Cultura Pop
Quinze + 1 discos da Roadrunner Brasil que marcaram época

O Team Rock veio outro dia com uma listinha bem interessante de discos subestimados do catálogo da Roadrunner. Uma gravadora holandesa que nos anos 1990 lançou Sepultura, Ratos de Porão, bandas punk que hoje pouca gente dá valor, grupos bem extremos, e chegou a ter uma operação no Brasil que gerou lançamentos em CD e até algumas contratações.
Hoje a Roadrunner, vale dizer, está bastante ocupada com grupos que ainda mantêm o mercado fonográfico ocupado: Nickelback, Korn, Trivium, Stone Sour. Muita coisa de seu catálogo antigo ganhou tratamento de luxo. Saiu até uma caixa do Sepultura na base do “The Max Cavalera years”. E alguns discos, lançados aqui no Brasil já em CD ou só vinil, fizeram a alegria de muitos fãs de rock durante os anos 1990.
Inspirado na listinha da Team Rock, que não tomei como base, fiz essa lista aí bastante emocional de discos da Roadrunner que todo mundo via a todo momento nas lojas aqui no Brasil. E que não sei dizer se foram subestimados ou não, já que foram bastante estimados por uma galera bem grande. Pega aí.
TREPONEM PAL – “TREPONEM PAL” (1989). Produzida por Franz Treichler, dos Young Gods, essa banda francesa de rock industrial (cujo nome refere-se à bactéria que provoca a sífilis) teve sua versão de Radioactivity, do Kraftwerk, bastante exibida na MTV durante os anos 1990. Quase ao mesmo tempo, saiu por aqui o primeiro disco deles, só em vinil, quando a Roadrunner ainda tinha parceria com a Eldorado. Impressionou muita gente pelo peso e pela criatividade do som. Tinha até uma versão de um single antigo de David Bowie, The prettiest star. Mas era, digamos, constrangedor ouvir piadas quando você ia na loja perguntar pelo “disco do Treponem Pal”.
MOTORHEAD – “LIVE AT BRIXTON 87” (1994). O Motorhead nunca gostou desse disco, lançado sem sua autorização, e nunca o incluiu em sua discografia. Gravado na Brixton Academy, em Londres, o álbum tem repertório matador, ensanduichado entre os discos Orgasmatron (1986) e Rock´n roll (1987), e som de piratão. No Brasil, era achado em lojas de departamentos a preços bem acessíveis (comprei o meu por uns R$ 15 na Mesbla) e capa extremamente mal impressa e ilegível.
“SET IT OFF” – MADBALL (1994). Banda de hardcore novaiorquina iniciada como projeto paralelo do Agnostic Front, que foi tendo mudandças de integrantes ao longo do tempo. Até hoje o vocalista é Freddy Cricien, irmão de Roger Mirei, cantor do Agnostic – que largou o projeto e cedeu a vaga para o mano onze anos mais novo. Marcou época no Brasil com suas canções (bem) curtas, indo de encontro a era do CD – que demandava cada vez mais álbuns de 70 minutos de duração.
“BLOODY KISSES” – TYPE O NEGATIVE (1993). O gothic metal chegava à MTV, arrebanhava fãs e conquistava menininhas, a partir dos vocais soturnos e da performance (digamos) do cantor Peter Steele. Saiu aqui pela nossa Roadrunner, vendeu bastante e estourou um hit improvável, Black no. 1 (Little Miss Scare-All).
