O enorme arquivo deixado por Prince, quando o cantor morreu, parecia um quebra-cabeças, com várias gravações e músicas precisando ser contextualizadas. Michael Howe, arquivista oficial do chamado “Prince Vault” deu uma entrevista exclusiva à revista portuguesa Blitz, e deu uma ideia do drama: haviam fitas com etiquetas, mas sem que houvesse certeza absoluta de que o que estava escrito nelas era o correto. “Foi preciso ouvir tudo, e determinar se cada fita tinha o que ali era parecia ter, ou se era algo completamente diferente, ou algo a mais”, contou.

Como Prince passou boa parte de sua carreira praticamente morando num estúdio, tinha de tudo ali, e era preciso ouvir MUITA coisa. O material inteiro estava guardado em Paisley Park, complexo de estúdios do cantor, em Chanhassen, Minnesotta, mas há um bom tempo já está em Los Angeles, sob (espera-se) cuidados necessários. Apesar do material guardar por volta de 50 horas de música, entre inéditas e canções gravadas por outros artistas, além de demos, muita coisa ainda não viu a luz do dia. Do arquivo, saíram edições deluxe de discos como Sign ‘o’ the times (1987) e Purple rain (1984), além de uma coletânea e poucos álbuns de demos.

E o primeiro a sair, em setembro de 2018, é inacreditável de tão bom – e está entrando aqui no POP FANTASMA justamente porque eu não fazia nem ideia de que ele existia e só ouvi hoje. Piano & a microphone 1983 é uma demo de piano e voz em que Prince toca quase ininterruptamente, como se fosse uma só faixa – até que no final chega a Cold, coffee & cocaine e Why the butterflies. Prince curtia o formato voz e piano e, no fim da vida, dedicava-se a uma turnê no formato.

Capa do disco de Prince "Piano and a microphone 1983"

Até lá, passa por leituras inacreditáveis para 17 days (que depois entrou no lado B de When doves cry), para Purple rain e até para A case of you, de Joni Mitchell, uma das maiores referências do cantor. O Pitchfork define a gravação como “quase um medley com Purple rain. Que na verdade é uma miniatura, uma ideia de Purple rain que Prince faria a partir de uma apresentação ao vivo com o Revolution meses depois (a primeira vez em que tocava em público)”.

Howe explica que Piano and a microphone “era como ouvir o Prince a pensar em voz alta… Tudo aconteceu em tempo real e o que ali escutamos é um homem a criar naquele momento, naquele local. Há uma linha de pensamento que dura 22 minutos de música. Depois vira a fita e grava mais duas canções. Daí, o que temos no disco é um registo do que aconteceu realmente no estúdio naquela ocasião. Não sei o que mais ele de ter feito naquela noite, antes ou depois. Mas naquela sessão foi aquilo”, contou.

Tá aí o disco. Ouça no fim de noite.

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