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Cultura Pop

Várias coisas que você já sabia sobre Substance, do New Order

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Várias coisas que você já sabia sobre Substance, do New Order

E o mundo descobriu o New Order. Sucesso mundial e presença marcante nas paradas de sucesso no fim dos anos 1980, a coletânea dupla de singles de 12 polegadas Substance (1987) fez os EUA se apaixonarem de vez pelo quarteto de Manchester, deu a cara indie-dance-house definitiva para o grupo, abriu portas para a banda na América do Sul (viriam ao Brasil em 1989) e vendeu horrores. E, ah, fez a Factory, gravadora do grupo, sair um tempinho das dívidas e do atoleiro, já que era justamente a banda de Bernard Sumner (voz, guitarra), Gillian Gilbert (teclados), Peter Hook (baixo) e Stephen Morris (bateria) que sustentava os negócios mal-sucedidos do selo.

A novidade para os fãs do grupo é que Substance (ou Substance 1987, seu nome completo) salta do posto de “figurinha difícil” do álbum da banda para o de disco disponível para qualquer ouvido nas plataformas digitais. Ele agora pode ser escutado na íntegra no Spotify e no Deezer. Pelo menos por enquanto, já que ele já esteve no Spotify por uns tempos e foi tirado de lá, faz uns anos.

E isso aí é o nosso, er, relatório sobre Substance. Leia ouvindo o disco.

ACIDINHO. Substance jamais teria acontecido sem o início da cena de acid house, subgênero da house music surgido (diz a história) nos clubes de Chicago, a partir da união de baterias eletrônicas bem marcadas e do baixo do sintetizador-sequenciador eletrônico Roland TB-303. Isso tudo rolou na segunda metade dos anos 1980.

MAS… Bernard Sumner, vocalista do New Order, põe em xeque o local de origem da acid house: no livro Chapter and verse – New Order, Joy Division and me, ele diz que o nascimento da cena rolou lá por 1987 nos clubes da Inglaterra, mais aproximadamente Manchester e Londres. E também em casas noturnas de Glasgow, na Escócia.

“CASA ÁCIDA”. No Brasil, lá por 1988, 1989, havia grande expectativa pelas próximas descobertas no território da acid house. O estilo aparecia bastante na Bizz (que em novembro de 1989 deu capa ao Bomb The Bass, projeto eletrônico do DJ Tim Simenon), uma pacoteira de LPs lançada pelo selo modernex Stiletto foi amplamente festejada pela imprensa. E, nos grandes centros, pipocavam clubes vendendo “noites de acid house” em que o prato principal eram músicas de ítalo-dance e sons dançantes que passavam longe da proposta do estilo.

ALIÁS E A PROPÓSITO. Até mesmo a Som Livre resolveu, em 1989, faturar em cima da onda, com a coletânea Acid house. Que vá lá, caprichava com músicas de Yazz, S’Express, Coldcut e Jack The Tab – mas entortava a cabeça dos ouvintes incluindo hits pop de Rick Astley e Milli Vanilli.

ECSTASYZINHO. O nome era “acid”, mas a turma preferia outras drogas, ainda segundo Sumner. O cantor do New Order diz não saber direito porque é que a acid house ganhou esse nome, mas desconfia que o crescimento da onda do ecstasy, novo petisco ilícito querido dos frequentadores da cena clubber, ajudou bastante a dar ares psicodélicos aos batidões. “Os sons abafados de baixo, que eram a marca registrada do estilo, soavam fantásticos com uma dose de E, acho”, recordou.

HAÇIENDA. Paralelamente a isso, havia o Haçienda, clube de propriedade de Tony Wilson, criador da Factory, gravadora do New Order – e que era basicamente sustentado pelas vendas enormes dos discos da banda. Wilson dividia a casa com seus sócios na gravadora, Alan Erasmus, Rob Gretton (empresário do NO), além da própria banda. O Haçienda ferveu na era da acid house, era considerada o clube noturno de Manchester ao qual ninguém deveria deixar de ir, e tinha uma noite “de Ibiza” especializada no estilo. Além de uma turma de frequentadores que pegava bastante pesado no ecstasy – tão pesado que a morte, em 1989, de uma adolescente nas dependências do clube, imediatamente relacionada ao uso da droga, desencadeou uma onda de repressão policial na cidade.

