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Cultura Pop

Space: quando a França levou a disco music para o espaço

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Em 11 de fevereiro de 1978, a Billboard notava que a disco music estava invadindo a França – e já estava dando seus reflexos em premiações como o Midem. A onda já tinha nome (french sound), estava sendo exportada para os EUA e tinha uma gravadora bastante interessada. Era a Carrére, que estava enchendo os cofres com as gravações do grupo Sheila and B. Devotion – nome artístico de Annie Chancel, uma ex-cantora do movimento yé yé (espécie de “jovem guarda” local) que invadira as paradas em 1977 com Love me baby.

Conhecida por alguns anos em seu país de origem, Sheila tinha virado produto de exportação (no Brasil, chegou a aparecer em coletâneas de disco music e a tocar muito em rádio). E o próximo nome a surgir da tal onda francesa seria um grupo expert em músicas dançantes, com muitos vocoders, sintetizadores e ambientações espaciais. E não por acaso o nome daquele grupo era Space.

Liderado por um compositor francês chamado Didier Marouani, o Space era um grupo bem adequado à onda que vinha tomando conta do pop por aqueles tempos. 1977 era o ano do levante punk, mas por outro lado, também era o ano do sintetizador, com os teclados dominando a parada de sucessos e tomando conta de edições inteiras do Top of the popschegamos a falar disso no POP FANTASMA. Até mesmo Jean-Michel Jarre, supertecladista francês que tinha mais a ver com sons progressivos do que com disco music, foi levado de roldão pela onda com seu clássico espacial Oxygéne, de 1978. A “parte 4” do disco virou hit e ganhou até um curioso clipe pré-MTV.

O Space era uma espécie de proto Daft Punk, com os integrantes sempre metidos em trajes de astronautas e pegando pesado nas referências de ficção científica. Didier dividia os “serviços musicais” com os arranjadores Roland Romanelli e Jannick Top. O líder do Space tinha começado na música como menino-prodígio do piano, influenciara-se por Beatles, Tangerine Dream, Kraftwerk e Elton John, e apaixonou-se pelo mellotron assim que conheceu o teclado.

O primeiro hit do Space, Magic fly, só chegou às lojas (e fez sucesso) depois da terceira tentativa. Foi composto por Didier para um programa de TV sobre astrologia cujo piloto não foi aceito pela emissora. Depois, foi a gravadora com a qual Didier tinha contrato que achou a música ruim. Mas Didier, que também arrumara um contrato como cantor com a Polydor, decidiu não usar a própria voz, vestiu um capacete e gravou a faixa pelo selo Disques Vogue. Fez tanto sucesso que o artista rescindiu o contrato com a gravadora e desistiu da ideia de não aparecer como integrante do Space.

O disco trazia também uma disco music latina e eletrônica, mais formal, com a participação de Madeline Bell (backing vocal de Elton John) no vocal. Era Carry on, turn me on.

O Space era um grupo de estúdio: só existia em gravações de disco ou de TV. Apesar de Didier estar louco para levar música da banda para o palco, a tecnologia disponível não ajudava muito e os produtores eram contra. Em 1977 saía o segundo disco, Deliverance, cuja capa era feita pela mesma turma que cuidava do lay out do Pink Floyd, a Hipgnosis – dando uma certa cara progressiva àquele som dançante. Rolaram mais dois discos, até que Didier pensou: por que não fazer um show na Torre Eiffel e mostrar todo aquele som espacial pela primeira vez ao vivo?

Não deu certo porque, segundo Didier, o produtor do Space não quis. “Eu já tinha a autorização, a imprensa do meu lado. Depois disso caí fora. Um grupo que não toca ao vivo está condenado a morrer”, contou aqui. O que Didier não sabia era que seu produtor havia registrado o nome Space. O músico passou a usar seu próprio nome e, em 1982, chegou a fazer uma turnê na União Soviética.

Foi uma turnê bem turbulenta, por sinal: nem ele estava acostumado a tocar a música do Space ao vivo, nem os produtores do show entendiam como lidar com aquele monte de teclados e luzes. Mas o relacionamento de Didier com a URSS continuou forte a ponto de ele juntar o coral do Exército Vermelho e os canarinhos da Universidade de Harvard (!) no álbum Space opera, em 1987.

De lá para cá, Didier reativou o Space, gravou solo, fez mais shows e projetos na Rússia e até deixou uma mensagem de feliz 2021 pra você. Pega aí.

Tem conteúdo extra desta e de outras matérias do POP FANTASMA em nosso Instagram.

