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Cultura Pop

Várias coisas que você já sabia sobre Doolittle, dos Pixies

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A certidão de nascimento de Doolittle, segundo LP dos Pixies, registra duas datas: dia 17 de abril de 1989 foi o lançamento na Inglaterra, e 18 de abril nos Estados Unidos. A banda americana, contratada por um selo britânico (o experimental 4AD) já tinha um EP e um primeiro álbum fenomenais (Come on pilgrim, de 1987, e Surfer Rosa, de 1988, respectivamente). Mas faltava um disco que vendesse, estourasse para além da boa receptividade da crítica e fizesse todo mundo assobiar as músicas – coisa que o sujaço Surfer mal tinha conseguido, apesar do hino Where is my mind.

Hoje, o que mais tem por aí é gente entre os 40 e 50 anos que consegue se lembrar do que estava fazendo quando pôs nos ouvidos alguma canção de Doolittle. Aliás, não era tão complicado ouvir a banda por aqui no fim dos anos 1980. Here comes your man e Monkey gone to heaven, os grandes hits do disco, começaram a ser tocados imediatamente nas rádios-rock do Brasil. E em situações honrosas, furaram o bloqueio das FMs mais comerciais. Ao contrário do conto do disco-revolucionário-que-o-Brasil-só-conheceu-trocentos-anos-depois-de-lançado, Doolittle foi lançado aqui pela Warner quase em tempo real, em LP e K7 (em CD, só vários anos depois, pela Roadrunner).

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Doolittle fez os Pixies se tornarem um sucesso indie mundial (era possível), influenciou uma gama de bandas que inclui Green Day e Nirvana, e seus ecos podem ser ouvidos até hoje, em discos de grupos como Fontaines DC e Dry Cleaning. Nas internas, o relacionamento de Black Francis (voz, guitarra), Kim Deal (voz, baixo), David Lovering (bateria) e Joey Santiago (guitarra) começava a passar por tensões. Mas ainda assim a primeira fase do grupo duraria mais dois anos, e renderia mais dois grandes álbuns – um deles, Trompe le monde (1991), já esteve até nessa ilustre seção.

Difícil escolher um melhor disco dos Pixies, mas Doolittle é o aniversariante, e é tido como o mais criativo álbum da banda por muita gente. E vai aí nosso relatório. Ouça lendo e leia ouvindo.

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ANTES DE MAIS NADA, o lado A de Doolittle é isso aí: Debaser, Tame, Wave of mutilation, I bleed, Here comes your man, Dead, Monkey gone to heaven. O lado B: Mr. Grieves, Crackity Jones, La la love you, Nº 13 baby, There goes my gun, Hey, Silver, Gouge away.

POR FAVOR, SUCESSO. A maior vendagem de Surfer Rosa tinha sido nos EUA: 705 mil cópias. Não era apenas a 4AD que tinha interesse na banda: a Warner, que distribuía o selo nos EUA, país dos Pixies, adoraria poder contar com boas vendas dos discos do quarteto.

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LOGO NA SEQUÊNCIA DO primeiro disco, os Pixies fizeram uma turnê com outra banda indie conhecida de Boston, os Throwing Muses. Em seguida, Black Francis começou a trabalhar em demos de novas canções, com Dead, Hey, Tame e outras surgindo. Em 1988, a banda chegou a tocar algumas das músicas novas no programa do DJ inglês John Peel. O material de Doolittle começava a surgir aos poucos.

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PRODUTOR. Tem uma pessoa sem a qual Doolittle não teria saído. E essa pessoa não apenas já conhecia os Pixies de outros carnavais, como tinha até assistido a outro show deles junto com as Throwing Muses. Era o produtor inglês Gil Norton, que por acaso produzira o primeiro disco das meninas para a 4AD, epônimo, em 1986.

ALIÁS E A PROPÓSITO, esse tal show a que Gil assistiu rolou pouco antes de Surfer Rosa, e na época os Pixies ainda eram tão pouco conhecidos que abriram a noite. Gil amou o show, que por sinal, foi dado em condições meio bizarras: Kim Deal teve um problema de doença na família e não foi à apresentação, e os Pixies viraram trio por uma noite.

