Cultura Pop
Saudosas Pequenas: as escuderias mais humildes da F1 em livro

Todo fã de fórmula 1 tem uma equipe pela qual nutre um carinho especial. Tem a Mercedes do Lewis Hamilton, a Ferrari com toda sua tradição, a McLaren pelos títulos que deu ao Ayrton Senna, e por aí vai. Porém provavelmente pouca gente se lembra de escuderias como a Arrows, que disputou mais de 400 GPs e nunca conseguiu vencer uma corrida sequer. Ou então da Minardi, da Osella e de tantas outras equipes que também ajudaram a compor o espetáculo e tiveram lá os seus momentos de brilho. Mas que, pelos mais diversos motivos, não conseguiram se estabelecer na categoria máxima do automobilismo.
Disposto a não deixar que tantas histórias interessantes corressem o risco de cair no esquecimento, Rodrigo Mattar, jornalista do Fox Sports e verdadeiro apaixonado por velocidade, condensou as biografias de 41 delas no livro Saudosas pequenas, recentemente lançado pela Editora Gulliver. Com prefácio escrito pela lenda Reginaldo Leme, o livro nos brinda com fatos curiosos e às vezes engraçados envolvendo todas essas escuderias, além de ser um verdadeiro atestado de amor à fórmula 1.
Nós do POP FANTASMA procuramos o simpático Rodrigo Mattar, que contou entre coisas coisas, como surgiu a ideia de escrever esse livro, bem como seus “causos” favoritos! Confiram a entrevista abaixo e divirtam-se.
(na foto lá em cima, Perry McCarthy parecendo meio preocupado com seu carrinho da Andrea Moda)
POP FANTASMA: Como surgiu a ideia de fazer esse livro?
RODRIGO MATTAR: A ideia veio por volta de 2012 como forma de ocupar meu tempo, pois eu estava numa fase difícil, desempregado e com problemas pessoais. Então para fazer alguma coisa que pudesse chamar a atenção e tivesse relevância dentro do meu métier, que é a fórmula 1, resolvi fazer essa série Saudosas pequenas no meu blog A Mil Por Hora.
Escrevi a história de 25 equipes. E já naquela época todo mundo me abordava e dizia que isso tinha que virar um livro. Acabou não virando na época porque em maio de 2013 fui contratado pelo canal Fox Sports. Porém no ano passado começou essa pandemia e durante alguns meses, a Fórmula 1 parou, não tinha corrida. Naquele desespero de causa, eu me sentindo mal por estar isolado em casa sozinho, conversei com uma psicóloga e ela recomendou que eu fizesse algo que fosse relevante pra mim e me fizesse bem e isso me deu um estalo. Peguei o texto que escrevi no blog sobre a escuderia AGS, passei tudo para o Word, comecei a acrescentar também equipes que não havia falado na série como a Kojima, a LEC, Martini, Eiffeland, e outras. E então o projeto começou a ganhar forma.
Algumas escuderias nanicas como a Andrea Moda ou a Life eram escolhas óbvias, mas outras como a recente Hispania, que também teve uma carreira apagada e tumultuada na F-1, não foram citadas no livro. Quais foram os critérios que você usou pra definir o que é uma equipe pequena e quais deveriam entrar no livro? Meu critério foi antes de mais nada selecionar quais equipes foram mais relevantes e tiveram as melhores histórias. Daí o fato de a Marussia, que foi da mesma época, ter sido escolhida, mas ela e a Caterham não. A Hispania foi uma vergonha! É verdade que várias outras equipes dos anos 1990 também foram, mas pelo menos elas tinham histórias muito mais legais para contar.
