Crítica
Ouvimos: Waterboarding School, “The little sports mirror”

O Waterboarding School, essa banda sueca de nome sarcástico (“escola do afogamento simulado”?) mostra um certo lado surfístico em seu terceiro álbum, The little sports mirror. Mas o principal é que se trata de um legítimo grupo de garagem, com pretensões musicais que vão do bubblegum ao pré-punk. Long gone, na abertura, é grudenta e sessentista, e dissonante como se tudo fosse se desfazer a qualquer momento – a guitarra dá um andamento quase samba-rock, quase bossa para a faixa.
O disco prossegue com rock garageiro de alma folk (Waving), punk anos 1970 influenciado pela coletânea Nuggets (Bye now, com um órgão maravilhoso de tão sujo, e referências que unem Ramones, The Who e Damned) e canções ágeis de filiação beatle (In the morning e You got to go). No final, Pool of blood remete à faceta do pós-punk que se deixava influenciar pelos anos 1960. Meadows vai na mesma linha, mas com tom sombrio. E Smiling faces encerra tudo unindo Beatles, Rolling Stones e Kinks, só que tudo com alma punk. Conheça correndo.
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 29 de novembro de 2024
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Crítica
Ouvimos: Art School Girlfriend – “Lean in”

RESENHA: Art School Girlfriend une melancolia e eletrônica em Lean it, disco hipnótico, meditativo e cheio de synths, beats e emoção contida.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Fiction
Lançamento: 11 de março de 2026
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Poucos discos lançados nos últimos tempos lidam melhor com uma noção de “melancolia dançante” do que Lean it, terceiro álbum do Art School Girlfriend, projeto criado pela musicista Polly Mackey. Dá pra dançar (de certa forma), mas o principal é a viagem sonora provocada pelos synths e pelo vocal meio rouco dela – que surge em meio a vapores sonoros em faixas como Doing laps, na abertura.
Lean it, na verdade, investe num clima mais cerimonial e meditativo do que “pop”, mesmo em batidões como L.Y.A.T.T. (sigla de “love you all the time”) ou sons crescentes como Hope more, hopeless. Essa onda cresce em faixas hipnóticas como The field, Almost transparent (canção de beat tranquilo, com ruídos de mar em meio ao clima urbano), o trip hop tristinho Down the line. Ou em faixas que soam mais como respiros, como a peça lo-fi Save something, marcada por uma percussão leve e por teclados e voz de “vento”, e a sequência com The peaks.
- Ouvimos: Slag – Losing (EP)
As letras de Lean it seguem de maneira bem fiel o clima de “namorada da escola de arte”: é tudo muito “artístico”, visual, feito como se fossem ambientes a serem imaginados ou habitados – ou evitados. Nascido de uma crise existencial pessoal, o álbum traz Polly vendo através das montanhas em The peaks, desejando uma vida mais livre em Hope more, hopeless (música na qual ela avisa que “se você decidir o que vai projetar / em sua visão, fora de sua mente / fica mais difícil a cada vez / para alcançar os objetivos, traçar uma linha”) e dizendo em L.Y.A.T.T. que a falta de comunicação dói.
No final, o Art School Girlfriend volta a investir em ambients hipnóticos (Lines) e põe limite na angústia de Lean it com uma peça de psicodelia leve (a curta Framer).
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Crítica
Ouvimos: KuleeAngee – “Love & affection” (EP)

RESENHA: KuleeAngee une acid house, rock e pop britânico em um EP dançante, psicodélico e divertido, com ecos de Primal Scream e New Order.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Underplay Recordings Ltd
Lançamento: 27 de maio de 2026
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Pop made in Escócia. Duncan Grant, de Edimburgo, e Keshav Kanabar, de Glasgow, decidiram fazer de seu projeto em dupla, o KuleeAngee, algo bem ligado à união de rock e dance music. Vai daí que Love & affection é basicamente um EP despretensioso – e que acaba dominando a atenção do / da ouvinte justamente pela sua dedicação à música pop como diversão, mas ao mesmo tempo como válvula de escape.
Como o KuleeAngel tem uma onda bem acid house no som, nada mais apropriado: era a época em que som dançante e necessidade de fugir casavam da melhor forma possível – e ainda havia a ligação com o rock por intermédio de New Order, The Cure e da onda de Manchester. Logo na primeira faixa de Love & affection, You’re fine, you’re high, você já chega não apenas nesse som, como nessa época: tem o ritmo funkeado, os assovios, os vocais em falsete, as distorções, a onda quase trance dos teclados.
- Ouvimos: Body Shop – Sex body (EP)
Poderia ser só um tributo modernizado ao Primal Scream (você vai lembrar primeiro deles ao ouvir o EP, claro) ou aos Stone Roses, mas o KuleeAngee soa um tantinho mais pós-disco, nas linhas fortes de baixo de Pretty love. E agarra o pop britânico (não confundir com britpop) com unhas e dentes no gospel psicodélico Daisies, que tem até algo meio beatle. O “uauauau / uauauau” da faixa-título, música tão dançante quanto doidona, é coisa muito séria – é pra virar meme, e se estívéssemos nos anos 1970 / 1980 viraria “melô” de alguma coisa.
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Crítica
Ouvimos: Sorosoro – “Eu e você ou Tudo que eu não quero que você saiba”

RESENHA: Sorosoro mistura post-rock, Midwest emo, shoegaze e math rock em um disco inventivo, melancólico e cheio de nuances.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Seloselo
Lançamento: 13 de março de 2026
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O Sorosoro vem de Blumenau (SC) e une as sonoridades que balançam o coração de meio mundo indie no dias de hoje: Eu e você ou Tudo que eu não quero que você saiba, na prática, é um disco de post-rock, com todo aquela perdição no tempo e no espaço que caracteriza o estilo.
Nem é só isso, já que faixas como Ah! Eu odeio trabalhar têm unem Midwest emo e slacker à Pavement, e estilos como shoegaze e math rock vão surgindo como referências a cada canção – tipo nas variações rítmicas de Nichetok / Corecore, ou na desolação ruidosa de Uma rapidinha antes que Gamaciel, o kaiju tartatuga marinha, tribute a velha central (que título é esse?). Ou nas guitarras pesadas do interlúdio (Heavy storm duster), soando entre American Football e Radiohead.
- Ouvimos: Slag – Losing (EP)
Já Anna Liz (O mundo é da sua cor) tem influências assumidas de bandas como Wilco e Television – a cadência está mais próxima do alt country do primeiro grupo, embora alguns riffs e toques circulares na guitarra façam lembrar o estilo de Tom Verlaine (do Television). Sutileza une dedilhados e toques rítmicos que giram em torno da melodia – a ponto da música ganhar uma cadência de forró, com triângulo e tudo. Eu e você como alegoria para a guerra fria, por sua vez, é o som mais Radiohead do disco – seguido por Eu já não aguento mais e Ficarei olhando até que entendas, sons de clima emo e lo-fi.
Num repertório que fala basicamente sobre os lados bons e ruins da vida normal, uma curiosidade no disco do Sorosoro são os oito raivosos minutos de Jogo da galinha, música que tem várias partes instrumentais e cuja letra narra o encontro com uma turma bem estranha e malvinda (“todos os esqueletos da cidade / se enlataram como sardinhas / vestindo a flâmula nacional / deve ser o dia da bandeira / e eu pensei: que besteira / como pode um bando de desocupados / passar o dia inteiro sem fazer nada?”).
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