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Cultura Pop

Novo livro analisa o personagem Renato Russo

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Ainda há muito (e sempre haverá) o que escrever sobre Renato Russo. Ainda mais em 2021, nos 25 anos de sua morte, quando constata-se que letras como Que país é este, Será e Geração Coca-Cola não perderam a atualidade. Julliany Mucury, mestre e doutora em Literatura Brasileira pela Universidade de Brasília (UnB), hoje morando em Berlim, foi fundo não apenas na análise da produção do líder da Legião Urbana, como também na observação de que o artista Renato Russo era uma entidade que foi criada por Renato Manfredini Jr, seu nome verdadeiro. Daí surgiu o livro Renato, o Russo, que sai em breve pela editora Garota FM Books (da escritora e biógrafa Chris Fuscaldo). E está em campanha de financiamento coletivo pela plataforma Catarse.

Renato, o Russo leva novas descobertas aos fãs da Legião Urbana. A principal: “Renato Russo” não era apenas um nome artístico, como Ringo Starr (Richard Starkey Jr), Fernanda Montenegro (Arlette Pinheiro Monteiro Torres) ou Tony Bennett (Anthony Benedetto). Era um personagem, com personalidade, modo de se vestir, de pensar e estilo de vida próprios. E que encobria e encorajava o tímido Renato Manfredini Jr. Mais uma descoberta: Renato, assim como David Bowie, fez do fim da vida uma obra de arte. O britânico fez isso no desnorteante Blackstar, o brasileiro o fez no desesperadamente triste A tempestade, último disco da Legião lançado com ele em vida. Mas o livro parte de uma pergunta: afinal, Renato Russo era um letrista ou um poeta?

Mesmo que o próprio Renato tenha falado em alto e bom som num show no Jockey Club, na Gávea (Rio) em 1990 que era letrista, e não poeta, o questionamento é muito válido: Renato era leitor compulsivo, era autor de versos bastante originais e compunha letras de uma erudição difícil de ser achada em música popular. Julliany estudou todo o material de Renato e fez leitura crítica de 29 letras escritas por ele. E prefere se referir a Renato como um cancionista, termo do músico e linguista Luiz Tatit que indica uma espécie de malabarista, que se equilibra entre letra e melodia.

Batemos um papo com Julliany e ela revelou o que foi possível revelar (não vamos estragar as surpresas!) sobre Renato, o Russo.

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Afinal, como surgiu essa discussão sobre se Renato Russo era poeta ou letrista? Foi numa mesa do CCBB de Brasília, como diz o livro, mas como se deu isso?

Bom, em primeiro lugar, a gente tem um problema técnico com esse nome “poeta”. Eu estudo literatura brasileira, daí você pega e vai trabalhar canção dentro da literatura brasileira.  Já quebra um certo padrão aí, né? E para a academia considerar a gente nomear um cancionista de poeta… É como se a gente estivesse invadindo fronteiras, sabe? Aquela coisa do espaço do sagrado. E eu achei uma provocação interessante nessa mesa, onde estava o Vladimir Carvalho, o Nicolas Behr – que é um poeta de Brasília – e a minha orientadora,  Sylvia Helena Cyntrão.

Nós captamos essa pergunta como uma provocação e aquilo me incomodou bastante. Legião Urbana divide as pessoas, tem quem ame e tem quem odeie. Muita gente nem considera uma banda, fala: ‘Pô, os caras não tocam nada!’.  E eu pensava: ‘Mas ninguém olha a letra? Mais de cem letras escritas com participação do Renato, mais de 29 letras escritas exclusivamente por ele. Vamos ver a densidade disso?’ Essa pergunta, eu quero responder de um jeito sério, quero analisar tudo, não vou dizer por dizer.

