“It was 51 years ago today” (“Faz 51 anos hoje”). A data não é redonda, mas quem se importa? O dia 30 de janeiro de 1969, uma quinta-feira (assim como amanhã), entra para a história como o dia da última apresentação ao vivo dos Beatles. O chamado rooftop concert, que tem esse nome porque foi dado no terraço da gravadora Apple.

Não é exatamente um “show”, na verdade eles tocam as músicas que vinham ensaiando. Para homenagear a data, separamos trinta coisas que você provavelmente até já sabia sobre o show (mas vai que você não sabia de alguma coisa…). E para quem gosta de fatos minuto a minuto, todos eles aparecem na ordem cronológica.

1. A ideia inicial surge na segunda metade de 1968: um show grandioso marcando a volta dos Beatles aos palcos, depois de cerca de dois anos de ausência, um show beneficente que seria veiculado pela TV.

2. O lance avança depois que Paul fica inspirado por um documentário de Picasso onde o famoso pintor aparece fazendo uma tela diante das câmeras e sugere que o mesmo poderia ser feito com seu grupo. Pensando em entusiasmar a galera da banda com um novo projeto, ele propõe que sejam filmados criando, ensaiando (uma coisa mais rock raiz, ao contrário das colagens sonoras e sobreposições de instrumentos que marca discos anteriores como Revolver e Sgt. Pepper’s), depois gravando as músicas ao vivo diante de uma plateia e lançar isso.

3. Até 1968, ninguém havia feito isso antes: um disco ao vivo só de músicas inéditas.

4. O diretor convidado é Michael Lindsay-Hogg, que já tinha feito o Rock and roll circus dos Rolling Stones e filmes promocionais dos Beatles como Hey Jude e Revolution.

5. Começam no dia 2 de janeiro em um estúdio de cinema chamado Twickenham, em Londres. Os planos de Lindsay-Hogg não são pequenos: ele sonha com um show em um anfiteatro romano ou em um deserto, com plateia de várias nacionalidades, raças e credos.

6. John chega a pontuar que nunca tiveram que preparar tantas músicas em um espaço de tempo tão curto.

7. Nada é gravado oficialmente no estúdio de cinema, só o áudio das câmeras capturando os ensaios para o documentário.

8. Esse material acaba servindo de base para um sem número de bootlegs (os antigos discos piratas, itens de fã-clubes com ensaios ou shows) que surgem a partir daí.

9. Os Beatles aparecem tocando, além das músicas novas, covers das antigas, de Elvis, Dylan, Buddy Holly.

10. Eles tocam ainda She came in through the bathroom window, Oh darling, Maxwell silver hammer e Something, que só iriam aparecer depois, no disco seguinte Abbey Road.

11. Também rolam músicas que só seriam gravadas nas carreiras solo, como Gimme some truth e Child of nature (que depois vira Jealous guy) de John Lennon; Back seat of my car, Teddy boy e Another day de Paul McCartney; e All things must pass de George Harrison, entre outras.

12. Mas nada acaba ficando muito bem acabado, o clima do estúdio também não ajuda. É clássica a declaração de John, de que “não dá para se fazer boa música às oito da manhã, com pessoas te filmando e luzes coloridas em volta”.

13. É clássica a briga entre Paul e George, flagrada pelas câmeras, que acaba com George resmungando ironicamente “se você não quiser eu não toco… faço qualquer coisa pra te agradar”.

14. Harrison acaba dando mesmo uma vazada da banda nesse período, uns três dias depois desse barraco com Paul – o que se diz, fato nunca comprovado, é que ele teria trocado socos com John no estúdio.

15. Os Beatles então partem para uma sala na Apple, onde se sentem mais em casa.

16. George chama o tecladista Billy Preston, gente boa e que bota panos quentes nas tensões.

17. Até que, no dia 30 de janeiro de 1969, uma quinta-feira, os Beatles sobem no telhado e tocam para uma plateia formada pelo staff da Apple, jornalistas e passantes em geral da localidade.

18. O show dura 42 minutos. No filme Let it be aparece cerca de metade da apresentação.

19. Tudo é gravado em oito pistas pelo célebre engenheiro de som Glyn Johns lá embaixo no prédio, e por isso ele não é uma testemunha ocular do show. Alan Parsons está com ele como assistente.

20. Os Beatles tocam pela hora do almoço de um dia frio pacas e ventando muito. O casacão vermelho que Ringo usa é emprestado da mulher, Maureen, e o de pele que John aparece usando é emprestado da Yoko Ono (George também usa um casaco de peles na ocasião).

21. Dá para ouvir o som lá de baixo, e logo começa a juntar uma galera, que mal consegue ver os Beatles tocando no topo do prédio.

22. É um bairro chique, repleto de ateliês de alfaiates, que reclamam da imposição sonora promovida pelo grupo. E a polícia chega depois de uma denúncia de quebra da sagrada lei do silêncio, mas ninguém vai preso.

23. Ringo reclama que gostaria de ter sido tirado dos tambores à força pelos policiais, que são muito educados ao pedirem o fim do som.

24. Os Beatles tocam Get back, Don’t let me down, I’ve got a feeling, The one after 909, Dig a pony (com direito a um assistente segurando a letra para John, que ainda não está muito familiarizado com ela, conforme se vê no filme Let it be).

25. Eles repetem I’ve got a feeling, Don’t let me down e Get back, esta última tocada de maneira meio displicente por causa da chegada dos homens da polícia.

26. Nenhuma música do Harrison é tocada, registre-se.

27. A apresentação fica conhecida como “the rooftop concert” (“o concerto do telhado”).

28. No telhado, eles são filmados por cinco câmeras, além de outras câmeras pelas ruas capturando a reação das pessoas.

29. No dia seguinte, 31 de janeiro de 1969, os Beatles são filmados tocando novamente, desta vez dentro da Apple, as músicas Let it be, The long and winding road e Two of us.

30. John encerra a performance com mais uma tirada clássica: “Queria agradecer em meu nome e do grupo, espero que a gente tenha passado no teste…!”.