Crítica
Ouvimos: Graham Gouldman, “I have notes”

- I have notes é o sexto álbum solo do britânico Graham Gouldman, um dos fundadores do 10cc (você talvez lembre do hit I’m not in love) e autor de uma lista enorme de hits da história da música pop. O disco foi produzido por ele e Graeme Pleeth.
- A capa do álbum foi feita pelo designer Pete Curzon, da Storm Studios – estúdio de design fundado por Stom Thorgerson, criador da Hypgnosis, e autor de várias capas de discos feitas para bandas como o Pink Floyd e o próprio 10cc.
- “A arte da capa funciona lindamente, eu acho”, contou Gouldman no texto de lançamento do disco. “Você pode entender, ou não. Mas você sabe que algo interessante está acontecendo. O espírito de Storm está sempre pairando sobre Peter e seus colaboradores. Storm vive nas decisões criativas que são feitas”.
O 10cc, banda que tornou Graham Gouldman um sujeito mais famoso ainda (ele já vinha de bem antes), é daqueles grupos difíceis de colocar em caixinhas – o que não os impediu de vender bastante. I’m not in love, seu principal sucesso, por exemplo, é daquelas canções de emissora AM e coletânea de rádio dos anos 1970. E é a única música da banda que, no Brasil, um monte de gente conhece (ganhou até uma versão – ruim – em português, popularizada na abertura da trama global Corpo dourado, de 1998).
Complicado de explicar, mas o 10cc era uma banda de art rock, que soava irônica quando queria parecer progressiva (Sheet music, o segundo disco, de 1974, é um excelente exemplo). E às vezes, parecia sofisticada demais – e mais zoeira ainda – quando queria dar uma de popular. Gouldman, por sua vez, antes mesmo do grupo começar, ja era o autor de No milk today (Herman’s Hermits), For your love (Yardbirds), Bus stop (The Hollies) e um monte de outros hits. Aquele tipo de artista que, seja lá para onde ele for, sabe como o jogo começa e tem uma visão de como pode terminar.
- Apoie a gente e mantenha nosso trabalho (site, podcast e futuros projetos) funcionando diariamente.
A carreira solo de Graham começou nessa época de hitmaker, com um disco, The Graham Gouldman thing (1968) que já servia como songbook, além de trazer arranjos de outro futuro astro (John Paul Jones, baixista do Led Zeppelin, que ainda nem havia decolado). Após o primeiro fim de sua banda, ele fez sucesso como integrante de uma super dupla do synth pop – o Wax, aqueles do hit Right between the eyes. Em 1992, o 10cc voltou brevemente, lançando dois discos de estúdio bastante dignos – depois fez mais um retorno em 1999, e está em turnê até hoje. Já em 2008 saiu um EP unindo Graham e Kevin Godley, o bom GG/06.
Sempre compondo com diversos parceiros, Gouldman vem gravando discos solo um aqui, outro ali, mas só mais recentemente vem lançando álbuns com alguma regularidade – pelo menos do anterior Modesty forbids (2020) até este I have notes são apenas quatro anos de diferença. O novo álbum, além de trazer uma emocionante coleção de canções (bem mais próxima do Graham hitmaker sessentista do que do art rocker dos anos 1970), traz participações dos inúmeros amigos que ele foi fazendo ao longo de sua história.
No álbum, Ringo Starr toca bateria em Couldn’t love you more, uma balada que parece realmente com uma parceria perdida entre Lennon & McCartney (e abre com um violão fazendo referência a Blackbird, dos Beatles). Floating in heaven, na abertura, une romantismo e exploração espacial, quase como um Space oddity que no fim, dá certo – e traz Brian May co-produzindo e tocando guitarra. Hank Marvin, guitarrista da clássica banda de surf music The Shadows, aparece na valsa pop When you find love, quase uma trilha sonora da velha Hollywood psicografada por Graham. A texana Beth Nielsen Chapman solta a voz numa canção safadinha de Natal, A Christmas affair, que fala sobre um rala e rola secreto na data.