Muitas pessoas já afirmavam que ele é poeta, Arthur Dapieve, Carlos Marcelo. Não queria me fiar pelo que os biógrafos diziam, queria eu ter minhas certezas. Foi isso que minha tese me deu. O livro sai com 200 páginas, mas mais de 160 páginas da tese original foram limadas. Aproveitamos para o livro a parte em que eu realmente falo da pergunta. O Carlos Eduardo Lima (editor do site Célula Pop, historiador e jornalista) mexeu no livro comigo e ajudou a tirar o texto da rigidez acadêmica, tornou o texto algo maleável e gostoso de ler. Reconstituímos o cenário de Brasília na época, para quem não conhecia. O eixo Rio-São Paulo era muito diferente, os punks de São Paulo eram até muito mais punks que os de Brasília.

Eu terminei o texto muito convicta de que há sim qualidade estética no que o Renato produziu. Ele era muito sério e comprometido com a produção dele. Então por que chamamos Renato de cancionista? Cancionista é um termo do Luiz Tatit. E o Renato é um cara que, desde a melodia, até a melodia inserida na palavra, é uma letra de canção que você lê isoladamente e ela conta uma história. Tem uma densidade própria ali. Tanto que virou roteiro de filme. Já foi adaptado duas vezes pelo René Sampaio, teve o Faroeste caboclo e agora o Eduardo & Mônica.

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Julliany Mucury

O Renato até via essa coisa do poeta com certa humildade. No show do Jockey Clube, no Rio, ele chega a dizer que “algumas pessoas dizem que eu sou poeta”. Mas por outro lado, em entrevistas, ele dizia que não se considerava um bom letrista, que seu forte era encaixar a letra na música…

Eu acho que isso faz parte dessa construção de personagem, do personagem Renato Russo. Quando a gente coloca o Renato numa construção de panorama, ele negar por si só que é letrista… E quando ele faz o show do Jockey em homenagem ao Cazuza ele diferencia: “Ele é poeta, eu sou letrista”. Nas entrevistas, quando ele era provocado a respeito das letras, ele dizia: “Eu sou só letrista. Poesia eu escrevo mas tá guardada lá em casa”. Na exposição do Museu da Imagem e do Som, a gente viu que até soneto ele escreveu. O Renato tem muita coisa escrita e é um acervo que a gente ainda não teve acesso.

Quem gosta de Legião tem que começar com a biografia escrita pelo Carlos Marcelo, porque ele conta quem foi Renato Manfredini Junior. Quem foi o Junior, da Dona Carmen, aquele menino genial, que ficou paralisado na cama e escreveu o livro The 42nd street band, que depois foi publicado. As pessoas têm que ler em seguida para entender que o Renato traça uma banda imaginária, e que essa banda tem um vocalista chamado Eric Russell. O Eric Russell é o Renato Russo (enfatiza o “é”).

Fernando Pessoa que fazia isso, construía heterônomos, criava poetas reais que escreviam poemas. Renato Russo é quase um heterônomo do Renato Manfredini Jr. O Dapieve fala que o Renato inicialmente falava que era quatro anos mais velho, para parecer mais maduro e ser respeitado. Eles eram muito novinhos, o Renato compõe Faroeste caboclo com 19 anos. Imagina, o que a gente estava fazendo aos 19 anos? Ele dizia que estava compondo a Hurricane dele (canção do Bob Dylan). E ele senta e escreve uma letra daquelas, com aquela intensidade do João de Santo Cristo.

Tem muita coisa ali, não é só a história de um anti-herói que termina assassinado em praça pública. Ele conta toda a dor de uma nação envolvida ali. Isso depois ele estende para Perfeição, para Fábrica, para Que país é este. Ele sabia muito bem o que estava fazendo e tinha muito apuro quando escrevia. Mas não queria assumir, queria brincar com a fronteira das coisas. “Eu gosto de meninos e meninas”, “eu não sou poeta”. E onde é que está o Renato real nessa história toda?

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As pessoas parece que têm uma certa raiva da Legião, por serem uma banda que tem um esquema musical bem simples… E hoje há até uma certa pressa em decretar o fim do rock, que o rock acabou, etc. 