VELHOS AMIGOS. Por sinal, o New Order tinha gravado em 1983 uma canção chamada Ecstasy, um instrumental que saiu no disco Power, corruption and lies. Não apenas a música não tinha nada a ver com o assunto “drogas”, como o New Order nem sabia o que era ecstasy. Nessa época, o grupo foi fazer um show em Dallas e foi relaxar num clube, quando soube pelos promotores do show que uma turma da série de TV Dallas também estava indo com a turma para descolar ecstasy na casa noturna. “Ecstasy? O que é isso?”, perguntou o quarteto.

TAVA UMA M… Pouco antes de Substance, a banda encarava a turnê de um de seus discos mais bem sucedidos, Brotherhood (1986), com direito a uma escala na Espanha em que sobraram tretas com o promotor local. Um dos shows foi dado num campo de touradas, e o camarim da banda ficava colado ao imundíssimo camarim do touro. Bernard Sumner riu, Peter Hook não achou a menor graça.

NÃO SÓ ISSO. Em Mollerussa, município espanhol que atualmente tem 14.683 habitantes, tiveram uma dificuldade monstra para achar o pavilhão do show. Chegando lá, descobriram que o camarim não tinha teto e que a segurança, arrumada às pressas, seria garantida por dois times de rúgbi da Catalunha – que eram rivais e passavam boa parte do tempo brigando em pleno trabalho. A situação não andava tão sorridente para o New Order, vamos dizer. E a banda precisava conquistar a América para conseguir sucesso verdadeiro.

E AÍ VEIO… Substance, o disco, lançado em agosto de 1987 pela Factory. A premissa do disco era simples: 1) aproveitar os lados pós-punk e dance do New Order da melhor forma; 2) compilar músicas da banda em versões de singles de 12 polegadas (maiores que os originais e versões comuns); 3) regravar canções antigas da banda (Confusion e Temptation, no caso refeitas para o disco). E, enfim, apresentar o repertório do New Order em definitivo para o público dos clubes, depois do grande hit Bizarre love triangle, de Brotherhood.

DEU CERTO. O grupo platinou nos EUA, Canadá e Reino Unido e conseguiu disco de ouro até no Brasil. O CD, campeão, veio com todo o conteúdo num CD só, mais um disco extra trazendo os lados-B dos mesmos singles compilados no LP original.

NO CARRÃO. Substance veio de um fator meio maluco. Tony Wilson, dono da Factory, queria comprar um carro fantástico, e pediu conselho a Peter Hook sobre que automóvel deveria comprar. O baixista sugeriu um reluzente Jaguar XJ, que vinha com um CD player. Tony, animado com a nova aquisição, informou à banda que gostaria de ter todos os singles do grupo compilados num disco só, para poder ouvir no aparelho. Daí sugeriu ao empresário do quarteto, Rob Gretton, que lançassem canções como Blue monday (single de 12 polegadas mais vendido de todos os tempos), Everything’s gonna green e outras, num só disco (e o NO, só para tornar tudo mais complicado, não tinha lançado vários de seus singles mais bem sucedidos em LP).

NA LONA. Ainda havia outro fator nada amigável: a Factory não andava nada bem das pernas. Tony Wilson, gastando grana com carros do ano, viagens internacionais e outros luxos, era perdulário demais para ser o dono de uma gravadora deficitária. O New Order praticamente sustentava o selo e bancava lançamentos bem menos populares, como o indie insociável do Durutti Column e o jazz-bossa do Kalima. O próprio grupo não andava ganhando tanta grana assim com seus discos e a Factory devia-lhes uma boa soma. Substance ajudaria a equilibrar as contas.

