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Cultura Pop

Várias coisas que você já sabia sobre All Things Must Pass, do George Harrison

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Várias coisas que você já sabia sobre All Things Must Pass, do George Harrison

O único beatle que aparecia sorrindo na capa do disco Let it be (1970) era George Harrison. Mas ao contrário da alegria da foto, o autor de Something aparecia em crise durante o filme, brigando com os colegas e agindo como se aquilo fosse um fardo na vida dele.

Ainda assim, durante o ano de 1969, havia muito trabalho a fazer na Apple, o complexo multitudo montado pelos Beatles. George produzia artistas (fez até dois singles do Radha Krishna Temple, hinduístas de Londres) e até lançava discos. Em maio, pelo selo Zapple (etiqueta de vanguarda da Apple) saiu o segundo disco solo do cantor, Electronic sound, com duas peças enormes compostas no sintetizador Moog, cada uma ocupando um lado do disco.

All things must pass, o terceiro (e que muita gente pensa até hoje que era o primeiro) disco de Harrison, saiu em 27 de novembro de 1970. Era um de relato do sofrimento do cantor em meio às brigas dos Beatles: George passara os últimos anos tentando emplacar canções na banda, aporrinhando-se com as brigas de ego, com as disputas de poder e com a sangria da grana da Apple.

Várias coisas que você já sabia sobre All Things Must Pass, do George Harrison

Um extenso relato, diga-se: era um LP triplo, dois deles repletos de canções que haviam sido esquecidas no repertório da banda, além de um LP de jams (Apple jam). Figuras ligadas ao dia a dia da Apple inspiravam diretamente o trabalho: Phil Spector, que produzira Let it be, cuidou do disco triplo ao lado de George. O cantor produziu em 1969 That’s the way god planned it, disco de Billy Preston – um mergulho no gospel que ajudou a formatar canções como What is life e My sweet lord.

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A curta turnê que fez ao lado de Eric Clapton e Delaney & Bonnie também deixou marcas no álbum e na carreira de Harrison. Delaney Bramlett ensinou o beatle a tocar slide guitar, técnica que ele transformou em sua mais conhecida assinatura musical, ao lado do senso melódico e das letras repletas de temas filosóficos e espirituais.

Os 50 anos do disco triplo de Harrison não vão passar em branco em 2021: acaba de sair uma versão remasterizada do álbum, em várias versões. A maior delas tem 70 faixas em 5 CDs ou 8 LPs, incluindo outtakes, jams e 47 demos, 42 delas nunca lançadas.

All things must pass não fez jus ao nome (“tudo deve passar”). Não passou: permaneceu como uma das experiências musicais mais ricas de todos os tempos, na história do rock. E um momento inigualado na carreira de Harrison (e nas carreiras de todos os Beatles enquanto artistas solo), pronto para ser descoberto.

E segue aí nosso relatório sobre All things must pass. Leia ouvindo, ouça lendo, essas coisas.

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SOM DOS EUA. Muitos fãs e pesquisadores de Harrison hão de concordar: na gênese de All things must pass está o período, a partir do fim de 1969, que o guitarrista passou com um dos músicos – ao lado do amigo Eric Clapton – do grupo Delaney & Bonnie and Friends, formado pelo casal Delaney (guitarra) e Bonnie Bramlett (voz). Com saudade de tocar ao vivo e animado com o som da banda, Harrison procurou Delaney nos bastidores de um show no Royal Albert Hall em 5 de dezembro de 1969 e sugeriu sua entrada no grupo. Foi excursionar com um bando de músicos americanos por lugares como Bristol, Birmingham e Croydon e fez suas primeiras apresentações ao vivo desde o sumiço dos Beatles dos palcos em 1966.

MALUCÃO. Como diria sua avó, Harrison estava im-pos-sí-vel durante a turnê com o casal. Tido como o zoeiro-mor dos Beatles antes de entrar numa febre mística no fim dos anos 1960, deixou o cabelo e a barba crescerem a ponto de ficar quase irreconhecível (o hoje babaca de plantão Clapton era mais manjado nas ruas do que ele), enchia a cara de uísque com Coca junto com os amigos, e se dedicava a brincadeiras imbecis, como arrancar as calças de veludo do amigo Delaney, deixando-o de bunda de fora.