A raiva é justamente porque não conseguem ofuscar. E aí você tem que detonar. Agora imagina: uma banda de adolescentes em que eles convidam o Dado, que não sabia nem tocar. Eles eram punk rock, mas era punk rock de butique. Eles tinham acesso aos discos que vinham da Inglaterra, as bandas que os influenciaram, The Smiths. Essa galera que eles eram influenciados diretamente, o que eles não negam. O Legião Urbana V era o Pornography do The Cure, na cabeça do Renato. Era uma reimpressão de muita coisa que vinha de fora, mas isso era intencional. A Legião se lançou como uma anti-banda de rock. Negaram o lugar do palco, o Renato quase não fez show. Para o que o público desejava e a gravadora pretendia… O Renato não era um galã como Paulo Ricardo mas o grupo tinha vendagens de 500 mil cópias, um milhão de cópias.

E há o preconceito com o rock´n roll, porque as batidas dos três primeiros álbuns eram pesadas. Era lixão mesmo, era ruído, metal estridente, era para incomodar. Não era um som para você ligar e deixar de música de fundo na sua casa, no elevador. Eles eram uma banda que pretendia fazer isso. Mas não eram como os outros. O Clemente (Inocentes) comenta que quando a Legião vai para São Paulo, fala: “Cara, a gente não é punk, a gente não está nesse nível da galera”. Era coisa de gangue, era pesado.

Mas com essas altas vendagens, os poucos shows… O que você acha que atraía tanta gente para as letras do Renato?

A genialidade dele. Muitas letras são creditadas ele, Dado e Bonfá, mas ele trabalhava a letra, ia para o estúdio, eles trocavam coisas. Existia uma troca muito boa, eles trabalhavam bem juntos em estúdio. Só que o Renato não gostava de plateia. Enquanto Dado e Bonfá estavam nas piscinas dos hotéis, jogando futebol com a galera, o Renato estava ficando verde dentro do quarto. Renato teve um sério problema com drogas, era muito introvertido, introvertido mesmo. A questão da homossexualidade era algo muito difícil para ele. O Carlos Trilha (produtor) contou numa entrevista do canal Alta Fidelidade que o Renato cantava as pessoas, era muito tímido mas tinha necessidade de entrar em contato. Ele até falava que ser homossexual no Brasil dos anos 1980, com a aids e com todo o cenário que a gente tinha, era complexo, por causa do preconceito e da pouca informação. Se temos hoje ainda, imagina há quarenta anos.

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O Renato não gostava de shows, ele gostava muito de conversar com a plateia. E às vezes ele se excedia e o público tacava coisas no palco. Quantas vezes o Renato não deitou no chão, e fez o show com luzes apagadas? Ou cantou três, quatro cinco músicas e abandonou o palco? Até o momento em que ele falou: não quero mais, não vai rolar. De 1990 para a frente, os shows vão se escasseando e ficam para lugares como o Metropolitan, o Jockey Clube. Eram lugares que tinham uma estrutura maior, até o último show, que acontece em Santos (SP). Ele já estava debilitado fisicamente, vocalmente, já estava sob tratamento e pouquíssimas pessoas sabiam. Quem suspeitava de algo não falava nada. Ele não tinha mais condições, mas queria produzir.

É até essa tristeza que eu falo no livro. A mente e o espírito dele iam aonde o corpo não estava conseguindo mais. O disco A tempestade não é doloroso só por causa do conteúdo, do que ele está escrevendo, do que ele canta, mas é doloroso por causa de como ele canta. Para a gente, que conhece a potência vocal do Renato… Você percebe claramente que tem alguma coisa ali.

O Renato compunha para quem? Existia um tipo de fã de Legião, ou do trabalho dele, que surgia na mente dele na hora de compor?

