Crítica
Ouvimos: Torrey, “Torrey”

- Torrey é o novo álbum do (ora vejam só) Torrey, ruidoso grupo de San Francisco, Califórnia. Na formação do grupo, Ryann Gonsalves (voz, baixo), Kelly Gonsalves (guitarra), Adam Honingford (voz, guitarra), Keith Ival (bateria) e Matthew Ferrara (teclados, guitarra).
- A vocalista Ryann faz parte de uma outra banda excelente que lançou disco esse ano, o Aluminum (leia resenha do disco Fully beat aqui). Uma banda que (frase nossa) parece um primo perdido de grupos como Ride, Happy Mondays, My Bloody Valentine e Boo Radleys.
- É o primeiro disco do Torrey para o selo Slumberland – a mesma gravadora que lançou discos de bandas como The Pains Of Being Pure At Heart, Stereolab e Velocity Girl.
Tem algo no som do Torrey que remete ao rock britânico dos anos 1990 antes do brit-pop começar a existir de verdade, mas sem o projeto de balanço que aparecia em discos de bandas da época. Basicamente o som desse grupo é um quase-shoegaze, uma espécie de power pop em negativo, com boas canções, referências de jangle pop e sonoridade chuvosa e nublada. É o que rola nesse álbum epônimo, em faixas como (olha só o nome!) Rain, que tem uma intro grande de guitarra e voz, e microfonias abrindo espaço para sonoridades mais tempestuosas. Ou No matter how, cujo início soa cono uma demo bem gravada, e logo depois mostra algo profundamente ligado ao bubblegum sessentista.
Em Moving, a acústica de bateria e vocais dão uma cara especial, assim como a gravação de guitarra – tudo isso junto dá um tom noturno e misterioso que é uma das marcas do novo disco. Bounce, por sua vez, tem algo que lembra o U2 do começo, ou bandas como Comsat Angels. A combinação entre vocais femininos e masculinos traz sensibilidade como diferencial, nessa faixa. Hawaii é aberta com muita distorção de guitarra e baixo. A voz vem distorcida como se saísse de um megafone e o som parece uma união de Jesus And Mary Chain e The Cure. Igualmente Slow blues tem lá suas lembranças do Jesus (mais aproximadamente do andamento de Teenage lust, música do álbum Honey’s dead, de 1992), mas ganha clima sonhador e contemplativo.
Um dos momentos mais descaradamente pop do disco é justamente uma música chamada Pop song, que lembra uma versão mais sinistra do começo do The Cure, com vocais e linhas melódicas apropriados para quem curte dissonâncias (dá para fazer uma comparação com o som da banda brasileira Pluma). July (And I’m) é shoegaze acústico, tocado no violão, lembrando coisas antigas do Ride. Perto do fim, o pós-punk distorcido e meio psicodélico de Happy you exist, o anti-power pop de Really am (que abre com uma guitarra que soa como uma fita K7 antiga se desfazendo) e a onda sonora de distorção de We’re dancing (End). No geral, o Torrey fez um disco para quem curte sons melódicos feitos em camadas de ruído – como acontece também com o Aluminum, a outra banda da cantora Ryann Gonsalves.
Nota: 8
Gravadora: Slumberland Records
Lançamento: 8 de março de 2024.
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Crítica
Ouvimos: Big Truck – “Midday at the middleway”

RESENHA: Novo projeto de Laurie Vincent, do Soft Play, o Big Truck estreia com Midday at the middleway cruzando pós-punk, dub, psicodelia e eletrônica, com ecos de Cure, Wire, New Order e Siouxsie and The Banshees.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Marshall Amplification Plc.
Lançamento: 28 de agosto de 2026
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Muita gente anda comparando essa banda britânica com grupos como The War On Drugs – resenhas também apontam para as texturas sonoras, que fazem lembrar Smiths, The Cure, etc. Você vai achar tudo isso e mais um pouco no som do Big Truck, cuja estreia, Midday at the middleway, saiu no finzinho de agosto.
O Big Truck é o novo projeto de Laurie Vincent, cuja banda original, o Soft Play, é bem mais pesada e crua. Mas nem chega a ser tão distante do pós-punk modernizado de Midday, que abre com Feel me…?, uma faixa com cara meio stoner, só que voltada para a maldade pós-punk a la Wire e PiL, com baixo à frente e riff de guitarra lembrando Siouxsie and The Banshees.
Essa esquina entre a variedade musical e a frieza britânica de meados dos anos 1970 é comum por aqui: Central reservation blues localiza-se entre Idles e New Order. A funkeada Polyester vibration (and the handstand currency) é pós-punk com clima de pesadelo musicado. Head so full (algae riddim) abre em tom meio ambient, meio dub, mas logo vai se tornando mais fincada. Rebounder tem muito da fase The head on the door, do Cure – mas ganha clima próprio graças a um piano elétrico.
Importante falar que o Big Truck, a maior parte do tempo, busca criar uma onda musical toda própria, fora de qualquer rótulo. Nisso, cabem a balada blues punk Collided, a psicodelia crua de Dress for all weathers, a eletrônica zoeira de Keep on trucking – que lembra às vezes um clima de karaokê abandonado, com alguém cantando ao som de um Casiotone antigo.
Já como letrista e vocalista, Laurie busca adotar no Big Truck uma persona mais voltada para os “meios-termos” da vida, mas sabendo que às vezes a única coisa que resta é explodir e mandar tudo para o caralho. Como em Surf the suffering, uma espécie de revisão “pesada” do comecinho do The Cure, que traz Laurie tentando se achar em meio a milhares de frases de autoajuda. Ou a zoeira tilelê de Rebounder, que mistura consciência coletiva, cânticos budistas, vídeos do YouTube e várias histórias envolvendo cocô. Muito legal.
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Crítica
Ouvimos: Stratford Rise – “Stratford Rise” (EP)