DESLIZANDO. Popularizada no blues, a técnica de slide guitar (usar um anel para fazer sons nas cordas, ao deslizar no braço do violão) já vinha sendo bastante utilizada no rock desde o começo dos anos 1960, e fazia parte do dia a dia da turma de Delaney. Uma das músicas do set list, Comin’ home, contava com a guitarra slide de Dave Mason, do Traffic. Mas na ausência de Mason, sobrava mesmo para George tocar o instrumento usando a técnica, que ele aprendeu rápido.

ALIÁS E A PRÓPÓSITO, George se sentia meio por fora quando via que o rock estava repleto de superguitarristas (Jimi Hendrix, Jimmy Page), enquanto ele tinha desviado o foco para a música indiana e praticamente deixara de aprender coisas novas no instrumento. Chegou a falar à revista Crawdaddy que passou a brincar com o slide porque achou que “tinha perdido muito tempo”.

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O HIT. My sweet lord, o primeiro single de All things must pass, nasceu justamente da turnê com Delaney e Bonnie. Entre um show e outro, Harrison ficava brincando com Oh happy day, um hino cristão gravado por meio mundo, e tentava compor sua própria canção gospel. A ideia do cantor era fundir cristianismo e hinduísmo numa só letra.

SÓ, MAS ACOMPANHADO. Delaney afirmou anos depois (no tribunal, quando Harrison foi acusado de plágio na música) que teve participação não creditada na composição da música, ao lado de Bonnie. O beatle vivia lhe perguntando como se compunha uma canção gospel, segundo ele. Delaney teria criado a frase “oh my lord”, com Bonnie e Rita Collidge (também cantora da turnê) respondendo com “aleluia”. Billy Preston, o cara que tocou órgão em Let it be, teria ajudado Harrison (segundo Delaney) a completar a canção,

AINDA UM BEATLE. Quando My sweet lord foi feita, na finaleira de 1969, Harrison, mesmo saracoteando por aí com Delaney e cia, ainda era um beatle e não tinha interesse em lançar outro disco solo. Pensou em oferecer My sweet lord ao grupo que estourou com uma versão de Oh happy day, Edwin Hawkins Singers, mas em janeiro de 1970, a canção acabou gravada por Billy Preston, com Harrison na produção. Encouraging words, segundo disco de Preston para a Apple (e quinto de sua carreira), trouxe, dois meses antes de All things must pass sair, as primeiras versões de All things… e My sweet lord.

ALIÁS E A PROPÓSITO, a introdução de My sweet lord com Preston parece bastante com a de Chega mais, de Rita Lee. Não?

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NO VASO. Anos depois, Harrison comparou o trabalho em All things must pass a “um caso de diarreia”. Isso porque de fato, ele estava com muito repertório guardado (e ainda acrescentou outras canções) e ainda por cima tinha muito a dizer a respeito da situação toda que os Beatles estavam vivendo, com brigas internas, disputas de poder, encontros com advogados e ofensas de parte a parte. Canções como Isn’t a pity e Run of the mill falavam das recriminações internas da fase final do grupo – Harrison estava bastante irritado com a maneira como Lennon o criticava, por exemplo.

GEORGE também escreveu Wah wah, primeira canção gravada por ele para All things must pass, e que tinha sido composta quando ele decidiu se afastar dos Beatles em janeiro de 1969, durante as gravações do que seria o disco-filme Let it be. A letra era um recado direto a Paul e John, pelas críticas que recebera dos colegas. Apple scruffs, por sua vez, falava das fãs que passavam o dia na porta da Apple, empresa do grupo, em Londres. A canção era uma doce homenagem a elas, e Harrison chegou a chamar algumas das scruffs para ir ao estúdio escutar a música pronta.

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ALIÁS E A PROPÓSITO, pelo menos uma das scruffs, Carol Bedford, diz que a relação com o beatle passou da admiração para uma proximidade (er) maior. Ela chegou a escrever um livro sobre a história com Harrison, Waiting for the Beatles.

HARRISON também afirmou que sabia que tinha um bom disco na mão. “Mesmo antes de começar, já sabia que faria um bom álbum, porque tinha muitas canções e energia de sobra. Para mim, fazer meu próprio álbum depois de tudo aquilo foi uma grande alegria”, disse.

