Keith Richards ou Jimi Hendrix… será que teriam se tornado heróis da guitarra sem a ajuda nada pequena daquelas fabulosas caixinhas “mágicas” usadas pelos guitarristas para incrementar o som de seus instrumentos, os pedais?

“Não sei, mas certamente os pedais não teriam sido os mesmos sem esses guitarristas”, decreta Alice Scott, diretora e co-roteirista de Pedals: The Musical, em conversa com o POP FANTASMA. “A mensagem que queremos transmitir é que por trás de cada pedal há uma pessoa, que usou esse pedal para mudar vidas, para mudar a cultura, para fazer declarações e para iniciar revoluções”.

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Verdade que vários guitarristas clássicos se apropriaram tão bem de alguns pedais que os tornaram praticamente sua própria assinatura musical, como o guitarrista David Gilmour, do Pink Floyd, e o pedal de delay (atraso); Jimi Hendrix e o oitavador; Eddie Van Halen e o phaser (alterador de fase); ou o distorcedor tone bender de Jimmy Page, do Led Zeppelin. Isso sem falar em uma das maiores estrelas entre todos os pedais, o wah-wah, que tem seu nome oriundo do próprio efeito que provoca, fazendo a guitarra soar como uma onda hipnótica e psicodélica, um queridinho de praticamente todos os grandes nomes do instrumento – especialmente quando o papo é rock.

No musical americano Pedals, um a um, cada “pedal” (um ator “vestido” como um pedal, o que dá um efeito engraçado) entra em cena acompanhado de uma banda para contar, cantando, a sua história, importância e influências na música, com direito à coreografia. O musical foi criado durante a pandemia, apresentado sem plateia, claro, filmado por uma equipe reduzida e está disponível apenas na internet.

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As músicas são muito legais, independentemente do musical, mas para ter a experiência completa é bom saber um pouco de inglês, porque não tem legendas em português (acionar as legendas disponíveis em inglês pode ajudar).

Dos três roteiristas (Alice, seu marido Josh Scott e Kelsey White), apenas Josh realmente toca guitarra – ele é, inclusive, o criador da fabricante de pedais JHS. Kelsey tem alguma formação musical, mas não é guitarrista. E Alice não toca nenhum instrumento.

“Esse é o ponto. Você não precisa ser um guitarrista para apreciar o roteiro. Na verdade, escrevemos Pedals: The Musical também para educar os não-guitarristas sobre a história dos efeitos”, explica Alice Scott. “Encontramos uma forma cômica de apresentar a história dos pedais de forma que as pessoas não se sentem inadequadas ou burras se não souberem exatamente do que está sendo contado. Além de ter muita informação sobre cultura pop, para que qualquer um possa perceber o evento histórico ou o significado do que cada pedal fez pela cultura da época”.

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A época, no caso, são os anos 1960, quando uma geração de jovens começou a imaginar que talvez existisse uma outra maneira de se fazer as coisas.

“Havia coisas que você podia fazer no estúdio e coisas que você não podia fazer”, rememora Jimmy Page em seu recente livro Jimmy Page: The Anthology (Genesis, 2020), sobre suas inúmeras sessões de gravação. “E a única coisa que você realmente não podia fazer era aumentar o volume do seu amplificador porque ele iria vazar nos microfones do outro músico. Então, eu queria ter algo que superasse isso, que quando você tocasse uma nota ela tivesse uma sustentação infinita. Quando cheguei com meu pedal fuzz pela primeira vez nos estúdios, os outros guitarristas ficaram horrorizados. Mudou tudo, e aos poucos todos os guitarristas passaram a querer seus pedais”.

E quem poderia pensar que esses despercebidos e desconhecidos equipamentos pudessem até se tornar protagonistas de um musical?

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“O teatro musical permite uma dissociação da lógica cotidiana, amplificando as possibilidades do imaginável, como animais que falam, personagens de quadrinhos saírem dos gibis e até objetos do dia a dia ganharem vida”, explica a atriz e cantora Sabrina Korgut, que é referência brasileira em musicais. “Este é o caso desse Pedals, onde esses objetos de conhecimento de um público muito específico acabam atraindo um público maior, que uma vez embarcado no contexto até se esquece que se tratam de pedais”.

A diretora Alice Scott conta que criar Pedals: The Musical não foi difícil. “Não precisamos inventar histórias. As histórias dos pedais já foram escritas, e as pessoas adoram histórias, adoram ouvir sobre como algo surgiu ou foi criado. A criação desperta o interesse e todos podem se envolver em uma história. Acabamos fazendo os personagens dos pedais porque queríamos contar suas histórias de origem. Então, realmente não foi um desafio escrever o musical, ou transmitir o que esses pedais fizeram pela cultura e pela música, porque era tudo verdade”.

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