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Ziriguidum: 25 anos de MPB na internet comemorados com documentário

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Um site que existe há 25 anos. Ok, sabemos o que você está pensando aí: “Peraí, mas há 25 anos já tinha internet pública?”. Tinha sim, mas funcionava quase a lenha. “Não tinha essa dinâmica de publicar na mesma hora, era um processo. Então tínhamos edições mensais com três ou quatro matérias que entravam no ar”, conta Beto Feitosa, que em 1996 criou, ao lado de Flávia Souza Lima o site Ziriguidum, especializado em MPB. No ano passado, bem no início da pandemia, o site transformou-se num dos primeiros festivais online, o Ziriguidum Em Casa, dirigido por Beto, pelo músico e ator Cláudio Lins e pelas jornalistas Maria Braga e Ana Paula Romeiro. O festival já teve 23 edições.

O reconhecimento do Ziriguidum Em Casa veio pela presença do público, pelo número de artistas conhecidos que se apresentaram no festival, e também por uma premiação: recentemente, o evento foi o vencedor na categoria Festival de Música Online, na sexta edição do Prêmio Profissionais da Música. Já o site Ziriguidum, que surgiu como uma revista impressa, ganha em janeiro um documentário, dirigido por Rafael Saar, contando toda a trajetória do site. Vale lembrar que o Ziriguidum foi inovador a ponto de – bem antes de existir um negócio chamado podcast – já ter mantido uma rádio na internet.

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Beto Feitosa bateu um papo com o POP FANTASMA sobre o documentário, os projetos que estão vindo aí e sobre o pioneirismo do Ziriguidum.

Queria saber um pouco como foi a surpresa de receber um prêmio pelo Ziriguidum Em Casa. Qual o balanço que você faz desse tempo todo que o evento está de pé?

Ziriguidum já tinha sido indicado outras vezes ao prêmio, mas esse é o primeiro troféu que vem pra estante. Foi uma alegria muito grande e até surpresa pq tinham outros festivais ótimos e super importantes. Aquele velho chavão que só estar ali entre eles já era um prêmio, mas quando anunciou o vencedor deu uma alegria imensa. Um incentivo grande pra continuar.

A gente começou na primeira semana de pandemia sem saber o que estava fazendo. Só no impulso de fazer. Aos poucos fomos entendendo a lógica, adaptando… e também mudando o formato, que no início eram de apresentações ao vivo. Depois essa onda de lives diminuiu e deu lugar a shows mais bem produzidos. Nisso a gente passou a fazer especiais temáticos, juntando artistas. E o evento é feito por quatro pessoas (eu, Claudio Lins, Maria Braga e Ana Paula Romeiro) que são apaixonadas por música. Então a gente fala pra quem tem o mesmo interesse que a gente. É um festival feito de verdade com muito amor e dedicação.

No começo falava-se em isolamento de poucos dias, poucos meses… O que vocês tinham em mente quando montaram o evento? Acreditaram mesmo que seria algo de poucos dias ou meses?

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Não tinha nada em mente. Eu também estava com aquela ideia de “daqui a 15 dias já tem show de novo”. A gente fez a primeira semana – que a princípio seriam três dias com cinco shows cada e acabou virando quatro dias com cerca de 7 a 10 shows por dia – e no final dessa primeira maratona tinha gente pedindo pra fazer. Então a gente resolveu repetir na semana seguinte. E foi rolando assim até que a gente entendeu que aquilo ali tinha força grande de unir pessoas. Acho que demorou cerca de um mês pra gente ter essa visão. A entrada da Maria Braga e da Ana Paula Romeiro na produção – nos dois primeiros éramos apenas eu e Claudio – foi um sinal disso.

Como tem sido o retorno dos frequentadores do festival? Você diria que o Ziriguidum ajudou muita gente?

Eu comparo a importância dos artistas nessa pandemia com a dos médicos. Para quem estava em casa sozinho, sem amigos, sem família, com a vida totalmente mudada de uma hora pra outra… Você ligar o Instagram e ter ali diversos artistas oferecendo sua música é de um tamanho que não tem como dimensionar. A gente estava trancado, com medo, sem informações. Mas conseguia se distrair ali pulando de um show pra outro, descobrindo novos artistas, reencontrando outros…

A gente organizou essa grade, fazendo quase que uma curadoria. Um artista se apresentava por meia hora e chamava o público para acompanhar o seguinte. Isso ajudou muito quem estava em casa – falo isso por experiência própria como público também – e ajudou os artistas que naquele momento encontraram essa forma de se comunicar, de oferecer sua música para as pessoas. A troca é incrível, uma energia que realmente rolou. E acho que isso criou um costume novo, abriu um palco a mais. Hoje em dia a pessoa entende como “um programa” assistir um especial desses pela internet. Nada substitui o artista ao vivo, mas também você entrar na casa dos artistas e ter ele ali em seu ambiente fazendo música é muito especial.