O CLIMA nos Beatles já era de fim de feira: cada integrante estava trabalhando em seus projetos solo, todos imersos em questões pessoais. Harrison tentava curar as feridas da época com a banda, John trabalhava no material extremamente pessoal de Plastic Ono Band, Paul se metia no estúdio para gravar o esperado primeiro disco solo, Ringo fazia as primeiras aventuras solo e dizia a amigos que queria começar a se aventurar pelo caminho da música experimental (uma ideia que não foi para a frente).

PUTO DA VIDA com a mania de Paul de dirigir até mesmo as sessões dos colegas de banda, Harrison decretou que seu disco, mesmo sob seu comando, teria espaço para os músicos criarem livremente nos arranjos. A lista de colaboradores de All things must pass assusta: o sempre solícito Clapton (guitarra), Gary Wright (teclados), Klaus Voorman (baixo), Billy Preston (piano, órgão), Ringo Starr (bateria), e vários outros, inclusive integrantes do Badfinger, recém-contratado pela Apple. Jim Gordon, Carl Radle, Bobby Whitlock e Eric Clapton descobriram que davam liga juntos, e montaram o grupo Derek & The Dominos durante as gravações do disco de Harrison.

ALÉM DOS dois discos repleto de canções, All things must pass era complementado pelo terceiro álbum, que era quase um disco-bônus das sessões. Apple jam ganhou um selo especial, diferente da maçã da Apple, desenhado por John Wilkes, com uma embalagem de geleia de maçã. E trazia basicamente improvisos instrumentais, gravados ao lado de amigos como Bobby Whitlock (teclados), Ginger Baker (bateria), Klaus Voorman (baixo) e a formação que, a partir daí, geraria o Derek & The Dominos (em Plug me in). I remember Jeep era uma homenagem ao cãozinho desaparecido de George. Thanks for the pepperoni tinha seu nome tirado de uma frase do humorista Lenny Bruce. It’s Johnny birthday era a exceção: uma brincadeira de poucos segundos em cima de um hit de Cliff Richard, Congratulations, e gravada como homenagem aos 30 anos de John Lennon.

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ALIÁS E A PRÓPÓSITO, a gravação de Harrison veio numa leva de homenagens a Lennon em seu aniversário. Mal Evans, notável da Apple, abordou nomões do rock como Donovan e Janis Joplin para que enviassem lembranças. Lennon chegou a ouvir a música no estúdio, quando foi visitar George. O autor de Something, vale dizer, foi obrigado a dar crédito aos autores de Congratulations na vinheta, ou ganharia um belo dum processo – coisa corriqueira no dia a dia da Apple, por sinal.

SÓ QUE como todo mundo sabe, o clima nos Beatles, e em especial na Apple, estava pela hora da morte, com todo mundo brigando e, em especial, Paul McCartney irritadíssimo com o fato de ter que engolir Allen Klein no controle dos negócios do grupo. Allen, tido como empresário espertalhão e cumpridor cruel da pequenas cláusulas de qualquer contrato, tinha (vá lá) uma missão espinhosa pela frente: organizar a Apple, fazer o dinheiro aparecer nos cofres do grupo e garantir uma gestão mais interessante para a banda. Demitiu a maior galera e foi colocando seu pessoal no lugar.

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PAUL, que queria os parentes da mulher Linda (os Eastman) no controle da banda, detestou ter que trabalhar com Klein, que viera para o grupo por ideia de Lennon e fora aceito por todos os colegas. Para aumentar seu desgosto, Lee e John Eastman, pai e irmão, respectivamente, de Linda, não conseguiram ficar nem como advogados do grupo – Klein limou ambos.

FOI KLEIN, por sinal, quem ajudou a desencavar o projeto de Get back, disco-filme engavetado que depois ganharia o nome de Let it be, e cuja produção tinha sido cenário de várias brigas entre os quatro beatles. Allen ainda continuou tendo poder até mesmo sobre as carreiras solo dos quatro, já que Paul, para poder sair da banda, precisou processar os colegas (que depois processaram-se mutuamente).