AJUDOU? Não muito, porque a Factory devia realmente muita grana. Para pagar o New Order, a Factory convenceu a banda a assinar um inacreditável acordo dando à gravadora 75% dos direitos do disco (segundo Peter Hook), para que ela pudesse saldar as dívidas com a própria banda. Isso porque Substance foi um sucesso enorme que fez com que, entre 1988 e 1990, New Order virasse mania no mundo todo. E nesse momento, o New Order virou quase sócio do próprio disco, sem saber se ia ter a grana recuperada ou não.

BOTANDO FÉ. O New Order caprichou para que Substance virasse um puta sucesso. Se trancaram até num estúdio com um dos produtores daquele momento, Stephen Hague (OMD, Pet Shop Boys) para fazer uma das melhores faixas da banda, True faith, incluída no disco. O roteiro todo de gravação da música – sucesso de pista até hoje – você acha aqui (em inglês). Mas basta dizer que a banda usou os instrumentos que costumava levar para o palco, e mandou bala em duas joias dos estúdios na época: o sequenciador Yamaha QX1 e o sampler Akai S900.

BOTANDO FÉ NA TOUR. True faith virou o single mais vendido do New Order e pedia uma tour própria, pelos Estados Unidos, na qual a banda dividiria o palco com o Echo & The Bunnymen e com um grupo de abertura, o Gene Loves Jezebel. A atitude rocknroller do GLZ chocou os grupos britânicos, que não eram santos mas achavam aquilo tudo uma cafonice. Peter Hook, em particular, se assustou com a quantidade de garotas no backstage deles, e com o montante de maquiagem e roupas que a banda usava. “Parecia que nós éramos os principiantes”, contou.

EM NEGATIVO. Em 1989, Substance ganhou uma edição especial em vinil duplo na Argentina, Substance II, com capa “em negativo”: fundo preto, letras brancas. O conteúdo era o do CD 2 de Substance, só os B sides.

E O JOY DIVISION? A história com Substance deu tão certo que animou a Factory a produzir uma coletânea similar com o Joy Division, banda da qual o New Order nasceu. A Substance do Joy Division trazia os singles da banda que não saíram nos dois álbuns: Transmission, Komakino, Love will tear us apart e Atmosphere. E também tinha músicas que saíram em EPs e coletâneas da gravadora. Além de uma versão diferente de She’s lost control, do disco Unknown pleasures (1979). O LP era simples, mas como acontecia com o disco do NO, o CD era duplo, com mais músicas.

E DEPOIS? Entre 1987 e 1989, muita coisa mudou na vida do New Order. Com grana no bolso e disposição para experimentar coisas novas, a banda passou a frequentar a cena eletrônica de Ibiza. Descobriu um estúdio (Mediterranean) com bar e piscina, noitadas intermináveis (de 48 horas, mais do que as 24 horas de gandaia de Manchester) e o balearic beat, vertente eletrônica psicodélica e ultrapop das Ilhas Baleares, onde se localizava Ibiza. Viria aí um novo disco, Technique, lançado no comecinho de 1989. Mas aí é outra história.

Veja também no POP FANTASMA:
– Demos o mesmo tratamento a Physical graffiti (Led Zeppelin), ao primeiro disco do Black Sabbath, a End of the century (Ramones), ao rooftop concert, dos Beatles, e a London calling (Clash). E a Fun house (Stooges). E a New York (Lou Reed).
– Demos uma mentidinha e oferecemos “coisas que você não sabe” ao falar de Rocket to Russia (Ramones) e Trompe le monde (Pixies).
– Mais New Order no POP FANTASMA aqui.
– E mais Joy Division no POP FANTASMA aqui.

Cultura Pop

New Sincerity: aquele movimento do rock que pouca gente conhece

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Tem exposição do Daniel Johnston vindo aí

Muita gente provavelmente nem se deu conta, mas perdido em meio a sonoridades como a new wave e o power pop dos anos 1980, surgiu um movimento do rock até hoje pouco comentado: a new sincerity. A “nova sinceridade” era um termo basicamente ligado à música feita em Austin, no Texas, numa época em que o som feito na região, pelo menos levando em conta o que tocava no rádio e realmente vendia discos, era um rock clássico e mais ligado ao blues, ou ao country (não custa lembrar que o Texas, terra de Willie Nelson e Kenny Rogers, bate cabeça com Nashville na primazia do estilo musical).