Ele compunha a partir dele mesmo.  Mas ele tinha uma visão muito cosmopolita. A minha experiência com Renato Russo, no meu lugar de feminino hetero, fez sentido para mim. O que o Renato acessa é esse lugar nosso, do sujeito humano. As dores são nossas.  Os sofrimentos são nossos. Em discos como V e Descobrimento do Brasil, em que ele já está migrando para uma análise da existência, ele fala muito da dor de existir, dos relacionamentos amorosos. Ele fala disso com muita delicadeza, não é uma música de dor de cotovelo rasgada e caipira. Mas é uma música que fala sobre como seguir adiante, sobre como se levantar, sempre esperançoso, sempre olhando para a frente, como no verso “mas é claro que o sol vai brilhar amanhã”.

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Ele tem essas repetições, usa textos bíblicos, Camões, sabia trabalhar o inconsciente coletivo. Era um cara muito antenado, não só no tempo dele, porque quando ele escreve Que país é este é uma canção imortal. Quando a gente escuta Perfeição, aquela ironia, aquele sarcasmo, a gente sabe que aquilo é nosso. Ele acessa esse lugar de antena da raça. Ele, Cazuza, Freddie Mercury, Raul Seixas… Um grupo de artistas que estava à frente daquilo. Fico imaginando eles coexistindo com as pessoas da geração deles, eles à frente de todo mundo. O que será que se passava dentro dessas mentes? Qual o sentimento de mundo que eles tinham? A Nina Simone fala no documentário dela, o What happened, Mrs. Simone: “Um artista tem que falar do seu tempo”. A genialidade do Renato mora na percepção que ele teve ao compor as letras.

Eu nunca tinha percebido que o Renato Russo fez da morte dele uma obra de arte, meio como David Bowie fez em Blackstar. Como foi para você perceber isso?

Eu chamo isso no livro de arquitetônica da despedida. Ele sabia. Ele já não conseguia ir para o estúdio. O Dado produziu o Tempestade sozinho, o Trilha entrou para salvar a pátria, porque o Renato fazia um take e acabou.  Mas o que tinha dentro desse sujeito, a percepção, o entendimento da finitude… Eu acho ainda mais grandioso. O Tempestade anuncia uma ruptura, ele é lançado e logo depois o Renato morre. Depois vem o Uma outra estação, que é um disco que as pessoas acham até melhor, mas que é um mix de um monte de coisas que o Renato rejeitou.

O Uma outra estação, apesar de ter Clarisse, que é bem depressiva, é um disco bem mais alegre, por sinal.

Por aí você vê que ele sabia o que ele estava fazendo, porque o que ele vetou não entrou no A tempestade. Ele queria uma carta de despedida. Ele queria um conjunto de letras que dissessem aquela mensagem. Ele pensou em tudo. E outra: ele terminar a vida recluso, fechado no apartamento, com o pai. Uma das raras cenas que descrevem o estado físico do Renato nessa época está na biografia do Dado Villa-Lobos (Apenas um legionário, escrita ao lado de Felipe Demier e Romulo Mattos), quando o Dado conta a chegada dele no apartamento do Renato. Ele fala: “Meu deus, o Renato era um fiapo!”. A gente não viu isso, o Renato foi cremado, está no jardim do sítio do Burle Marx e acabou. Eu acho bem interessante isso de você pensar numa despedida, num legado.

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No programa do Serginho Groisman ele até falou: “Gente, eu não sou um messias”, “eu não quero educar vocês!”. Mas ele parava o show para pregar para os jovens. Ele sabia que ele tinha um apelo muito grande para a juventude. Imagina, uma juventude saindo da ditadura militar, carente de referências positivas e heroicas… Se você for pegar todas as bandas, quem que fazia pregações nos shows? Renato Russo.

Lá fora, nas páginas da Wikipedia dedicadas a artistas, costumeiramente há um item inteiro só para falar dos legados deles, do que eles deixam para a arte, para nomes novos. É algo que não se faz muito aqui no Brasil, nas páginas de artistas nacionais. Como você vê o legado do Renato? O que ele deixou para novos artistas?