Hoje em dia quem faz a edição do programa sou eu. Ou seja, passo a semana inteira vendo e revendo aqueles vídeos, colando, tentando equalizar o som… Mas na hora que está indo ao ar, assistindo com todo mundo, minha emoção é de público também. Me surpreendo e adoro ler os comentários.

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Quais são os próximos projetos do evento?

Com a retomada gradual das atividades, dos editais, toda a equipe se viu muito sobrecarregada nos últimos meses, tanto que essa edição teve um atraso e chegou a ser remarcado algumas vezes. Então a gente decidiu que vai ser o último de 2021. Mas já temos o tema do próximo, algumas confirmações, parcerias bacanas… E em janeiro vamos estar de volta. Também queremos muito que o festival tenha uma continuidade no palco com o mesmo clima que tem na internet, juntando surpresas e matando saudades. A ideia é encontrar as pessoas, viajar, chegar mais perto de quem esteve junto nesse período.

Em 2021 o site Ziriguidum completou 25 anos. O que te motivou a montar o site como estava sua vida profissional (e a da Flavia) na época?

Não existia vida profissional (risos). Eu era calouro de jornalismo da PUC, ela tinha se formado e estava voltando para fazer letras. A gente se conheceu por acaso e foi uma empatia imediata. Eu já tinha editado jornais e revistas em Niterói e tinha tentado emplacar uma revista sobre música brasileira em uma editora daqui. Comentei isso com ela que adorou a ideia, embarcou e juntos conseguimos colocar isso na rua em forma de revista.

Eu cheguei a dispensar um estágio no Jornal do Brasil – sonho de 9 entre 10 estudantes de jornalismo na época – pra seguir com Ziriguidum. Com a revista circulando saiu uma nota na coluna que o Tárik de Souza tinha no Jornal do Brasil e fomos convidados para fazer um site. Isso era 1996, eu só usava e-mail e pesquisava coisas pontuais. A internet – especialmente no Brasil – era terra de ninguém, pouquíssimas pessoas tinham acesso.

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Quais são os maiores de gols que o site marcou esse tempo todo? Alguma entrevista ou matéria marcou mais?

Acho que o maior gol tá no DNA: é um veículo que nunca se pautou pela indústria, sempre foi “amigo da arte”, como diria Alceu Valença. Desde o número zero a gente nunca quis se colocar como um espaço para crítica de música, e sim para curadoria, apontar trabalhos interessantes, especialmente aqueles que não tinham espaço na grande mídia. Sempre teve esse lado alternativo e amplo de dar espaço para muita gente.

E em tudo que Ziriguidum fez nesses 25 anos esse olhar nunca mudou. No início era diferente, a música circulava em CDs, então eu recebia muito material que as pessoas não tinham acesso. Hoje todo mundo tem acesso a tudo na internet, mas o papel é mais de curadoria. Eu quero apontar o que estou ouvindo, o que me toca. Em um mar imenso de lançamentos é impossível alguém dar conta de tudo. E nisso muitos trabalhos geniais passam em branco.

Não sei se tem uma entrevista ou matéria que tenha marcado mais, mas tem gols maravilhosos. Se for parar para lembrar vou buscar do início, do inusitado… Rita Lee respondendo minhas perguntas por fax (fax pra lá, fax pra cá e ela desenhando na folha), Zélia Duncan dando entrevista gravada no que a gente chamava de “programa de rádio na internet”, a gente nem sabia direito o que era aquele material, não tinha nome.

E como era fazer site no tempo da internet a lenha? Como ele era feito e montado?

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Era muito simples. Há poucas semanas consegui recuperar os arquivos do primeiro site, e é lindo ver que aquilo era a realidade. Fotos pequenas de resolução baixa (tempos de modem de 9600, quem viveu sabe…), textos com fonte maior, textos imensos, e edições mensais. Não tinha essa dinâmica de publicar na mesma hora, era um processo. Então tínhamos edições mensais com três ou quatro matérias que entravam no ar. Seguiu assim até 2000 mais ou menos, quando comecei a fazer um conteúdo mais dinmico. Aí eu mesmo fazia tudo: da pesquisa, texto, edição de fotos (às vezes até a própria foto), edição de áudio ou vídeo, programação em html, até divulgação.