ROLOU UMA PEQUENA TROCA na época. As Throwing Muses e Gil haviam tido um relacionamento apenas mediano na época do primeiro disco. Isso porque o produtor queria porque queria inserir metais no som delas e elaborar um pouco mais as canções, coisa que as garotas não queriam. Então, Ivo Watts-Russel, chefão da 4AD, propôs que elas trabalhassem com Gary Smith e pôs Norton no caminho dos Pixies. “Elas não aceitavam as sugestões dele como os Pixies faziam”, justificou.

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MAS QUEM É GIL NORTON? Nascido em Liverpool, Gil estava em estúdio desde os anos 1980, e havia produzido álbuns como Difficult shapes & passive rhythms, some people think it’s fun to entertain, do China Crisis, e Ocean rain, do Echo & The Bunnymen, ambos de 1984. Gil sempre foi um cara que curte pré-produção, e exige muito dos artistas com os quais trabalha. “Como você pode entrar em um estúdio se ainda não tem as músicas organizadas?”, questiona ele nesse papo aqui. “Tudo que eu quero de um artista é o melhor que ele pode fazer. Eu não gosto de pessoas preguiçosas. Se você quer ser preguiçoso, não me contrate”.

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POR SINAL, Gil tinha um abacaxi para descascar durante a gravação de Doolittle. Um abacaxi chamado Black Francis: o líder dos Pixies entediava-se facilmente no estúdio e detesta fazer a mesma coisa várias vezes. “Ele era difícil, sim! Não é que ele não vá fazer nada mais do que uma vez, mas ele acharia entediante tocar os mesmos acordes. Tive que tentar convencê-lo a repetir as seções ou mudar um pouco as coisas para mantê-lo feliz”, recorda.

OS ENSAIOS de Doolittle começaram no fim de 1988, na garagem da casa da família de David Lovering. Já as gravações começaram em 11 de outubro no Downtown Recorders, em Boston. Construído num prédio antigo, o estúdio se destacava por uma peculiaridade: o local da bateria ficava junto com o do restante dos músicos. Não havia uma cabine de bateria. Era ideal para gravar discos com clima de “ao vivo”, tanto que a ideia original dos donos era investir num local para shows, não exatamente num estúdio. Na época, três bandas dividiam a sala de ensaio – dentre elas Juliana Hatfield e seu grupo. Gil adorou o local.

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AS GRAVAÇÕES de Doolittle duraram menos de um mês – foram até 23 de novembro de 1988. Gil se recorda de que foi um disco “rápido e furioso”, e que os cofres da gravadora não sofreram nenhum assalto: só 30 mil dólares para fazer tudo. A banda nem sequer usou muito equipamento: ao contrário do que acontecia na época, não houve uso de computadores, samplers, máquinas último tipo e vários microfones.

MAS ANTES, Gil precisou se trancar com Black Francis e fazer… as benditas pré-produções, quando percebeu que seu artista detestava repetir coisas. O produtor havia alugado um apartamento em Boston e lá ficou com Francis repassando todo o material, tocado num violão. Esse lado CDF tanto do produtor quanto da banda contou para o som de Doolittle: todo o material já havia sido cuidadosamente registrado em demos e foi exaustivamente ensaiado antes de ser gravado na fita master.

ALIÁS E A PROPÓSITO, mesmo com tantos cuidados, um desafio da banda e do produtor era fazer com que Doolittle fosse um disco próximo do que a banda faria ao vivo. Ainda que Gil conseguisse convencer os Pixies a fazer o que as Throwing Muses estavam reticentes em concordar, e colocasse cordas em Monkey gone to heaven.

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AH SIM: a ideia das cordas, na verdade, surgiu por causa de ninguém menos que Kim Deal, que resolveu tocar um piano de cauda que havia no estúdio. O som dela tocando no instrumento lembrou cordas em pizzicato, e todo mundo acabou gostando da ideia de levar aquilo para o disco.

SEI NÃO. Ninguém duvida, hoje em dia, de que Debaser é a faixa perfeita para abrir um álbum, e que ela bate um bolão em Doolittle. Acredite: Black Francis não estava muito seguro com relação à faixa e achava que ela não deveria entrar no disco. Teve que ser delicadamente encorajado.

EU BEBO SIM. Doolittle tinha uma música cantada pelo baterista David Lovering, La la love you. Aparentemente, a ideia de Francis foi fazer como John Lennon e Paul McCartney, que nos discos dos Beatles, sempre faziam uma canção para Ringo Starr cantar. O baterista estava nervoso, dava voltinhas na sala antes de pegar no microfone, e acabou bebendo seis cervejas para tomar coragem. Se antes David não queria cantar, o baterista depois acabou ficando animado – Gil recorda-se de que foi difícil tirá-lo do microfone, porque ele queria refazer os vocais várias vezes.

