Antes de mais nada, pare tudo o que você está fazendo e ouça agora “The idiot”, primeiro disco de Iggy Pop, que completou 40 anos nesse último fim de semana e de cujo conteúdo surgiu boa parte do punk e do pós-punk.

Agora pode prosseguir: “The idiot” foi lançado pela grandalhona RCA numa época em que ninguém mais apostava em Iggy, que se arrastava desde o fim dos Stooges em projetos que não tinham prosseguimento. Bom, “ninguém” é maneira de falar, já que o grande amigo David Bowie foi lá resgatar Iggy, conseguiu-lhe um contrato, produziu o disco, tocou vários instrumentos (guitarra, sax, teclados, até xilofone), emprestou seu guitarrista Carlos Alomar e ainda deu plástica ao repertório criado por Pop, compondo tudo ao lado dele. Sem músicas como “Nightclubbing”, “Dum dum boys” e “China girl” (aquela mesma, que Bowie gravou anos depois), pode esquecer praticamente tudo o que veio depois: pós-punk, britpop, synthpop, até grunge e se bobear até heavy metal. E música pop (Grace Jones gravou “Nightclubbing” e Madonna sempre curtiu Iggy).

Deu certo a ponto da RCA investir em mais um disco de Iggy naquele mesmo ano, “Lust for life” – só que este foi prejudicadíssimo por ter sido lançado pela RCA na mesma semana da morte de Elvis Presley (a gravadora botou suas fábricas e seu departamento promocional para investir no relançamento da obra do Rei do Rock, maior nome do seu catálogo, e deixou Iggy pra lá).

Devidamente redescoberto pela mídia, Iggy passou a dar muitas entrevistas e fez aparições inesquecíveis em programas de TV naquele ano. Olha aí algumas delas.

Conversando com um repórter na TV holandesa, um Iggy aparentemente bêbado fala com propriedade sobre as origens do punk. Diz que o termo surgiu em “jornais e revistas de terceira categoria”, e que representa “um cara que quer fazer uma coisa bem forte, mas não tem habilidades específicas para isso, daí coisas engraçadas acontecem”, conta, citando como exemplo “O falcão maltês”, um filme da Warner de 1941, com Humphrey Bogart no papel principal, “que tem um cara que trabalha para o cara mau do filme. Ele carrega três ou quatro armas ao mesmo tempo mas é tão estúpido que não consegue atirar em ninguém”. Quando perguntado sobre Bowie e sobre a carreira cinematográfica do amigo, sai pela tangente. “Não penso nada sobre nada, não tenho opinião sobre nada ou ninguém, para ser sincero. Nem tenho tempo livre para ter opiniões ou pensar muito”, tenta explicar.

Mesmo ocupadíssimo com o lançamento de seu disco “Low”, David Bowie tocava teclados e fazia backing vocals em shows de Iggy (e claro que ouvia pedidos da plateia para cantar seu próprio repertório). Olha ele aí quietinho nos teclados e nos vocais de apoio enquanto Iggy quebra tudo cantando “Funtime”.

Em outubro de 1977, Iggy entra carregado por auxiliares (!) no palco do Teatro Apollo, em Manchester, para uma versão de mais de sete minutos de “The passenger”.

Essa aparição de Iggy no palco foi a segunda parte desta entrevista que o cantor concedeu a Tony Wilson, futuro chefão do selo Factory, em seu programa de entrevistas “So it goes”. Iggy é sincero ao falar que sem ajuda dos amigos nada poderia ser feito. “Eles me levaram junto com eles numa época em que eu era um babaca. Não conseguia apresentar nenhum produto consistente nem falar mais de três palavras sem cair no chão, e não estava fazendo shows que prestassem”, conta, agradecendo a David Bowie e a seus pais.