Verdade que vem um documentário sobre o site por aí? O que está sendo planejado?

Desde o início do ano estou com vontade de fazer isso, contar essa história. Tentei alguns editais e não rolou. Mas a ideia continuou, e fomos vendo as possibilidades, formatos mais econômicos… E agora no finalzinho do ano vai rolar. Vai ser um doc dirigido pelo cineasta Rafael Saar que vai ter como fio condutor uma entrevista comigo e com a Flávia Souza Lima contando a história.

De ilustração já recuperei vários prints, as revistas imprensas, destaques na home do UOL, material em vídeo, áudio… Além de ter depoimentos gravados à distância de pessoas que são muito importantes nessa história. O lançamento vai ser em janeiro no nosso YouTube, mas a ideia é que ele seja exibido também em outros lugares. Acho que tenho uma história muito bacana, peculiar e principalmente apaixonada pra contar.

Eu sou muito discreto, meio tímido, e muito prático com as demandas do dia-a-dia. Nisso a história de Ziriguidum vai ficando negligenciada, não falo muito, não jogo luzes… mas tem muita história bacana pra contar e acho que é uma hora legal, quando comemora 25 anos. Um marco importante.

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Antes do conceito de podcast existir, vocês já tinham um programa de rádio na internet. O que você se lembra dessa época e como era fazer rádio na internet com internet lenta?

Lembra do Real Player? Era essa a plataforma. Nem MP3 existia. Por intermédio da Rita Lee – sempre ela – Ziriguidum foi parar dentro do portal UOL, que era uma equipe mínima meio que num cantinho da redação da Folha de São Paulo. Mas era uma equipe também com muita vontade de fazer aquilo acontecer e experimentar. Quando comecei a publicar lá, eles estavam estreando o servidor de streaming (já tinha esse nome) e me ensinaram a fazer conteúdo em áudio, a princípio para colocar 30 segundos de duas ou três músicas.

Nisso, tive a ideia de fazer conteúdos mais longos. E começamos a gravar: a gente ia na casa dos artistas para bater um papo, editava, costurava algumas músicas e colocava no ar. O som era quase de rádio AM, mas ficava legal! Mas a orientação do UOL era que todo o conteúdo do audio estivesse também disponível em texto, afinal de contas dos poucos que tinham internet, pouquíssimos tinham uma conexão boa para manter a reprodução de um áudio.

Outro formato muito importante (e que infelizmente pouca coisa restou) foi de programa de rádio mesmo. Um amigo querido chamado Marcus Heizer era dono do Estúdio Arte (ele era sócio do Arthur Maia) e abriu o estúdio pra que eu gravasse o programa nos horários vagos. Às vezes era depois da meia noite, outras à tarde. Mas a equipe dele sempre à disposição e super parceria me abria as portas pra gravar, eu ia pra casa e editava em um programa super simples.

Vocês têm os programas guardados? Pretendem fazer algo com esse material?

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Não tenho todos, mas tenho alguns que já estão no ar, outros que estou digitalizando para usar no documentário, e quero disponibilizar sim. Encontrei um DAT com a entrevista da Zélia Duncan, ainda não sei se é o material bruto ou o editado. Estou procurando um amigo com DAT pra desvendar essa questão! Hahahaha Mas com essa onda de revisar a história, de falar e ficar pensando – e venho lembrando de muitas coisas. Ontem por exemplo lembrei que fiz uma transmissão live de um show da Anna Ratto por um app chamado Twittcam em 2010.

Cada vez mais vontade de colocar isso tudo no ar, vou organizando. Também recuperei áudio e vídeo do show de comemoração de dez anos do site. Vou me organizar para que na sequencia do doc, esse material de arquivo entre no ar.

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Faixa a faixa: Diego Tavares, “3 invernos”

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Faixa a faixa: Diego Tavares, "3 invernos"

3 invernos, estreia solo do carioca (radicado em SP) Diego Tavares, foi quase totalmente composta durante o período de isolamento ao longo de 2021, e fala bastante sobre os três anos em que o músico vem vivendo fora da sua cidade. “Nesse período desde a mudança do Rio para São Paulo, não pude sair muito devido à pandemia, e mesmo sem ela não teria muitos contatos na cena musical, por ter acabado de chegar. Trancado com os discos de meus artistas favoritos, como Leonard Cohen, tirei deles inspiração para as músicas, que também absorveram naturalmente diversas outras influências, musicais ou não”, complementa o artista, unindo música brasileira, folk e sons eletrônicos.