EM ENTREVISTAS, entre o surgimento de Klein na vida beatle e o lançamento de All things must pass, Harrison dizia que tinha percebido que “qualquer pessoa poderia ser Lennon & McCartney”, e via que a solução para os Beatles era aceitar que se tratava de uma banda formada por quatro pessoas, e não apenas um grupo dominado por dois caras. “Tudo que temos a fazer é aceitar que somos indivíduos e que temos temos tanto potencial quanto cada um”, afirmava. Dizia também que se dava bem com Lennon e Ringo e “fazia o possível” para viver bem com Paul, seu ex-colega de escola.

AINDA ASSIM, All things must pass pode ser considerado um produto direto de Klein, apenas pela entrada na produção de Phil Spector, que produzira Let it be (e cujos arranjos de cordas em The long and winding road fizeram Paul McCartney escrever uma carta furibunda ao empresário). Phil foi à mansão de Harrison (a gótica Friar Park) escutar o material do disco e ficou bastante impressionado. Só disse que (compreensivelmente) o recital do beatle foi “interminável”, dada a quantidade de material acumulado.

SPECTOR, um produtor que costumava andar armado (e comparecia ao estúdio com um berro no bolso), não foi, evidentemente, uma figura que trouxe muita estabilidade às gravações. Bebia bastante antes da maratona de estúdio, e muitas vezes deixava Harrison cuidando do disco sozinho. Numa ocasião, caiu no chão no meio do trabalho e quebrou o braço. Acabou afastado.

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MÃE. Harrison precisou interromper as gravações do disco em alguns momentos para visitar sua mãe, que estava com câncer, e muito doente. Louise Harrison morreu em  7 de julho de 1970, aos 59 anos.

ALIÁS E A PROPÓSITO, o trabalho demorado e as interrupções nas gravações preocuparam a EMI, que dada altura, achou que o disco estava ficando caro demais. Acredita-se que as gravações tenham ido de maio a outubro de 1970, apesar da EMI não ter registros detalhados da data. Testemunhas dizem que possivelmente a pré-produção começou em 20 de maio de 1970, no mesmo dia da estreia mundial do filme Let it be.

ALÉM DO MATERIAL que foi para o disco triplo, Harrison deixou mais de vinte canções gravadas. Algumas delas só apareceram mesmo no relançamento de 50 anos do disco, que saiu há pouco. E várias apareceram num piratinha que ficou famoso, Beware of ABKCO, com as canções que estavam sendo consideradas para o disco. O álbum bootleg tem também Beware of darkness com o primeiro verso alterado para “beware of ABKCO” (“cuidado com a ABKCO”), daí o nome do disco.

ALIÁS E A PROPÓSITO, e você deve saber, ABKCO era a empresa do indesejado empresário Allen Klein. A versão não-lançada era um desabafo de Harrison.

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FEZ SUCESSO? Bom, All things must pass é considerado por uma porrada de críticos como o melhor disco lançado por um ex-beatle, e números apontam para o fato de que também é um dos mais vendidos, até pelo contraste da situação (um disco triplo, caro, e que platinou várias vezes). Harrison conseguiu o topo da lista de álbuns e de singles simultaneamente na Billboard. Durante vários anos, George foi considerado o beatle mais bem sucedido na carreira solo, inclusive no Brasil.

E TEVE BANGLADESH. No domingo, 1º de agosto de 1971, foram realizados os Concertos para Bangladesh (às 14h30 e 20h00), no Madison Square Garden, em Nova York. A ideia dos shows partiu do músico indiano Ravi Shankar, que abordou Harrison com a ideia de fazer algo para ajudar o povo bengali, refugiado do Paquistão Oriental, durante a Guerra de Libertação de Bangladesh. O filme gerou um disco triplo, o segundo lançado por Harrison em um curso espaço de tempo (saiu no Natal de 1971), e um filme, lançado pela Apple Corps.

SHANKAR esperava que os concertos arrecadassem 25 mil dólares, mas a coisa foi aumentando bastante quando os nomões do rock que George Harrison chamou foram aderindo: Badfinger, Ringo Starr, Eric Clapton, Leon Russell, Bob Dylan. Os dois shows arrecadaram US$ 243.418,50, dados à Unicef. Boa parte dessa grana foi mantida numa conta de custódia durante dez anos, porque Klein se esqueceu de registrar o evento como um benefício da Unicef. Na hora de lançar o conjunto de três discos (bastante caro, por sinal), todo mundo queria uma parte: lojistas, gravadoras dos artistas (como a Columbia, de Bob Dylan). Antes mesmo que a caixa chegasse ao mercado, já havia discos piratas com os shows. Ainda assim os três discos venderam bastante e foram sucesso de crítica.

