O par de discos Music of my mind e Talking book, lançado por Stevie Wonder em momentos diferentes do ano de 1972, representou a fase “já é um homenzinho” do cantor e compositor. Ainda que Stevie já tivesse 22 anos e uma carteira considerável de sucessos. Mas muitos biógrafos consideram que, a partir dessa fase, com o novo contrato assinado com a Motown, o cantor de Never had a dream come true, My cherie amour e outros hits poderia até botar fogo no estúdio da gravadora se quisesse.

O novo acordo dava trabalho ao selo. Tinha umas 120 páginas e Stevie ganhava “total controle artístico”, num espelho dos contratos fodásticos assinados por bandas como o Led Zeppelin (que conseguiria até lançar um LP sem nenhuma referência ao grupo na capa em 1971, o que tem Stairway to heaven).

STEVIE MANDANDO

O chefão da Motown, Berry Gordy, pelo menos em tese, não apitava nos lançamentos do cantor mais do que podia. Stevie gravaria com quem quisesse, da maneira que quisesse, lançaria os discos com o conceito que bem entendesse. Poderia até lançar álbuns conceituais em vez dos tradicionais LPs com algumas canções autorais, algumas covers e alguns sons já publicados em singles. E também passaria a alternar canções românticas com músicas mais políticas. Era algo que já vinha acontecendo desde o disco Where I’m coming from (1971), último do antigo contrato, já produzido inteiramente por ele.

Na época, Stevie tinha montado um selo chamado Taurus Productions, pelo qual pretendia lançar sua obra daí para diante, com a Motown distribuindo. O nome “Taurus” (touro em português, seu signo no zodíaco, aliás) aparece apenas nos créditos dos LPs. Era uma moda na época, “disco produzido por fulano de tal para a empresa tal”. Mas a própria Motown acabou lançando os discos de Stevie.

TONTO (?)

Tanto Music of my mind quanto Talking book surgiram numa época em que o cantor pensava na melhor maneira de traduzir “a música da sua mente” (olha aí!). Com essa finalidade, entrou em namoro sério com a turma da Tonto’s Expanding Head Band. Era uma uma dupla de música eletrônica britânica-americana, formada por Malcolm Cecil e Robert Margouleff, e que hora dessas merece até um texto só deles aqui no POP FANTASMA.

Stevie passou a usar o mega-über-super-maxi-sintetizador customizado da empresa, o TONTO (a sigla significa “The Original New Timbral Orchestra”). A máquina começou como um sintetizador Moog comum, mas depois teve vários módulos acrescentados. Aliás, vários desses módulos vieram de outras empresas, tais como ARP, Oberheim e aqueles outros nomes que você lê em fichas técnicas de LPs antigos. Depois, o TONTO virou um monstrengo que ocupava uma sala inteira e parecia coisa de filme de terror, por causa dos sons malucos e psicodélicos que poderia produzir. A partir desse encontro, Cecil e Margouleff se associariam a Wonder até mesmo na produção de discos.

ROCK

A nova fase marcou um crossover de Stevie Wonder com o público de rock que marcou época. Superstition, por exemplo, tinha sido dada para Jeff Beck gravar. E por causa disso, foi incluída em Talking book com a promessa do autor de que a música não viraria single. O problema era que, mesmo que houvesse o tal “controle artístico” de Stevie, a Motown se interessou bastante pela canção. Tanto que a gravadora pegou Superstition, transformou em faixa de trabalho e deu aquela cagadinha básica na amizade de Stevie e Jeff Beck, que ficou meio puto da vida. O Led Zeppelin, que não tinha constrangimentos em copiar o que quisesse (sem dar créditos) chupou os teclados do hit de Wonder e inseriu no arranjo da dançante Trampled under foot, de 1975.

Aliás, Wonder abriu os shows dos Rolling Stones na turnê do disco Exile on main street, de 1972. Por causa disso, o cantor acabou fazendo uma aparição inesperada no filme proibidão da banda, Cocksucker blues, em 1972 (do qual já falamos aqui).

NA TV

Mas esse longo introito é só para mostrar a você essa apresentação sensacional de Stevie Wonder em 20 de dezembro de 1972 no programa Soul! da PBS. Nesse momento, Superstition já era um hit que galgava as paradas e Talking book estava havia dois meses nas lojas.

O Soul! era – o nome já diz – era especializado no estilo musical que lhe dava o nome. Aliás, era uma criação de Ellis Haizlip, produtor afro-americano de TV e teatro. Nomes como Al Green, Kool and the Gang, Richie Havens, Earth, Wind and Fire, Herbie Hancock e Gladys Knight passaram por lá. Além de nomes importantes da política e da religião, como Loius Farrakhan. Uma curiosidade do vídeo de Wonder é o cantor fazendo covers de Papa was a rollin’ stone (Temptations), What’s going on (Marvin Gaye) e Blowin’ in the wind (Bob Dylan). Confira agora.

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