Diego mandou um faixa a faixa explicando cada uma das oito músicas do disco. Ouça e confira.

INTERMINÁVEL: “Tristeza e festa, vergonha e orgulho de sentimentos proibidos. A dualidade está presente tanto na letra quanto nas variações rítmicas da faixa de abertura”.

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3 INVERNOS: “Profunda e reflexiva, com versos marcantes sobre o que acontece com os sonhos após a morte ou sobre o desejo de se esquecer das memórias que doem. Uma pulsação constante e ambiências sonoras dão um toque de tensão à essa música centrada no violão. O título da faixa e do álbum faz referência aos três anos desde que me mudei do Rio para São Paulo”.

DANÇA: “Uma batida simples, synths colorindo a faixa e belas melodias numa canção sobre as dificuldades de um relacionamento maduro. Foi o maior destaque dentre os singles lançados antes do álbum”.

IMPERFEIÇÃO: “Dessa vez a dualidade perde a festa e o orgulho, e restam só a melancolia e a pouca saúde mental nesse que é o momento mais rock do álbum”.

VEM ME MAQUIAR: “Talvez estejamos mesmo chegando lá, e essa música é o fim da pandemia imaginado em forma de Carnaval e paixão. Apropriadamente, a parte musical tem muito de brasilidade e festa, sem descartar por completo o tom de lamento que permeia todo o trabalho”.

PODE IR: “A mais triste das oito canções, fala tanto da solidão propriamente dita quanto da solidão compartilhada entre pessoas que não conseguem manter a conexão que um dia já tiveram”.

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ANTES DO DIA DE FATO COMEÇAR: “Assim como Dança, fala das dificuldades de um amor maduro, que precisa se redescobrir a cada novo dia na tentativa de não sucumbir ao cotidiano”.

SE ENCONTRAR: “Música escrita em 2004, fecha o disco com leveza, embora nesse álbum até a leveza seja marcada por alguma angústia e certamente por muitos desencontros”.

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A MPB do ano de 1979 em livro: descubra!

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1979 foi, depois de 1973, o ano mais significativo para a música brasileira da década de setenta. A palavra “abertura”, como distensão da ditadura militar, virou tema de discussão naquele ano. Além disso, a música independente conseguiu virar até sucesso de vendagens (graças ao Boca Livre), a MPB foi invadida por um número significativo de cantoras-compositoras, Rita Lee virou o jogo com Mania de você (e o LP epônimo lançado naquele ano), o pop brasileiro ganhou o reforço do 14 Bis – um intermediário entre a MPB mineira e o rock brasileiro dos anos 1980 – entre outras novidades.

O pesquisador Célio Albuquerque já tinha convocado uma turma de jornalistas, escritores e músicos para falar de discos de 1973 no fundamental 1973: O ano que reinventou a MPB (Editora Sonora) e agora viaja seis anos à frente em 1979: O ano que ressignificou a MPB, que sai em julho de 2022 pela Garota FM Books e já está em crowdfunding pelo Catarse. No livro, mais de 90 LPs desse ano ganham histórias escritas por artistas e jornalistas, incluindo álbuns como Frutificar (A Cor do Som, por Ricardo Puggiali), Na Terra a mais de mil (Pepeu Gomes, por Leandro Souto Maior), Sol de primavera (Beto Guedes, por Daniella Zupo), Senhora da Terra (Elza Soares, por Gilberto Porcidonio), Sorriso de criança (Dona Ivone Lara, por Kamille Viola) e a estreia epônima do 14 Bis (por Emilio Pacheco). Este que vos escreve, contribui com um texto sobre o disco de Fabio Jr daquele ano (o que tem Pai).

Bati um papo com Celio sobre o livro, sobre o ano de 1979, sobre a música da época, e aproveito para convocar você para colaborar no crowdfunding.

Qual é a do ano de 1979, musicalmente falando?

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A música popular brasileira é rica, e como diz Joyce Moreno a “MPB tem resposta pra tudo, e sempre prova”. E a música, em particular no Brasil, é um reflexo do país e suas aspirações. Ao mesmo tempo que a moda das discotecas ainda balança a galera o samba se fazia presente, resistindo, com pilares como Nelson Sargento e Cartola lançando seus discos e João Nogueira formalizando a resistência com seu Clube do samba.

