Cultura Pop
Trompe Le Monde: 30 coisas que você não sabe sobre o disco dos Pixies de 1991


Em 1990, quando os Pixies lançaram seu quarto LP, Bossanova, surgiu um papo de que o disco seguinte de Black Francis (voz, guitarra), Kim Deal (voz, baixo), David Lovering (bateria) e Joey Santiago (guitarra) seria todo de heavy metal. Não foi bem assim: Trompe le monde (1991), que acabou sendo o último álbum da banda em sua fase inicial – até que resolvessem voltar em algum momento da década passada – era basicamente um disco de punk rock, com toques de psicodelia e muito da mão pop-rock que surgiria nos primeiros discos solo de Francis, já com o nome de Frank Black.
De qualquer jeito, um resultado musical que tem tudo a ver com um ano, 1991, em que se diz que os Estados Unidos finalmente entenderam o punk. No caso dos Pixies, a migração para um som mais porradeiro deu em riffaramas como a faixa-título, o funk-rock de U-Mass, o power pop de Palace of the brine, o AC/DC protopunk de Palace of sound, a suíte gritalhona The sad punk e muitas outras. Como se trata de um dos discos preferidos do POP FANTASMA, decidimos relembrar 30 fatos ligados à história do álbum. Ouça o disco e pega aí as infos. De heavy metal, só mesmo as fofocas sobre o álbum…
QUASE DEU MERDA. Uma semana antes da turma entrar em estúdio para fazer Trompe le monde com o produtor Gil Norton, Black Francis deu um ataque e demitiu a baixista Kim Deal. Norton lembra ter ouvido falar que Kim tomou uns gorós a mais, deu uma entrevista para uma rádio desancando publicamente o vocalista, Francis ouviu o bate papo e ficou puto. Depois de muita insistência por parte do produtor, o cantor desistiu da ideia e Kim ficou.
NA ESTRADA COM OS PIXIES. O disco foi começado no mesmo estúdio que a banda havia feito Bossanova, o Master Control, em Burbank. Faltavam letras e vocais e a banda deixou o trabalho para cair numa turnê. Norton fuçou no cangote do grupo enquanto excursionavam: agendou datas em Londres, no Blackwing, e em Paris, no Des Dames, para a banda completar o trabalho.
BLACKWING. Construído numa igreja abandonada no sudoeste de Londres, o Blackwing tinha se notabilizado como uma das usinas de força do tecnopop e do rock experimental dos anos 1980. Discos de Yazoo, Depeche Mode, Fad Gadget, Dead Can Dance e vários álbuns do selo Mute Records saíram de lá.
DES DAMES. O estúdio Des Dames por sua vez, era uma espécie de Abbey Road (construído na Rua Des Dames, em Paris) da Philips francesa. De lá saíram álbuns de Paul Mauriat, Serge Gainsbourg e vários nomes do pop do país. O local também era uma preferência de artistas americanos e britânicos em turnê pela França. Em 1984 Gil já havia comandado as gravações de Ocean rain, disco do Echo & The Bunnymen, na mesma casa.
ALIÁS E A PROPÓSITO. De passagem por Paris em 1970, os Mutantes gravaram o disco Tecnicolor no Des Dames. Essas sessões foram parar no quarto disco da banda, Jardim elétrico, em 1971. O nome do estúdio aparece na contracapa do disco.
EM CIMA DA HORA. Sem tempo para maiores maquiagens, os Pixies faziam músicas pouco antes delas serem gravadas, num clima bem mais experimental e rascunhado que nos discos anteriores. Por causa disso, Norton e o técnico de som Steve Haigler passaram boa parte do tempo gravando faixas de bateria e baixo para músicas que não tinham a menor ideia de como ficariam, já que Francis não terminava as letras nem as ideias principais das melodias.
FALANDO NISSO. Trompe le monde foi gravado praticamente com a banda separada. Os músicos nem se cruzavam no estúdio. Coube à equipe reduzidíssima (produtor e engenheiro de som) fazer o meio de campo, já que o grupo mal se comunicava.
