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Cultura Pop

Várias coisas que você já sabia sobre Electric Ladyland, de Jimi Hendrix

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Várias coisas que você já sabia sobre Electric Ladyland, de Jimi Hendrix

Nada continuou o mesmo depois que Electric ladyland, terceiro disco de Jimi Hendrix (ou melhor, de sua banda, o Experience) foi feito, em 1968. Ponto final.

Black Sabbath, estreia do grupo homônimo, formatou o heavy metal, certo? Já o álbum duplo de Hendrix fez só um pouco mais que isso: foi a pedra inicial do hard rock setentista, do metal, do stoner rock, da união de som pesado e psicodelia, do rock progressivo. Inspirou blueseiros, jazzistas e músicos como Santana e Prince. Deu razões para vários músicos resolverem controlar seus próprios discos, sem nenhum produtor almofadinha por trás. Pôs no imaginário pop a figura do músico que usa a sala de gravação como um instrumento – e na época do disco, Hendrix já concebia seu estúdio, que ficaria pronto em 1970 e se chamava (se chama, aliás) justamente Electric Lady.

Electric ladyland, comparado com a produção do rock da mesma época, deixou um furo tão grande no tempo que, em 1968, não havia tanta gente capaz de dimensionar isso. Por mais que Sgt Pepper’s, dos Beatles, tivesse sido lançado no ano anterior, Hendrix e seus colegas Mitch Mitchell (bateria) e Noel Redding (baixo) conseguiram transformar a psicodelia em algo quase palpável, criando um modelo para quem quisesse unir peso, distorções e viagens psicodélicas. Não havia orquestras, letras “cinematográficas” ou algo do tipo. E boa parte do material era só guitarra, baixo e bateria gravados com apuro técnico, além de improvisos de grosso calibre.

Hendrix e o técnico de som Eddie Kramer faziam brincadeiras com a estereofonia (a guitarra que-passa-de-um-canal-para-o-outro de All along the watchtower, cover de Bob Dylan, causou uivos em músicos em 1968) e inseriam nos sulcos do vinil canções tão cheias de efeitos (como a vinheta introdutória …And the gods made love) que faziam com que muita gente pensasse que o disco estava com defeito de prensagem. Sim, isso aconteceu bastante.

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No mais, havia improvisos de mais de dez minutos, em Voodoo child (Slight return). Havia instrumentais meditativos, como na segunda parte de 1983… (A merman I should turn to be). Tinha também balanços pesados como Cross town traffic e Gipsy eyes. E numa época em que a sofisticação barroco-progressiva começava a invadir o terreno das baladas radiofônicas (A whiter shade of pale, do Procol Harum, tinha virado chiclete de ouvido em 1967), Hendrix respondia à altura com Burning of midnight lamp.

Lembrando dos 50 anos da saída de cena de Jimi Hendrix, vai aí nosso relatório sobre Electric ladyland. Leia e ouça em alto volume.

SUCESSO, ENFIM. O Jimi Hendrix Experience já fazia sucesso em 1968. Mas a sensação do trio naquele ano era de que as coisas tinham dado certo de verdade. Não faltava grana, a perspectiva era de que o terceiro disco do grupo fosse gravado com tempo ilimitado de estúdio e, em especial, Jimi poderia gravar as canções assim que elas fossem feitas – o que cortava um pouco da pressão que rolou nos primeiros discos.

ISSO PORQUE os primeiros discos de Hendrix, Are you experienced? e Axis: bold as love, ambos de 1967, foram gravados rapidamente. Além da necessidade de ter algo nas lojas para satisfazer os fãs, o circo em torno de Hendrix exigia trabalho e lucros rápidos, e shows a todo momento. O ano de 1968 iniciou com a primeira grande turnê do grupo pelos Estados Unidos – com direito à volta triunfal de Hendrix à sua cidade natal, Seattle, em 12 de fevereiro.

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SEM PRESSA. Essa rapidez para gravar era justamente o que Hendrix não queria repetir. Grande fã de improvisos musicais, ele estava cada vez mais envolvido com a ideia de gravar um álbum autoproduzido e cheio de jams – e, por acaso, estava meio cansado de ser vendido como um “artista pop”.

ALIÁS E A PROPÓSITO, Hendrix também costumava se queixar em entrevistas que os técnicos e produtores americanos só queriam manter a máquina funcionando e não estavam “nem aí” para o artista ou para a qualidade da música. “Dá para sentir que falta o ser humano, que o estúdio só está interessado na conta, nos 123 dólares por hora”, resmungava com o primeiro repórter que encontrasse.