As bandas dessa turma, na verdade, eram mais chegadas a um power pop, ou a uma mescla de sons que invariavelmente batia em bandas como The Byrds, e em artistas como o orgulho psicodélico local Roky Erickson – além da própria melancolia do country. E basicamente eram artistas que não tinham medo de parecerem emocionados ou (enfim) sinceros demais. Uma das bandas mais conhecidas do estilo musical, The Reivers, fez um sucessinho moderado com Almost home – basicamente um pós-punk com cara country, cuja letra falava sobre um rapaz que estava dirigindo, morria de saudades da namorada e lembrava dela quando uma música tocava. Essa canção saiu em 1989 no terceiro álbum da banda, End of the day.

Mais sincero (e emocionado ao extremo) impossível, claro. Essa receita deu certo pros Reivers, que são considerados até hoje um tesouro escondido do rock norte-americano (a banda acabou em 2017). Uma banda que também se destacou por lá e é associada ao estilo traz a “nova sinceridade” até no nome: são os True Believers, grupo que existiu de 1982 a 1987 e que era liderado pelos irmãos Alejandro e Javier Escovedo. O primeiro iniciaria carreira solo em 1992, na onda do indie-country-rock, e grava até hoje.

O nome new sincerity já vinha de muito tempo antes e não era usado apenas na música: críticos de cinema incluem filmes cheios de “pureza” como Campo dos sonhos (1989) ou o recente A vida secreta de Walter Mitty (2013) no meio do bolo. Eram projetos culturais que, de modo geral, mexiam com emoções pouco registradas em música, livro ou filme, em meio à obsessão da cultura norte-americana com heróis – e que pouco tinham a ver com o cinismo que o punk havia transformado em matéria-prima. Dez entre dez artistas da turma referiam-se a R.E.M., banda de Athens, na Georgia, com muito respeito – e vá lá, sempre foi uma banda bastante sincera ao abordar sentimentos e porradas da vida.

O rótulo aborrecia várias bandas da região. O Doctors Mob, grupo que é tido por muita gente como a resposta local aos Replacements, não podia nem ouvir falar em “nova sinceridade”. “Nós não criamos uma ‘nova sinceridade’, essa etiqueta foi inventada por alguém que pensava que qualquer banda com jeans rasgados e camisas para fora da calça se enquadrava na mesma categoria”, contou aqui o guitarrista e vocalista Don Lamb, deixando claro que o grupo foi ajudado pela sua visão ecumênica do rock, ainda que não tenha feito muito sucesso. “Todos nós queríamos que a banda fosse divertida, e foi na maior parte. Todos queríamos que as pessoas que vinham nos ver se divertissem conosco, e foi o que aconteceu na maior parte do tempo”.

Um dos artistas mais ilustres a serem rotulados com o nome new sincerity foi também um dos mais polêmicos. Artista visual, músico, funcionário de um fast-food e e ex-interno de instituições psiquiátricas, Daniel Johnston (1961-2019) chamou a atenção em Austin nos anos 1990. Era um artista bem produtivo e adepto extremado do do it yourself: desde 1981 gravava suas demos em casa, usando um gravador de fita-cassete, tocando todos os instrumentos e fazendo todos os vocais. E distribuía as fitinhas a quem encontrasse. Anos depois, Daniel diria, em entrevista ao documentário Cassette – A documentary mixtape, que mal teria iniciado uma carreira na música sem a acessibilidade do K7. “Eu estaria num sanatório se não fossem as fitas”, disse.

Nos anos 1990, você deve saber, Daniel teve sua obra divulgada por Kurt Cobain (Nirvana), que usou uma camiseta com a capa de uma fitinha sua, Hi, how are you (1983). Acabou virando aposta de gravadora: numa época em que tinha acabado de sair de uma internação e estava bastante fragilizado, foi contratado pela Atlantic e gravou o confuso álbum Fun (1994). O disco, que somado às fitas K7 e aos primeiros álbuns, era o décimo-quarto registro do artista, tinha até participação de músicos de orquestra, e tentava apresentar o som totalmente livre de Daniel para um público maior. Não deu certo: o álbum vendeu menos de seis mil cópias e o cantor foi saído do selo.