DAS ANTIGAS. Os Pixies resolveram resgatar uma música do comecinho da banda para o disco. Subbacultcha estava na demo Purple tape, gravada em 1987, e que gerou o EP Come on pilgrim. Mas permanecia inédita. Testemunhas afirmam que muita coisa do disco vinha também de coisas que estavam guardadas havia anos no armário de Black Francis, incluídas aí canções como Planet of sound e U-Mass.
REFERÊNCIA. Em Planet of sound, Black Francis fala em “a terra do Classical gas“. É uma referência a esse tema instrumental composto e gravado por Mason Williams em 1968, e que se tornaria popularíssimo nos Estados Unidos.
CADÊ A KIM?. Kim Deal estava bem insatisfeita com o fato de Trompe estar em vias de se tornar quase um disco solo de Francis, sem muito espaço para suas colaborações. Black Francis, além dos vocais gritados, fazia vozes bem parecidas com as da baixista em quase todas as músicas – Trompe le monde, a faixa título, parecia cantada por ela, mas não era. Gil Norton ficou particularmente aborrecido com o fato de Bird dream of the Olympus Mons, que originalmente iria para a voz dela, ter sido cantada por Francis. Foi o que bastou para cortar de vez o tesão da baixista.
U-MASS. A música U-Mass era uma brincadeira com os tempos em que Black Francis passou estudando antropologia na Universidade de Massachussets (que é realmente abreviada para U-Mass ou UMass). Foi lá que ele conheceu Joey Santiago, que estudava economia. Ambos deixaram seus cursos no segundo ano.
ALIÁS, Joey deu uma entrevista a um jornal da universidade faz pouco tempo e disse que essa música, bem como outras da banda, não faz referência a nada exato. “Em U-Mass, Charles (Black Francis, cujo nome verdadeiro é Charles Thompson) não estava falando da vida no campus. Assistir a todos aqueles fodidos na época, como os ??direitistas militantes, era educativo. Foi uma grande surpresa”.
JESUS & MARY CHAIN. Trompe le monde se tornou popular por causa de uma releitura, a de Head on, do Jesus & Mary Chain. Norton lembra que ao terminar essa música, Tanya Donelly, da banda Throwing Muses e das Breeders, pintou no estúdio. Com a chegada dela, uma turma da gravadora 4AD acabou indo à casa de Norton para uma festinha. O produtor lembra de ter ficado sem graça quando viu ninguém menos que Jim Reid, do Jesus, aparecer lá. “Tinha acabado de mixar a regravação de uma música dele, e nem o conhecia”, brincou.
SOZINHO. Testemunhas lembram que, no fim da gravação de Trompe le monde, ainda que a 4AD tivesse os Pixies como topo de linha, estava claro que era o fim. Tinha sido planejado que o staff da gravadora iria ao estúdio para levar todo mundo para jantar e encerrar a gravação. Ninguém apareceu, e os outros integrantes da banda deixaram Francis sozinho lá, decidindo os últimos detalhes.
CLIPE E SINGLE. Caciques da 4AD e da Elektra (que distribuía o selo indie) apostavam inicialmente em Alec Eiffel como clipe. Peter Lubin, A&R do selo, peitou geral e escolheu Head on. E acabou tendo uma missão daquelas: convencer os Pixies, que detestavam fazer clipes, a fazer um clipe da música. Black Francis disse que faria se fosse tudo ao vivo, em só um take, no tempo de duração da faixa.
CLIPE E SINGLE II. O resultado das discussões para Head on, você viu bastante na MTV entre 1991 e 1992: Lubin deu a ideia de dividir a banda em vários blocos, capturados por doze câmeras, como se fossem uma espécie de cubo mágico em que pescoços e articulações eram deixados de lado. Até chegar nesse resultado – produzido musicalmente por Scott Litt – Lubin teve que argumentar por algumas horas com Black Francis, com quem teve um encontro num restaurante chinês na Flórida. E a gravadora precisou despejar uma carreta de grana em técnico de som e de imagem para que tudo saísse visualmente perfeito. Deu certo, já que a MTV adorou o vídeo.