A Hispania foi fruto de uma ideia infeliz do Max Mosley de abrir a fórmula 1 para outras equipes, porém infelizmente essa seleção foi feita sem critério nenhum, pois havia outras equipes muito mais estruturadas pleiteando uma vaga naquele momento, como a Prodrive e a Epsilon Euskadi. Ainda assim, Max Mosley preferiu trazer o John Booth (piloto dos anos 1980 e que montou equipes de relativo sucesso em categorias menores do automobilismo) associado ao Richard Branson (empresário dono da Virgin Records) com a Manor, que mais tarde viria a se tornar a Marussia, bem como a Campos (que posteriormente mudou de nome para Hispania) e a Lotus Malaysia (futura Caterham).
Tanto a Hispania quanto a Caterham não fizeram nada digno de nota. Já a Marussia não tinha como ficar de fora, tanto pelas façanhas conseguidas pelo Jules Bianchi quanto pelo Pascal Wehrlein.
A Minardi parece ser um sinônimo de equipe ruim na F1. Até hoje, mesmo após ter encerrado as atividades há quase 20 anos, ela ainda tem um séquito de admiradores apaixonados. A capa do seu livro inclusive é preta e amarela, as cores que os carros da Minardi ostentaram durante um bom tempo. Na sua opinião, de onde surgiu essa paixão dos fãs de automobilismo por ela? Por que será que equipes muito piores não são lembradas de forma tão carinhosa? No imaginário do público brasileiro que acompanha automobilismo, acho que ficou gravado na memória o que o Christian Fittipaldi fez na Minardi em 1992 e 1993. Isso fez a Minardi ganhar a simpatia do brasileiro, mas para a fórmula 1 em geral, acho que transparecia o amor com o qual o fundador da escuderia Giancarlo Minardi fazia as coisas.
Sem contar que, dessas equipes da chamada “turma do fundão”, a Minardi foi a que conseguiu as maiores façanhas: Largou na primeira fila (NOTA: Quem conseguiu tal proeza foi o piloto italiano Pierluigi Martini, no GP dos EUA de 1990) e conseguiu liderar uma corrida durante algumas voltas (também com Pierluigi Martini, no GP de Portugal de 1989), coisas que eu não lembro de nenhuma outra equipe pequena ter conseguido. Esses momentos da Minardi são muito bonitos e genuínos. O choro do Luca Badoer em Nurburgring em 1999 (NOTA: Ele estava em quarto lugar quando a caixa de câmbio quebrou e ele teve que abandonar a corrida. Se tivesse completado, teria sido a primeira vez na carreira que ele teria pontuado, por isso Badoer foi às lágrimas) também foi muito marcante, acho que todo fã da fórmula 1 naquele momento estava torcendo para que ele pontuasse.
No fundo todos torciam pra ela pontuar, mas não dava, os carros eram muito fracos. E olha que eles revelaram uma série de bons pilotos: Jarno Trulli, Mark Webber e até o bicampeão Fernando Alonso! A equipe era tão simpática e a paixão do Giancarlo Minardi pelo esporte era tão bacana… enfim, era uma coisa que mexia muito comigo. Afinal, tudo na vida é movido a paixão! Nelson Rodrigues já dizia, “é preciso alma até para chupar um Chicabon”. Vejo em todas essas coisas uma espécie de catalisador para a Minardi ser a mais querida entre as equipes pequenas.
Sem contar também esses pequenos detalhes que fizeram a diferença para nós brasileiros, como a passagem do Christian Fittipaldi e o fato de a própria escuderia também tratar o público do Brasil e os jornalistas daqui sempre com muito carinho. Lembro que quando o Wagner Gonzalez foi cobrir o seu 300º GP, a Minardi fez uma festa pra homenageá-lo! Sem falar que a comida ali era simplesmente maravilhosa! Na temporada de 1993, no auge das evoluções tecnológicas, a Minardi durante uma parte do campeonato chegou a ter mais pontos que a Ferrari!
Enfim, havia dezenas de itens que faziam da Minardi uma escuderia tão querida! E essa simpatia aumenta também quando lembramos que o Sebastian Vettel ganhou corrida com a Toro Rosso, que foi a continuação da Minardi (a empresa de energéticos Red Bull comprou a escuderia em 2005) e o Pierre Gasly também, já na Alpha Tauri. Ela teve muito bons momentos e eles têm que ser celebrados!