AH SIM, E TEVE o plágio: Harrison enfrentou os tribunais (mais uma vez…) porque a empresa Bright Tunes Music Corporation, que detinha os direitos das canções de Ronnie Mack reclamava das semelhanças entre My sweet lord e He’s so fine, do autor, gravada pelas Chiffons. Isso rolou em 10 de fevereiro de 1971, e no mesmo ano, uma cantora country chamada Jody Miller gravou a mesma canção, só que incluindo efeitos de slide guitar (!). O processo foi se arrastando, e ainda envolveu maracutaias de Klein (que tentou comprar a Bright Tunes e ainda ofereceu informações confidenciais sobre o sucesso financeiro de My sweet lord).

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ALIÁS E A PROPÓSITO, até mesmo as Chiffons gravaram My sweet lord, em 1975, com a ideia de chamar atenção para o processo.

O LITÍGIO foi se arrastando até os anos 1990, mas até lá George ainda compôs This song, ironizando o processo e (vá lá) graças às malandragens de Klein, conseguiu até mesmo os direitos de He’s so fine.

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No podcast do POP FANTASMA, Stranglers!

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Nada pode parar os Stranglers e impedir uma das maiores bandas da história do rock britânico de fazer bonito – e tem disco novo deles rolando nas plataformas, Dark matters. Recentemente, a covid levou o tecladista do grupo, Dave Greenfield, um desses músicos que estavam sempre algumas jogadas à frente no tabuleiro. O Stranglers, que vinha ficando acostumado a mudanças na formação desde a saída do vocalista Hugh Cornwell, em 1990, hoje é um trio comandado pelo baixista e vocalista Jean Jacques Burnel, o único a permanecer na banda desde o comecinho.

Na nona edição do Pop Fantasma Documento, nosso podcast, lembramos a carreira dos Stranglers, um pouco das histórias de discos clássicos como No more heroes (1977), Black and white (1978) e La folie (1981) e falamos um pouco das novidades da banda. Ah, cansamos um pouco de falar para as paredes e dessa vez tem convidado: o músico, produtor e jornalista André Mansur ajuda a falar da história da banda e do impacto dos Stranglers no rock brasileiro (sim, teve!).

O Pop Fantasma Documento é o podcast semanal do site Pop Fantasma. Episódios novos todas as sextas-feiras. Roteiro, apresentação, edição, produção: Ricardo Schott. Músicas do BG tiradas do disco Jurassic rock, de Leandro Souto Maior. Estamos no SpotifyDeezerCastbox Mixcloud: escute, siga e compartilhe!

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SSV: quando Sisters Of Mercy fizeram um disco só pra cumprir contrato (e que nem saiu)

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SSV: quando os Sisters Of Mercy fizeram um disco só pra cumprir contrato (e que nem saiu)

Não existe disco de inéditas do Sisters Of Mercy desde 1990, quando saiu o terceiro álbum, Vision thing. Os fãs não perdem a esperança e sempre cobram material novo do líder do grupo, Andrew Eldritch. Em 2016, aliás, vale citar, Andrew deu certa esperança a seus fãs, quando disse que “se Donald Trump chegasse à presidência” poderia lançar um disco novo. Trump entrou, saiu, e nada veio.

Bom, quase nada: em 1992, para acalmar os fãs, saiu uma coletânea de singles Some girls wander by mistake. Andrew passou, com seu grupo, a se dedicar apenas aos shows, e a gravação de novos álbuns ficou para outro momento, que nunca chegava. Mas ainda assim, além dos fãs, outro problema foi criado com o selo do grupo, a East West, que os havia contratado em 1989.

Você possivelmente escutou falar da East West pela primeira vez nos anos 1990, mas a gravadora iniciou atividades em 1955, como um selinho da Atlantic. Lançou bem pouca coisa memorável (discos dos Kingsmen saíram por lá) e passou vários anos engrossando a lista de selinhos defuntos. Voltou lá pra 1989 empurrando a porta das paradas com artistas como En Vogue, Pantera e algumas outras.