Do material que Gouldman fez sem convidados especiais, chamam a atenção o country rock We’re alive, o pop adultíssimo de It’s time for me to go e Don’t tell lies, e duas canções bastante associáveis ao 10cc, I’m lazy e Play me (The ukelele song), além do instrumental espacial Celestial light. Uma grande redescoberta.
Nota: 9
Gravadora: Lojinx
Crítica
Ouvimos: Ladylike Dragons – “Ladylike dragons” (EP)

RESENHA: O francês Ladylike Dragons cruza garage rock, pós-punk e batidas dançantes em quatro faixas de guitarras secas e vocais à la Nico e Chrissie Hynde, com ecos de Strokes, Eurythmics e até ABBA.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Nice and Rough Records
Lançamento: 10 de outubro de 2026
- Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.
A França tem bandas indie bacanas que, mesmo tendo muito tempo de existência, passam batidas para quem não mora lá ou não acompanha o que rola por lá. O Ladylike Dragons começou em 2006 e segue uma onda indie-chique bem interessante, com uma cara sonora elegante e garageira – é como se eles aguentassem o calor na garagem usando casaco de couro e óculos escuros, e investindo num clima musical meio roqueiro, meio maquínico.
Challenge the law, faixa de abertura do novo EP, é tudo isso junto: tem guitarras simples na onda do pós-punk, bateria socada, vocais blasé lembrando um misto de Nico e Chrissie Hynde (a frontwoman Cindy é especialista nisso)… Never listening é guitar rock com batida dançante e impaciente e We’re the ocean é bem pós-punk, com baixo à frente, riffs econômicos e algo entre Strokes, ABBA e Eurythmics. Nessa, Cindy manda bala nos vocais dramáticos, cantando uma letra em que amor e paixão são quase como um estilo de vida.
Eleven past nine encerra o EP com guitarras ruidosas e um curioso clima de dub + garage rock, em que tudo ressoa e ganha peso. Conheça agora.
- Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
- E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.
Crítica
Ouvimos: Phoebe Bridgers – “Lost weekend”

RESENHA: Em Lost weekend, Phoebe Bridgers mistura folk, ambient, dream pop e psicodelia para revisitar a relação com o pai, traumas familiares e amores desfeitos. Um disco sombrio, delicado e quase cerimonial.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Dead Oceans
Lançamento: 14 de agosto de 2026
- Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.
Há uns anos, fiz um curso de roteiro em que o professor costumava dizer que fazer o script de um filme, uma novela ou um programa de TV era basicamente tomar decisões – você podia dar ao personagem um fim de vida indigno, um amor bem ou mal resolvido, um enredo batido ou o que quer que passasse pela sua cabeça, mas sempre teria que tomar as melhores decisões. No fim de tudo, ia restar disso uma novela ótima, um filme horrível, um abacaxi que ninguém veria… Muita coisa diferente.
As decisões que Phoebe Bridgers toma para sua carreira… Bom, são decisões que só podem ser tomadas por ela e mais ninguém – ou você imagina outro artista ousando fazer shows-surpresa, tendo a certeza de que tem fãs doentes a ponto de ficar tentando descobrir para qual cidade a caravana do sujeito (ou sujeita) vai? A identificação de seu público com ela e com sua música parece ter efeitos quase hipnóticos, pelo que dá para entender das reportagens que saem sobre seus fãs e seus shows.
A pior decisão que Phoebe poderia tomar nesse momento seria lançar um disco ruim, coisa que ela não fez em Lost weekend, nem de longe. Detalhe que, antes de qualquer coisa. Lost weekend é um disco hipnótico, assumidamente influenciado por climas ambient, em que quase todo o repertório tem uma cara meio cerimonial, enlutada, até mesmo no momentos de explosão. The outside, na abertura, já estabelece o clima meditativo – é uma balada sentimental e voadora, com vocais parecendo vir do céu. Tem um vocoder logo no começo, assim como rola em Lost boys, música bonita e meio folk, bem tristinha graças às cordas e aos vocais meio Beach Boys. Folk e cordas são a base também de Kill me, na sequência.