Eu percebi nas redes sociais que muitas pessoas reclamaram do fato de a equipe Fittipaldi não constar no livro. Eu concordo com o seu ponto de vista de que a história da Copersucar merecia um capítulo a parte pelo pioneirismo, e por isso mesmo gostaria de saber: há algum plano futuro de escrever outro livro para tratar exclusivamente do assunto? A ideia é que o meu próximo trabalho seja sobre a Copersucar, quero muito de alguma forma fazer justiça à sua história. Já até existe um livro escrito por Ricardo Sterchele (Copersucar Fittipaldi – A história completa do F1 brasileiro) que conta sobre a sua história, mas ele tem algumas falhas, além de uns erros de português. Normal, com certeza o Saudosas pequenas vai ter uns errinhos também. Em livros com mais de 400 páginas isso é quase inevitável, mas independente disso, a história da Copersucar merece ser contada e, sobretudo, valorizada.
O que o Emerson e principalmente o Wilsinho fizeram, de acreditar na viabilidade de fazer um carro de fórmula 1 no Brasil, ninguém mais conseguiria fazer. E além de tudo, ainda tiveram que encarar o descrédito da imprensa que tratava a aventura deles exatamente como se fosse uma aventura mesmo e que não poderia ser levada a sério. Pelo fato de a imprensa brasileira na época não ter o mínimo conhecimento de automobilismo como tem hoje, o olhar do público daqui nos anos 1970 e 80 era diferente. Hoje os amantes da fórmula 1 querem ver isso contado de uma forma melhor, mais digna e mais bonita.
Claro, isso não significa que temos que mascarar as escolhas erradas que cometeram durante sua jornada, como trazer um cara como o David Baldwin para ser projetista do carro, que fez uma cópia do Ensign, que na época já não era grande coisa. E muito menos esquecer do Ralph Bellamy, que projetou o F-6 (carro da temporada de 1979 que foi um verdadeiro fiasco), e que muitos consideram que marcou o início do fim da Fittipaldi.
O Emerson e o Wilsinho pagaram muito caro por essas escolhas. Tiveram méritos, claro, como o modelo F5A que fez um ótimo campeonato em 1978 e o modelo F8 de 1980 projetado por Harvey Postlethwaite, pena que faltou dinheiro para desenvolver este último. Prova disso é que em 1982 Postlethwaite foi para a Ferrari, usou os mesmos conceitos no carro, que naquela temporada foi apelidada de “Red Fittipaldi” devido a semelhança entre eles e a Ferrari acabou campeã de construtores, mesmo com todas as tragédias que aconteceram com seus pilotos (NOTA: Gilles Villeneuve faleceu no treino de classificação para o GP da Bélgica e Didier Pironi colidiu com o italiano Riccardo Paleti no GP do Canadá, acidente esse que vitimou Paleti e deixou Pironi tão traumatizado que ele decidiu abandonar a fórmula 1). Depois que a Copersucar deixou o projeto e eles passaram a se chamar Fittipaldi, não havia mais dinheiro, e foi aí que naufragaram de vez.
Mudando um pouco o tema do livro para falar de você. Sei que você acompanhou por alguns anos a Fórmula 1 nos circuitos e por isso gostaria de saber: qual foi a história mais inusitada ou surreal que você presenciou em todo esse tempo? Na verdade, não fui em tantas corridas assim. A trabalho eu só fui ao GP do Brasil duas vezes, em 2003 e 2008, mas foram ambas corridas históricas. Em 2003 foi o ano daquela vitória do Giancarlo Fisichella pilotando uma Jordan naquela corrida onde caiu uma chuva torrencial e 2008 foi quando o Felipe Massa perdeu o campeonato pro Lewis Hamilton por alguns segundos.
