Crítica
Ouvimos: School Drugs – “Funeral arrangements”

RESENHA: Hardcore sombrio e sem alívio: o School Drugs mistura punk, grunge e peso metálico em Funeral arrangements, disco de clima fúnebre.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Indecision Records
Lançamento: 24 de outubro de 2025
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A música do School Drugs não foi feita para os momentos, er, felizes da vida – pelo contrário, você talvez demore para escutar um punk rock que seja tão deprê, e que não se roce na estileira emo. O som varia entre hardcore e metal, mas não é “metalcore”: soa na maior parte do tempo como um posto avançado da berraria brutal e da consciência de classe do Exploited, já que o School Drugs tem evidentes influências de grunge e exibe outras referências.
Modern medicine (2019), a estreia do School Drugs, era até mais old-school em relação ao hardcore do que Funeral arrangements, que é o segundo álbum. O disco ficou sendo trabalhado em fragmentos por quatro anos, e começou a se organizar aos poucos em torno de uma paleta sombria, bastante inspirada pela pandemia (discos causados ou influenciados por ela vão sair até 2030, nem duvide disso).
- Ouvimos: Blackwater Holylight – Not here, not gone
Esse clima funéreo gerou faixas como Dead vine, hardcore gritado e desesperado, subindo pelas paredes, cuja letra fala sobre vidas perdidas e danos que jamais serão remediados. Can’t slow down vai na veia das ansiedades que brotaram com força em 2020 – e que permanecem vívidas. Plastic promise abre em clima quase metálico e ganha ares punk. Músicas como No taste, Cold hearted e Brave, repletas de peso e clima sinistro, tentam achar respostas em meio às babaquices e escrotidões do mundo.
De impressionar, tem Epicedum, tema instrumental que começa tremendo o chão, em vibe pós-punk e marcial, e migra pra um tom britpop. Tem também o fato do School Drugs ter resolvido incrementar seu som com cordas em faixas como Haunted, além do funeral musicado da faixa-título, que dura cinco minutos e soa como uma cerimônia punk-gótica. As ferozes Feel like shit e Work forever, por sua vez, falam do tratamento dispensado pelo mundo a uma pá de gente da classe trabalhadora.
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Crítica
Ouvimos: Pulp – “Live!” (ao vivo)

RESENHA: Em Live!, o Pulp revisita clássicos e faixas recentes em um registro ao vivo que reafirma o olhar de Jarvis Cocker sobre classe, desejo, fracasso e pequenas humilhações.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 10
Gravadora: Rough Trade
Lançamento: 28 de agosto de 2026
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Como me disse não me lembro quem: as verdadeiras bandas vencedoras da “batalha do britpop” são as que não tiveram briga nenhuma por causa de nada. Ainda mais numa época tão explosiva e bacana da música britânica. Grupos como Suede, Placebo, Bush (vá lá) e Pulp deixaram o Oasis e o Blur brigando pelo pódio, e foram tratar de suas vidas. Aliás até o próprio Blur deixou o Oasis brigando consigo próprio e batalhando com seus próprios demônios pela liderança no rock britânico noventista.
Acabou que o Pulp se tornou “líder”, só que de uma maneira bem diferente da do Oasis. Banda veteraníssima formada em Sheffield no distante ano de 1978 (!), por um então adolescente Jarvis Cocker, acabou se tornando especialista em desmontar conceitos: igualdade social, vida justa, estilo de vida “alternativo”, classe trabalhadora britânica, refinamento, anti-refinamento, e todos os carros alegóricos do Carnaval do rock alternativo britânico.
Explicando mais ou menos bem: se os irmãos Gallagher eram os trabalhadores broncos e brigões, Jarvis era a “classe operária” com cultura, vida boêmia e algum refinamento, mas incapaz de performar sofisticação, justamente por não se enquadrar em nada. Desde o começo, e mais ainda em álbuns como o clássico Different class (1995), o Pulp tá aí, olhando a vida social britânica de baixo para cima: quem está dentro, quem está fora, quem finge pertencer e quem nunca vai pertencer de verdade, por mais que siga tentando.
Essa turma toda tá nos versos dos grandes sucessos do Pulp, que reaparecem em versões emocionantes em Live!, disco ao vivo que serve de trilha para o documentário What do you do for an encore?, dirigido por Garth Jennings, que passou pelos cinemas lá fora e surge na plataforma Mubi no dia 25 de setembro. Acalentando fãs interessados em histórias nada heroicas (fracasso, desejo, sexo, dinheiro, festas ruins, relações desiguais e pequenas humilhações do cotidiano disputam espaço nas músicas do grupo), Jarvis e seus cometas fazem um disco que, acima de tudo, embeleza a vida, ainda mais em tempos duvidosos.
Com um terço do repertório tirado do disco mais recente do grupo (o excelente More, de 2025, primeiro álbum de inéditas desde 2001), Live! abre com a voz da atriz Kelly McDonald falando “esta apresentação é um bis; um bis acontece porque o público quer mais” e garantindo a conexão bizarra que o Pulp sempre teve com seus fãs. Com várias canções clássicas reunidas, sempre é tempo de perceber a relação que o Pulp tem com estilos como o sophisti-pop, e com a vontade de ser uma espécie de anti-Roxy Music.
O Pulp lembra uma curiosa mescla de Abba, Smiths e Elton John (com citação direta de Saturday night’s alright) em Disco 2000, e impressiona pelo sarcarsmo e pela fineza de faixas como Help the aged, Sorted for E’s & wizz (música que desmonta a fantasia comunitária da raves) e Common people. E dá uma bela animada em faixas como Farmers market, This is hardcore e Do you remember the first time?. Algumas das músicas mais bonitas do britpop estão aqui.
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Crítica
Ouvimos: Jonabug – “Torpor” (EP)

