Surgiu na web no último sábado (14) um material de valor inestimável para fãs da Legião Urbana. Jogaram no YouTube a fita K7 distribuída à imprensa em 1986, contendo a entrevista de lançamento da banda na época do segundo disco, Dois. Gravado no estúdio da EMI, o bate-papo traz Dado Villa-Lobos (guitarra), Renato Russo (voz), Renato Rocha (baixo) e Marcelo Bonfá (bateria) indo fundo em detalhes técnicos da gravação do álbum. Uma surpresa para os fãs são os poucos segundos de uma jam que deu origem a Andrea Doria, e que trazia a banda com posições trocadas. *

“A música surgiu quando o Bonfá pegou a guitarra…”, começa Renato Russo. Dado continua: “Eu peguei a bateria, o Renato (Russo) no baixo. E o Marcelo deu duas notas e a gente foi criando em cima, pulando as partes”. O vocalista diz que a intenção da banda ao completar a música era não repetir o mesmo esquema de “mantra” (“que a gente adora”, esclarece) que já havia em canções como Soldados e Índios.

A fita não é apenas uma mera entrevista e vale como um documentário de áudio. Tem trechos de Soldados  e da então inédita Tédio (Com um T bem grande pra você) gravada ao vivo e alguns segundos de uma demo de Geração Coca-Cola. Há até mesmo um trecho dos Sex Pistols, ao vivo, tocando Pretty vacant. Tem também os depoimentos de Dado, Bonfá, Russo e Renato que depois sairiam publicados em Riding song, música de abertura do póstumo Uma outra estação (1997). Por sinal, os lados A e B surgem invertidos na ordem postada no YouTube.

Em Dois, a Legião Urbana dava vários passos à frente. No primeiro disco, tiveram que encarar tempo contado de estúdio, pouca sofisticação tecnológica e uma ou outra batalha com a gravadora. No segundo, fizeram uma pré-produção com Mayrton Bahia (que cuidava da banda em estúdio) e experimentaram vários efeitos. Num dos momentos da fita, Renato Russo chega a assumir o papel de repórter e entrevista Dado sobre a gravação de guitarras do álbum e o uso de amplificadores.

Os quatro lembram terem começado a se interessar por rock numa época em que grupos progressivos, disco music e bandas de pop açucarado como Carpenters dominavam o rádio. O punk, grande influência da Legião em seu começo, era desconhecido no Brasil. “Brasília é uma cidade administrativa e gira em torno da UnB. Ainda descia o pessoal armado pra bater nos estudantes em Brasília, A gente usava isso para se expressar e montar um conjunto de rock. Você não precisa estudar vinte anos e aprender a tocar que nem o Rick Wakeman. É só pegar uma guitarra e aprender três acordes”, lembra Renato Russo. “A gente tá tentando colocar na música o que a gente acredita. A gente acredita no direito que todo mundo tem de se expressar”.

* A Discobiografia Legionária, livro de Chris Fuscaldo sobre os discos da Legião Urbana, fala desse assunto também.