MAS ainda assim Alec Eiffel ganhou clipe.
CASO DE AMOR. Só para ficar claro: a Elektra, que distribuía a 4AD, amava os Pixies. Mas estava cada vez mais sem paciência com as teimosias deles.
EU VENHO DE LONGE. Eric Drew Feldman, que tocou teclados no disco (e em alguns shows da época), foi baixista de Captain Beefheart And His Magic Band em 1976, e tocou também com Pere Ubu. Seu irmão Jeff tocou tablas em Space (I believe in) e Lovely day. O emprego seguinte de Eric foi como produtor e músico do próprio Frank Black. Eric aparece como figurante de luxo no clipe de Alec Eiffel, que você viu lá em cima.
NO BRASIL. Trompe le monde não foi lançado de imediato no Brasil. Só anos depois a Roadrunner Records lançou o disco aqui, e já em CD.
NADA DE IMPRENSA. Durante a divulgação de Trompe, Francis se recusou a dar entrevistas. Esnobou até mesmo uma capa da Time out, o que deixou a 4AD e a Elektra bastante putas.
NARC. Durante a gravação de Trompe le monde, ao que consta, Frank Black ficou meio obcecado com NARC, jogo lançado em 1988 que servia como uma espécie de veículo jogável da guerra anti-drogas empreendida pelo governo Ronald Reagan – que tinha lançado a campanha “diga não às drogas”. No game, o jogador investia violentamente contra qualquer ser humano ligado ao narcotráfico: usuários, aviões, traficantes etc. Ficou tão maluco pelo assunto que os Pixies gravaram a música do game, Theme from NARC, para o single de Planet of sound.
O AUTOR. Black Francis teria dito a um fanzine (o Dangerous Minds resgatou essa) que “Theme from NARC não tem realmente um refrão. Eu pensei que era muito legal, porque a progressão de acordes é completamente fodida. Não é uma progressão padrão do rock ‘n’ roll”. O compositor da canção, Brian Schmidt, trabalha há mais de três décadas fazendo trilhas para games e ficou surpreso de saber, por um amigo, da versão dos Pixies.
ALIÁS E A PROPÓSITO, pega logo aí tudo o que saiu nos singles de Trompe le monde. O de Planet of sound trazia Theme from NARC, Build high (de Black Francis) e Evil hearted you (antiga canção dos Yardbirds, composta por Graham Gouldman, que depois seria integrante do 10cc). Na sequência, tinha o single de Alec Eiffel. A versão francesa tinha outra canção do disco, Motorway to Roswell, e mais Planet of sound gravada ao vivo na Brixton Academy em 26 de julho de 1991, e Tame (de Doolittle), gravada no mesmo show. A britânica trazia só Motorway. O CD single americano vinha com Alec, uma versão instrumental de Letter to Memphis (do Trompe) e… Build high e Evil hearted you. Letter to Memphis, com vocais, viria isolada num single posterior. Head on, o último da série, repetia as versões ao vivo de Planet of sound e Tame, e tinha Debaser (do Doolittle) gravada ao vivo em Chicago em 9 de agosto de 1989.
NIRVANA. O trio liderado por Kurt Cobain estava para lançar seu disco de maior sucesso, Nevermind, naquela época. Havia certa expectativa para que eles abrissem os shows da turnê dos Pixies. Não aconteceu, até porque enquanto os Pixies se recolhiam, o Nirvana se tornou uma banda poderosíssima em pouco tempo.
SHOW DUPLO. Quem acabou abrindo vários shows para os Pixies foi justamente o Pere Ubu, banda na qual o tecladista Eric Drew Feldman ainda tocava por aqueles tempos. A sugestão foi do próprio Black Francis. Feldman tocou nos dois shows e não deixou o palco durante mais de duas horas.
E O U2? Os Pixies seguiram na turnê de Trompe le monde e, você deve lembrar, abriram para o U2, que divulgava Achtung baby com a Zoo TV Tour. Quem não ficou muito satisfeita com a chance foi Kim Deal, que reclamou de tocar para “lugares vazios, com as pessoas procurando suas cadeiras. Elas iam lá para ver o U2 e éramos a porra da banda de abertura”.
