Crítica
Ouvimos: Good Morning, “The accident”

- The accident é o oitavo disco (e alegadamente o último) do duo australiano Good Morning, formado por Stefan Blair e Liam Parsons. O disco foi feito entre “agosto de 2023 e abril de 2024” e tem participação de Glenn Blair (sax), Nicole Thibault (trombone) e Hank Clifton-Williamson (flauta). É o segundo disco da banda neste ano (Good morning seven, um álbum duplo, saiu em março).
- “Não somos realmente lutadores (somos passivos demais para isso), mas dado que estamos fazendo um novo disco ao mesmo tempo em que já estamos ficando cansados de pensar no antigo, um ar de esgotamento e desânimo relacionado à banda parece estar em muitas das letras”, chegou a dizer a dupla.
Boas e más notícias: o Good Morning lançou mais um álbum, mas infelizmente The accident já sai anunciado como o último da dupla formada por Stefan Blair e Liam Parsons. O disco vem dividindo opiniões – o Stereogum classificou-o como o álbum da semana em que foi lançado, a Far Out o considerou um disco sem maiores atrativos. The accident é um disco curto, bom, quase direto, que une tons de soft rock a uma paleta de novas possibilidades para criações na linha do pós-punk retrô.
Há faixas em The accident que basicamente trazem uma espécie de som “anos 1980” semi acústico – Romance, por exemplo, traz percussões, violões e guitarras fazendo um som que, há uns 40 anos, seria feito com teclados. A abertura com Baby steps é meio pós-punk meio sixties, como uma guitarrinha abolerada no canal direito, e um vocal mais insinuado do que cantado, lembrando João Donato. Essa faixa, por sinal, parece encapsular os problemas do artista que precisa se virar em diversos trabalhos off-música: “Eu quero sair da banda, vocês são uma banda afetuosa/sim, eu vou para casa, para um momento de encerramento/espero que o chefe não veja, e não pense mal de mim/eu tenho que trabalhar às vezes”.
Os arranjos vocais acabam chamando bastante atenção, em faixas como o punk simultaneamente robótico e orgânico Telephone rings, e no som mágico, com instrumentos de orquestra, de Thrills of the family man. Essa última é uma espécie de fanfarra para o homem comum que segue a linha de Baby steps, e dá a entender que na disputa entre a vida de artista, os boletos e a vida doméstica, o Good Morning vem saindo frustrado: “Eu quero morrer com a crença/de que o melhor está por vir (…)/embora eu não possa pagar por todas as minhas compras/eu costumava levar mais seis, diariamente”. Efeitos especiais e sons que não parecem vir de instrumento algum coadjuvam as músicas e dão toques especiais, como em Perfect fishing.
O Good Morning apresenta também um lado autorreferente e meio tragicômico. Isso rola em The grateful dead, soft rock psicodélico sombrio com versos até positivos, mesmo que de brincadeira, como “a vida não é um tijolo sendo jogado em seu vaso/o amor não é ser arrastado da parte de trás de um carro”. E mais ainda nos oito minutos (que poderiam ser um pouco menores, vai) de Soft rock band, com slide guitars e violões, soando como se o Pavement tivesse surgido em Laurel Canyon nos anos 1970 e falasse das durezas e felicidades da vida (“eu fui o Moleskine pelo qual eu não podia pagar/eu fui o Narcan/eu fui a coca/e eu fui a piada”, com refrão: “eu posso ter visto tudo/mas ainda há muito para acontecer”).
Nota: 8
Gravadora: Good Morning Music
Crítica
Ouvimos: Hyper Gal – “Our hyper”

RESENHA: Duo japonês Hyper Gal faz noise caótico e ensurdecedor em Our hyper, misturando tecnohardcore, kraut e ecos de Suicide num ataque sonoro intenso.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Skin Graft Records
Lançamento: 10 de abril de 2026
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Vindas de Osaka, no Japão, Koharu Ishida e Kurumi Kadoya, as duas integrantes do Hyper Gal, fazem som para quem gosta muito de barulho – pode inclusive se preparar para levar um susto com a introdução de Our hyper, seu novo álbum. Uma rajada de balas sonoras toma conta de Killua, uma espécie de tecnohardcore falado, que é justamente a faixa de abertura. Null abre com um baixo distorcido (sintetizado?) e uma batida intermitente, além de vocais que mais parecem um “atenção senhores passageiros” do inferno – a cara de bandas como Suicide, só que patinando no pesadelo sonoro.
- Ouvimos: Melvins e Napalm Death – Savage Imperial Death March
Já o blues do ruído Hazy até consegue soar meio “ameno” – e o vocal ganha ares de cantiga infantil. Só que depois a faixa ganha sucessivas porradas de bateria, acompanhadas de microfonias e distorções. O tipo de som que faz qualquer pessoa enlouquecer caso ouvido no volume máximo. Tem ainda a viagem quase krautrock de I said you said, pouca coisa mais calminha que as faixas anteriores.
Seguindo pro final de Our hyper, o Hyper Gal faz de tudo para deixar as coisas mais pesadas e ensurdecedoras – faz até eletrohardcore de roda em Fade out, e mais sons que poderiam estar no repertório do Suicide, como Tinnitus. Porrada sonora de verdade.
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Crítica
Ouvimos: Outros Bárbaros – “Pelas ruas das Américas”