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ALIÁS E A PROPÓSITO, segundo o próprio Lovering, La la love you costuma ser bastante usada em cerimônias de casamento.

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LEIA O LIVRO. Como acontecia nos discos anteriores dos Pixies, Doolittle teve uma baita influência do Antigo Testamento da Bíblia. Gouge away, a gritalhona faixa de encerramento, era inspirada na história de Sansão e Dalila. Dead cai pra cima da polêmica história do casal de amantes Davi e Betsabá. O “se o homem é 5, então o diabo é 6 e deus é 7” de Monkey gone to heaven veio da numerologia hebraica, assunto que Francis sequer dominava – baseou-se numa história que contaram a ele. A música também trata de catástrofes ambientais (daí “agora há um buraco no céu”, “tudo está pegando fogo” e outros versos de escrita quase automática). Mr. Grieves trata do encontro com uma espécie de “dona Morte”. Crackity Jones era sobre um colega de Francis que ouvia vozes.

ALIÁS E A PROPÓSITO, Black Francis foi criado na igreja evangélica. Seus pais ingressaram na Assembleia de Deus norte-americana quando ele era criança, e ele frequentou a igreja durante a adolescência. Num dos acampamentos da igreja, assistiu a um show do roqueiro gospel Larry Norman, que costumava animar o público com a frase “venha, peregrino!” (o nome do EP Come on, pilgrim vem disso).

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É SURREAL! A letra de Debaser, por sua vez, faz referência a Um cão andaluz, filme de Luiz Buñuel e Salvador Dalí (afinal a letra fala em “fatiando globos oculares”, como aparece na abertura da película). Os versos subsequentes têm o mesmo clima. Aliás, o nome do filme aparece na letra.

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O PATRÃO MANDOU. A 4AD ficou especialmente animada com Here comes your man e viu naquilo o potencial primeiro single do disco. Problema à vista: a gravadora achou a canção, com pouco mais de dois minutos, curta demais, e mandou Francis aumentar a letra. O cantor ficou puto, gastou saliva, mostrou uma coletânea de Buddy Holly para Gil Norton (alegando que os hits do cantor eram canções de dois minutos), mas topou. Só que não deu as caras quando a banda gravava a base da canção.

DETALHE: tanto Francis quanto a banda tinham lá certo preconceito com a faixa. Sempre tinham achado Here comes your man comercial demais, uma espécie de Anna Julia do grupo, e nas internas, ela ganhava o apelido de “a do Tom Petty” (era consenso geral que a canção era um country disfarçado). Nem mesmo a 4AD tinha lá muita certeza de como usar a música.

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ALIÁS E A PROPÓSITO, os Pixies receberam um convite para mostrar Here comes your man no programa de Arsenio Hall, campeão de audiência na época. Disseram que só iriam se pudessem tocar Tame, e a produção se recusou. Ivo diz que talvez um selo maior pudesse convencer os Pixies a se comercializarem mais, mas a 4AD não conseguiu.

TAVA DANDO MERDA. Testemunhas privilegiadas, como Ivo Watts-Russel, recordam-se que o dia a dia dos Pixies andava ficando meio frio. Francis precisava ser convencido a deixar Kim Deal fazer vocais em algumas músicas e rejeitava suas colaborações. Em Doolittle, só havia Silver, parceria dele com ela – na qual por sinal Kim tocava slide guitar. Por causa disso, ela achou melhor fazer sua própria banda, The Breeders.

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ESPOSA. Aliás em Doolittle, pela primeira vez, Kim usava seu nome verdadeiro. Isso porque no EP e no primeiro disco, ela assinava como Mrs. John Murphy. Casada com o empreiteiro da Força Aérea Americana John Murphy, ela ouviu de uma amiga casamenteira que se adotasse o sobrenome do marido, ganharia mais respeito. Resolveu fazer piada com o machismo da situação e adotou logo nome e sobrenome. Mas o casal se separou em 1988.

CAPA. Pela primeira vez, Vaughan Olivier (capista da 4AD) e Simon Larbalestier (fotógrafo que trabalhava com os Pixies) tiveram acesso às letras antes do disco ficar pronto. Isso fez com que o trabalho mudasse completamente, já que Vaughan produziu várias fotos conectadas com as letras, como o sino cheio de dentes que se relaciona com I bleed (com os versos “um sino tocando” e “isso faz meus dentes rangerem”).