CHAS SAIU. Em busca de mais liberdade no estúdio, Hendrix definiu que ele próprio tomaria conta das gravações de Electric ladyland – alienando um de seus principais colaboradores, o empresário e produtor Chas Chandler, que começou dividindo os serviços de produção com ele. Chas tinha investido na carreira de Hendrix, pagou do próprio bolso a gravação do single Hey Joe e produzira os primeiros discos. Só que ao reparar que as sessões de gravação estavam ficando meio descontroladas, com músicas feitas em cima da hora e jams que não tinham hora para acabar, achou que estava na hora de deixar o disco para lá. Acabou deixando Hendrix e foi empresariar o Slade, banda glam-casca-grossa que iniciava carreira na Inglaterra.

DO MAL. O guitarrista não ficou sozinho: o empresário Mike Jeffery, que dividia o trabalhos com Chas desde 1967 e financiava parte dos serviços, ficou tomando conta do Experience. Mas antes só do que pessimamente acompanhado. Quase todos os biógrafos de Hendrix concordam que Jeffery foi o maior vilão que Hendrix teve naquele período: enriqueceu graças ao trabalho duro do guitarrista, desviava cachês de shows para contas nas Bahamas, roubava direitos autorais do músico e, dizem várias testemunhas, chegou a simular o sequestro de Hendrix para ameaçá-lo caso denunciasse os roubos ou o dispensasse.

ALIÁS E A PROPÓSITO Pessoas ligadas a Hendrix contam que o guitarrista reclamava de ter que fazer shows em tudo quanto era canto em meio às gravações de Electric ladyland, justamente por causa de uma agenda extenuante montada por Jeffery.

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APERTA O PLAY. A gravação de Electric ladyland havia sido iniciada pelo Experience de maneira absolutamente informal, em diversos estúdios nos Estados Unidos e no Reino Unido, entre julho de 1967 e janeiro de 1968. Em março de 1968, o trio, ainda ao lado de Chas, entrou no moderníssimo Record Plant Studios, em Nova York, para dar um acabamento naquele monte de jams e ideias. O objetivo de Hendrix era criar um disco que mostrasse os vários lados de seu trabalho como guitarrista, e de sua banda, mas que apontasse para um “funk elétrico”.

EDDIE KRAMER. O “técnico de som de Jimi Hendrix”, como ficou conhecido, já tinha trabalhado com bandas como Kinks e Beatles e vinha trabalhando com o guitarrista havia alguns anos. Foi tão responsável pelas experiências de Electric ladyland quanto ele, e embarcava em todas as viagens de Hendrix. Em entrevistas, lembrou que o grande trauma do guitarrista era sua voz, que considerava horrível. “Mas eu não diria que ele tivesse pontos fracos”, contou Eddie.

GARY KELLGREN. O outro técnico de som de Ladyland não era fraco, não. Gary trabalhara como engenheiro de som em discos como The Velvet Underground and Nico (1967) e foi um dos fundadores da pequena rede de estúdios Record Plant, que iniciara em 1967 em Manhattan. Electric ladyland seria o primeiro a sair das salas do recém-inaugurado estúdio em Nova York. Kellgren foi encontrado morto sob circunstâncias misteriosas ao lado da namorada na piscina de casa em 1977 aos 38 anos. Existe um site recordando seu trabalho.

NÃO É BAGUNÇA, NÃO. Logo que as gravações se iniciaram no Record Plant, ficou claro que o trabalho precisava de uma gerência mais firme – Chas, descontente com isso, como você já leu lá atrás, pulou fora. Hendrix fazia questão de repetir músicas diversas vezes, regravar diversas partes, compor no estúdio, etc. Em vários momentos, convidados e amigos apareciam no estúdio, tiravam o foco de todo o mundo e transformavam o clima em algo mais parecido com o de uma festa. Aos trancos e barrancos foi dando certo.

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TRIO? Apesar do projeto ser creditado a Jimi Hendrix Experience, Electric Ladyland era o trabalho mais solo de Hendrix até então. O guitarrista tocou baixo em diversas músicas, até porque Noel Redding já estava com um pé fora do grupo e planejava outras coisas. Hendrix tocou também piano, percussão e até kazoo (é o barulho que aparece logo após a introdução de Cross town traffic). Animado com os trabalhos em estúdio, Hendrix achava que tocar várias coisas o ajudaria a pesquisar efeitos musicais e via seu baixo como sendo mais funky que o do amigo.