Porém, um episódio que ocorreu naquele fim de semana me chama a atenção até hoje. Foi nesse campeonato que aconteceu toda aquela história em Singapura envolvendo o Fernando Alonso e o Nelsinho Piquet, e que só viria à tona em 2009 (NOTA: Nelsinho Piquet bateu de propósito no muro para provocar a entrada do Safety Car, o que favoreceu seu companheiro de equipe Fernando Alonso, que veio a vencer o Grande Prêmio) quando Nelsinho foi demitido da Renault pelo Flavio “Dom Corleone” Briatore. Eu me encontrei no paddock com alguns colegas de profissão e ficamos um tempo por lá observando o movimento até darmos de cara com o Nelsinho Piquet, seu pai Nelson, Flavio Briatore e Pat Symonds, todos os quatro juntos e de cara amarrada.
Nesse momento, um dos meus amigos, Luiz Fernando Ramos, que fazia reportagens para a Rádio Bandeirantes, me saiu com essa: “Será que isso não tem a ver com Singapura?” e nós ficamos intrigados, até porque antes disso o Nelsinho fez um ótimo GP do Japão, terminando na quarta colocação. Logo depois desse fim de semana soubemos que o Nelsão pai chegou até Charlie Whiting (diretor de F1 da FIA) e disse que iria abrir o jogo e contar tudo sobre esse episódio. Whiting, que o conhecia desde os tempos da Brabham, aconselhou Nelsão a não fazer isso, ao menos não naquele momento, e que o certo deveria esperar a FIA abrir uma investigação sobre o assunto.
No fim, Nelsinho teve seu contrato prorrogado para 2009. Eu inclusive fui o primeiro a dar essa notícia no SporTV, mas ele acabou sendo mandado embora durante a temporada e foi então que o escândalo tornou-se público.
Falando um pouco sobre o Roberto Pupo Moreno, piloto brasileiro que é citado diversas vezes no livro: como foi seu contato com ele? Pergunto isso porque já ouvi umas histórias de que ele é pavio curto e fica bravo por qualquer coisa… E qual você acha que foi o auge dele na Fórmula 1? O Moreno não é assim tão temperamental quanto as pessoas pensam… Muitas histórias do livro a respeito dele eu soube através de terceiros e outras eu soube graças às lives que participei com ele no YouTube no Cadeira Cativa. As histórias do tempo da (equipe) Coloni que estão no livro foi ele quem contou, aquela história da Eurobrun de quando ele expulsou o intermediário do seu carro também foi ele quem contou, os “elogios” ao (piloto americano) Eddie Cheever… Tudo isso foi aproveitado da live ou contado pessoalmente por ele.
E se for para pinçar um grande momento dele na F-1 afora aquela heroica classificação da Andrea Moda para o GP de Mônaco em 1992 e o segundo lugar que ele conseguiu no GP do Japão de 1990, indubitavelmente temos que celebrar também o que ele fez com a fraquíssima Coloni no GP de Portugal em 1989. Deixemos de lado o resultado da corrida: ele conseguiu ficar em 12º no primeiro treino e em 15º no segundo, o que foi um feito impressionante! Só não melhorou o tempo porque ele e o Eddie Cheever se enroscaram, mas ter conseguido o 12º lugar por si só foi coisa de gênio, pra ser aplaudido de pé!
Outro momento excepcional que precisa ser mencionado foi ele ter conseguido pontuar com a AGS (chegou em sexto no GP da Austrália de 1987). OK, ele foi ajudado pelo fato de o Ayrton Senna ter sido desclassificado no fim da corrida, mas convenhamos, não é qualquer um que chega em sétimo lugar com um carro que tinha um chassi de 1983 e o fundo de madeira compensada! Não era um assoalho de fibra de carbono, pra você ver a precariedade daquela cadeira elétrica! Aquele carro era um verdadeiro Frankenstein, muito ruim! E quando Moreno sentou naquele veículo para fazer os primeiros testes no circuito de Paul Ricard, ele baixou em 4 segundos o tempo que o Pascal Fabre (piloto principal da AGS na época) virava! A equipe espertamente pegou todo o acerto de suspensão que o Moreno fizera e o Pascal Fabre conseguiu classificar o carro pra corrida da Espanha com os acertos do Roberto, mas nas provas seguintes isso não foi possível, até porque o Pascal era fraco demais.