NAILBOMB – “POINT BLANK” (1994). O Nailbomb era um spin-off do Sepultura, capitaneado por Max Cavalera e por seu genro Alex Newport, da banda Fudge Tunnel. O som era um thrash industrial que conseguia ser dez vezes mais podre que o Ministry, o encarte trazia estocadas em artistas como Lenny Kravitz, Hootie & The Blowfish e Black Crowes e o repertório tinha cascagrossices como Blind and lost, Wasting away, 24 hours bullshit (uma desomenagem à TV norte-americana) e Vai tomá no cu (assim mesmo, em português). Max e Alex fizeram só um show do grupo, no Dynamo Open Air em junho de 1995 – que gerou o CD ao vivo Proud to commit commercial suicide. E encerraram o projeto. Recentemente, Max anunciou que vai rolar uma turnê flashback do Nailbomb, mas sem Alex, que estaria “muito ocupado”. Olha aí.
https://www.facebook.com/SoulflyOfficial/videos/10154805191324093/
SHELTER – “MANTRA” (1995). Banda de hardcore de Nova York, com approach musical de compositores de trilha de desenho japonês, chavama a atenção por sua devoção a Krishna (eram costumeiramente chamados de krishnacore) e por declarações em que reclamavam das pessoas que faziam sexo pelo sexo (o vocalista Ray Cappo deu uma célebre entrevista à Bizz dizendo que ia se casar com sua namorada, mas sexo “só para reprodução”). Mantra, o primeiro disco por um selo grande, conquistou fãs por causa de Here we go, que até hoje rola em rádios-rock, e que delimita tudo, falando de um casal que “usa o amor para o sexo e o sexo para o amor”. E explicando, por metáforas, que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. “Ferro e ouro parecem iguais/mas um é caro e difícil de se obter”. Ah, bom. O grupo andou se reunindo para uma turnê, mas Ray Cappo hoje está à frente do Youth Of Today.
FEAR – “MORE BEER” (1985). Grupo punk da Califórnia (da qual Flea, dos Red Hot Chili Peppers, foi um dos integrantes por poucos meses) que tinha um humor bem estranho. No filme The decline of western civilization, de Penelope Spheeris, brindam a plateia de um show com montes de piadas machistas e homofóbicas. O segundo disco, More beer, saiu pelo selo Restless e foi licenciado pela Roadrunner Brasil nos anos 1990, já em CD com bônus. Você escolhe entre partir para a patrulha ou encarar tudo com a mesma ironia com a qual eles compuseram o repertório, já que no disco encontram-se músicas como Bomb the russians e The mouth don’t stop (The trouble with women is).
https://www.youtube.com/watch?v=X_o0o2RXRTk
GOD’S FAVORITE BAND – “DOWN TO THE FILTER” (1994). Essa banda punk vinha de um disco-sátira ao Led Zeppelin, In through the out house (1992), e gravava pelo selo Twin/Tone, de Minneapolis. O terceiro disco, Down to the filter, estava na lista de álbuns licenciados por aqui pela Roadrunner, e chegou a ouvidos de alguns futuros fãs. Quem comprou, comprou, porque a Twin/Tone não mantém o disco em catálogo e oferece até CD customizado (leia-se: eles copiam o CD para outro CD num computador e te mandam pelo correio) para quem quiser muito o formato físico.
BLACK TRAIN JACK – “NO REWARD” (1993). Banda de hardcore de Nova York que só gravou dois discos – ambos pertencentes ao catálogo da Roadrunner gringa e lançados aqui. No reward destacava-se por Time, Leapfrog, This the way, pela boa versão punk de One love, de Bob Marley e por uma quedinha pro emo na desilusão adolescente de Guy like me.
RATOS DE PORÃO – “JUST ANOTHER CRIME IN MASSACRELAND” (1994). João Gordo não gosta desse disco, que aponta como o que tem menos a ver com o som do grupo. Uma das primeiras bandas contratadas pela operação brasileira da Roadrunner (após terem sido demitidos da Roadrunner gringa!), os Ratos decidiram tapar o buraco da saída do baixista Jabá com Walter Bart, que vinha do Não Religião e fazia um som mais próximo do rock brasileiro comum do que do punk e do heavy metal. Rolou muito bullying para o novo integrante e, no estúdio, uma sonoridade indecisa. Pra você ver, o melhor do disco é a releitura de Breaking all the rules, de Peter Frampton (a produção por sinal, é do mesmo Alex Newport do Nailbomb).