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ALIÁS E A PROPÓSITO,  Francis também referenciou-se na arte de Olivier, que fez a capa inspirado na letra de Monkey gone to heaven, com um macaco-anjo. Tanto que o disco se chamaria Whore (“puta”), como referência ao simbolismo bíblico da Prostituta da Babilônia. Mas mudou para Doolittle, porque achou que iriam interpretar a capa como afronta ao catolicismo.

CLIPES. O de Here comes your man, dirigido por Neil Pollock e Jonathan Bekemeier, ganhou (muito) espaço na MTV, apesar de ser uma maluquice sem fim. A banda aparece distorcida, gravada com câmera olho de peixe, e Francis e Deal dublam a canção sem respeitar nenhuma sincronia com a letra. Gravado boa parte em preto e branco, o de Monkey gone to heaven é bem misterioso, mas mais formal, com a banda tocando num palco. O de Debaser, com imagens desfocadas e palavras sobrepostas, é tão surrealista quanto a capa do disco, e foi dirigido pelo próprio Vaughan Olivier.

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VENDEU? Até hoje, Doolittle vendeu um milhão de cópias nos EUA. Black Francis conta que na época, as vendas foram modestas. “As pessoas sempre dizem que devemos ter vendido muitos discos, mas tínhamos aquele vídeo na MTV por seis semanas e vendemos uns 60.000 discos. Os anos 1990 ainda não haviam acontecido. Nele, as chamadas bandas ‘alternativas’ estavam vendendo milhões de discos”, afirmou.

E A CRÍTICA? Quase todo mundo gostou do disco. A Melody Maker e o The Sounds consideraram o álbum disco do ano. Robert Christgau, do Village Voice, disse que a banda “está apaixonada e não sabe por quê”. A Time Out discordou e afirmou que “a produção de teatro de brinquedo de Gil Norton torna um drama o que deveria ter sido uma crise”.

ALIÁS, VALE DIZER QUE o material gerado pelos Pixies na época de Doolittle era tão imenso que, quando o disco fez 25 anos, a 4AD reuniu demos e gravações alternativas num CD duplo, Doolittle 25.

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E JÁ QUE VOCÊ CHEGOU ATÉ AQUI, pega Wave of mutilation ao vivo em 1989. O grupo apresentava essa música nos shows numa versão bem lenta (que saiu em single).

Com infos do livro Fool the world: The oral history of a band called Pixies, de Josh Frank e Caryn Ganz

 

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Cultura Pop

Tem aniversário de Controversy, do Prince, vindo aí!

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A capa do quarto disco de Prince, Controversy (lançado em 14 de outubro de 1981 e prestes a fazer 40 anos) já era (hum, ok) controversa. Transformado em escândalo público por causa do disco anterior, Dirty mind (1980, e do qual já falamos aqui), Prince estava nas manchetes. E elas estavam, de brincadeira, na capa do novo álbum.

Dirty mind tinha dado uma bela crescida musical – do pós disco dos álbuns anteriores, a uma mistura de soul, rock, um tantinho de psicodelia e até folk urbano herdado de Joni Mitchell. A crítica não deixou de prestar atenção nas letras beem safadas do álbum – que se chamava “mente poluída” e trazia Prince em frente às molas de uma cama, na capa. Robert Christgau comparou Prince a Jim Morrison e John Lennon, e ainda arrematou com uma frase lapidar: “Mick Jagger deveria recolher seu pau e ir para casa”. Na Rolling Stone, Ken Tucker dizia que Prince era um romântico ingênuo nos dois primeiros discos, mas finalmente estava à solta nas sacanagens e na música.

Controversy foi lançado doze meses após Dirty mind, e foi feito numa época de bastante trabalho para Prince – que pouco antes tinha produzido, assinando o trabalho como Jamie Starr, o disco de estreia do The Time, banda liderada pelo seu vocalista Morris Day. Como na época vários colunistas de jornal já faziam comentários sobre a sexualidade do cantor, não tinha como o assunto ficar de fora do álbum, a faixa-título (que abre o disco) já abre com vários questionamentos: “Sou preto ou branco? Eu sou hetero ou gay?/ Controvérsia / Eu acredito em Deus?/Eu acredito em mim?/Controvérsia”, perguntava Prince.