CONVIDADOS. O próprio Hendrix já estava com o pé fora do Experience, que considerava limitador, e chamou um monte de gente para tocar com ele no disco. A ficha técnica de Electric ladyland, como era comum naquela época, não creditava ninguém, mas passaram pelo Record Plant nomes como Steve Winwood (Traffic, órgao), Dave Mason (Traffic, vocais de apoio), Buddy Miles (bateria). Outro integrante do Traffic, Chris Wood, tocou flauta em 1983.

BRIAN JONES. O guitarrista dos Rolling Stones, que morreria em 1969, tocou percussão em All along the watchtower. E não só isso: ele também tocou piano numa versão da música que ficou de fora do disco. Bom, “tocou”, em termos: segundo testemunhas, Brian estava doidão e começou a tocar o instrumento durante a gravação sem ser solicitado, atrapalhando Hendrix e os outros músicos. Eddie Kramer resolveu o problema convidando Jones para “ouvir o que tinha sido gravado” – o músico levantou do banquinho, desabou na mesa de som e todo mundo terminou o trabalho rapidamente.

PEGADOR. Mesmo sempre envolvido com alguma namorada, Hendrix aproveitou bastante o clima de paz e amor dos anos 1960. Tanto que Electric ladyland era dedicado a elas, as groupies do Experience – que ele costumava chamar de “electric ladies”. São elas as mulheres elétricas da letra de Have you ever been (To Electric Ladyland).

DYLAN. Em Electric ladyland, Hendrix aproveitou para homenagear Bob Dylan, gravando sua All along the watchtower. A gravação de Hendrix se tornou o single mais vendido do Experience. O tema acústico gravado pelo autor no disco John Wesley Harding, de 1967, virou funk elétrico nas mãos de Hendrix, com as tais guitarras com “eco panorâmico”.

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POR SINAL, a homenagem vinha na hora certa: foi justamente Dylan, com seu vocal esganiçado, que deu a Hendrix a certeza de que poderia também cantar. O compositor passou a cantar sua própria música com arranjo parecido com o de Hendrix e chegou a afirmar que ele melhorou a canção.

APERTA O STOP. Em outubro de 1968, Hendrix colocou o último acorde em Electric ladyland, em meio a mais uma turnê pelos Estados Unidos. As novas turnês foram dando mais ainda no saco do guitarrista, que se via como um prisioneiro de plateias e vendedores de shows. “Quem quer passar oito dias por semana sentado num avião para chegar e ver a cara das pessoas dizendo: ‘Você vai tocar fogo na guitarra hoje?’”, chegou a afirmar. “Os produtores nos veem como máquinas de fazer dinheiro e não têm confiança na gente. É um mundo cão. Eu sempre sei diferençar quem está sendo artificial e quem faz música de verdade, quem se importa com a música e com o que os músicos estão fazendo”.

SAIU! As primeiras cópias de Electric ladyland saíram em setembro de 1968. O esmero de Hendrix, ainda que tenha desagradado colaboradores, deu certo: o álbum foi o maior sucesso comercial de Hendrix e voou para o topo das paradas nos EUA. No Brasil, o disco saiu – como aconteceu também com Tommy, do Who – resumido a um só disco.

CD CONFUSO. Quando Electric ladyland saiu em CD, as primeiras edições traziam um erro que se tornou comum na transcrição de antigos LPs duplos para o formato. Boa parte das antigas edições em vinil de álbuns duplos trazia os lados A e D num disco e B e C num outro. A ideia era facilitar as coisas para quem ouvia o álbum em toca-discos automáticos.  Os primeiros CDs trazem os lados 1 e 4 no primeiro CD e assim por diante.

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BAIXINHOS DO HENDRIX. O assunto “capas de disco” sempre foi delicado para Hendrix e para o Experience, desde o primeiro disco – as gravadoras sempre faziam modificações ou impunham ideias que ele detestava. No caso de Electric ladyland, Hendrix havia enviado para a Reprise, sua gravadora nos Estados Unidos, uma carta manuscrita pedindo que a firma usasse na capa uma foto de Linda Eastman (futura esposa de Paul McCartney) em que a banda posava com crianças na escultura de Alice No País das Maravilhas no Central Park.