>>> Apoia a gente aí: catarse.me/popfantasma

A MPB estava numa transição. E o disco da Fafá de Belém, por exemplo, é um referencial a isso. Ela que surgiu com o Tamba tajá, em 1976, mais raiz, migrava para algo mais linguagem radiofônica. Curiosamente, tocava-se muito brasileira instrumental nas rádios (algo que já acontecia um pouco antes) e a produção independente, iniciada oficialmente por Antonio Adolfo em 1977, com o LP Feito em casa, desabrocha com o primeiro disco do Boca Livre, sucesso de rádio. E tudo isso, com os grandes dos festivais, como Caetano, Gil e Milton por exemplo, lançando discos em que propunham novos caminhos.

Vale dizer que a produção independente ganharia tanto gás, sinalizando oportunidades, que até Emilinha Borba, uma das rainhas da era de ouro do rádio, lança em 1981 o disco independente Força positiva.

Uma impressão que eu tenho é que a produção nacional feita entre 1978 e 1981 (e 1979 meio que balizou isso) foi o auge da música “inclassificável” no Brasil, daquele som que podia passar como “rock”, ou “pop” porque tinha atitude, mas que não tinha rompido os elos com a MPB. Como você vê isso?

Creio que seja por aí. É um momento de transição política e musical. A indústria passa a direcionar o cenário mais para o pop. Porém, também é mais do que isso porque a música do Brasil é muito mais do que consumimos nos grandes centros, a explosão sertaneja das últimas décadas aponta pra isso.

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Foi o ano do início do governo Figueiredo e um ano em que a palavra “abertura” virou palavra de ordem – tanto que Glauber Rocha a usou para batizar seu programa na TV Tupi. No que você acha que isso repercutiu na música?

A Abertura política, ou a sensação de abertura política, dá ares de esperança de novos amanhãs e a produção musical mesmo cantando as mazelas desse país tão maltratado, ganha sopros de jovialidade. Rita Lee e Ronaldo Resedá, por exemplo, dão um toque dançante e alegre. Mulheres como Fátima Guedes e Sueli Costa, sangram corações e ao mesmo tempo mostram-se fortes. E como o Brasil não é um só, nesse mesmo ano tem o fenômeno do disco em parceria do Agnaldo Timóteo e da Ângela Maria, que vendeu muito.

É um disco que não está no livro. Explico: havíamos combinado com um autor, que sabe tudo e mais um pouco do tema. Mas, ele teve que declinar por questões profissionais. Como não conseguimos um autor para tecer o texto, acabamos citando o disco no livro, não em um capítulo. Claro que entre os mais de 90 autores tem alguns que teriam competência para escrever sobre esse disco, mas já estavam comprometidos com outros LPs.

Nos EUA-Europa, o punk afrontou o rock de arena e as maquinações do showbusiness. No Brasil, quem você acha que teve esse papel?

Pessoalmente não consiga perceber nesse período alguém que tivesse esse papel de afronto com a indústria. Mesmo não tendo algo como movimentos, a cultura musical seguia vertentes, como sempre seguiu e criava suas perguntas e ela mesmo respondia.

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A palavra “ressignificou”, que está no título, tem a ver com novos significados, como por exemplo para a participação da mulher compositora na música brasileira. Isso já vinha surgindo, principalmente com a Rita Lee, com a Joyce. Mas a mulher explode em 1979 com nomes como o de Fátima Guedes e da Angela Ro Ro, e da própria Joanna, que tem as parcerias, como a Sarah Benchimol. O momento político é o das pessoas discutirem política, mas há também uma esperança em novos tempos.

O movimento independente surgiu porque o sucesso do Boca Livre fez com que as pessoas percebessem que não é porque é independente que não pode ser vendável. Tanto que fazer música de forma independente, hoje, é uma coisa comum. Mas até 1977, 1979, não era. 1979 marca isso por causa da explosão do Boca Livre. Tanto que eles foram considerados “os musos” do verão de 1980.

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Àiyé: experimentalismo 100% solo, ao vivo no Rio

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Àiyé: experimentalismo 100% solo, ao vivo no Rio (na foto: Larissa Conforto)

Baterista, compositora e produtora, Larissa Conforto é a única integrante do projeto experimental Àiyé. Única mesmo: nesta sexta (3), ao abrir o show de Céu no Circo Voador (aqui no Rio), ela deverá estar sozinha na apresentação, cantando e operando a aparelhagem que leva para o palco.