(nota: a página de Renato na Wikipedia não tem este item)

Eu gosto muito de uma fala do Dinho, do Capital Inicial, quando perguntam para ele, numa das homenagens dos 20 anos da morte do Renato, sobre o que foi o legado do Renato. E ele fala: “Cara, todo mundo olhava pro Renato”. Todo mundo daquela geração olhava para o Renato, ele era diferente de tudo que estava acontecendo. Não era igual a Paralamas do Sucesso, não era igual a Capital Inicial, nem a Biquíni Cavadão.

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Nem quando começam a surgir as outras bandas, como Racionais MCs, Raimundos… O Renato permanecia naquele lugar de dândi, carregava um certo mistério. Quando ele ia se apresentar e começava aquela dancinha Morrissey, completamente maluca e catártica. Era aquilo, ele era muito errático porque  não tinha compromisso com posar em nada. As falas dele saíam do jeito que saíam e era puro Renato Russo. Quando ele estava à vontade afinava a voz, quando queria vestir o personagem era outra entonação. E aí você vai percebendo essas nuances do Renato.

O grande legado dele foi a consciência artística, eu acho. Ele teve isso acima de muitos outros. Também a noção de mercado que o Renato tinha, que era enorme. Os álbuns da Legião continuaram sendo produzidos com uma demanda de fábrica. Os três primeiros eram com material que eles já tinham. A partir do quarto eles precisavam produzir coisas. Ele tá passando no estúdio, o pessoal do 14 Bis tá fazendo uma música, ele gosta da melodia e põe uma letra. Ele faz a mesma coisa com a Marisa Monte, em Soul parsifal, que vira Celeste. É a experiência de viver seu tempo, contar seu tempo do jeito que ele contou. E depois conduzir sua carreira até o fim do jeito que você quer fazer. Isso para mim é o maior legado do Renato. E ele conseguiu. Ele se negava a fazer coisas. E o estúdio negava coisas a ele, ele queria álbuns duplos para o Dois e o A tempestade e não conseguiu.

Como você foi reunindo as letras que analisa no livro?

Peguei todas que estão nos encartes e mais algumas que são inéditas. E algumas que não foram musicadas. Falo dela na análise mas não analiso junto com as 29 que analisei. Fui descobrindo que o Paraná (Kadu Lambach, guitarrista da Legião durante curto período antes da fama do grupo) tinha duas letras e musicou as duas, e que uma banda, Urban Legion, estava musicando outras duas letras do Renato. Do quarto disco em diante as letras começam a ser todas divididas entre Dado, Bonfá e Renato. Até que ponto isso foi estendido para todos terem direitos autorais?

As letras eram divididas também?

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Eles trabalhavam juntos, o Renato declarou isso muitas vezes. Por mais que ele escrevesse as letras, sugeria-se alguma coisa aqui e outra ali. Chegar nas 29 foi muito tranquilo, foi só pegar o encarte. Não deixei nada de fora. Peguei o Música para acampamentos porque tem o Canção do senhor da guerra. E aí começam as surpresinhas. Se o Uma outra estação não tivesse sido feito pelo Trilha, não teríamos acesso a Dado viciado, Marcianos invadem a Terra, a Marianne – que tem Marianne 2. As canções feitas sozinho pelo Renato perfazem uma história: Geração Coca-Cola, Faroeste caboclo, Fábrica, Índios, Que país é este. Se você pensa nos maiores hits da Legião, tava tudo nele. O segredo do negócio estava nele. Dado e Bonfá não negam isso. Tanto que eles falam que a banda acabou depois disso.