GLÓRIA A DEUS. Por causa da turnê com o U2, Francis acabou tendo uma oportunidade que jamais imaginaria: conhecer Larry Norman, o músico cristão que inspirou o título do disco Come on pilgrim. Larry era autor de um polêmico disco de psicodelia cristã, Upon this rock (1969) e em 1972 participou de um inimaginável “Woodstock de Cristo”, a Explo 72 (da qual o POP FANTASMA falou aqui). O encontro entre Norman e Francis teria acontecido em Sacramento, durante a turnê, e rolou por uma razão básica: boa parte da equipe do U2 é formada por cristãos, que conheciam o músico e sabiam que Francis era fã.
BASTIDORES. O U2 tinha uma porrada de camarins à disposição durante a turnê. Os pobres Pixies tinham que se vestir no tour bus, o que dava certa vergonha aos músicos. Num determinado momento, os quatro não se aguentaram e colaram um cartaz no ônibus: “Não entre, estamos usando nosso tour bus como camarim”. Deu certo: a turma do U2 passou lá, viu o aviso e arrumou um camarim decente para o grupo nas arenas. Pode parecer pouco, mas deu uma melhorada na combalida autoestima do quarteto.
ALIÁS E A PROPÓSITO. Esse texto foi motivado por esse vídeo maravilhoso dos Pixies no Dennis Miller Show, tocando Head on, Bird dream e Planet of sound.
Infos do livro Fool the world: The oral history of a band called Pixies, de Josh Frank e Caryn Ganz, em boa parte desse texto.
Cultura Pop
Qual é a do The Coverups, banda de covers de Billie Joe (Green Day) e amigos?

Antes de Bruce Dickinson, cantor do Iron Maiden, aparecer de surpresa no palco em Québec, o The Coverups já dava muitos sinais de vida havia anos. O projeto paralelo de Billie Joe Armstrong continua funcionando exatamente como nasceu: como uma desculpa para tocar músicas que seus integrantes amam, sem a pressão de lançar discos ou sair em turnê.
Criado em 2018, o grupo reúne integrantes e colaboradores do Green Day em apresentações pequenas, normalmente em clubes da Califórnia. A formação original contava com Billie Joe Armstrong (voz e guitarra), Mike Dirnt (baixo e voz), Jason White (guitarra), Bill Schneider (baixo) e Chris Dugan (bateria) – Mike e Jason são os únicos que fazem parte também do Green Day, sendo que Jason atua como músico de turnê. Nos últimos anos, porém, Dirnt deixou de participar dos shows, e o The Coverups passou a atuar como quarteto.
O repertório é uma carta de amor ao rock e ao punk. Clássicos de Ramones, David Bowie, The Clash, Cheap Trick, Joan Jett, Tom Petty, Misfits, Nirvana, Rolling Stones e até Strokes costumam aparecer nas apresentações, que muitas vezes são anunciadas poucas horas antes de acontecer. Diferentemente de outros projetos paralelos de Billie Joe, como Foxboro Hot Tubs e The Longshot, o The Coverups nunca teve a intenção de gravar músicas próprias. A proposta é apenas revisitar clássicos em um ambiente intimista, recriando um pouco da atmosfera dos primeiros dias do Green Day nos clubes da região de Berkeley e Oakland.
Mesmo sem lançar um único álbum de estúdio, a banda conquistou um público fiel justamente por isso: oferece a rara oportunidade de ver Billie Joe tocando as músicas que ajudaram a moldar sua formação musical, longe das grandes produções e da rotina de estádios do Green Day.
Nos últimos meses, o The Coverups voltou a fazer apresentações esporádicas na Califórnia, mantendo esse espírito despretensioso. Não havia qualquer indicação de mudanças de rumo, nem anúncios de gravações ou turnês. A maior novidade acabou sendo justamente a participação-surpresa de Bruce Dickinson em um show realizado em Québec. Sem aviso prévio, o vocalista do Iron Maiden subiu ao palco para cantar All the young dudes, clássico do Mott the Hoople escrito por David Bowie, num encontro improvável que reuniu dois dos nomes mais conhecidos do rock em um contexto bastante informal.