Várias coisas que você já sabia sobre Electric Ladyland, de Jimi Hendrix

SEM BAIXINHOS. A Reprise fez questão de ignorar os pedidos de Hendrix e pôs na edição americana uma foto do guitarrista feita por Karl Ferris (o site Dangerous Minds publicou o histórico dessas capas indesejadas do terceiro álbum do Experience, com várias imagens, inclusive da tal carta do guitarrista). É a imagem que ilustra essa matéria.

MULHERADA. A edição britânica, lançada pela Track Records, acabou se tornando a mais célebre: o fotógrafo David Montgomery reuniu mulheres das mais diversas etnias, nuas num estúdio, e clicou a imagem. Deu merda: várias lojas se recusaram a vender o disco e o próprio Hendrix detestou a imagem, que classificou de apelativa (“e elas ainda por cima ficaram feias na foto”, reclamou).

Várias coisas que você já sabia sobre Electric Ladyland, de Jimi Hendrix

COMPRA, TIO. Montgomery vende cópias dessa foto em seu site pela bagatela de três mil dólares.

DEU MAIS MERDA DEPOIS. O Experience acabou durante a turnê de Electric ladyland. Hendrix, que nos últimos tempos falava até que queria “montar uma grande orquestra” e se dizia influenciado por compositores eruditos, foi tocar com outras pessoas. Em 1970, gravou Band of gypsys, seu último disco, com Billy Cox no baixo e Buddy Miles na bateria. E a capa teve mais problemas: a Track Records decidiu fazer das suas e pôs na capa um cenário que mais lembra um canteiro de obras, ou uma telha de amianto. Na frente, bonecos de Hendrix, Brian Jones, Bob Dylan e do DJ John Peel, meio amontoados. Na contracapa, um boneco de Hendrix. O guitarrista, canhoto, é retratado como destro na imagem (e já falamos disso aqui).

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E já que você chegou até aqui, adivinha só que artista brasileiro é bastante influenciado por Jimi Hendrix e por Electric ladyland? Acertou quem disse Falcão, o humorista cearense. No clássico Prometo não ejacular na sua boca, ele incluiu na cara de pau o verso “e pelas marcas de pneu nas suas costas/eu vejo que você também andou se divertindo”, tradução literal do “tire tracks all across your back, uh-huh, I can see you had your fun”, de Cross town traffic.

Com material dos livros Jimi Hendrix’s Electric Ladyland, da série 33 1/3, escrito por John Perry, e Jimi Hendrix por ele mesmo, organizado por Alan Douglas e Peter Neal.

Veja também no POP FANTASMA:
– Demos o mesmo tratamento a Physical graffiti (Led Zeppelin), a Substance (New Order), ao primeiro disco do Black Sabbath, a End of the century (Ramones), ao rooftop concert, dos Beatles, e a London calling (Clash). E a Fun house (Stooges). E a New York (Lou Reed). E aos primeiros shows de David Bowie no Brasil.
– Demos uma mentidinha e oferecemos “coisas que você não sabe” ao falar de Rocket to Russia (Ramones) e Trompe le monde (Pixies).
– Mais Jimi Hendrix no POP FANTASMA aqui.

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Cultura Pop

Tem aniversário de Controversy, do Prince, vindo aí!

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A capa do quarto disco de Prince, Controversy (lançado em 14 de outubro de 1981 e prestes a fazer 40 anos) já era (hum, ok) controversa. Transformado em escândalo público por causa do disco anterior, Dirty mind (1980, e do qual já falamos aqui), Prince estava nas manchetes. E elas estavam, de brincadeira, na capa do novo álbum.

Dirty mind tinha dado uma bela crescida musical – do pós disco dos álbuns anteriores, a uma mistura de soul, rock, um tantinho de psicodelia e até folk urbano herdado de Joni Mitchell. A crítica não deixou de prestar atenção nas letras beem safadas do álbum – que se chamava “mente poluída” e trazia Prince em frente às molas de uma cama, na capa. Robert Christgau comparou Prince a Jim Morrison e John Lennon, e ainda arrematou com uma frase lapidar: “Mick Jagger deveria recolher seu pau e ir para casa”. Na Rolling Stone, Ken Tucker dizia que Prince era um romântico ingênuo nos dois primeiros discos, mas finalmente estava à solta nas sacanagens e na música.