Mais conhecida anteriormente por seus trabalhos no rock (com a Ventre, banda que chegou a tocar no Lollapalooza em 2018) e na MPB (toca com artistas como Paulinho Moska), Larissa se recriou musicalmente na Àiyé, que lançou seu primeiro disco, Gratitrevas, em 2020, pouco antes do isolamento ser decretado no Brasil. O repertório traz o encontro dela com ritmos latino-americanos, experimentalismos musicais e religiosidade afro-brasileira (esse último, um tema que amarra todo o álbum, destacado em faixas como Terreiro).

Criada como um projeto musical prático (“que cabe numa mochila”, diz ela), a Àiyé foi concebida em meio a trabalhos musicais de Larissa em vários lugares, e envolveu mudanças dela para Portugal e para São Paulo. Gratitrevas já estava com uma turnê agendada para o Japão, que não rolou por causa da pandemia. A artista aproveitou para fazer uma turnê de lives, mostrando o trabalho direto do seu estúdio, em casa.

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Batemos um papo rápido por Larissa, ao telefone, sobre o show no Circo, a volta aos palcos e sobre como está sendo trabalhar 100% solo.

Como estão sendo os ensaios aí? E como está sendo sua expectativa para o show no Circo Voador?

Cara… pandemia, né? Eu montei uma estrutura aqui em casa. Montei um pequeno estúdio e ensaio tudo no fone. Como sou só eu, é assim que eu ensaio. Deixo montado, às vezes passo todo o show, às vezes volto. O show tem muito improviso, mas para ter improviso você tem que ensaiar muito mais, para conseguir ficar à vontade. Hoje dei uma choradinha, fiquei emocionada (rindo), pensei: “Meu deus do céu, vou tocar tudo isso no Circo Voador sozinha no palco”.

No palco, deve ter muita coisa para ser dita além da música, não? Porque esse tempo todo que a gente passou, nesse desgoverno e em casa… Como você está se preparando para isso?

Eu não sou do tipo que deixa só a música falar, apesar das minhas músicas falarem por si próprias. Eu não programo muito as coisas que eu vou falar, tenho uma ideia do que precisa ser dito para um Circo Voador lotado em tempos de muitas trevas. Temos um fascista no poder, estamos no pós-pandemia, tá vindo outra variante aí, as pessoas querendo ir para o Carnaval… São muitas questões envolvidas, mas sinto que tem muita coisa para ser dita. Talvez tenha mais coisas para serem ditas do que tempo de show (rindo). Mas dei uma organizada nas horas de falar, o que é essencial. Na hora vai sair do coração. Botei alguns temas, mas a emoção vai falar mais forte.

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Como você se descobriu como artista solo? Você vinha da Ventre, que foi uma banda independente bem sucedida, tocou no Lollapalooza… E no caso é solo mesmo, porque é você sozinha.

É como se eu fosse uma one woman band. Eu tento explicar isso no release: que eu toco sozinha, que não é só carreira solo com uma banda, que eu realmente toco sozinha. Eu nunca sei explicar sem ser usando essa palavra, apesar de eu achar meio esquisito falar em inglês. Mas eu acho que existe toda uma trajetória, uma história do fazer coletivo. Eu sempre estive em coletivos, comecei a tocar como instrumentista em carreiras dos outros, sempre ajudando os outros a fazer nascer um projeto, um disco, uma turnê.

>>> Apoia a gente aí: catarse.me/popfantasma

Chegou uma hora que… Bom, o retorno de Saturno chega para todo mundo. Mas acho que no fim da Ventre que eu senti isso no peito. Essa necessidade de colocar as minhas ideias, de expressar as minhas coisas. Tudo isso veio quando eu compus a primeira música. Tem a ver com essa necessidade de expressar. E com falta de recursos, porque aí eu fui fazendo em casa, e as músicas eu fui fazendo entre turnês. Quando eu estava no avião e não estava pegando internet, eu ligava o computador, abria o Ableton Live e ia produzindo as músicas. Ia compondo, escrevendo, sempre nesse momento, no ônibus. Viajei para Portugal, fui fazer uma turnê lá. Levei minhas coisas, fiz um show lá meio doideira, instrumental. Acabei me mudando para lá, fiquei seis meses morando lá, terminei o disco lá.