Eu lembro que quando Renato morreu, uma rádio bem popular aqui do Rio levou ao ar um especial da Legião com as músicas do A tempestade, intercaladas com mensagens dos ouvintes que eram fãs da banda. Alguns estavam chorando e pedindo para o Dado e o Bonfá não acabarem com a banda, para continuar mesmo sem o Renato. Isso apareceu no rádio! Aí acaba entrando naquela seara em que as pessoas querem escutar aquele repertório, de que ele faz muita falta…

Vou além: lembro que aquele especial da MTV com Wagner Moura foi doloroso de assistir. O Wagner estava lá como cantor amador, topou fazer aquilo, mas a plateia cantou do começo ao fim. E no fim, Será, é cantada pela plateia, com Wagner deitado no chão chorando. Acontecem coisas incríveis, existe um legado incrível nas pessoas que gostam de Legião Urbana, que é como se não precisasse do Renato. Quando Dado e Bonfá se reúnem, existe uma coisa que é tão poderosa, é uma presença-ausência tão presente ainda para eles, que eles fazem com que faça sentido.

Então tá lá, teve o André Frateschi conduzindo com eles, teve a turnê dos 30 anos… Foi um processo complicado para o Dado e o Bonfá realizarem aquilo também. E o Dado fala: a gente gostaria de estar tocando. Quem não gostaria? São as músicas que eles fizeram!

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O Nasi, do Ira!, uma vez falou numa entrevista que banda não é como álbum de família, com aquelas pessoas insubstituíveis…

E a ideia original do Renato era que o nome fosse Legião Urbana porque os músicos seriam rotativos. E aí entra nessa discussão que estamos levando agora. Um outro problema é que o Brasil não tem memória, tá aí o que vem acontedcendo com nossos prédios, nossos centros históricos… Por que se escreve ainda sobre Renato? É importante, é a história de um cara que ainda ecoa.

Qual a maior surpresa que seu livro traz para o fã de Legião?

Ah, nem sei se devo revelar (rindo), mas o maior gatilho é a descoberta dessa personagente, de como o Renato Russo se distancia do Renato Manfredini. Eu faço essa dicotomia, entre Renato e Russo. Mas e você, qual surpresa viu no livro? (me perguntando)

Bom, acho que essa semelhança entre a morte dele e a do David Bowie, e o fato de “Renato Russo” não ser apenas um nome artístico, ser um personagem mesmo.

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É verdade. Mas se você for ver, de acordo com a (professora) Eliana Yunes, todos nós somos isso. Existe as pessoas que somos e as que criamos. Se entra um novo indivíduo numa conversa, não é mais a gente que está ali.  A gente é a partir da interação com aquele indivíduo, conforme o estatuto social que temos nessa relação. Se é seu marido, sua mulher, seu marido, seu filho, e você institui personas, as máscaras que usamos. Quantas versões suas ou minhas? É infinito.

Agora quanto mais você adentra a história do Renato, mais percebe um sujeito extremamente carente. O barato dele era ligar para as pessoas de madrugada, ele era noturno. E aí vários amigos declararam isso ao longo do tempo, ele passava três quatro, horas conversando com as pessoas. Então você imagina o que era receber uma ligação dele para trocar ideias. Várias ideias nasceram dali.  Nasceram coisas com o Trilha, o disco em inglês, em italiano. Renato deixou uma ópera, uma peça de teatro. Ele queria fazer roteiro de filme, tinha várias ambições para a própria vida. Ele não queria ser só um rockstar, queria mais.

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Pera, que história é essa do ecstasy ter feito 110 anos?

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Pera, que história é essa do ecstasy ter feito 110 anos?

A data tá passando batida até o momento e, como tudo que diz respeito ao assunto “drogas”, nada é tão exato assim, mas até mesmo os anais da ciência dão conta de que o MDMA – composto químico que, entre idas e vindas, é conhecido como ecstasy – completou 110 anos neste ano. Ao que consta, os  arquivos da Merck dão conta de que o composto 3,4- Metilenodioximetanfetamina foi sintetizado pela primeira vez nos laboratórios da empresa em 1912.

Segundo o texto The origin of MDMA (ecstasy) revisited: the true story reconstructed from the original documents, de três cientistas alemães, dois documentos encontrados nos arquivos da Merck dão conta disso – um deles é o Relatório Anual de 1912, do laboratório científico da Merck. Apesar de ter surgido a ideia de usá-lo de maneira medicinal como inibidor de apetite, não havia nenhuma indicação nesses documentos de que isso poderia acontecer. Quem sintetizou a substância foi um químico chamado Anton Köllisch, mas a patente do MDMA só veio mesmo em 2014.