Controversy foi lançado doze meses após Dirty mind, e foi feito numa época de bastante trabalho para Prince – que pouco antes tinha produzido, assinando o trabalho como Jamie Starr, o disco de estreia do The Time, banda liderada pelo seu vocalista Morris Day. Como na época vários colunistas de jornal já faziam comentários sobre a sexualidade do cantor, não tinha como o assunto ficar de fora do álbum, a faixa-título (que abre o disco) já abre com vários questionamentos: “Sou preto ou branco? Eu sou hetero ou gay?/ Controvérsia / Eu acredito em Deus?/Eu acredito em mim?/Controvérsia”, perguntava Prince.

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>>> Mais Prince no POP FANTASMA aqui.

Não era só nos jornais que Prince passava por esse tipo de situação. Abrindo para os Rolling Stones em 9 de outubro de 1981, o cantor (usando a roupa da época da turnê Dirty mind, que incluía uma tanguinha preta) foi vaiado e ouviu xingamentos homofóbicos da plateia, no Memorial Coliseum, em Los Angeles.

Não só vaias: Prince e seus músicos foram atingidos por comida, latas, garrafas e tudo o que estivesse ao alcance do público. Prince ia desistindo de fazer o show do dia 11 de outubro, ate que Mick Jagger ligou para ele para encorajá-lo. “Eu disse a ele: se você chega a ser uma atração principal realmente grande, você tem que estar preparado para as pessoas jogarem garrafas em você à noite. Preparado para morrer!”, brincou Jagger.

Em Controversy, mais uma vez Prince tocou tudo “sozinho” – enfim, mais ou menos, porque em Jack U off, a última faixa, aparecem Bobby Z. (bateria), Lisa Coleman (teclados e vocais de fundo) e Dr. Fink (teclados). Andre Cymone, baixista de turnê de Prince, compôs a safadíssima Do me baby. Mas como estava sendo cada vez mais comum no universo de Prince naquela época, não recebeu crédito pela faixa, que apareceu assinada pelo patrão nas primeiras edições.

Não era o único momento de safadeza no disco, claro. Private joy era pura sacanagem, com versos como “todos os outros garotos amariam transar com você, mas você é meu brinquedo privativo” e “você pertence a Prince”. Mas Sexuality inovava por misturar sexo, política e futurismo (“precisamos de uma nova raça, líderes, levante-se, organize-se/não deixe seus filhos assistirem televisão até que saibam ler”).

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Anne Christian era a resposta de Prince ao levante pós-punk, com peso, intensidade e uma letra que fala sobre uma prostituta que “matou John Lennon, atirou nele a sangue frio” e “tentou matar Reagan”. Ronnie, talk to Russia mostrava que Prince vinha acompanhando as tensões entre Ronald Reagan, então presidente dos EUA, e o governo da União Soviética, mas que estava do lado do seu país, enfim (“você pode ir ao zoológico, mas não alimente guerrilheiros de esquerda”).

Para os fãs brasileiros, Controversy trazia uma novidade: Dirty mind não tinha saído aqui em tempo real (só foi lançado no Brasil em 1990!), mas o quarto disco de Prince saiu aqui imediatamente. Com um aviso na capa: “inclui Sexuality e Controversy“. Incluía mesmo.

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Cinema

Urban struggle: tem documentário raro sobre punk californiano na web

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Sabe aquele vizinho fascista que você detesta, e que também tem uma relação péssima com você? Pois bem, o conto dos vizinhos que se odeiam mutuamente ganhou proporções astronômicas e perigosas com o relacionamento bizarro entre dois bares californianos: o boteco punk Cuckoo’s Nest e o bar de cowboys urbanos Zubie’s. Os dois ficavam um ao lado do outro na cidade de Costa Mesa, localizada em Orange County, região com cena punk fortíssima.

O Cuckoo’s Nest era um local importante para o punk da Califórnia, a ponto de bandas como Black Flag, Circle Jerks, Fear e TSOL teram tocado lá. E do primeiro show do Black Flag com Henry Rollins no vocal ter acontecido na casa, no dia 21 de agosto de 1981. Bandas como Ramones e Bad Brains, ao passarem pela cidade, sempre tocavam lá. Já o Zubie’s, lotado de playboys no estilo country, costumava ser um problema para os punks: os cowboys invadiam o local, arrumavam brigas com os punks e os insultavam usando termos homofóbicos.

Vale citar que mesmo dentro do Cuckoo’s Nest as coisas não eram fáceis, até porque “movimento punk” significava uma porrada de gente reunida, com motivações diferentes e estilos de vida conflitantes. Tipos violentos e machistas começaram a frequentar o local e a arrumar briga com os frequentadores. E quem viu o documentário The other f… word, da cineasta e roteirista Andrea Blaugrund Nevins, recorda que o rolê punk na Califórnia era muito violento.