Na real, em boa parte do tempo, Lost weekend alude a algo perdido no tempo e no espaço. E nem sempre isso vem necessariamente de Phoebe. Muita coisa parece vir de uma sensação de masculinidade tóxica perdida, ou de homens tóxicos perdidos no tempo – ou de relacionamentos que se transformaram em cidades-fantasma. A morte do abusivo pai de Phoebe gerou vários dos sentimentos misturados e espalhados pelo álbum e por todos os seus “produtos”, como a historinha viking do clipe de Lost boys. Ou o clima antigo, de som das cortes antigas, de The governor’s waltz, música balizada por um clima que lembra um vento a levar tudo para bem longe.
Essa ventania dá as caras na psicodelia misteriosa de Bobby, na onda desesperançada do reggae-folk Haunted e na delicadeza de Other plans. A reaproximação de Phoebe com o pai na época da pandemia surge cercada de lembranças – nem todas são boas, como na história de violência do dream pop noturno Still standing, em cuja letra ela recorda ter visto a mãe “sangrando na pia”. Após as frases soltas de Never going back!, surge uma mensagem do pai gravada no celular, em tom simultâneo de cobrança e amor. Ou talvez só de cobrança, com amor embebido em trauma.
A Phoebe que emerge de Lost weekend é quase tão ligada aos elementos da natureza quanto Stevie Nicks e Rita Lee – e bastante linkada ao folk e ao sons ambient como catalisadores musicais, como sinais de que algo no tempo vai mudar, como indicadores de coisas que ficaram perdidas no passado e ainda doem. Tipo em Other plans, música em que um corte na letra mostra como planos antigos são interrompidos “por amor”. Já I can’t wait, com participação de Cameron Winter (Geese) promete ser o sing-along triste do ano, enquanto a curta Panorama insere fuga e beleza na história.
No roteiro de Lost weekend ainda tem um folk cigano saltitante “da nova era” – que na verdade começa como dance music e só depois vai se descolando da matriz. É Liberty tree, que soa como um hino às contradições da vida – as raízes emocionais que prendem todo mundo, os relacionamentos escrotos que todo mundo vai deixando pra trás. É um tema igualmente recorrente num disco em que uma das faixas, a delicada Panorama, tem sua letra resumida à frase “nunca mais voltarei / o jeito que costumava ser não é mais o jeito que é”. E nada permanece igual. Nunca.
- Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
- E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.
Crítica
Ouvimos: Zada – “Heart of a lion” (EP)

RESENHA: Em Heart of a lion, a cantora etíope Zada cruza reggae lo-fi, R&B, acid jazz, afrobeat e dance music com sonoridade vintage. Quatro faixas sobre respeito, aceitação e união, com participação de King Cruff.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Z-ZAD Entertainment
Lançamento: 25 de setembro de 2026
- Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.
Nascida na Etiópia e radicada em Whistler, Colúmbia Britânica, Zada é uma cantora com um lance bem vintage no som, na voz, na produção. O EP Heart of a lion poderia ser uma daquelas descobertas de DJs dos anos 1990, abrindo com o clima bonito e cru de Leave the show, reggae com efeito lo-fi, parecendo em alguns momento vir de uma fita K7. O r&b They’ll never find us vem na sequência, propondo um “além do horizonte” que pode ser encontrado dentro de nós mesmos.
São só quatro faixas em Heart of a lion – a faixa título tem participação do rapper canadense King Cruff e põe certo clima acid jazz + afrobeat na mistura sonora de Zada, que ganha na mesma faixa um ar experimental e meio maquínico. We’ve been runnin’, no final, une algo de rock dos anos 1960 na melodia e no arranjo, mas se torna logo uma dance music texturizada e vintage. No geral, um pop alternativíssimo e muito bem realizado – sempre apontando para temas como respeito aceitação e união em todos os momentos.
- Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
- E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.








