Uma reportagem publicada pela revista Spin em 1986 (o texto pode ser lido aqui) dá conta do quanto Johnston era encarado com desprezo, preconceito e capacitismo por vários fãs da cena. O músico fazia shows urgentes em que apresentava poucas músicas e não voltava de jeito algum para o bis – e havia discussões sobre se ele realmente era um gênio ou se era um delírio coletivo.

A dedicação de Johnston, naquele momento, teve frutos: enquanto ainda limpava chapas e fazia sanduíches, chegou a aparecer na MTV, e seu hábito de entregar fitas a qualquer pessoa que visse, sem nem aceitar dinheiro pelas demos, fez seu nome rodar bastante. Em 1985, já havia tocado no “festival de música perturbadora” Woodshock, ali  mesmo em Austin, no Texas, cuja edição daquele ano foi uma espécie de alto-falante para os artistas da new sincerity. O movimento – se é que realmente houve algum – durou pouco, mas o nome volta toda vez que algum artista “sincero” (tipo Nirvana e Arcade Fire) surge e lança disco.

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Cultura Pop

Brian Wilson no baú: descubra agora!

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Brian Wilson tomando o maior caldo na praia em 1976

Tem um disco “perdido” do gênio Brian Wilson, maior artífice dos Beach Boys, vindo aí. O cantor, que recentemente perdeu a esposa Melinda e foi diagnosticado com demência, anunciou que estava trabalhando em Cows in the pasture, álbum country que ele havia começado a fazer em 1970, e que foi deixado de lado.

Cows não seria um disco comum, nem seria um álbum solo de Brian: seria na verdade a estreia como cantor do empresário dos Beach Boys, Fred Vail, justamente um ex-DJ de música country. O beach boy tinha encasquetado que Vail seria um bom cantor. Fez a proposta a ele, e começou a produzir o disco do amigo, tendo um punhado de feras do estilo no acompanhamento. As trilhas musicais das 14 faixas foram gravadas, sem os vocais.

Na época, Brian acumulava problemas pessoais (abuso de drogas, questões psicológicas e de saúde, problemas conjugais), e os Beach Boys estavam afundados em vendagens ruins. Ao que consta, foi por causa disso que Wilson perdeu o interesse e decidiu abortar o projeto, antes mesmo que o empresário pudesse soltar a voz. Mas, recentemente, um acontecimento ajudou a tirar Cows do arquivo: o produtor Sam Parker ficou amigo de Vail (hoje com 79 anos) e começou a pesquisar para uma série documental sobre a vida do empresário.

“Cada história que ele conta é de cair o queixo. Fred era a mosca na sala em tudo”, contou Parker à Rolling Stone. Uma das histórias foi justamente a produção do disco, que deverá sair em 2025, tendo Brian como produtor executivo. O retrabalho feito nas fitas originais, trazendo um time de lendas do country nos vocais ao lado de Vail, deverá ocupar a parte final do doc.

Cows é apenas uma pequena parte do baú de Wilson, claro – desse arquivo já saiu, após vários anos, Smile, disco abortado dos Beach Boys (1966, lançado regravado em 2004 como Brian Wilson presents Smile). Com o tempo, por uma série de fatores que vão do desgaste pessoal de Wilson, a desgastes de gravadoras com ele e com a banda, outros discos que consumiram meses de trabalho para Brian, para alguns colegas e para seus irmãos, foram sendo acrescentados ao arquivo dele e dos Beach Boys. Conheça alguns deles (e Smile não está na relação porque esse é obrigatório!).