RESENHA: Em Pelas ruas das Américas, a banda Outros Bárbaros mistura reggae, ska e samba com pop 90s, ganhando identidade e apontando caminhos variados no decorrer das faixas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 6 de fevereiro de 2026
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Banda de Florianópolis, Outros Bárbaros exibe clima de grupo carioca ou baiano em seu terceiro disco, Pelas ruas das Américas, cercado de sons ligados ao reggae, ao ska e ao samba em várias faixas. O álbum de Maurício Peixoto (voz e guitarra), Eduardo Lehr (baixo) e Marco Mibach (bateria e percussão) soa bastante referenciado na liberdade do pop nacional dos anos 1990, mais até do que na música brasileira.
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Essa lembrança do pop noventista surge especialmente nas primeiras faixas, Pelas ruas das Américas, Cheguei cadê você (rock + blues com metais e clima de balada reggae) e no ska Nós dóis. São músicas que têm detalhes bem legais, como os vocais luminosos no fim de Nós dois – o risco é apresentar o Outros Bárbaros como uma banda parecida demais com o som da época.
Mesmo posicionada num lugar arriscado em Pelas ruas das Américas (é a quarta faixa, local de destaque no qual merecia aparecer uma canção autoral) a versão quase blues da banda para Alucinação, de Belchior, provoca uma divisão no álbum. A partir daí, vão surgindo canções com uma cara bem mais própria, destacando o baladão 60’s Aquela canção do Roberto, o ótimo samba-rock-reggae Sem paz, sem chão (a melhor do disco) e a vibe roqueira de Fortaleza hostil, cuja letra cita Refazenda, clássico de Gilberto Gil.
Essa onda roqueira toma conta também da ótima Bicho acuado, música que inicia como um reggae com cara dub. No final, Brasil criança une Jorge Ben e Santana no mesmo espaço – é um bom samba-rock com guitarra lembrando os solos e timbres do mexicano. Pelas ruas das Américas soa como demonstração dos diversos caminhos que o Outros Bárbaros pode seguir daqui pra frente.
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Crítica
Ouvimos: The Pale White – “Inanimate objects of the 21st century”

RESENHA: Em Inanimate objects of the 21st century, The Pale White mistura stoner, glam e power pop em disco sobre tecnologia, nostalgia e excesso digital, com ecos de Beatles, QOTSA e anos 60/70.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: End Of The Wall Recordings
Lançamento: 27 de março de 2026
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Aparentemente, a tecnologia como vida pessoal, vida interior, vida exterior, vida após a morte etc etc e etc, deve virar um tema “instigante” para artistas e bandas nos próximos anos. The hedonist, EP do The 113 que tá vindo aí, fala disso – e Inanimate objects of the 21st century, terceiro disco da banda britânica The Pale White, segue a mesma onda.
Mais: um dos temas do disco é uma espécie de náusea em relação às mudanças na tecnologia. O punk glam Absolutely cinema, herdado tanto de Kinks quanto de Buzzcocks, fala de uma época (distante) em que ir ao cinema era uma diversão até acessível – algo bem distante dos ingressos caríssimos e da fartura de streamings de hoje em dia. Göbekli Tepe, que recorda uma antiga vila arqueológica da Turquia, é outra música que parece falar do que já foi o máximo e foi sendo esquecido. E é uma espécie de dream-metal, que chega a lembrar uma versão stoner do Aphrodite’s Child.
- Ouvimos: Uni Boys – Uni Boys
Essa filiação stoner do The Pale White, aliás, é uma atração à parte. O som dos irmãos Jack e Adam Hope, que lideram o projeto, tem ligação tanto com Queens Of The Stone Age quanto com Beatles, Badfinger, glam rock e até Wings. Faixas ótimas como This fascination e Disappoint me unem vocais estelares, batida e clima sessentistas, e cuidado melódico – tudo isso junto soa como uma citação nada discreta da fase anos 1970 de Paul McCartney.
Moth in the headlights, faixa de abertura, une fronteiras do desconhecido, tecnologia e buracos negros como fatores de descoberta, numa onda glam + stoner + power pop que inclui corais lá em cima, batida rocker herdada dos Beatles e ótimas guitarras wah wah, além de surpresas melódicas. Essa onda 60’s, que passa necessariamente por evocações de bandas como Supergrass, pega também faixas como Float away e a glam Medusa, além do soul + punk Oh brother (que abre com aquela guitarrinha estilo Weezer + Pixies que tá ficando célebre hoje em dia, e cuja estrutura entrega algo próximo até de Jack White e Black Keys).
Inanimate exala um clima bem típico de discos feitos por fanáticos por discos: citações sonoras de bandas como The Moody Blues e The Pretty Things rolam aqui e ali, até no som meio Pixies de Carpe diem e, em especial, na balada psicodélica Mannequin. E ainda por cima o disco do The Pale White encerra com uma versão absolutamente sombria de All I have to do is dream, o hit dos Everly Brothers – só que a canção fica parecendo uma “lentinha” dos Smashing Pumpkins. Essa banda vai para o trono.
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