DALI’S CAR – “THE WAKING HOUR” (1980). Projeto de Peter Murphy (ex-Bauhaus) e Mick Karn (ex-Japan), com o amigo Paul Vincent Lawford. The waking hour é o único (bom) disco da turma, lançado em 1984 pelo selo Paradox Records e depois reeditado pela Beggar’s Banquet. E a Roadrunner também soltou isso por aqui nos anos 1990, já em CD. Em 2010, o grupo quase voltou, mas Mick Karm acabou morrendo. O repertório que deu tempo de ser gravado virou um EP em 2012.
AMEN – “AMEN” (1999). Um dos projetos pesados dos anos 1990 que tinham bastante influência de luminares do peso como Sepultura e Slayer – por acaso, Ross Robinson, que cuidou de Roots, da banda mineira (1996), foi não apenas produtor do Amen como ajudou a banda a consdeguir contrato com a gravadora. Rolou um hype violento com a banda por causa de Amen, o segundo álbum – considerado o “disco da década” pela Kerrang! – mas a coisa desandou. O grupo acabou contratado pela Virgin, entrou numa bizarra disputa contratual com a gravadora e teve o quarto disco engavetado.
“PARTY UP” – TOYSHOP (1999). Banda paulistana de power pop que se chamava Party Up, tinha a bela Natasha Cersosimo nos vocais e foi contratada pelo selo Banguela, capitaneado pelos Titãs e por Carlos Eduardo Miranda – mas acabou tendo seu primeiro disco engavetado quando a gravadora fechou as portas. O grupo retornou como Toyshop, produzido por Iggor Cavalera e gravou pela Roadrunner um disco cujo título era seu nome original. Daydream esteve na programação da MTV.
“CATAPULTA” – CATAPULTA (1997). Numa determinada época no rock brasileiro, parecia que todo mundo que misturasse punk, heavy metal e ritmos brasileiros iria fazer sucesso. O produtor Carlos Eduardo Miranda bancou o trio baiano Catapulta como revelação do rock brasileiro e levou-os para a Roadrunner (numa associação com um selinho chamado Original Discos). Puêra, misturando sons pesados e ritmos de capoeira, passou na MTV. Marcar esse esquema e Tái do mêi, sexistas como elas só, ganhariam muita problematização hoje. De realmente genial, tem o heavy-axé de Nego dão e a versão grunge de Retirantes, de Dorival Caymmi e Jorge Amado (tema da novela Escrava Isaura).
“VISION OF DISORDER” – VISION OF DISORDER (1996). Essa banda novaiorquina de hardcore, entre hiatos e períodos de bonança, existe até hoje – o grosso da carreira deles aconteceu entre 1992 e 2002. Boa parte dos fãs considera o primeiro disco, lançado pelo selo Supersoul em associação com a Roadrunner, como o melhor deles. No Brasil, era disponível tanto em CD nacional quanto em cópias importadas e vendidas a preço de banana.
E + 1
MAURICIO MATTAR, “VERDADES E MENTIRAS” (1999). Acredite ou não, a Roadrunner lançou um CD de Mauricio Mattar no fim da década de 1990 (no Mercado Livre, caso você queira comprar, uma cópia seminova custa R$ 30). Deslocadíssimo entre os grupos de punk, hardcore e heavy metal do selo, o CD destacou Onde foi que eu errei. Olha aí o clipe.
Cultura Pop
Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.
Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.
Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.
O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.
Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.
Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.
Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.
Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.
A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.
Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.
E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.
Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.
Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.
Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.
Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.
Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.
Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.
Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.
O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.
O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!
Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.
Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).
Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.
A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.
Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.
Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.
Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.
Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.
Cultura Pop
“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

Quem assistiu ao clipe de Adjourn it, single novo de Tom Morello (que tem participações de seu filho Roman Morello, na guitarra, e do cantor do System Of A Down, Serj Tankian, nos vocais) reparou que há várias cenas em preto e branco, com greves, manifestações e gente sendo presa. Dirigido por Isabella Margolis, o clipe intercala cenas do trio em estúdio, com trechos do filme Salt of the Earth, lançado em 1954, e que conta a história real de mineiros mexicano-americanos que lutaram contra a opressão e o racismo.