RESENHA: No EP Torpor, o Jonabug deixa o “emo caipira” em segundo plano e se aproxima do shoegaze para falar de amadurecimento, relações tóxicas, escolhas e descobertas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: + um Hits
Lançamento: 11 de setembro de 2026
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O Jonabug é bem produtivo – volta e meia a banda chega com novidades, e dessa vez a parada do momento é o EP Torpor, segundo lançamento mais ou menos “cheio” da banda após o álbum Três tigres tristes (2025, resenhado pela gente aqui). Marilia Jonas (guitarra e voz), Dennis Felipe (baixo), Samuel Berardo (bateria) e Thales Leite (guitarra) voltam fechando a porta para a toxicidade do mundo em Rascunho, primeiro single do EP, e isso já resume o disco. Nas quatro faixas, o EP trata de amadurecimento, reflexões, crescimento e limites dados a gente que já se aproveitou demais.
Marília canta sobre “por pouco” não ter impedido alguém bem tóxico de entrar na vida dela (Rascunho) – e também sobre um amor que não tinha como se realizar (I can’t be with you), escolhas cagadas da vida (a sombria e funkeada Entre o certo e o errado, gravada com a banda sergipana Cidade Dormitório) e fugas e descobertas (Is this the end?). Acompanhando as mudanças internas, o repertório fica bem mais próximo do shoegaze que marcou a história da banda do que do “emo caipira”.
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Crítica
Ouvimos: João Jardel – “megaPOP” (EP)

RESENHA: Em megaPOP, João Jardel encerra sua trilogia afro-diaspórica com eletrônica, ambient, funk e jungle para falar de decadência, falsidade no meio artístico e rejeição à mediocridade.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: HC REC
Lançamento: 2 de setembro de 2026
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Vindo de Itabira, interior de Minas Gerais, João Jardel é daqueles músicos para quem o pop significa muito – desde que seja possível tratá-lo meio mal de vez em quando. Nos últimos anos, ele tem se dedicado a uma trilogia afro-diaspórica que abriu com o EP Pop (2024), seguiu com o álbum Anti-POP (2025) e agora encerra com megaPOP, EP cujas melodias e letras falam de tudo, menos de uma vida “pop”.
Muito pelo contrário: entre melodias eletrônicas, sombrias e de clima afro-não-pop, os personagens das letras de João Jardel são uma pessoa que basicamente definha (em megaPOP1, música que pode ser definida como um ambient no qual você não gostaria de viver), um sujeito que adoraria um laudo médico que justificasse sua fuga da mediocridade performática alheia (megaPOP 2, com clima de Suicide), além do próprio desencanto com a falsidade do meio artístico (o funk EDM megaPOP 4, do verso gritado “eu vou fazer um ebó e vou pedir pra Xangô pra cuspir fogo na cara dos inimigos”).
MegaPOP traz também o “sou preto inteiris, cumpadi!” de Mussum sampleado em Mussum interlúdio e um jungle (o megaPOP 3) cuja letra é repleta de maneiras cool de xingar alguém. Quem ficar chocado com esse disco tá precisando ouvir umas verdades.
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