Foi então que o campeonato da F-3000 acabou, o “baixo” ficou disponível para as duas últimas provas de 1987 e ele fez o que fez. Cabe lembrar que o Moreno havia tido uma grande oportunidade na F-1 em 1982 (substituiu Nigel Mansell na Lotus no GP da Holanda), mas não conseguiu se classificar para a corrida. Por causa disso, a capacidade dele vivia sendo posta em dúvida, só que era um senhor piloto! Correu tudo que você possa imaginar e sempre muito bem: Indy, F-2, F-Nippon, ele era genial! Você disse antes para mim que o considerava o melhor piloto brasileiro que nunca venceu uma corrida. Não sei se concordo com isso, porém com certeza eu o incluo entre os melhores brasileiros de todos os tempos.
É cada vez mais complicado e caro montar uma equipe de Fórmula 1, por isso como saudosista e apaixonado por automobilismo que você é (e o livro deixa transparecer isso a todo momento), preciso perguntar: como você vê a fórmula 1 hoje em dia? Antes de mais nada, é preciso perceber que não há mais espaço para romantismo. A F-1 se tornou um negócio, e um negócio bem caro. Ela não está mais conseguindo atrair montadoras. Hoje temos somente 4 construtoras envolvidas com fornecimento de motores: a Ferrari, a Mercedes, a Honda e a Renault.
Muito pouco se comparado por exemplo com a Fórmula E, onde temos 7 ou 8 grandes montadoras mais envolvidas com a mobilidade urbana como a Volkswagen, a Citröen, a Jaguar e por aí vai. A categoria está proibitiva, não há mais a possibilidade de uma equipe pequena chegar e ter a liberdade que existia nos anos 1970 que era usar motor e pneu padrão (Ford Cosworth e Goodyear). Era muito mais simples. Agora você tem que criar o seu carro, fazer sua suspensão, desenvolver seu próprio sistema eletrônico, etc. É tudo muito caro e, principalmente, proibitivo.
Hoje você vê a dificuldade que a Williams passa, mesmo com toda a expertise que o Frank Williams (chefe da equipe até 2012) tinha. A Williams hoje bate cabeça no fundo do pelotão junto com a Haas e a Alfa Romeo e, até a mudança do regulamento em 2022, vai continuar assim. Eu não sei se esses novos donos da Williams vão colocar as pessoas certas nos lugares certos ali para desenvolver os carros e terão paciência de fazer a coisa acontecer. A Haas ainda não vingou e, dizem, está com os dias contados.
Então a F-1 é proibitiva para equipes entrarem, mas por outro lado não dá para negar que a temporada de 2020 foi ótima! Excluindo o Lewis Hamilton que é um caso a parte, pois é, na minha opinião, o maior da sua geração junto com o Fernando Alonso, tivemos 13 pilotos diferentes subindo ao pódio, o Pierre Gasly conseguindo vencer com uma Alpha Tauri, a Racing Point se estabelecendo como terceira força apesar do Lance Stroll, a Renault tendo uma temporada consistente com pódios tanto do Daniel Ricciardo quanto do Esteban Ocon, a Ferrari mal das pernas e por aí vai. Tudo isso ajudou para que tivéssemos um campeonato muito legal e eu torço para que o de 2021 seja tão bom quanto!
Na sua opinião, por que algumas montadoras como a Porsche, a Lamborghini e a Subaru não conseguiram ter o mesmo sucesso e longevidade que a Ferrari e Merecedes por exemplo? Das montadoras que você citou, eu só não concordo com a Porsche, porque ela foi campeã fornecendo motores para a McLaren nos anos 1980. Você está baseando seu ponto de vista na malfadada parceria entre a Porsche e a equipe Footwork em 1991, que foi um caso isolado. Sem contar que ela teve uma época positiva como equipe nos anos 1960.
