1977, você sabe, foi um ano cheio de lançamentos importantes do punk, incluindo discos do Damned, Sex Pistols, Ultravox, Clash – todos comemorando 40 anos em 2017. A efeméride é uma ótima oportunidade não apenas para relembrar grandes discos do estilo, como também uma boa desculpa para desconstruir (palavra da moda…) de vez essa groselha de que punk e progressivo são estilos musicais inimigos. Nada disso – no máximo, no máximo, um anda bonito, o outro elegante. Vários artistas dedicados aos sintetizadores e aos intrincados solos de guitarra (ou a nomenclaturas associadas, como a psicodelia, o space rock e o krautrock) tiveram namoros duradouros com os quatro acordes, ou com gêneros musicais abrigados sob o mesmo guarda-chuva: pós-punk, proto-punk, glam rock, new wave. Confira só a lista abaixo, e ouça tudo.

Hawkwind – “Silver machine” (1972). Definido por Mick Jones, do Clash, como “uma banda de rock progressivo da qual os punks podiam gostar”, o Hawkwind era rock espacial com poucos acordes, vocal berrado e letras doidaralhaças e críticas – e trazia entre as atrações o baixo e o vocal do futuro Motörhead Lemmy Kilmister (que se definia não como um baixista, mas como “um guitarrista com um som mais profundo”) e os happenings de palco promovidos pela dançarina, artista visual e nudista Stacia. “Silver machine” é um dos maiores hits do grupo. E o clipe merece a sua atenção.

Faust – “The sad skinhead” (1973). Classicão do kraut rock (o experimental rock alemão dos anos 1970, que muitos têm na conta de um “progressivo” local), o grupo satirizava o lado mais violento e extremista da cultura skinhead em seu quarto disco, “Faust IV”.

Gong – “Pothead pixies” (1973). Presença marcante na lista de 40 melhores discos de “rock cósmico” de todos os tempos da revista Mojo, o terceiro disco do Gong levava a banda a figurar na lista dos pais do punk por causa da historinha surreal dos duendes maconheiros – crua, mas sem largar a psicodelia de lado.

Robert Calvert – “The widow maker” (1974). Poeta, escritor, letrista e espécie de guia espiritual do Hawkwind (sobre os quais você leu lá em cima), Robert foi responsável por um dos mais genuínos crossovers entre o punk e o progressivo, lançando uma espécie de ópera-proto-punk em 1974 sobre os acidentes provocados pelo avião Lockheed F-104 Starfighter após sua aquisição pelo ministério da aviação alemão – era o estranho “Captain Lockheed and the Starfighters”. Tocando com Robert, havia um combinado de proto-punks ilustres, incluindo gente do Hawkwind (Lemmy no baixo), Pink Fairies e até Arthur Brown. Brian Eno toca sintetizador e Jim Capaldi (Traffic) é um dos atores das partes faladas do disco.

Neu – “After eight” (1975). Surgidos de uma dissidência do Kraftwerk, os reis do krautrock (Klaus Dinger e Michael Rother) vinham de discos experimentais que podiam ser colocados tranquilamente na gavetinha do progressivo. “After eight”, menor música do disco “Neu! 75”, foi um de seus mergulhos na crueza do punk.

Peter Hammill – “Nadir’s big chance” (1975). O ex-vocalista do monolito prog Van Der Graaf Generator tinha resolvido reformar seu ex-grupo e gravou o álbum “Nadir’s big chance” com o novo line-up da banda. E fez o que pode ser considerado o maior mergulho no punk e no glam rock já feito por um artista tão profundamente ligado ao som progressivo. John Lydon (Sex Pistols/PiL) é fã. Confira a faixa-título.

Roxy Music – “Love is the drug” (1975). Sem Roxy Music, não haveria nada do que viria depois. Nada mesmo: Prince, Duran Duran, fase norte-americana de David Bowie, Arctic Monkeys, Franz Ferdinand. Para quem prefere o rock nacional, não haveria nem RPM, Camisa de Vênus (que chupou até um título de disco ao vivo do grupo, “Viva”) e Zero. O grupo liderado por Bryan Ferry foi um guarda-chuva de músicos progressivos – John Wetton (Asia), Phil Manzanera e Eddie Jobson (UK, Jethro Tull) passaram por lá – e por causa do som meio viajante dos primeiros discos, costuma ganhar a mesma definição em algumas enciclopédias de rock. Mas já estava bem próximo da new-wave e até do pós-punk nos anos 1970.