RESENHA: No primeiro EP, o Stratford Rise cruza math rock, pós-punk e peso em quatro faixas curtas e violentas, com ritmos desconstruídos, guitarras abrasivas e uma tensão que lembra Black Midi.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: 23 de maio de 2025
Lançamento: Stratford Guys Ltd.
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Tem quem ande comparando esse grupo de Belfast (Irlanda do Norte) com o Black Midi. Pela mistura sonora, faz todo sentido – mas o Stratford Rise é bem mais raivoso, e basicamente mostra-se uma banda de guerra em seu EP de estreia. Treze minutos e quatro faixas em que os ritmos desconstruídos do math rock são usados como marcha – e em que instrumentos como guitarra e bateria são usados como armas.
Gunshow, na abertura, é esse tipo de porradaria, com guitarra ganhando aspecto de motor, de tanque sonoro, enquanto o cantor e guitarrista Orion Courtney-Lee cospe versos como “tenho previsão suficiente para saber onde estou / mas não o bastante para saber onde posso cuspir / um trem sobre trilhos atravessa minha cabeça”. Prone tem um ruído que vai começando, e que se torna uma guerra completa do começo ao fim (“enjoado, distante e fraco / eu era um rato do campo / agora sou um rato”).
Snowsports e Machine to water, na segunda metade do EP, narram acidentes prestes a acontecer, e que ninguém conseguiu evitar a tempo. A primeira em clima de metal-funk-soul – mas sem sombra de groove, porque a música tem batida reta e porradeira, com tempestade sonora no final. Machine, por sua vez, tem ritmo circular e próprio, ganhando clima viajante depois.
Não tá no EP, mas vale citar o single World’s fair – uma espécie de Talking Heads girado ao contrário, com clima sombrio e psicodélico, e letra narrando o dia a dia de um estranho mundo onde consumo, evolução, tecnologia, natureza e vida urbana aparecem misturados e fora de escala. Violência sonora ótima.
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Crítica
Ouvimos: Cinema Stare – “Stink” (EP)

RESENHA: No EP Stink, o Cinema Stare cruza pop-punk, emocore, power pop e hardcore melódico em músicas sobre amizades rompidas, autoestima e independência, com ecos do rock alternativo dos anos 1990.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Static Era Records
Lançamento: 7 de agosto de 2026
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O Cinema Stare vem de Connecticut, faz pop-punk, tem vocal feminino (a ótima cantora e guitarrista Quinn Miller está à frente da banda) e tem músicas com clima meio alegre, meio vingativo-deprê, sempre falando de independência apesar dos dias difíceis.
Em algumas faixas do EP Stink, Quinn fala sobre pessoas extremamente babacas e que já sairam da vida dela faz tempo – como no emocore Plus ultra!, e no bubblegrunge Scissors, com várias partes diferentes, e versos como “não, minha barriga não está cheia / este corpo é meu para sempre, vou amá-lo (…) / nada mudou, exceto as amizades na minha vida / pontes brilham intensamente”.
Lembrando às vezes a fase Answer the phone do Sugar Ray, Quinn, Joseph Pelegano e Sean Maclure fazem som quase power pop (Few things), chegam perto novamente do hardcore melódico (FML) e da felicidade punk anos 1990 propriamente dita (Skipping). James pack, raríssimo lado “amoroso” nas letras do disco, chega a lembrar Sublime e a fase “pop” do Sugar Ray, com batidinha funkeada ao lado das guitarras, antes de emendar no punk-pop.
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