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>>> Mais Prince no POP FANTASMA aqui.

Não era só nos jornais que Prince passava por esse tipo de situação. Abrindo para os Rolling Stones em 9 de outubro de 1981, o cantor (usando a roupa da época da turnê Dirty mind, que incluía uma tanguinha preta) foi vaiado e ouviu xingamentos homofóbicos da plateia, no Memorial Coliseum, em Los Angeles.

Não só vaias: Prince e seus músicos foram atingidos por comida, latas, garrafas e tudo o que estivesse ao alcance do público. Prince ia desistindo de fazer o show do dia 11 de outubro, ate que Mick Jagger ligou para ele para encorajá-lo. “Eu disse a ele: se você chega a ser uma atração principal realmente grande, você tem que estar preparado para as pessoas jogarem garrafas em você à noite. Preparado para morrer!”, brincou Jagger.

Em Controversy, mais uma vez Prince tocou tudo “sozinho” – enfim, mais ou menos, porque em Jack U off, a última faixa, aparecem Bobby Z. (bateria), Lisa Coleman (teclados e vocais de fundo) e Dr. Fink (teclados). Andre Cymone, baixista de turnê de Prince, compôs a safadíssima Do me baby. Mas como estava sendo cada vez mais comum no universo de Prince naquela época, não recebeu crédito pela faixa, que apareceu assinada pelo patrão nas primeiras edições.

Não era o único momento de safadeza no disco, claro. Private joy era pura sacanagem, com versos como “todos os outros garotos amariam transar com você, mas você é meu brinquedo privativo” e “você pertence a Prince”. Mas Sexuality inovava por misturar sexo, política e futurismo (“precisamos de uma nova raça, líderes, levante-se, organize-se/não deixe seus filhos assistirem televisão até que saibam ler”).

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Anne Christian era a resposta de Prince ao levante pós-punk, com peso, intensidade e uma letra que fala sobre uma prostituta que “matou John Lennon, atirou nele a sangue frio” e “tentou matar Reagan”. Ronnie, talk to Russia mostrava que Prince vinha acompanhando as tensões entre Ronald Reagan, então presidente dos EUA, e o governo da União Soviética, mas que estava do lado do seu país, enfim (“você pode ir ao zoológico, mas não alimente guerrilheiros de esquerda”).

Para os fãs brasileiros, Controversy trazia uma novidade: Dirty mind não tinha saído aqui em tempo real (só foi lançado no Brasil em 1990!), mas o quarto disco de Prince saiu aqui imediatamente. Com um aviso na capa: “inclui Sexuality e Controversy“. Incluía mesmo.

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Cinema

Urban struggle: tem documentário raro sobre punk californiano na web

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Sabe aquele vizinho fascista que você detesta, e que também tem uma relação péssima com você? Pois bem, o conto dos vizinhos que se odeiam mutuamente ganhou proporções astronômicas e perigosas com o relacionamento bizarro entre dois bares californianos: o boteco punk Cuckoo’s Nest e o bar de cowboys urbanos Zubie’s. Os dois ficavam um ao lado do outro na cidade de Costa Mesa, localizada em Orange County, região com cena punk fortíssima.

O Cuckoo’s Nest era um local importante para o punk da Califórnia, a ponto de bandas como Black Flag, Circle Jerks, Fear e TSOL teram tocado lá. E do primeiro show do Black Flag com Henry Rollins no vocal ter acontecido na casa, no dia 21 de agosto de 1981. Bandas como Ramones e Bad Brains, ao passarem pela cidade, sempre tocavam lá. Já o Zubie’s, lotado de playboys no estilo country, costumava ser um problema para os punks: os cowboys invadiam o local, arrumavam brigas com os punks e os insultavam usando termos homofóbicos.

Vale citar que mesmo dentro do Cuckoo’s Nest as coisas não eram fáceis, até porque “movimento punk” significava uma porrada de gente reunida, com motivações diferentes e estilos de vida conflitantes. Tipos violentos e machistas começaram a frequentar o local e a arrumar briga com os frequentadores. E quem viu o documentário The other f… word, da cineasta e roteirista Andrea Blaugrund Nevins, recorda que o rolê punk na Califórnia era muito violento.