“LEI’D IN HAWAII” (1967). Era para ser o primeiro álbum ao vivo dos Beach Boys, trazendo a gravação de dois shows no Honolulu International Center Arena. Duas apresentações que tiveram uma novidade: a volta breve de  Brian Wilson, que havia deixado de excursionar com o grupo. Circulava também a ideia de fazer um filme com os shows. Mas nada disso foi feito: o excesso de LSD e o despreparo da banda nas duas apresentações acabaram deixando todo mundo insatisfeito. E o disco, que era para ter saído logo após Smiley smile (1967), foi engavetado.

O grupo chegou a pensar numa saída bem 171 para colocar Lei’d in Hawaii nas lojas: trancou-se num estúdio em Hollywood para gravar todo o álbum, com a ideia de acrescentar palmas falsas depois. Mas acabaram desistindo de tudo para gravar e lançar Wild honey (1967). O material foi largamente pirateado e saiu também em álbuns como 1967 – Sunshine tomorrow, 1967 – Sunshine tomorrow 2: The studio sessions e 1967 – Live sunshine.

“ADULT/CHILD” (1977). Preparado para ser lançado em setembro de 1977, Adult/child era quase um disco solo de Wilson, que andava influenciadíssimo (ao extremo) pelas teorias de seu então psicólogo Eugene Landy. O doutor dizia a ele que “há duas partes de uma personalidade: um adulto que quer estar no comando e uma criança que quer ser cuidada, um adulto que conhece as regras e uma criança que está aprendendo e testando regras”.

A visão de mundo que o líder dos Beach Boys tinha na época, transparecia em músicas como Still I dream of it (“quando eu era mais novo, minha mãe me ensinou que Jesus ama o mundo/se isso é verdade, porque ele não me ajudou a encontrar uma garota para mim?”, cantava o trintão Brian), na desastrada Hey little tomboy (na qual Wilson tenta azarar uma garota que anda de skate e joga beisebol, com versos pra lá de machistas) e na anti-maconha Live is for the living. Adult/child foi considerado um baita vacilo pelo seu eterno algoz Mike Love (que, assim como todos os BB, foi relegado aos vocais) e pela Reprise, gravadora da banda na época.

“MERRY CHRISTMAS FROM THE BEACH BOYS” (1978). A Reprise já estava mesmo descontente com os Beach Boys – tanto que vetou um disco de Natal do grupo, feito basicamente para cumprir contrato. Ao que consta, a gravadora não curtiu as colaborações de Brian em seu próprio álbum (!) e mandou tudo pro arquivo. O material foi saindo aos poucos depois em coletâneas e discos piratas.

BRIAN WILSON E ANDY PALEY (anos 1990). Havia o risco do álbum divido por Wilson com o compositor e produtor norte-americano Andy Paley virar uma espécie de Smile 2, já que os dois amigos trabalharam juntos entre 1992 e 1997, assim que o ex-psicólogo de Brian, Eugene Landy, saiu da vida do cantor (além de “cuidar da mente” de Wilson, ele era seu empresário e detinha várias parcelas de copyright).

O material novo, variando entre rock e baladas, era mais “adulto” do que muita coisa que Wilson havia feito durante os anos 1970 e começo dos 1980, e prometia. Mas acabou igualmente engavetado – Brian já estava com  cabeça em outros projetos e, afirma-se, foi bastante influenciado por sua esposa e por amigos a abandonar o trabalho com Paley, a quem considerava um “grande gênio musical”. Depois, foi tudo saindo em CDs piratas.

“SWEET INSANITY” (1991). Assim que saiu Brian Wilson, estreia solo do beach boy (1988), a gravadora Sire aguardou ansiosamente uma continuação. Sweet insanity começou a ser gravado em 1990 (com aproveitamento de faixas gravadas entre 1986 e 1989). Na época, Wilson não era mais paciente de Eugene Landy, mas este ainda empresariava e produzia o primeiro – tanto que Landy produziu o disco com Brian. Mas o segundo disco de Brian Wilson pela Sire acabou nunca saindo.