Houve uma outra novidade recente, que rolou durante o show da banda no Roxy, na Califórnia, dia 21, uma segunda-feira. Antes de tocar Drain you, clássico do Nirvana (do disco Nevermind, de 1991), Armstrong dedicou a música a Jennifer Finch, baixista do L7, que morreu recentemente. Antes, Adrienne Armstrong, esposa do músico, havia doado US$ 5 mil para uma campanha criada para ajudar a custear o tratamento de Finch.
De qualquer jeito, Bruce fi a primeira participação especial de grande repercussão na história recente do The Coverups e, naturalmente, chamou muito mais atenção do que os próprios shows da banda. Ainda assim, tudo indica que o projeto continuará exatamente como sempre foi: um grupo de amigos reunidos para tocar os discos que mudaram suas vidas, sem maiores pretensões além da diversão.
Ah, sim: importante falar que All the young dudes faz parte do repertório solo de Bruce há bastante tempo. Ele a havia regravado em seu primeiro álbum solo, Tattoed millionaire, de 1990. Na época, teve até clipe da faixa.
Foto: Reprodução Internet
Cultura Pop
Qual é a dos dois discos novos de Lana Del Rey?

Lana Del Rey passou tanto tempo adiando e reformulando o próximo álbum que já dava para imaginar que ele nunca chegaria. Primeiro era Lasso. Depois virou The right person will stay. Em seguida apareceu como Stove. Agora a cantora resolveu complicar um pouco mais o roteiro: além de Stove, ela diz que também está preparando um segundo álbum inédito.
A novidade surgiu em uma publicação no Instagram, onde Lana contou que o disco extra nasceu durante o mesmo processo criativo do sucessor de Did you know that there’s a tunnel under Ocean Blvd. Segundo ela, o novo trabalho funciona como uma espécie de “companion album”, desenvolvido quase ao mesmo tempo que Stove.
- Os bastidores do raro Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, que ganha lançamento oficial
A cantora também afirmou que esse segundo disco surgiu das transformações pessoais e criativas que viveu nos últimos quatro anos, funcionando como uma espécie de contraponto ao álbum principal. Se tudo correr como planejado — e essa ressalva é indispensável quando o assunto é cronograma de Lana Del Rey — os dois discos devem ficar prontos em cerca de um mês para seguir para a prensagem em vinil.
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Ela também afirmou que ambos já têm capas prontas e descreveu os projetos como algumas das obras de que mais se orgulha. O álbum principal, Stove, continua reunindo os singles Henry, come on, Bluebird e White feather hawk tail deer hunter, além de outras músicas que ela vem mostrando ao vivo nos últimos meses. Tudo indica que First light, single lançado como single da trilha sonora do jogo 007 First Light, escrito em parceria com David Arnold, é só um projeto à parte e não estará no disco.
Embora Lana ainda não tenha confirmado um título para o álbum companheiro, fãs passaram a chamá-lo de Spyda após identificarem esse nome em uma das artes divulgadas pela cantora nas redes sociais (aliás, no Reddit, tem fãs reclamando que a imprensa tá caindo rapidamente numa suposição deles mesmos, os fãs)
Ainda não há datas de lançamento para nenhum dos dois discos. Mas, considerando o histórico recente da cantora, talvez seja prudente evitar tatuar qualquer título no braço até que eles realmente apareçam nas plataformas de streaming. Afinal, se um álbum já mudou de nome três vezes antes de nascer, nada impede que um quarto nome apareça antes do play.
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Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.
Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.
Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.
O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.
Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.
Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.
Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.
Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.
A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.
Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.
E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.
Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.
Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.
Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.
Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.
Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.
Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.
Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.
O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.
O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!
Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.
Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).
Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.
A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.
Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.
Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.
Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.
Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.








