Flea, baixista dos Red Hot Chili Peppers – e que tocou no Fear por alguns tempos nos anos 1980 – lembra em The other f… word que, no começo dos anos 1980, uma cena comum nos shows do Black Flag eram as inúmeras brigas nas quais os fãs eram esmurrados e nocauteados, apenas por terem o cabelo ou a roupa assim ou assado. “As pessoas não somente tomavam porrada, elas acabavam no hospital. Havia ambulâncias transportando os fãs após os shows a todo momento!”.

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O Cuckoo’s Nest ficou aberto de 1976 até 1981 e nunca deixou de ter problemas. O proprietário Jerry Roach lutava para manter a casa aberta, dialogava da maneira que dava com policiais, com clientes e até com a turma enorme de hippies, cabeludos e malucos que pulava de galho em galho na Califórnia.

E essa longa introdução é só pra avisar que jogaram no YouTube o documentário  Urban struggle: The battle of the Cuckoo’s Nest, dirigido em 1981 por Paul Young.  Infelizmente sem legendas.

Tem uma edição melhor no Vimeo. Sem legendas também.

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Num dos depoimentos do documentário, Jerry define a atitude dos punks como “foda-se, vivo de acordo com minhas regras”. Mas diz que não vê hippies como sendo pessoas da paz e do amor o tempo todo, e muito menos enxerga punks como odiadores contumazes. “É só um conflito de gerações”, disse Jerry, que – você talvez já tenha imaginado – batizou o local em homenagem ao filme Um estranho no ninho, de Milos Forman (o nome no original era One flew over the cuckoo’s nest).

Tanto os músicos quanto Jerry falam bastante a respeito de brigas com a polícia – o dono do local relata as vezes em que conversou com os agentes – e reclamam da violência policial. Por acaso, um dos agentes é entrevistado, e os meganhas locais, seguindo o exemplo dos cowboys, não tinham o menor apreço pelos punks. A luta de Jerry para manter o local aberto também está no doc. Mas se você quer sair fora das discussões, o documentário ainda tem apresentações bem legais do Black Flag, Circle Jerks e TSOL.

Paul Young, o autor do filme, era um estudante de cinema que tinha sido contratado por Jerry para filmar as invasões da polícia ao local. Acabou sendo responsável pelo documentário, e anos depois acabou ficando bastante indignado quando viu o filme We were feared – The story of The Cuckoo’s Nest, de Jonathan WC Mills, e reconheceu várias de suas imagens lá.

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Cultura Pop

Tears For Fears: descubra agora (??)

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“E alguém precisa descobrir Tears For Fears?”, você deve estar se perguntando, certo? Relaxa: essa foi nossa desculpa para falar de TFF, uma das bandas preferidas aqui do POP FANTASMA, e um dos grupos (uma dupla, enfim) mais importantes da música pop de todos os tempos.

Roland Orzabal e Curt Smith ensinaram grandes plateias a curtir pós-punk com letras politizadas e introspectivas (o primeiro disco, The hurting, de 1983, é isso), fizeram a transição para uma espécie de tecnojazzrockpop de arena (Songs from the big chair, de 1985) e migraram para o som orgânico e jazzístico na época certa (The seeds of love, de 1989, era “o” disco que você precisava ouvir no início da era do CD).

Sem Curt Smith, Roland continuou com a bandeira do pop elaborado em mais dois bons discos, Elemental (1993) e Raoul and the kings of Spain (1995). A dupla voltou a se encontrar num disco injustamente fracassado, que tinha coisas que caberiam em discos de Beach Boys e Todd Rundgren, Everybody loves a happy ending (2004). Tem um disco novo vindo aí, The tipping point, marcado para fevereiro de 2022. E você vai ter bastante trabalho se resolver procurar uma música menos que boa nos álbuns deles.

Tá aí nossa lista de músicas que você deve ouvir hoje.  Ouça lendo e leia ouvindo. E tá uma lista bem grande…

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“MAD WORLD” (The hurting, 1983). Comparada a Unknown pleasures, do Joy Division, a estreia do TFF chega a assustar pela quantidade de temas corrosivos e depressivos nos quais a dupla mexeu: depressão, abuso infantil, pais que sufocam os filhos com problemas pessoais e expectativas, bullying. Orzabal não economizou nessa música, um retrato bem sombrio da infância e do dia a dia escolar.