Cultura Pop

Relembrando: Yoko Ono, “Season of glass” (1981)

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Relembrando: Yoko Ono, "Season of glass" (1981)

Complicado falar de um disco que, pelo menos até a publicação deste texto, não está nas plataformas digitais – pelo menos pode ser escutado no YouTube. Mas vale (e muito) relembrar Season of glass, quinto disco de ninguém menos que Yoko Ono, lançado no dia 3 de junho de 1981 no Reino Unido, e dia 12 nos EUA.

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Season of glass, por sinal, causou foi polêmica. Para começar, foi o primeiro disco da cantora e artista plástica japonesa lançado após o assassinato de seu marido John Lennon, em dezembro de 1980. A capa do disco trazia justamente os óculos que John usava no momento de sua morte, e que (por conta dos tiros que ele levou) havia ficado com as lentes manchadas de sangue. Ao lado dele, um copo d’água pela metade.

Yoko foi bastante cobrada por fãs e por jornalistas por ter feito isso. “O que eu deveria fazer, evitar o assunto?”, disse ao New York Times numa matéria publicada dois meses depois do lançamento do álbum. “Muitas pessoas me disseram que eu não deveria colocar aquela foto. Mas eu realmente queria que o mundo inteiro visse aqueles óculos com sangue neles e percebesse o fato de que John tinha sido morto. Não era como se ele tivesse morrido de velhice ou drogas, ou algo assim”.

“As pessoas me disseram que eu não deveria colocar os tiros no disco, e a parte em que começo a xingar: ‘Me odeie, nos odeie, nós tínhamos tudo’, foi apenas deixar esses sentimentos saírem. Eu sei que se John estivesse lá, ele teria sido muito mais franco do que eu. Ele era assim”. Aliás, a gravadora de Yoko na época, a Geffen, chegou a dizer a ela que as lojas evitariam ter o disco em estoque – porque a imagem era “de mau gosto”. Seja como for, Yoko alegou que a única coisa que ela conseguiu salvar de John após levarem seu cadáver tinham sido justamente os óculos dele. “Isso é o que ele é agora”, disse.

A tal música cheia de xingamentos é I don’t know why. E ela foi feita justamente quando Yoko viu que não iria conseguir dormir por causa de uma romaria de fãs à porta do edifício Dakota, onde morava com John, logo após a morte dele. Durante dez dias, Yoko escutou os admiradores do ex-beatle tocando na rua o disco Imagine, ininterruptamente.

“Uma noite eu comecei a me perguntar por que, por que era assim, e de repente aquela pergunta se tornou uma música. Eu não tive forças para me levantar e ir ao piano. Então apenas cantei em um gravador que tinha ao lado da cama. Quando estava cantando eu sabia exatamente qual seria o arranjo, até mesmo a parte em que eu estaria xingando”, contou ao New York Times.

A sombria No no no ganhou clipe, que abria com o som de quatro tiros e Yoko gritando. A versão que foi para o álbum excluiu os tiros. No fim da música, o então pequeno Sean, filho do casal, aparecia contando uma história que seu pai contara para ele. “Sean estava comigo durante toda a produção do álbum. E sua voz, aqueles tiros… Essas são as coisas que ouvi. Tudo o que fiz sempre foi diretamente autobiográfico, e esses sons eram a minha realidade”, contou.

Aliás, em 2020, Yoko deu entrevista para o site American Songwriter e o papo descambou para Season of glass. A cantora considerava o estado de espírito do disco ainda atual. O repórter notou que na contracapa, o copo da capa aparecia cheio, em vez de meio vazio. Eram outros tempos, meses após a morte de Lennon. “Você notou? Muito poucas pessoas notaram isso”, afirmou.

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Cultura Pop

Relembrando: Tad, “8-way santa” (1991)

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Relembrando: Tad, "8-way santa" (1991)

Banda liderada por uma personagem-testemunha do grunge, Tad Doyle, o Tad costuma ser esquecido quando o assunto é a onda de Seattle nos anos 1990. Injustiça: o grupo foi, ao lado do Nirvana, o responsável pela passagem de bastão do rock alternativo dos anos 1980 para os 1990 – mais ou menos como bandas como Joy Division, Killing Joke e o U2 do começo também foram em relação ao fim dos anos 1970. Se o Mudhoney mexia no baú dos lados Z sessentistas e o Nirvana era power pop destrutivo, Tad era um Black Sabbath pós-punk, cruzando riffs e batidas localizadas entre os anos 1970/1980.

