O povo contra Larry Flynt é tanto um filme sobre pornografia quanto Romeu e Julieta é sobre suicídio na adolescência”, afirmou o cineasta Milos Forman ao ser entrevistado por Charlie Rose na emissora americana CBS, em 1997. “O filme é sobre contradições e ambiguidades na vida dos personagens e das pessoas. É sobre esse fato bizarro desse cara, chamado Larry Flynt, estar publicando essa revista (Hustler) – e não tenho argumento nenhum a respeito de gosto ou falta de gosto da revista – e, de súbito, a Suprema Corte dos Estados Unidos tomar uma decisão importante sobre nossas liberdades”.

Morto no último dia 14 de abril, Forman tinha conseguido provocar uma turma numerosa com seu então mais recente filme, que se inspirava na vida do editor da revista Hustler. A partir da publicação, Flynt criou um verdadeiro império da pornografia nos anos 1970, que incluíam a revista, sempre com fotos bastante reveladoras de mulheres nuas (inclusive imagens da ex-primeira dama Jacqueline Kennedy Onassis, tiradas por um paparazzo em 1971), um clube de striptease e a produção de filmes eróticos. Enfrentou uma batalha legal na corte da Georgia há 40 anos por obscenidade e, no meio da briga, ficou paraplégico após levar uns tiros dados por um supremacista branco, Joseph Paul Franklin.

No papo com Rose (que recentemente perdeu o emprego na CBS, mantido por várias décadas, após acusações de assédio sexual), o próprio Forman não se dizia nem fã nem consumidor do conteúdo da Hustler e das empresas de Flynt. “Quis fazer o filme porque o caso que chegou à Suprema Corte tornou-se algo importante com relação à liberdade de expressão”, contou. “Liberdade de imprensa é a pedra fundamental da democracia. E não as eleições, que podem ser manipuladas caso não haja liberdade. Não é também um mercado livre – Hitler tinha mercado livre”.

“Se você põe o gene da censura fora da garrafa, ele não volta para lá nunca mais. Isso tem efeito devastador sobre a qualidade de vida de todo mundo. Não que a vida se torne chata, mas ela se torna cruel”, continua. “Sob censura, quem não concorda com as regras oficiais ou o gosto oficial, é um inimigo e tem que ser silenciado”.

Pouco após a morte de Forman, o jornalista André Barcinski fez um texto sobre o cineasta em que explicava porque é que temas como liberdade de expressão eram tão importantes para ele. Nascido na antiga Tchecoslováquia em 1932, ele viu a ocupação de seu país pelos nazistas (em 1938) e pelos comunistas (com a invasão das tropas do Pacto de Varsóvia, em 1968). Também viu os pais morrerem em campos de concentração nazistas. Escapou do país para realizar filmes nos Estados Unidos, mas até mudar-se para lá, sofreu com boicotes e censura. Especialmente após The fireman’s ball, de 1967, visto como uma sátira do comunismo. E que ficou banido em seu país por vários anos.

Flynt, por sua vez, deu uma entrevista recentemente ao jornal El Pais. Reclamou da vitória de Donald Trump e da cobertura da imprensa que, de acordo com ele, cobriu a corrida presidencial sem questionar o que o futuro chefe da nação dizia. “Há artigos mais corretos na Hustler do que na maioria da cobertura que vimos nas últimas eleições”, tinha escrito meses antes numa carta aberta aos meios de comunicação. “George Washington não era capaz de mentir. Richard Nixon não era capaz de dizer a verdade. E Trump não é capaz de distinguir uma coisa da outra”, afirmou Flynt.