“PALE SHELTER” (The hurting, 1983). O que parece ser apenas uma canção de desilusão amorosa, é na verdade uma música sobre abandono parental. Foi gravada inicialmente em 1982 com o nome de Pale shelter (You don’t give me love) e depois regravada para um outro single e para o primeiro álbum. O clipe, que você provavelmente já viu, é um primor de surrealismo (com várias imagens aleatórias) e destemor (a dupla passeia em meio a uma guerra de aviões de papel e Orzabal quase leva um aviãozinho no olho).

“WATCH ME BLEED” (The hurting, 1983). “O que sobra de mim ou de qualquer pessoa/quando negamos a dor?”. “Estou cheio, mas me sentindo vazio/Por todo o calor, é tão frio”. Uma das melhores músicas do primeiro disco do TFF tem uma letra que, numa análise retrospectiva, pode ser comparada aos melhores momentos de Renato Russo – e a introdução de violão caberia perfeitamente em Legião Urbana Dois. Enquanto você pensa sobre as influências do Tears For Fears na Legião, ouça a música, que sequer foi lançada como single.

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“THE PRISONER” (The hurting, 1983). Experimente tocar essa música para um bando de amigos e diga que é um lado B do Nine Inch Nails. Dá para enganar. Apesar dos vocais sussurrados, do peso e da letra sufocante (sobre uma criança oprimida e amedrontada), o final é feliz (“o amor me liberta/o prisioneiro agora está fugindo”). Foi o lado B do single de Pale shelter.

“THE WAY YOU ARE” (single, 1983). Uma rara canção escrita pela “formação completa” do grupo (Roland, Curt, o baterista Manny Elias e o tecladista Ian Stanley), feita para um single que serviu de produto intermediário entre o primeiro e o segundo disco. Um bom reggae tecno que é a cara dos anos 1980, mas que Roland e Curt execram. “Foi a pior coisa que fizemos”, destroçou Smith sem dó nas notas de uma coletânea da banda que trazia essa música (!), Saturnine martial & lunatic. Mas na época, saiu até clipe.

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“SHOUT” (Songs from the big chair, 1985). Orzabal e Smith dizem que essa música não tem tanto assim a ver com a terapia do grito primal (que inspirou o nome da banda), e sim com protesto político. “É protesto na medida em que incentiva as pessoas a não fazerem as coisas sem questioná-las. As pessoas agem sem pensar porque é assim que as coisas acontecem na sociedade”, disse Smith. Roland começou a compor a canção com sintetizador e bateria eletrônica, e de início tinha só um refrão, concluído pelo tecladista Ian Stanley, um cara importantíssimo na formatação do estilo “Tears For Fears” de fazer música.

“EVERYBODY WANTS TO RULE THE WORLD” (Songs from the big chair, 1985). Música composta por Orzabal, Ian Stanley e pelo produtor Chris Hughes, cuja letra já teve mil interpretações diferentes, mas fala mesmo era sobre a briga EUA X URSS pelo poder mundial (enfim, a Guerra Fria). Smith, cantor da faixa, ficou particularmente puto com uma interpretação do National Review que via pontos de vista conservadores na letra. “Ironia e sarcasmo claramente não são seu forte”, twittou para o periódico.

“HEAD OVER HEELS” (Songs from the big chair, 1985). Orzabal descreve essa música como “uma canção de amor que acaba ficando meio perversa”. Um clássico do amor, da dependência e da pouca habilidade para lidar com a complexidades das relações humanas. O clipe, gravado na biblioteca do Emmanuel College, no Canadá, virou um clássico.

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“THE WORKING HOUR” (Songs from the big chair, 1985). O tom meio jazz-meio prog da segunda faixa de Songs… era moda em 1985 – Sting não largou o Police para misturar música pop, jazz e new wave à toa. A letra era um primor de desencanto com a “vida real”. Não saiu em single.

“WOMAN IN CHAINS” (The seeds of love, 1989). Foi assistindo a um show bem simples da cantora Oleta Adams num hotel no Kansas em 1985, que Orzabal e Smith tiveram a ideia de partir para um mergulho “orgânico” no terceiro disco, já cansados dos sintetizadores e samplers da turnê de Songs… E para ajudar no trabalho, convidaram a cantora. Woman in chains é tida como uma “canção feminista” e é inspirada por um livro que Roland estava lendo sobre sociedades matriarcais. Orzabal resolveu escrever sobre como o feminino costuma ser minimizado. Mas Oleta suou no estúdio para agradar à dupla: soltou a voz num tom agudo incomum para ela.