O cantor reclamou que as fitas de Sweet insanity desapareceram – mas existem discos piratas com as canções. O que aconteceu de verdade foi que a Sire odiou o disco e, em especial, detestou as letras feitas por Landy – pois é, ele (ainda por cima) era parceiro do cantor. Smart girls, uma tentativa de Wilson de fazer rap, era uma dessas canções feitas com Eugene, e virou folclore por vários anos. Horrorizada, a Sire preferiu rescindir contrato com Brian.

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Crítica

Ouvimos: Sonic Youth, “Walls have ears”

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Ouvimos: Sonic Youth, "Walls have ears"
  • Walls have ears é a “oficialização” de um disco pirata do Sonic Youth, lançado originalmente em 1986, e que traz uma coletânea de shows do grupo na Inglaterra.
  • No disco, as faixas de 1 a 7 foram gravadas em 30 de outubro de 1985, em Londres. A faixa 8 foi gravada ao vivo em 8 de novembro de 1985, em Brighton. Da 9 a 17, tudo foi gravado em Londres em 28 de abril de 1985.
  • Na época, o Sonic Youth tinha Lee Ranaldo (guitarra, voz), Thurston Moore (guitarra, voz), Kim Gordon (baixo, voz) e Bob Bert (bateria).
  • Separado desde 2011, quando Kim descobriu um caso extra-conjugal de Thurston (tal fato acabou com a banda e, claro, com o casamento dos dois), o SY vem fazendo alguns lançamentos “póstumos”. A banda já lançou um disco com um show em Moscou em 1989 e uma apresentação em Chicago em 1995, por exemplo.

O Sonic Youth lá por 1985, quando ainda era um prodígio do rock independente norte-americano, e especializava-se mais em táticas de choque musical, era uma banda bem diferente. O SY nunca deixou de ser uma banda que usa o barulho pra se comunicar, mas era um grupo mais ruidoso, mais provocador, com uma política mais demolidora – expressada no terceiro disco, Bad moon rising, um ataque às obsessões dos Estados Unidos e à história do colonialismo, e até hoje um dos álbuns mais instigantes do grupo.

Justamente por isso, vá com calma a Walls have ears, álbum pirata com gravações de 1985 feitas na Inglaterra, lançado oficialmente apenas agora. É basicamente uma onda meio no wave meio pré-punk, tirada diretamente do palco para vinil, CD ou plataforma digital – e com estridência suficiente para assustar quem ouve de fone, e para atordoar quem ouve tudo no volume máximo.

O noise rock que o grupo fazia nessa época, pode acreditar, veio de uma decisão comercial – o grupo fazia um som bem mais anticomercial ainda, e decidiu chegar perto do experimentalismo “novaiorquino”, com ligeiras tendências a soar próximo também das bandas de Detroit (o terror espacial de Starship, música de 1969 do MC5, parecia ter dado o tom de boa parte das músicas do SY nessa época).

Já que uma música do clássico Kick out the jams, do MC5, foi citada, vale dizer que Walls have ears, assim como o disco da banda pré-punk, começa com um falatório – na verdade, um discurso de dois minutos do punk norte-americano Claude Bessy, reclamando que o selo britânico Rough Trade se recusara a lançar um disco do SY na Inglaterra por causa de sua capa, considerada obscena. Na sequência, o repertório da fase inicial da banda surge entre aplausos e vinhetas, incluindo Kill yr idols, I love her all the times, Death Valley 69, a barulheira de Brother James, em versão bem mais furiosa do que a registrada em disco.

O Sonic Youth estava começando sua carreira como uma espécie de cópia em negativo de Bruce Springsteen, um artista que por mais que seja crítico em relação à sua terra, transpira orgulho. O SY, por outro lado, se dedicava a mexer em fantasmas norte-americanos dos mais esquisitos, e a incomodar quem ainda tinha um pouco de esperança no futuro do país. Virou um baluarte do rock alternativo (título dado a eles pela MTV) e um farol para muitas bandas novas – foi por vários anos um grupo alternativo que havia sobrevivido numa gravadora de porte, a Geffen. É a história contada, em seu começo, aqui.

Nota: 8
Gravadora: Goofin’ Records

Foto: Reprodução da capa do álbum.

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