O francês Marcel Marceau (1923-2007) foi um mímico que, durante sua extensa carreira, influenciou não apenas gente de teatro como também David Bowie e Michael Jackson – de quem foi amigo durante 20 anos. Influenciadíssimo por Charles Chaplin, costumava definir seu trabalho como “a arte do silêncio”: Marcel não usava palavras em momento algum e apenas se movia pelo palco para criar personagens (o mais popular e duradouro foi Bip The Clown), expressar sentimentos e fazer sátiras.

Marcel, após passar por várias situações de risco e de segregação na juventude (ele era judeu e teve o pai capturado pela Gestapo e deportado para Auschwitz durante a Segunda Guerra Mundial), estabeleceu-se como artista de teatro na França dos anos 1940. Mas só virou sensação mesmo quando conseguiu fazer uma vitoriosa primeira turnê pelos Estados Unidos, em 1955. Nessa época, ele já era bastante conhecido no universo do teatro e havia participado de dois curtas.

Imediatamente, levou sua arte para outros meios, como televisão e cinema. Em 1965, ganhou até um filme sobre seu trabalho, Marcel Marceau, le baladin du silence, de Dominique Delouche. Fez também participações pequenas em His name was Robert (ficção científica de 1967 dirigida pelo soviético Ilya Olshvanger) e Barbarella, de Roger Vadim (1968, primeiro filme no qual sua voz é ouvida).

Em 1976, Marcel fez uma participação em A última loucura de Mel Brooks, sensacional filme mudo do diretor americano Mel Brooks. O mímico faz uma aparição rápida e pronuncia a única palavra ouvida no filme todo (“não”).

E teve a época em que, mesmo sendo um mímico, Marcel foi descoberto pelo mundo do disco. A dúvida com certeza era: como fazer isso no caso de uma pessoa que não é exatamente conhecida pela sua voz, e cujo trabalho é marcado por quase 100% de silêncio?

Bom, a gravadora MGM resolveu em parte esse problema lançando um LP bem curioso em 1970. The best of Marcel Marceao (a grafia é essa mesma) traz apenas quatro faixas: duas em silêncio e duas de aplausos (!).

Quando Marcel Marceau lançou um disco só com silêncio

Como se não bastasse esse disco ter existido de verdade, alguém resolveu jogá-lo no YouTube. Olha aí.

The best of Marcel Marceao saiu com uma capinha laminada lindíssima, que trazia um desenho em preto e branco da face do mímico. Foi produzido por Michael Viner. Até então, Viner era um cara que jogava nas onze: produzia eventos, filmes e discos. Dirigiu até um selo da MGM chamado Pride, que lançava trilhas sonoras e coletâneas. Em 1972, dois anos depois do LP de Marcel, Viner montou a Incredible Bongo Band, responsável por, entre outras coisas, compor a trilha sonora da trasheira O monstro de duas cabeças, de Lee Frost.

O álbum de Marcel, vale dizer, foi lançado como uma piadinha besta pela MGM. Pra começar, o álbum vinha com um texto na contracapa explicando que “o cachorro de Jaqueline Susann disse que ‘escutar esse disco foi a experiência mais excitante que tive desde Lassie'”, e que “o porta-voz do governador Reagan (o futuro presidente Ronald Reagan comandava a Califórnia por aqueles tempos) disse a um repórter que é um problema local e que não tem nada a ver com seu escritório”.

Quando Marcel Marceau lançou um disco só com silêncio

Vale dizer também que não foi a primeira vez que as gravadoras descobriram Marcel. Em 1964 saiu o LP Marcel Marceau parle l’art du silence, mas com o mímico falando sobre sua arte. Foi lançado por uma gravadora da França. Em 1971 sairia Marcel Marceau speaks in english, com (como o próprio nome diz) Marcel falando em inglês sobre mímica.