Brian Eno – “King’s lead hat” (1977). Em 1977, em seu disco “Before and after science”, Brian Eno (integrante do Roxy Music em sua fase mais experimental) recrutou músicos como Phil Collins (Genesis, bateria), Robert Fripp (King Crimson, guitarra) e Phil Manzanera (Roxy Music, guitarra) e soltou pérolas da crueza punk-new-wave como “King’s lead hat”, homenagem a seus amigos do Talking Heads (“King’s…” é um anagrama do nome da banda).

Pink Floyd – “Pigs (Three different ones)” (1977). Achar características de punk rock no som do velho grupo progressivo não é uma tarefa tão complexa quanto achar agulha no palheiro. “The wall”, de 1979, com sua crítica ao jogo do showbusiness, ao rastro de destruição psicológica provocado pelas guerras e ao sistema educacional britânico, pula na frente, claro. “Animals”, disco de 1977, foi definido pelo baixista Nick Mason como “reação subconsciente” à chegada do punk, e já incluía letras cáusticas e músicas mais simples e pesadas.


The Only Ones – “Another girl, another planet” (1978).
Banda punk com notável influência da psicodelia, tinha como baterista o saudoso Mike Kellie, que tocou de 1967 a 1970 com o Spooky Tooth, grupo psicodélico que costumava ser chamado de “progressivo”, até por falta de definição melhor.

Yes – “Does it really happen” (1980). Imaginar o Yes tornando-se uma banda mais moderninha no fim dos anos 1970 nem é das tarefas mais árduas – o rock progressivo já vinha trilhando esse caminho e havia até críticos musicais tentando dar ao pós-punk nomenclaturas como art-punk, punk-progressivo (nada disso pegou, graças a Deus). Em 1980, sem Jon Anderson, que deixara o grupo por uns tempos, o chefão Chris Squire ousou chamar os dois integrantes da dupla new wave Buggles (de “Video killer the radio star”) para entrar para o grupo. “Drama”, disco que saiu nesse período, é bem interessante – mas os fãs radicais costumam dizer que o título do LP reflete o conteúdo. Decida ouvindo a música abaixo.

Can – “Butterfly” (1981, mas gravado em 1968). Muito do que se entende como darkwave e no-wave (aquele som do disco “No New York”) vem da sonoridade dessa banda de krautrock, liderada pelo malucão Holger Czukay, um sujeito que passou a vida ouvindo e trabalhando com música clássica e experimental – e só foi dar valor ao rock aos 30 anos, quando ouviu “I am the walrus”, dos Beatles. Na dúvida, ouça essa música que ficou 13 anos guardada e só saiu num disco de outtakes, “Delay 1968”. Lembra muito o Television também.

The League Of Gentlemen – “H.G.WELLS” (1981). Em carreira solo, longe do King Crimson e fanático por punk e new wave no fim dos anos 1970, o guitarrista Robert Fripp reuniu músicos como Sara Lee (baixo, Gang Of Four), o tecladista Barry Andrews (XTC) e o baterista Kevin Wilkinson (China Crisis e Squeeze) e montou um estranhíssimo grupo de pós-punk, a League Of Gentlemen. O primeiro disco tinha todas os títulos das músicas escritos em caixa alta, nada de virtuosismo, guitarra-baixo-vocais lembrando Joy Division, teclados podrérrimos e músicas que soavam como afronta aos fãs radicais do progressivo. “H.G. WELLS” trazia tudo isso e ainda acrescentava o áudio de gemidos gravados até o orgasmo (não-creditados, igualzinho ao que Prince faria anos depois com “Orgasm).

King Crimson – “Heartbeat” (1982). A animação de Robert Fripp com a simplicidade do punk e da new wave gerou reforma geral no King Crimson quando a banda voltou nos anos 1980. “Heartbeat”, um dos sons mais significativos do grupo nesse período, saiu em “Beat”, disco influenciado tanto pelos sons da época quanto pela literatura beat (daí o título). Até o clipe da música, que você vê abaixo, era bem moderninho.

Rush – “Vital signs” (1982). Teve gente que, quando bateu o ouvido nessa música do clássico disco “Moving pictures”, do Rush, achou tudo parecido com o Police. O grupo meio hard rock meio progressivo do Canadá deu uma crescida de olho para a new wave nesse hit single e ainda incluiu características do reggae “de branco” do trio liderado por Sting. Ninguém reclamou – e pra quê, não é mesmo?