“Na especificação da patente, o MDMA apareceu apenas como fórmula química e no relatório anual foi referido como Metilsafrilamina. O pano de fundo preciso para a primeira síntese de MDMA foi que a Merck queria encontrar e patentear caminhos que levassem a substâncias hemostáticas (para acabar com hemorragias), não a supressores de apetite”, diz o texto.

Uma curiosidade sobre o MDMA, e tem um texto enorme do site Ciência Psicodélica explicando isso, é que até os anos 1970 não haviam sido feitas experiências em humanos com a substância. Nos anos 1950, a Universidade de Michigan realizou experimentos com MDMA em parceria com o Exército dos Estados Unidos, mas tudo foi realizado em cinco espécies diferentes de animais. Entre 1975 e 1976, um químico norte-americano chamado Alexander Shulgin (1925 – 2014) fez sessões de experiências com MDMA em pessoas próximas e publicou artigos a respeito. Shulgin, considerado o “padrinho do ecstasy”, deu uma entrevista para a Wired em 2002 lembrando a época em que deu uma dimensão científica ao estudo sobre a substância, e reclamando do uso que considerava inapropriado (por frequentadores de raves, festas, etc) de uma de suas maiores ferramentas de pesquisa.

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Em 1976, foi a vez de Leo Zeff (1912-1988), terapeuta junguiano de Oakland, Califórnia, introduzir a substância no contexto da psicoterapia. Zeff, que tinha sido tenente-coronel do Exército dos EUA, já havia feito tentativas com o LSD no trabalho terapêutico, administrando uma dose aos seus pacientes,  que ficavam ouvindo música de olhos vendados. Zeff foi apresentado ao MDMA pelo próprio Shulgin e tentou usá-lo para fortalecer o vínculo terapêutico – chegou a apelidar a droga de “Adão”, já que acreditava que ela levava o ser humano à inocência dos primórdios. Já o 3,4-metilenodioxietilanfetamina (MDEA) era chamado de “Eva”.

Milhares de textos espalhados pela web, uns bons, outros ruins, mostram que o MDMA, até ser popularizado na forma de comprimido e ganhar o apelido de ecstasy, tem muita história. Os causos da época em que ele começou a se popularizar entre os frequentadores da noite em Manchester, Londres e outros cantos da Inglaterra, ocupam páginas e mais páginas. Surgiu como uma espécie de “verão do amor” interminável (já que dura até hoje), e até hoje, precisa de muito estudo e informação (e redução de danos).

Uma curiosidade sobre esse começo da onda de ecstasy é que o New Order havia feito uma canção chamada Ecstasy, no disco Power, corruption and lies, de 1983. Não apenas a música não tinha nada a ver com o assunto “drogas”, como o New Order nem sabia o que era ecstasy. Nessa época, o grupo foi fazer um show em Dallas e foi relaxar num clube, quando soube pelos promotores do show que uma turma da série de TV Dallas também estava indo com a turma para descolar ecstasy na casa noturna. “Ecstasy? O que é isso?”, perguntou o quarteto.

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Bermard Sumner, cantor do New Order, arriscou certa vez uma explicação sobre porque é que o ecstasy e a acid house (subgênero supostamente “psicodélico” da house music) eram tão interligados. “Os sons abafados de baixo, que eram a marca registrada do estilo, soavam fantásticos com uma dose de E, acho”, recordou. Faz todo sentido. No Brasil, o termo “acid house” ficou popularizado

Em 1988, já com a cena da Inglaterra tomada por casas que tocavam house music, os novos tempos e o ecstasy foram responsáveis por mudanças básicas em pelo menos uma banda: o Primal Scream, um grupo de jangle-pop meio sem rumo, que iniciaria a caminhada que daria em seu terceiro álbum, Screamadelica (1991). Loaded, o primeiro single ligado ao disco, saiu em 1990 e foi chamado pela revista Muzik de “Sympathy for the devil da geração ecstasy”. Seja como for, de lá para cá, e mais ainda de 1912 para cá, o crescimento do ecstasy deu em novas percepções sobre a cultura de drogas, novas visões sobre o dia a dia do usuário recreativo, novas nomenclaturas e variações (como o MD, conhecido como “a droga do amor”) e… como sempre acontece nesse casos, muita necessidade de informação.