Flea, baixista dos Red Hot Chili Peppers – e que tocou no Fear por alguns tempos nos anos 1980 – lembra em The other f… word que, no começo dos anos 1980, uma cena comum nos shows do Black Flag eram as inúmeras brigas nas quais os fãs eram esmurrados e nocauteados, apenas por terem o cabelo ou a roupa assim ou assado. “As pessoas não somente tomavam porrada, elas acabavam no hospital. Havia ambulâncias transportando os fãs após os shows a todo momento!”.

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O Cuckoo’s Nest ficou aberto de 1976 até 1981 e nunca deixou de ter problemas. O proprietário Jerry Roach lutava para manter a casa aberta, dialogava da maneira que dava com policiais, com clientes e até com a turma enorme de hippies, cabeludos e malucos que pulava de galho em galho na Califórnia.

E essa longa introdução é só pra avisar que jogaram no YouTube o documentário  Urban struggle: The battle of the Cuckoo’s Nest, dirigido em 1981 por Paul Young.  Infelizmente sem legendas.

Tem uma edição melhor no Vimeo. Sem legendas também.

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Num dos depoimentos do documentário, Jerry define a atitude dos punks como “foda-se, vivo de acordo com minhas regras”. Mas diz que não vê hippies como sendo pessoas da paz e do amor o tempo todo, e muito menos enxerga punks como odiadores contumazes. “É só um conflito de gerações”, disse Jerry, que – você talvez já tenha imaginado – batizou o local em homenagem ao filme Um estranho no ninho, de Milos Forman (o nome no original era One flew over the cuckoo’s nest).

Tanto os músicos quanto Jerry falam bastante a respeito de brigas com a polícia – o dono do local relata as vezes em que conversou com os agentes – e reclamam da violência policial. Por acaso, um dos agentes é entrevistado, e os meganhas locais, seguindo o exemplo dos cowboys, não tinham o menor apreço pelos punks. A luta de Jerry para manter o local aberto também está no doc. Mas se você quer sair fora das discussões, o documentário ainda tem apresentações bem legais do Black Flag, Circle Jerks e TSOL.

Paul Young, o autor do filme, era um estudante de cinema que tinha sido contratado por Jerry para filmar as invasões da polícia ao local. Acabou sendo responsável pelo documentário, e anos depois acabou ficando bastante indignado quando viu o filme We were feared – The story of The Cuckoo’s Nest, de Jonathan WC Mills, e reconheceu várias de suas imagens lá.

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Cultura Pop

Tears For Fears: descubra agora (??)

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“E alguém precisa descobrir Tears For Fears?”, você deve estar se perguntando, certo? Relaxa: essa foi nossa desculpa para falar de TFF, uma das bandas preferidas aqui do POP FANTASMA, e um dos grupos (uma dupla, enfim) mais importantes da música pop de todos os tempos.

Roland Orzabal e Curt Smith ensinaram grandes plateias a curtir pós-punk com letras politizadas e introspectivas (o primeiro disco, The hurting, de 1983, é isso), fizeram a transição para uma espécie de tecnojazzrockpop de arena (Songs from the big chair, de 1985) e migraram para o som orgânico e jazzístico na época certa (The seeds of love, de 1989, era “o” disco que você precisava ouvir no início da era do CD).

Sem Curt Smith, Roland continuou com a bandeira do pop elaborado em mais dois bons discos, Elemental (1993) e Raoul and the kings of Spain (1995). A dupla voltou a se encontrar num disco injustamente fracassado, que tinha coisas que caberiam em discos de Beach Boys e Todd Rundgren, Everybody loves a happy ending (2004). Tem um disco novo vindo aí, The tipping point, marcado para fevereiro de 2022. E você vai ter bastante trabalho se resolver procurar uma música menos que boa nos álbuns deles.

Tá aí nossa lista de músicas que você deve ouvir hoje.  Ouça lendo e leia ouvindo. E tá uma lista bem grande…

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“MAD WORLD” (The hurting, 1983). Comparada a Unknown pleasures, do Joy Division, a estreia do TFF chega a assustar pela quantidade de temas corrosivos e depressivos nos quais a dupla mexeu: depressão, abuso infantil, pais que sufocam os filhos com problemas pessoais e expectativas, bullying. Orzabal não economizou nessa música, um retrato bem sombrio da infância e do dia a dia escolar.