Salt of the Earth tem muita história: para começar, ele foi dirigido por Herbert Biberman (1900-1971), um cineasta que fazia parte da lista dos “dez de Hollywood” – um grupo de dez roteiristas e cineastas de esquerda, que estava sendo vítima de uma caça às bruxas. Ou melhor, de uma caça a supostos comunistas, realizada no começo da guerra ideológica entre Estados Unidos e União Soviética.
Biberman chegou a ficar encarcerado durante seis meses, e ao sair da prisão, decidiu dirigir um filme ficcional sobre a greve dos mineiros do Condado de Grant, no Novo México. O tal filme acabou ganhando roteiro de Michael Wilson e produção de Paul Jarrico – e ele é justamente Salt of the Earth, uma produção que já inovava por ser totalmente independente, off-Hollywood.
O filme acabou sendo uma das principais aparições na telona da atriz mexicana Rosaura Revueltas – por sinal, durante as filmagens, ela foi presa por uma suposta violação de passaporte e acabou sendo proibida de trabalhar nos Estados Unidos, um baque nunca superado em sua carreira. Ela interpreta Esperanza Quintero, a esposa de um mineiro, que faz parte de um grupo de manifestantes mexicano-americanos – a queixa deles era que a Delaware Zinc, Inc, para a qual trabalhavam, não dava a eles a mesmas condições que dava aos mineiros anglo-saxões.
Pra acompanhar a história é melhor ver o filme (tá no YouTube), mas vale dizer que Esperanza fica grávida, seu marido acaba preso e ela se junta a um grupo de esposas de mineiros, que faz piquete no lugar dos maridos. Um detalhe importante sobre Salt of the Earth é que só cinco atores profissionais estavam no elenco: Biberman e a produção convocaram mineiros de verdade, além de moradores do Condado. Nas cenas que você vê no filme, muita gente viveu aquilo de verdade.
Se você está achando que isso foi uma ideia para dar mais veracidade ao filme, não foi nada disso: os sindicatos de atores e de profissionais de Hollywood simplesmente proibiram seus associados de ter qualquer relação com Salt of the Earth, e a equipe ficou sem ter com quem contar. Houve quem notasse que aquela situação era absurda, já que eram sindicatos prejudicando um filme que fazia basicamente uma apologia ao movimento sindical. Mas isso não ajudou em nada, até porque veículos como Hollywood Reporter e Newsweek já estavam falando barbaridades como “filme de comunistas anti-americanos” e outras babaquices.
Claro que a pós-produção e o lançamento de Salt of the Earth não foram nada tranquilos: a equipe teve dificuldade de achar laboratórios que terminassem o filme e ele foi censurado e incluído na lista anti-comunismo dos EUA (foi o único filme incluído lá, aliás). Pauline Kael, uma dessas críticas de cinema que tiravam o sono dos cineastas, desprezou o filme e ainda escreveu que ele não passava de “uma peça de propaganda comunista tão clara quanto qualquer outra que tivemos em muitos anos”. Com o tempo, o filme foi sendo descoberto, e ganhou lançamentos em formatos como laserdisc e DVD. Uma matéria recente do The Guardian traz uma declaração de Biberman dizendo que ele foi “o primeiro longa-metragem já realizado nos EUA pelos trabalhadores, sobre os trabalhadores e para os trabalhadores”.
“Salt of the Earth foi um poderoso ato de desafio em sua época e, mais de meio século depois, seus temas continuam a ressoar no cenário político atual. Adjourn it canaliza o legado de resistência do filme, reforçando a importância da solidariedade para unir as pessoas contra o medo e a divisão”, escreveu Tom Morello num dos textos de divulgação do clipe. E os dois (clipe e filme) estão aí embaixo.
Cultura Pop
Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”

O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).
“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.
Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.
Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.
“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.
“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.
E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.








