Se a parceria com a Footwork não deu certo, foi por uma questão de filosofia. Mesmo motivo a meu ver pelo qual a Subaru fracassou. Foi uma ideia muito mal aplicada, usando um conceito para motores que já era considerado anacrônico nos anos 1980. Já a Lamborghini tinha o Mauro Forghieri, que era engenheiro da Ferrari, tiveram a ideia de fazer um motor de 12 cilindros, mas não foi considerada exatamente uma equipe deles porque os italianos nunca injetaram dinheiro e nem se envolveram diretamente com o projeto, o que fez com que sua participação na F-1, com o nome Modena, tenha sido um desastre.
O motor tinha potencial, só não estava na equipe certa e no momento certo. Tanto isso é verdade que quando o Ayrton Senna testou, andou muito bem. Ron Dennis tentou uma negociação, mas acabou não vingando. Tudo questão de filosofia, todos os casos que você citou não deram certo devido à concepção errada.
Para finalizar, quais as histórias do livro que você gosta mais? Imagino que a do (piloto inglês) Perry McCarthy, que perdeu a pesagem e foi desclassificado da corrida porque ficou jogando Super Nintendo, deva estar no seu Top 3 pessoal, não é? Com certeza essa do Perry McCarthy pra mim é a melhor (risos)! Se distrair com um jogo de videogame e perder a pesagem obrigatória do piloto é algo que beira o surreal! Ele trabalhar com guia de turismo para custear suas despesas é inacreditável também (NOTA: Sim, é isso mesmo que você entendeu, Perry McCarthy NÃO recebia salário para correr pela Andrea Moda! Para poder viajar e custear suas despesas, ele conseguiu um acordo com uma empresa de turismo, que pagava sua passagem aérea e sua hospedagem. Em troca, Perry guiava os turistas pelo paddock)!
O Bruno Giacomelli ter conseguido andar 11 voltas com a Life até o carro quebrar (considerado por muitos o pior carro da história da F-1) e ele melhorar 27 segundos do primeiro tempo que ele virou, que foi 1m41, um tempo altíssimo para aquele circuito, também foi algo muito pitoresco, mas a melhor pra mim é a que envolve o piloto colombiano Ricardo Londoño, que foi impedido de correr em 1981 porque ele era financiado pelo Cartel de Medellin. Ele era obscuro, com um currículo muito ruim e, para piorar, nesse ano foi quando passaram a exigir a superlicença aos pilotos. Talvez já prevendo que poderia dar merda, a Ensign (equipe que contratou Londoño) inscreveu o suíço Marc Surer como piloto reserva.
No treino para o GP do Brasil, Londoño se envolveu numa querela com Keke Rosberg, sua superlicença por causa disso não foi concedida e tiveram que buscar Marc Surer no hotel em São Conrado onde ele estava hospedado numa Kombi. Mesmo com um dia a menos de treino, Surer fez um corridão, chegando em quarto lugar. Acho essa história espetácular, pois já mostra como a fórmula 1 era dependente de dinheiro e você vê que mesmo um piloto sem talento algum como o Londoño pôde chegar lá com uma grande forte por trás. Pena que Londoño acabou sendo assassinado depois num acerto de contas com o tráfico de drogas.
Cultura Pop
Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.
Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.
Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.
O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.
Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.
Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.
Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.
Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.
A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.
Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.
E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.
Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.
Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.
Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.
Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.
Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.
Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.
Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.
O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.
O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!
Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.
Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).
Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.
A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.
Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.
Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.
Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.
Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.
Cultura Pop
“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

Quem assistiu ao clipe de Adjourn it, single novo de Tom Morello (que tem participações de seu filho Roman Morello, na guitarra, e do cantor do System Of A Down, Serj Tankian, nos vocais) reparou que há várias cenas em preto e branco, com greves, manifestações e gente sendo presa. Dirigido por Isabella Margolis, o clipe intercala cenas do trio em estúdio, com trechos do filme Salt of the Earth, lançado em 1954, e que conta a história real de mineiros mexicano-americanos que lutaram contra a opressão e o racismo.