“PALE SHELTER” (The hurting, 1983). O que parece ser apenas uma canção de desilusão amorosa, é na verdade uma música sobre abandono parental. Foi gravada inicialmente em 1982 com o nome de Pale shelter (You don’t give me love) e depois regravada para um outro single e para o primeiro álbum. O clipe, que você provavelmente já viu, é um primor de surrealismo (com várias imagens aleatórias) e destemor (a dupla passeia em meio a uma guerra de aviões de papel e Orzabal quase leva um aviãozinho no olho).

“WATCH ME BLEED” (The hurting, 1983). “O que sobra de mim ou de qualquer pessoa/quando negamos a dor?”. “Estou cheio, mas me sentindo vazio/Por todo o calor, é tão frio”. Uma das melhores músicas do primeiro disco do TFF tem uma letra que, numa análise retrospectiva, pode ser comparada aos melhores momentos de Renato Russo – e a introdução de violão caberia perfeitamente em Legião Urbana Dois. Enquanto você pensa sobre as influências do Tears For Fears na Legião, ouça a música, que sequer foi lançada como single.

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“THE PRISONER” (The hurting, 1983). Experimente tocar essa música para um bando de amigos e diga que é um lado B do Nine Inch Nails. Dá para enganar. Apesar dos vocais sussurrados, do peso e da letra sufocante (sobre uma criança oprimida e amedrontada), o final é feliz (“o amor me liberta/o prisioneiro agora está fugindo”). Foi o lado B do single de Pale shelter.

“THE WAY YOU ARE” (single, 1983). Uma rara canção escrita pela “formação completa” do grupo (Roland, Curt, o baterista Manny Elias e o tecladista Ian Stanley), feita para um single que serviu de produto intermediário entre o primeiro e o segundo disco. Um bom reggae tecno que é a cara dos anos 1980, mas que Roland e Curt execram. “Foi a pior coisa que fizemos”, destroçou Smith sem dó nas notas de uma coletânea da banda que trazia essa música (!), Saturnine martial & lunatic. Mas na época, saiu até clipe.

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“SHOUT” (Songs from the big chair, 1985). Orzabal e Smith dizem que essa música não tem tanto assim a ver com a terapia do grito primal (que inspirou o nome da banda), e sim com protesto político. “É protesto na medida em que incentiva as pessoas a não fazerem as coisas sem questioná-las. As pessoas agem sem pensar porque é assim que as coisas acontecem na sociedade”, disse Smith. Roland começou a compor a canção com sintetizador e bateria eletrônica, e de início tinha só um refrão, concluído pelo tecladista Ian Stanley, um cara importantíssimo na formatação do estilo “Tears For Fears” de fazer música.

“EVERYBODY WANTS TO RULE THE WORLD” (Songs from the big chair, 1985). Música composta por Orzabal, Ian Stanley e pelo produtor Chris Hughes, cuja letra já teve mil interpretações diferentes, mas fala mesmo era sobre a briga EUA X URSS pelo poder mundial (enfim, a Guerra Fria). Smith, cantor da faixa, ficou particularmente puto com uma interpretação do National Review que via pontos de vista conservadores na letra. “Ironia e sarcasmo claramente não são seu forte”, twittou para o periódico.

“HEAD OVER HEELS” (Songs from the big chair, 1985). Orzabal descreve essa música como “uma canção de amor que acaba ficando meio perversa”. Um clássico do amor, da dependência e da pouca habilidade para lidar com a complexidades das relações humanas. O clipe, gravado na biblioteca do Emmanuel College, no Canadá, virou um clássico.

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“THE WORKING HOUR” (Songs from the big chair, 1985). O tom meio jazz-meio prog da segunda faixa de Songs… era moda em 1985 – Sting não largou o Police para misturar música pop, jazz e new wave à toa. A letra era um primor de desencanto com a “vida real”. Não saiu em single.

“WOMAN IN CHAINS” (The seeds of love, 1989). Foi assistindo a um show bem simples da cantora Oleta Adams num hotel no Kansas em 1985, que Orzabal e Smith tiveram a ideia de partir para um mergulho “orgânico” no terceiro disco, já cansados dos sintetizadores e samplers da turnê de Songs… E para ajudar no trabalho, convidaram a cantora. Woman in chains é tida como uma “canção feminista” e é inspirada por um livro que Roland estava lendo sobre sociedades matriarcais. Orzabal resolveu escrever sobre como o feminino costuma ser minimizado. Mas Oleta suou no estúdio para agradar à dupla: soltou a voz num tom agudo incomum para ela.

