David Litchfield, que trabalhava como designer gráfico e editor de uma revista de arte que estava quase falindo (David admitiria mais tarde que o trabalho com o cantor salvou o pagamento de seus boletos). Paul havia informado a ele que o documentário era apenas para uso interno – mas não parecia, já que o projeto ganhou um título, One hand clapping. E o beatle gostou tanto da brincadeira que estava despejando uma montoeira de grana naquilo, além de gravar depoimentos e uma narração em off. O diretor chegou a ver Paul entrando em ação para fazer um músico da orquestra parar de enrolar no estúdio: o beatle simplesmente cantou as notas de um solo de violoncelo como se fossem palavras, para orientar o violoncelista. Acabou aplaudido pela orquestra.

No fim das contas, o documentário One hand clapping quase foi vendido a canais de TV, mas foi saindo do radar de Paul, mais ocupado com as brigas judiciais com o ex-empresário Allen Klein e com as turnês. Só chegou a público num relançamento de luxo de Band on the run em 2010. Nos depoimentos do cantor no filme, Paul garantia que adorava fazer parte de um grupo e que os Wings eram uma banda livre, que qualquer um “podia sair e voltar” (mentira: o artista dava esporros trágicos em músicos de sua banda que se envolvessem em projetos paralelos, e agia mais como um déspota boa praça do que como um administrador de clima).

O que importa é: One hand clapping, inteirinho, tá longe de ser um filler, uma encheção de linguiça. Mesmo quando parece ser, já que Paul recorda músicas dos Beatles (Let it be, Lady Madonna e The long and winding road) em vinhetas e parece sem tanta vontade assim de tocar seu repertório sessentista. Uma olhada distraída na lista de músicas já dá uma ideia do que há de magistral no disco. Músicas como Band on the run, Let me roll it, Jet e Live and let die surgem com a ourivesaria do trabalho em estúdio, e a urgência do material ao vivo.

O mesmo acontece com Nineteen hundred and eighty-five (aberta com Paul cantando e tocando a música ao piano, sem acompanhamento) e com Junior’s farm. E baladas como Maybe I’m amazed e My love sempre vão emocionar todo mundo. A lista é complementada com algumas covers (Blue moon of Kentucky, gravada por Elvis Presley, aparece com sotaque country, por exemplo), canções esquecidas dos Wings (o reggae C moon, de 1972) e uma ou outra brincadeira de estúdio. Um presente para os fãs, ainda mais por trazer um gênio do rock jogando uma pelada como se fosse uma partida clássica.

Nota: 8,5
Gravadora: MPL

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Cultura Pop

No nosso podcast. Rita Lee (e Roberto de Carvalho) entre 1980 e 1983

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No nosso podcast. Rita Lee (e Roberto de Carvalho) entre 1980 e 1983

No começo dos anos 1980, se bobear o Brasil tinha bem poucos seres humanos vivos que nunca tinham sequer ouvido falar de Rita Lee – uma cantora que, ao lado do marido Roberto de Carvalho, vendia muitos discos, tinha música em abertura de novela e ganhava especiais de TV no horário nobre. E como se não bastasse, era contratada do verdadeiro canhão de comunicação que era a Som Livre daquela época. Mesmo com a censura do fim do governo militar no contrapé, foi um período de shows inesquecíveis, muitos hits, álbuns lançados um atrás do outro, e uma verdadeira ritaleemania tomando conta do país.

Hoje no nosso podcast, o Pop Fantasma Documento, damos um sobrevoo na trajetória de Rita e Roberto no começo dos anos 1980 – a época dos álbuns Rita Lee (mais conhecido como Baila comigo, 1980), Saúde (1981), Rita Lee & Roberto de Carvalho (mais conhecido como Flagra, 1982) e Bom bom (1983). Ouça em alto volume e escute os discos depois.

Século 21 no podcast: Jane Penny e Bel Medula.

Estamos no Castbox, no Mixcloud, no Spotify, no Deezer e no Google Podcasts. 

Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch (fotos: reproduções das capas dos álbuns de Rita entre 1980 e 1983). Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.

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Crítica

Ouvimos: Alan Vega, “Insurrection”

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Ouvimos: Alan Vega, "Insurrection"

Alan Vega e sua ex-banda Suicide não eram apenas “rock industrial”. Eram música infernal, mostrando para todos os ouvintes que situações assustadoras eram vividas não apenas em filmes de terror, mas no dia a dia. No contato com vizinhos perturbados, na violência nossa de cada dia, na vida fodida dos debandados do capitalismo – que é o verdadeiro assunto de Frankie Teardrop, música assustadora lançada no epônimo primeiro disco da dupla formada por ele e Martin Rev, de 1977.

Vega viveu no limite: antes do Suicide ter qualquer tipo de sucesso, passou fome e enfrentou dificuldades. No palco, era do tipo que se cortava e saía sangrando dos shows. Seu som sempre teve ideais radicais, inclusive politicamente – ele chegou a ser atacado pela polícia ao participar de passeatas, e o Suicide homenageou Che Guevara na música Che. Dos dois integrantes do Suicide, hoje só Martin Rev vive para perturbar os ouvidos dos outros com som pesado, distorcido e sintetizado. Alan, que prosseguiu por décadas como lenda viva do punk e da música eletrônica, lançando discos e fazendo exposições de arte, teve um derrame em 2012 e morreu durante o sono em 2016.

Seu material como compositor, ironicamente, devia bastante às raízes do rock, e à postura de “herói” do estilo. O novaiorquino Alan era fanático por Iggy Pop e Stooges, e seu vocal variava entre dois uivos – o de Elvis Presley, cujo visual inicial trabalhado-no-couro passou a imitar, e evidentemente o de Iggy. Os primeiros álbuns solo de Alan variavam entre o synth-pop nervoso e uma espécie de rockabilly aceleradíssimo e violento (o melhor exemplo é a estreia epônima de Vega, lançada em 1980). Não custa lembrar que o som do Suicide, de fato, chegou a impressionar até mesmo Bruce Springsteen, que já disse ser (pode acreditar) fã da dupla.

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Insurrection é uma coletânea de gravações inéditas que estavam no baú de Alan. São músicas industriais e infernais feitas no fim dos anos 1990, todas falando sobre morte, sofrimento e contagem de mortos como se fosse algo natural, do dia a dia – e pensando bem, olhando os jornais e andando pelas ruas, é meio isso. É “bom de ouvir” dependendo do seu humor: é o disco das dançantes e góticas Sewer e Crash, do synth pop monocórdico Invasion, do pesadelo selvagem Cyanide soul e do lamento sonoro (de quase dez minutos) de Murder one.

Mercy é um estranho e assustador pedido de clemência, falando em gritos, anjos sangrando e tempestades sombrias. E nessa música o vocal de Alan lembra de verdade o de Elvis Presley, o que soa mais estranho ainda. Os beats são dados por uma percussão intermitente e tribal, seguida por uma batida eletrônica mais próxima do “dançante”. Soa mais insociável do que qualquer coisa lançada pelo Ministry ou pelo Alien Sex Fiend, por exemplo. Chains soa como entrar numa bizarra ressonância magnética de distorção. E Fireballer spirit oferece a mesma sensação, só que acrescida de barulhos eletrônicos.

Nota: 7,5
Gravadora: In The Red

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