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O Sisters acabou não sendo uma das bandas vitoriosas do selo: fez várias turnês, mas teve mil problemas financeiros, e resolveram se emputecer com a própria gravadora. A ponto de declarar uma “greve” contra a East West que muita gente nem sequer entendeu direito, mas que tinha a ver com direitos que Andrew acreditava não estar recebendo. O processo foi se arrastando e a gravadora foi cobrando discos novos, que nunca saíam.

E aí que em 1997, Andrew decidiu encerrar o contrato com a gravadora da forma mais mole possível. Sequer gravou um disco novo: simplesmente pagou duas pessoas para fazerem um disco, participou com alguns vocais e pronto, a East West entendeu que ele poderia ser liberado. Foi o que aconteceu quando Andrew gravou Go figure, o disco do grupo SSV. Ou SSV-NSMABAAOTWMODAACOTIATW, que é o nome completo.

Ao que consta, o tal nome enorme do SSV significa Screw Shareholder Value – not so much a band as another opportunity to waste money on drugs and ammunition, courtesy of the idiots at Time Warner (“não tanto uma banda, mas outra oportunidade de gastar dinheiro com drogas e munições, cortesia dos idiotas da Time Warner”). No site do Sisters, há um texto negando que o título seja esse, já que “exigiria uma vírgula”.

O próprio site, aliás, explica o rolê complicado do álbum. “Ele apresenta música de P.Bellendir e palavras de T.Schroeder. Foi produzido por P.Bellendir em 1997. Não traz nada de Andrew Eldritch, exceto alguns vocais sampleados.  Por causa desses vocais sampleados, a East West comprou o disco (sem tê-lo ouvido) e concordou em liberar Andrew de seu contrato de gravação. O que os levou a fazer uma coisa tão estranha, após anos de intransigência?”, perguntam.

Bom, a explicação que a banda arrisca é a de que a grande preocupação da gravadora era a de que um juiz considerasse que o contrato estava morto, após a greve de sete anos. “Então eles pegaram o que puderam. Andrew não tem dinheiro nem desejo de passar anos em um processo judicial e ficou feliz em aceitar a liberdade imediata nesses termos específicos”, explicam lá.

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O fato é que a East West odiou o disco do SSV e decidiu não lançar nada. De qualquer jeito, a gravadora mandou cópias para a imprensa. Por causa disso, os fãs e não fãs do Sisters deparam com vídeos contendo o repertório do disco, além de arquivos p2p. Olha ele aí.

Se você escutou o disco, percebeu de cara: sim, é ruim. Uma confusão dos diabos, privativa dos maiores fãs do Sisters e olhe lá. O próprio Andrew não esconde isso no texto do site. “Não é muito bom – para dizer o mínimo. É razoável supor que ‘techno sem bateria’ é projetado apenas para entediar e irritar”, diz o texto. “Não achamos que valha a pena baixar o disco, de qualquer maneira. Descobrimos que East West remixou duas faixas, mas eles não têm permissão para remixar mais. Um dia, East West pode decidir lançar o álbum SSV. Não podemos recomendar”.

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Qual era a de Frank, estreia de Amy Winehouse?

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Qual era a de Frank, estreia de Amy Winehouse?

Missão difícil essa: falar de um disco que se bobear você já ouviu algumas (ou inúmeras) vezes. E que dependendo do seu gosto musical, você já deve ter repetido por aí mil vezes que se trata do melhor disco da artista em questão. Mas como é aniversário de Amy Winehouse, a gente faz questão de dizer que Frank, o primeiro disco dela, merece muito ser ouvido.

Quando Frank saiu, havia expectativa (muita, por sinal) sobre Amy, mas ninguém nem de longe imaginaria aquele sucesso todo que ela teria em Back to black, o segundo disco (2006). Até porque três anos se passaram do primeiro para o segundo disco. Frank é de 2003, e um ano antes ela ainda era um dos segredos mais bem guardados da indústria musical, com contrato assinado com o poderoso Simon Fuller, ex-empresário das Spice Girls e criador da franquia Idol.