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“SOWING THE SEEDS OF LOVE” (The seeds of love, 1989). A neopsicodelia que deu certo, tocou em rádio e vendeu discos: Smith e Orzabal (compondo em parceria) lançaram uma pérola pop-rock com referências a Beatles (I am the walrus foi citada por quase todo mundo) e pequenas porradas políticas na letra (Margaret Thatcher é a “vovó política” da letra).

“ADVICE FOR THE YOUNG AT HEART” (The seeds of love, 1989). Neobossa pop que ajudou a conquistar novos públicos para o grupo: no Brasil o TFF tocava até em rádios AM e esteve numa trilha de novela (a pouco lembrada Gente fina). O clipe da faixa, dirigido por Andy Morahan, valia por um curta-metragem: mostrava cenas de um “feliz” casamento latino em que, aqui e ali, dava para perceber que as coisas não iam tão bem assim (além de mostrar cenas excelentes de ranço e caras-viradas entre Curt e Orzabal).

“ALWAYS IN THE PAST” (single, 1989). O lado B de Woman in chains lembrava muita coisa que geralmente não era associada ao TFF: até mesmo a fase pop do Genesis, só que sob um ponto de vista mais sombrio. Saiu depois num relançamento de Seeds of love.

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“BREAK IT DOWN AGAIN” (do disco Elemental, 1993). Após várias brigas e climões, Curt Smith saiu do grupo, deixando Orzabal livre para carregar o nome (e lançar uma ou outra canção malcriada em relação ao ex-amigo). O primeiro single do novo disco é a única música que sobrou nos shows da dupla quando Smith voltou. O parceiro de canções de Orzabal na época era Alan Griffiths, cuja banda The Escape tinha aberto shows do TFF em 1983.

“BRIAN WILSON SAID” (do disco Elemental, 1993). Uma canção desencantada que poderia estar no clássico dos Beach Boys, Pet sounds, mas que tinha o mesmo tom jazz-pop-introspectivo de alguns momentos de The seeds of love e Songs from the big chair. A letra, curiosamente, tinha o mesmo tom amargo dos hits de bandas como Nirvana, que liderava as rádios na época (abria com a frase “minha vida, nada foi fácil até agora”).

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“RAOUL AND THE KINGS OF SPAIN” (do disco Raoul and the kings of Spain, 1995). Usando um nome que quase havia sido dado ao disco The seeds of love, Orzabal entrou numa egotrip daquelas: fez um pop meio progressivoide (e bom) para falar de histórias de sua família – Roland, por sinal, quase se chamou Raoul, mas sua mãe resolveu que era melhor ele ter um nome mais anglicizado.

“ME AND MY BIG IDEAS” (do disco Raoul and the kings of Spain, 1995). Baladão que, com um pouco mais de produção, poderia estar em The seeds of love – e que, opa, marca o reencontro do TFF com Oleta Adams. Na época, Oleta estava na Fontana, antiga gravadora do grupo, e tinha lançado o quinto disco, Moving on.

“EVERYBODY LOVES A HAPPY ENDING” (do disco Everybody loves a happy ending, de 2004). Smith e Orzabal voltaram a se falar por causa de razões extra-música (a dupla ainda era dona de empreendimentos imobiliários) e… por que não fazer um disco novo? A faixa-título do álbum da “volta” (que vendeu bem pouco) lembrava Beach Boys, Todd Rundgren, 10cc e tudo de bom que você pudesse imaginar.

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“CLOSEST THING TO HEAVEN” (do disco Everybody loves a happy ending, de 2004). Baladão que, caso tivesse um belo glacê de eletrônicos, poderia estar em Songs from the big chair. O clipe tem participação da atriz Brittany Murphy, que morreria em 2009. Essa música chegou a tocar em rádio no Brasil.

“SECRET WORLD” (do disco Everybody loves a happy ending, de 2004). Uma balada tão bonita que encerra com aplausos. Deu nome ao primeiro disco ao vivo da banda, de 2006.

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“AND I WAS A BOY FROM SCHOOL” (do EP Ready boys & girls?, de 2014). Para comemorar o Record Store Day de 2014, o TFF soltou um EP indie com três covers, de Animal Collective, Arcade Fire e Hot Chip (a faixa em questão). Na época, chegou a ser divulgado que a banda estava trabalhando em material novo e que My girls, do Animal Collective, lançada em 2013, servia de batedor para um próximo disco.

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