Mas o processo de ser sozinha teve duas vias. A primeira veio do “preciso fazer, e preciso fazer agora, e a única forma que tenho de fazer agora é essa, não vou esperar que venham pessoas!” E a segunda veio do fato de eu precisar fazer de forma viável. Eu precisava de um projeto que coubesse numa mochila, que eu não precisasse nem despachar essa mochila, para eu levá-la comigo em toda em qualquer turnê que eu for fazer com outros artistas. E que assim eu possa levar meu show para outros lugares. Foi assim que eu toquei em Portugal, toquei em Nova York. Aproveitava que estava indo fazer uma turnê, levava o meu projeto na mochila e ia fazendo mais shows. Isso viabilizou também o próprio disco, viabilizou tudo acontecer.

E não à toa, eu dei muito azar mas também dei muita sorte de ter lançado o disco logo no começo da pandemia. Lancei na primeira semana que o Brasil declarou lockdown, dia 20 de março. Caíram todos os shows…

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Você tinha uma turnê marcada para o Japão, não era isso?

Exatamente. Eu ia tocar num festival. Enfim: um monte de datas surgindo, eu estava marcando turnê na Europa, ia tocar em três festivais no Brasil. E além de tudo cair, tem a questão das pautas, da assessoria de imprensa… Demora um tempão para se organizar tudo isso, para investir. Eu nem estava mais morando no Brasil, mas estava aqui porque queria lançar o disco aqui, com todo o mundo. De repente tudo fechou, todas as pautas eram sobre covid. Mas por sorte eu tinha um show solo montado. Que eu conseguia fazer de dentro da minha casa. Então eu fiz uma turnê internacional de lives (rindo).

Fiz tudo da minha casa, toquei em Lisboa, Rondônia, Amazonas, no Sul, em tudo quanto era estado do Brasil. E foi meio que me reinventando. Tudo foi meio assim, usando as ferramentas que tinha e surfando na onda do jeito que dava.

E é um projeto que é muito marcado pela reinvenção: você percebe isso nas letras, nas músicas, nas interpretações e na maneira de você fazer, também…

Completamente. Eu também saí de um lugar de baterista, e fui pro lugar de compositora, de protagonista, falando sobre as minhas questões, as coisas que me interessam. Porque muitas vezes me chamavam para fazer coisas de rock. E eu pesquiso ritmos latino-americanos, a identidade latino-americana através dos ritmos e não tinha onde botar isso, escoar as minhas ideias, as minhas pesquisas. Foi tudo para o projeto.

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Como você se descobriu produtora? Quando começou a tocar profissionalmente, já pensava em produção?

Eu me formei em Produção Fonográfica. Entrei na faculdade com 18 anos e me formei com 20. E fui trabalhar em gravadora, então sempre trabalhei em produção. Já me formei e fui trabalhar na Biscoito Fino, já estava ali envolvida na produção, no estúdio, na montagem, na gravação. Tive a bênção de acompanhar muito artista grande, medalhão: Maria Bethânia, Gilberto Gil, Moraes Moreira… Depois fui para a Deck, que era uma gravadora muito independente, você tinha que levantar muito mais recursos, e lá fui para A&R mesmo.

Na Biscoito Fino eu era da produção artística e da produção executiva. Estava junto com o A&R, mas não era eu que fazia curadoria ou escolhia repertório. E daí eu acho que sempre meio produtora das minhas bandas também. Comecei a trabalhar como baterista, profissionalmente, aos 17, 18 anos, também. Estava entrando para a faculdade, aprendendo a gravar, comecei a ser DJ porque queria ter um estúdio para poder gravar as bandas. Já tinha essa vontade de tirar som, de fazer as coisas. Mas também por ser mulher, naquela época, eu não conseguia emprego num estúdio. Então fui para o lado da produção, só que sendo assistente.

Mas em todos os projetos em que eu estava, eu sempre fui muito a arranjadora. Mesmo na Ventre, tinha música em que eu fazia as guitarras, pensava nos arranjos, mudava tudo. Sempre gostei muito de interferir nas coisas. Acho que o olhar da instrumentista Larissa já é um olhar de produtora. Mas claro que a realização das ideias, de pegar e botar a mão na massa, foi mesmo com o meu projeto e ele abriu portas para fazer um monte de coisas. Já tinha feito uma trilha ou outra, antes. Mas foi depois que eu fiz um disco inteiro, que eu me coloquei pra produzir outros artistas mais firmemente.