Antes de Frank sair (o título alude tanto à franqueza algo excessiva das letras quanto à sua paixão por Frank Sinatra), Amy já tinha sido alvo de uma pequena disputa entre gravadoras, com EMI e Island procurando a garota de 20 anos para assinar um contrato. A Island ganhou e Frank saiu, revelando uma sonoridade que aludia ao neo soul dos anos 1990 (enfim, o soul renovado com elementos de r&b e hip hop), mas mais ainda ao jazz. Era algo bem novo para a época em que saiu, mas não chamou a menor atenção. O disco saiu em 20 de outubro de 2003 e demorou quatro meses para chegar à 13ª posição na parada de álbuns do Reino Unido – e não ficou muito tempo por lá. Os demais países europeus só conheceram o disco no ano seguinte.

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E antes que você pergunte como Frank se deu na parada americana, os EUA não conheceram o primeiro disco de Amy até 2007, quando Back to black já tinha sido lançado havia um ano. O site Concert Archives diz que os primeiros shows de Amy nos EUA aconteceram em março de 2007 no festival SXSW. Quando Frank finalmente saiu nos EUA, ganhou uma resenha pouco amistosa da Pitchfork, criticando a “rotina autodestrutiva do artista torturado”.

Em termos de letras, a grande diferença entre Frank e Back to black é que Amy no começo já falava de dores de cotovelo sérias e de enormes problemas amorosos, mas a artista com certeza não era a mesma – e a narradora-personagem das letras talvez não fosse a mesma. A Amy do primeiro disco talvez não gravasse algo como Rehab e You know I’m no good. Mas lá tinha Stronger than me, cuja letra causaria problemas a Amy hoje em dia (já que ela pergunta ao namorado que depende emocionalmente dela: “você é gay?”). Tinha a releitura dela para um standard de jazz gravado por meio mundo, There is no greater love. A confusão amorosa de I heard love is blind. E Help yourself, mais uma canção sobre namorada de atitude vs namorado imaturo.

A capa de Frank também chama a atenção pelo astral bem diferente da de Back to black. Em comecinho de carreira e ainda sem pretensão de estourar, Amy aparece bem feliz na foto e capa, clicada por um fotógrafo iniciante, Charles Moriarty, que recordou depois ter sido o primeiro a clicá-la com penteado beehive. Anos depois, ele lançou o livro Before Frank, mostrando o período pré-fama de Amy.

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“Eu a conheci no dia em que fiz a capa de seu álbum. Ela veio ao meu apartamento em Spitalfields. Ela colocou maquiagem e um pouco de música. Eu não era fotógrafo na época. Eu ia com minha câmera quando meus amigos iam a uma discoteca. Um amigo em comum pediu que eu fizesse um teste com ela para conseguir o visual que ela queria para seu álbum. Uma dessas imagens se tornou a capa de Frank“, contou Charles, recordando também que ela queria evitar cair na armadilha de posar usando uma guitarra, ou algo do tipo.

Os cães que aparecem na foto (na verdade só um cão, além do laço da coleira de outro animal) foram emprestados naquele momento, por uma pessoa que estava passando. “Acho que os cães foram uma boa distração da câmera para Amy. Eles permitiram que ela se concentrasse neles, em vez de no fato de que eu estava tirando uma fotografia”, contou Charles aqui. Amy, como se sabe, não curtia ser fotografada e deixá-la à vontade era uma missão para Moriarty.

O lançamento de Frank foi bem discreto, mas as portas estavam abertas para Amy nos programas da BBC. Ela esteve até no prestigioso Never mind the Buzzcocks, game show com artistas no qual era possível ver Slash (Guns N Roses) pegando o banquinho e saindo de mansinho após errar a letra de Paradise city, entre outras cenas. Foi nessa que uma bela e jovial Amy teve que fazer o solo de Mr Blue Sky, da Electric Light Orchestra, com a boca.

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No fim das contas, Frank é uma excelente descoberta para quem conhece a Amy apenas do pós-fama. Vale dizer que é um disco que ela própria já detonou várias vezes, muitas vezes culpando o excesso de produtores (ela cuidou disso ao lado de Commissioner Gordon, Jimmy Hogarth, Salaam Remi e Matt Rowe). “Nunca ouvi o álbum do início ao fim. Eu não tenho em minha casa. Bem, o marketing foi fodido, a promoção foi terrível. Tudo estava uma bagunça”, disse ela ao The Guardian. Exagero: a Amy pré-Back to black era encantadora.

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