Salt of the Earth tem muita história: para começar, ele foi dirigido por Herbert Biberman (1900-1971), um cineasta que fazia parte da lista dos “dez de Hollywood” – um grupo de dez roteiristas e cineastas de esquerda, que estava sendo vítima de uma caça às bruxas. Ou melhor, de uma caça a supostos comunistas, realizada no começo da guerra ideológica entre Estados Unidos e União Soviética.
Biberman chegou a ficar encarcerado durante seis meses, e ao sair da prisão, decidiu dirigir um filme ficcional sobre a greve dos mineiros do Condado de Grant, no Novo México. O tal filme acabou ganhando roteiro de Michael Wilson e produção de Paul Jarrico – e ele é justamente Salt of the Earth, uma produção que já inovava por ser totalmente independente, off-Hollywood.
O filme acabou sendo uma das principais aparições na telona da atriz mexicana Rosaura Revueltas – por sinal, durante as filmagens, ela foi presa por uma suposta violação de passaporte e acabou sendo proibida de trabalhar nos Estados Unidos, um baque nunca superado em sua carreira. Ela interpreta Esperanza Quintero, a esposa de um mineiro, que faz parte de um grupo de manifestantes mexicano-americanos – a queixa deles era que a Delaware Zinc, Inc, para a qual trabalhavam, não dava a eles a mesmas condições que dava aos mineiros anglo-saxões.
Pra acompanhar a história é melhor ver o filme (tá no YouTube), mas vale dizer que Esperanza fica grávida, seu marido acaba preso e ela se junta a um grupo de esposas de mineiros, que faz piquete no lugar dos maridos. Um detalhe importante sobre Salt of the Earth é que só cinco atores profissionais estavam no elenco: Biberman e a produção convocaram mineiros de verdade, além de moradores do Condado. Nas cenas que você vê no filme, muita gente viveu aquilo de verdade.
Se você está achando que isso foi uma ideia para dar mais veracidade ao filme, não foi nada disso: os sindicatos de atores e de profissionais de Hollywood simplesmente proibiram seus associados de ter qualquer relação com Salt of the Earth, e a equipe ficou sem ter com quem contar. Houve quem notasse que aquela situação era absurda, já que eram sindicatos prejudicando um filme que fazia basicamente uma apologia ao movimento sindical. Mas isso não ajudou em nada, até porque veículos como Hollywood Reporter e Newsweek já estavam falando barbaridades como “filme de comunistas anti-americanos” e outras babaquices.
Claro que a pós-produção e o lançamento de Salt of the Earth não foram nada tranquilos: a equipe teve dificuldade de achar laboratórios que terminassem o filme e ele foi censurado e incluído na lista anti-comunismo dos EUA (foi o único filme incluído lá, aliás). Pauline Kael, uma dessas críticas de cinema que tiravam o sono dos cineastas, desprezou o filme e ainda escreveu que ele não passava de “uma peça de propaganda comunista tão clara quanto qualquer outra que tivemos em muitos anos”. Com o tempo, o filme foi sendo descoberto, e ganhou lançamentos em formatos como laserdisc e DVD. Uma matéria recente do The Guardian traz uma declaração de Biberman dizendo que ele foi “o primeiro longa-metragem já realizado nos EUA pelos trabalhadores, sobre os trabalhadores e para os trabalhadores”.
“Salt of the Earth foi um poderoso ato de desafio em sua época e, mais de meio século depois, seus temas continuam a ressoar no cenário político atual. Adjourn it canaliza o legado de resistência do filme, reforçando a importância da solidariedade para unir as pessoas contra o medo e a divisão”, escreveu Tom Morello num dos textos de divulgação do clipe. E os dois (clipe e filme) estão aí embaixo.
Cultura Pop
Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”

O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).
“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.
Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.
Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.
“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.
“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.
E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.


