Tem algum trabalho seu vindo aí, de trilhas sonoras, produção?

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Tem uma trilha sonora que eu estou fazendo com a Natália Carreira (Letrux), para um série do canal Disney+ chamada Não foi minha culpa, sobre feminicídio. Deve sair no começo do ano. É uma aposta tem forte, tem Malu Mader, Elisa Lucinda. Tem também a carreira solo da Ju Strassacapa, da Francisco El Hombre. O projeto se chama Lazúli, eu produzi uns beats, a Ju animou e acabamos fazendo uma banda. Fizemos eu, a Cris Botarelli, do Far From Alaska, e a Lena Papini, também da Francisco. E tem um monte de pequenos feats, um single ou outro. Também estou produzindo a carreira solo da Roberta Dittz, da Canto Cego. Inclusive mandei pra mix hoje, vai sair ano que vem.

Falando um pouco mais do Gratitrevas, queria que você falasse de O mito e a caverna, que tem um clipe impressionante e é também uma música impressionante. Como surgiram clipe e música?

A música começou a ser feita em 2018. A gente já podia sentir o cheio de enxofre, né? (era a época da última eleição presidencial) A Ventre acabou e eu topei fazer uma turnê com o Vitor Brauer (da banda mineira Lupe de Lupe) que é meu parceiro nessa música. A gente fez uma turnê de três meses num Corsa 96, que foi apelidado de Interceptor (rindo). Fizemos o Brasil inteiro, de Norte a Sul. Foram 36 datas em dois meses e meio, quase três.

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Foi muito forte, fizemos a turnê todos vestidos de vermelho, foi bem político. Em cada cidadezinha do interior, de cada estado, fomos falando, “a gente tem que se unir, a gente tem que fazer rede, tem que estar junto, olha isso que tá acontecendo?”. A turnê foi nessa onda, de música de resistência. Eu trouxe várias músicas diferentes que já havia tocado na carreira, não só da Ventre. O Vitor também, e fizemos um show bem assim.

Num desses percursos, se não me engano de Goiânia voltando para Minas, a gente viu um incêndio. Foi uma estrada inteira pegando fogo. Provavelmente era cana, eucalipto que eles botam fogo. Era muito fogo, muito quente. A gente ficou com aquela cena do fogo na cabeça. Passou um tempo, eu fiz essa base, estava produzindo o disco, e falei: “Vitor, bora fazer uma música? Acho que tem que ser meio nervosa, lembra do episódio do fogo?”.

Ele me mandou uma letra, que começava com “corpo sobre corpo”. Eu perguntei: “O que você acha da gente relacionar isso com o mito da caverna? (de Platão)“. Porque a gente passou a turnê inteira ouvindo audiobooks, podcasts e discos, e a gente ia discutindo, era muita filosofia na conversa. Éramos só eu e ele, a gente ia dirigindo às vezes nove, dez horas por dia. E aí mudei grande parte da letra nesse sentido, já relacionando com o mito da caverna. É impressionante como a letra vai ficando mais contemporânea a cada dia que passa.

Para o clipe, eu já tinha essa ideia. Quando a Àiyé nasceu, a primeira coisa que fiz foi uma residência artística a convite do Alexandre Matias (jornalista, criador do site Trabalho Sujo), que fiz no Centro da Terra (espaço cultural independente em São Paulo). Foram quatro segundas-feiras, e foi a primeira vez que eu apresentei a Àiyé. Chamei meus amigos para tocar e cada dia era uma fase da lua no show. Nessa performance, nesses quatro dias, eu já estava com essa ideia de pegar o tema da fase da lua, jogar no Google e projetar tudo o que ia aparecendo. Era uma pesquisa de Google, ia jogando uma por cima da outra, como se fosse uma edição, mas era uma pesquisa. Colocava poesia, imagem, coisas que iam me remetendo, e ia cantando, tocando e improvisando em cima. Fiz todos os dias dez minutos disso, virou uma performance da Àiyé.

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Eu queria que o clipe fosse assim, queria levar essa performance para o clipe. E foi isso, chamei o André, que montou o clipe – na quarentena, fiquei hospedada na casa dele. A gente selecionou um monte de arquivos, notícias. Ele fez de maneira brilhante. Teve um parceiro que fez uns 3Ds, mas ele pegou minha ideia bruta e lapidou. Ficou bem poderoso. Gostei muito também! (rindo)

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