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Cantor, guitarrista e, durante uns tempos, multi-instrumentista de sua banda, Tad Doyle é daquelas figuras que observam o tabuleiro do mercado musical por vários lados diferentes – na adolescência, chegou a tocar em bandas de jazz e depois estudou música formalmente, na faculdade. O Tad acabou virando um dos primeiros nomes assinados com a Sub Pop, pouco depois da empresa pular da condição de zine para a de selo. Ficou claro desde o começo que as especialidades de Tad Doyle (voz, guitarra), Gary Thorstensen (guitarra), Kurt Danielson (baixo) e Steve Wied (bateria), formação original, eram som pesado e provocação. E isso logo a partir do primeiro disco, God’s balls (1989), produzido por Jack Endino.

Salt lick, EP de 1990 – reeditado depois como álbum cheio – já foi concebido pelo grupo ao lado de um agente provocador daqueles: o recém-ido Steve Albini. Já 8 way santa (1991), terceiro álbum do grupo, foi o melhor momento da fórmula musical do Tad, abrindo com a pesada Jinx, e prosseguindo com encontros entre Black Sabbath e Killing Joke na fase anos 1980, em Giant killer e Wired god.

O álbum foi produzido por Butch Vig três meses antes dele pegar firme em Nevermind, do Nirvana – o que torna Tad um exemplo de banda que trabalhou com todos os integrantes da santíssima trindade dos produtores do rock alternativo norte-americano. O material não apenas de 8 way santa quanto dos outros discos de Tad poderiam ser colocados tranquilamente na gavetinha do stoner rock – embora haja certo domínio de linguagens não muito comuns ao estilo, como da criação de melodias mais próximas do som de bandas como Joy Division e Hüsker Dü (como acontece em algumas passagens de Delinquent e Flame tavern) e uma abordagem mais próxima do punk em certas faixas (como em Trash truck).

Uma sonoridade mais próxima de discos do Sabbath como Master of reality (1971) surge em Stumblin’ man e Candi. Já 3-D witch hunt, com violões quase hispânicos (e discretos) poderia estar no repertório do New Model Army ou do The Cure. No final, o punk de Crane’s cafe e o pós-punk Plague years, quase uma Plebe Rude/Gang Of Four grunge, combinando guitarras e violões suaves, riffs marcantes e vocais quase totalmente livres de drive (exceção no álbum).

8 way santa teve seu lançamento prejudicado pela capa original. A foto “do bigodudo agarrando uma garota” (como a própria banda definiu), e que havia sido encontrada pela banda num álbum de fotos comprado num sebo, teve que ser trocada assim que os personagens da imagem, que não haviam sido consultados, viram o disco nas lojas. Não só isso: a faixa Jack, o relato de um passeio bêbado – e perigoso – da banda numa pick-up em cima de um lado congelado, chamava-se originalmente Jack Pepsi, numa referência à mistura de uísque e refrigerante que embalou a aventura. Só que a faixa desagradou à Pepsi, e o grupo precisou mudar o título em edições seguintes.

A busca de “novos Nirvanas” chegou até o Tad depois de 8-way santa e o grupo foi contratado pela Giant, novo selo lançado pela Warner. Inhaler (1993), comparado com os outros discos, não trazia nada de tão novo – mas soava como primeiro álbum para quem desconhecia o grupo. O grupo bandeou-se para outro selo da Warner, o EastWest, e lançou Infrared Riding Hood (literalmente, “Chapeuzinho Infravermelho”), seu último disco, em 1995.

Nessa época, estava mais claro para o mercado que Tad era uma banda de “metal alternativo”, um rótulo que, dependendo da banda, servia mais como camisa de força do que como definição. Mas o Tad encerrou atividades por esse período, de qualquer modo. Hoje em dia, Tad Doyle lança trabalhos solo, é produtor, dono de estúdio e tem até Linkedin.

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Smashing Pumpkins entre 1992 e 1996 no nosso podcast

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Smashing Pumpkins entre 1992 e 1996 no nosso podcast

Para muita gente, Billy Corgan foi um herói. Tido como poeta da geração X, o cantor e principal compositor dos Smashing Pumpkins foi o sujeito que colocou inquietações e traumas em versos. Foi o músico que promoveu um impensável encontro entre o rock de arena e as encucações do college rock dos anos 1990. Foi igualmente (e ao lado do Nirvana e do R.E.M.) um artista que alargou bastante os limites do mainstream.

O episódio de hoje do nosso podcast, o Pop Fantasma Documento, dá um passeio na história de Corgan, James Iha, D’Arcy e Jimmy Chamberlin tendo como base seus dois álbuns mais significativos: Siamese dream (1993) e Mellon Collie and The Infinite Sadness (1995), além do antes, durante e depois de uma banda que, durante sua fase áurea, significou a sobrevida do rock, logo depois do grunge.

Século 21 no podcast: Tigercub e Miami Tiger.

Estamos no Castbox, no Mixcloud, no Spotify, no Deezer e no Google Podcasts. 

Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch. Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.

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