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“SOWING THE SEEDS OF LOVE” (The seeds of love, 1989). A neopsicodelia que deu certo, tocou em rádio e vendeu discos: Smith e Orzabal (compondo em parceria) lançaram uma pérola pop-rock com referências a Beatles (I am the walrus foi citada por quase todo mundo) e pequenas porradas políticas na letra (Margaret Thatcher é a “vovó política” da letra).

“ADVICE FOR THE YOUNG AT HEART” (The seeds of love, 1989). Neobossa pop que ajudou a conquistar novos públicos para o grupo: no Brasil o TFF tocava até em rádios AM e esteve numa trilha de novela (a pouco lembrada Gente fina). O clipe da faixa, dirigido por Andy Morahan, valia por um curta-metragem: mostrava cenas de um “feliz” casamento latino em que, aqui e ali, dava para perceber que as coisas não iam tão bem assim (além de mostrar cenas excelentes de ranço e caras-viradas entre Curt e Orzabal).

“ALWAYS IN THE PAST” (single, 1989). O lado B de Woman in chains lembrava muita coisa que geralmente não era associada ao TFF: até mesmo a fase pop do Genesis, só que sob um ponto de vista mais sombrio. Saiu depois num relançamento de Seeds of love.

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“BREAK IT DOWN AGAIN” (do disco Elemental, 1993). Após várias brigas e climões, Curt Smith saiu do grupo, deixando Orzabal livre para carregar o nome (e lançar uma ou outra canção malcriada em relação ao ex-amigo). O primeiro single do novo disco é a única música que sobrou nos shows da dupla quando Smith voltou. O parceiro de canções de Orzabal na época era Alan Griffiths, cuja banda The Escape tinha aberto shows do TFF em 1983.

“BRIAN WILSON SAID” (do disco Elemental, 1993). Uma canção desencantada que poderia estar no clássico dos Beach Boys, Pet sounds, mas que tinha o mesmo tom jazz-pop-introspectivo de alguns momentos de The seeds of love e Songs from the big chair. A letra, curiosamente, tinha o mesmo tom amargo dos hits de bandas como Nirvana, que liderava as rádios na época (abria com a frase “minha vida, nada foi fácil até agora”).

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“RAOUL AND THE KINGS OF SPAIN” (do disco Raoul and the kings of Spain, 1995). Usando um nome que quase havia sido dado ao disco The seeds of love, Orzabal entrou numa egotrip daquelas: fez um pop meio progressivoide (e bom) para falar de histórias de sua família – Roland, por sinal, quase se chamou Raoul, mas sua mãe resolveu que era melhor ele ter um nome mais anglicizado.

“ME AND MY BIG IDEAS” (do disco Raoul and the kings of Spain, 1995). Baladão que, com um pouco mais de produção, poderia estar em The seeds of love – e que, opa, marca o reencontro do TFF com Oleta Adams. Na época, Oleta estava na Fontana, antiga gravadora do grupo, e tinha lançado o quinto disco, Moving on.

“EVERYBODY LOVES A HAPPY ENDING” (do disco Everybody loves a happy ending, de 2004). Smith e Orzabal voltaram a se falar por causa de razões extra-música (a dupla ainda era dona de empreendimentos imobiliários) e… por que não fazer um disco novo? A faixa-título do álbum da “volta” (que vendeu bem pouco) lembrava Beach Boys, Todd Rundgren, 10cc e tudo de bom que você pudesse imaginar.

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“CLOSEST THING TO HEAVEN” (do disco Everybody loves a happy ending, de 2004). Baladão que, caso tivesse um belo glacê de eletrônicos, poderia estar em Songs from the big chair. O clipe tem participação da atriz Brittany Murphy, que morreria em 2009. Essa música chegou a tocar em rádio no Brasil.

“SECRET WORLD” (do disco Everybody loves a happy ending, de 2004). Uma balada tão bonita que encerra com aplausos. Deu nome ao primeiro disco ao vivo da banda, de 2006.

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“AND I WAS A BOY FROM SCHOOL” (do EP Ready boys & girls?, de 2014). Para comemorar o Record Store Day de 2014, o TFF soltou um EP indie com três covers, de Animal Collective, Arcade Fire e Hot Chip (a faixa em questão). Na época, chegou a ser divulgado que a banda estava trabalhando em material novo e que My girls, do Animal Collective, lançada em 2013, servia de batedor para um próximo disco.

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