Nos anos 1920, lá nos Estados Unidos, existiu uma briga entre criacionismo e evolucionismo que chegou aos tribunais. Isso graças à Lei Butler, que funcionava no estado do Tennessee, e estabeleceu a ilegalidade do ensino de qualquer teoria que negasse a história da criação divina do homem, como estava escrito na Bíblia. Um professor chamado John Scopes teimou em ensinar as teorias de Charles Darwin a seus alunos e acabou julgado, no dia 5 de maio de 1925.

O caso acabou ganhando o nome de “julgamento do macaco”, ou “julgamento de Scopes” e ficou bastante conhecido no meio do Direito. Não que os debates bizarros entre teoria da evolução e teorias religiosas tenham deixado de existir: fazem parte do dia a dia de vários professores no Brasil, por exemplo, no contato com os alunos em sala de aula.

O fato de um tema como esse (infelizmente) permanecer ainda bastante atual, motivou a criação de um projeto da Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro (EMERJ), que envolve novela de rádio e podcast: O direito de pensar – uma viagem radiofônica ao julgamento do macaco. O último capítulo da série já está disponível desde quinta (10).

MAGISTRADOS ATORES?

O nome O direito de pensar, claro, é uma brincadeira com O direito de nascer, radionovela clássica do escritor cubano Félix Caignet, que depois ganhou três adaptações para a televisão.

“O nome vem daí e também da própria história que trata sobre a liberdade de expressão, que nada mais é que o direito de pensar. Digo que o nosso audiodrama é uma novela de rádio com roupagem da nossa época, o podcast”, diz Silvia Monte, que idealizou, escreveu, dirigiu e produziu o podcast, e misturou atores, magistrados e advogados para interpretar personagens como John Scopes, Glenda Easterbrook (repórter da rádio WGN Atlanta)  e o prefeito Gary Randolph. Além do único personagem fictício da história, Martin Jackson, membro da Associação Nacional pelo Progresso das Pessoas de Cor (entre, interpretado pelo ator e ativista negro Daniel Ferrão).

“Os magistrados e advogados que participam do elenco foram tratados profissionalmente pela direção, com a orientação e a cobrança que normalmente se faz a um elenco de atores profissionais, mas tendo a consciência que, por não serem profissionais, seu resultado é diferenciado”, conta Silvia, que não pensou em transformar magistrados e advogados em atores.

“O objetivo é contar essa história com eles, por envolver justiça, direito, lei, e um julgamento histórico. Todos os magistrados que estão no audiodrama já trabalharam em outros projetos teatrais com a minha direção, então a linguagem do drama não era algo novo para eles. O novo para todos – amadores e profissionais – foi conceber um audiodrama num formato de podcast de forma remota”, conta Silvia, que comandou todas as gravações à distância, por causa da pandemia, inclusive as participações de músicos como Didier Fernan (baixo), Paulinho Criança (bateria) e o Coral do CT/UFRJ (que interpreta o Coral Cristão de Dayton na história).

NOVO NORMAL DE 1925

Em tempos de terraplanismo, falar de embates entre criacionismo e Darwin ainda é (como fizemos questão de falar acima) bastante atual. “E isso é justamente o que nos obriga a retomar o tema. Infelizmente, um século se passou e parte da humanidade segue em atitude de negação da Ciência. Vemos isso no terraplanismo, no movimento antivacina, na Teoria do Design Inteligente e outras tendência forjadas pela ignorância, pela má fé ou por ambas as coisas. Quem atualiza o tema de O direito de pensar não é quem luta pela razão, mas quem a ataca”, conta.

O direito de pensar inclui também o tema do racismo na história do julgamento de Scopes, na figura do personagem Martin Jackson – cujo nome é uma homenagem a dois líderes ativistas pelos direitos civis dos negros nos EUA, Martin Luther King e Jesse Jackson.

“É emocionante ouvir Daniel Ferrão, ator preto, ativista da periferia do Rio de Janeiro, dar voz a este personagem”, conta Silvia. “Infelizmente, os textos são de uma atualidade absurda. Quando estávamos escrevendo o áudiodrama, aconteceu o assassinato brutal de George Floyd, que causou indignação, protestos no mundo inteiro e atos de solidariedade ao movimento Black lives matter. É assustadora a forma criminosa e violenta que o próprio estado trata a população negra brasileira”.