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E saiu 1979, o livro!

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E saiu 1979, o livro

O ano de 1979 veio como uma virada na música popular brasileira, trazendo pelo menos um grande festival de música (o da TV Tupi, por sinal um ano antes dela sair do ar), algumas estreias em disco (a de Marina Lima com Simples como fogo,  e o disco epônimo do Boca Livre, por exemplo), a eclosão de um grande movimento (a vanguarda paulista) e vários nomes emplacando músicas no rádio – Fagner, Gal Costa, Rita Lee, Fabio Jr, Ivan Lins, muita gente.

Roberto Carlos já era rei havia bastante tempo e não tinha muita coisa ameaçando o reinado dele – músicas como Na paz do seu sorriso e Desabafo tocariam nas rádios e conquistariam os fãs como sempre. Chegando perto de ameaçar o cantor, só mesmo a onda de canto feminino que invadiria as rádios naquele momento. Maria Bethânia conseguiria vendagens excelentes com o romântico Mel, lançado naquele ano.

Foi um ano decisivo para a produção independente na música brasileira, com muitos discos saindo por intermédio de pequenos selos, ou de iniciativas de artistas. De modo geral ainda era simultaneamente cedo e tarde para falar em “rock brasileiro”. Isso por não havia mais aquela movimentação dos anos 1970, e muitas bandas que fariam sucesso após 1982 nem sequer existiam ainda. O que tinha era o 14 Bis lançando o primeiro disco, Rita Lee virando mania e Raul Seixas em baixa com Por quem os sinos dobram.

Músicos como Herbert Vianna, Renato Russo e Arnaldo Antunes ainda estavam nas garagens ou envolvidos em outros projetos pós-adolescentes. Quem tinha uma cópia importada estalando de nova de Unknown pleasures, do Joy Division, lançado naquele ano, estava umas vinte casas à frente no tabuleiro pop – fãs “moderninhos” de música internacional estavam escutando The Clash, The Police ou reggae.

Isso aí é só um resuminho bem humilde do que você vai encontrar no livro 1979 – O ano que ressignificou a MPB (Ed. Garota FM Books), organizado por Celio Albuquerque, que também já havia feito um livro parecido sobre o ano de 1973, O ano que reinventou a MPB. O livro de 1979 tem cem autores falando sobre cem discos lançados naquele ano, além de textos especiais contextualizando a música brasileira de 1979.

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Entre os colaboradores, tem Chris Fuscaldo, Silvio Essinger, Carlos Eduardo Lima, Bento Araújo, Roberto Muggiatti, Luiz Felipe Carneiro, Lorena Calabria, Daniella Zupo, Gilberto Porcidonio, Kamille Viola, Leandro Souto Maior. Músicos como Marlon Sette, Moacyr Luz e Rildo Hora também estão na lista de autores, falando sobre discos importantes das suas vidas. Na lista, entre outros, álbuns de Angela Ro Ro, Azymuth, Baby Consuelo, Milton Nascimento, Roberto Carlos, Maria Bethânia, Marku Ribas, Elomar, Jorge Ben, Gal Costa, Gretchen, Ronaldo Resedá, Sá & Guarabyra.

Aliás, eu também sou um dos colaboradores e estou no livro falando sobre o segundo disco de Fabio Jr, epônimo, lançado em 1979 – o disco que tem Pai, o maior sucesso da vida dele como autor, e uma música que demorou até fazer sucesso de verdade, e passou por um momentinho de descrédito (leia sobre isso no meu texto).

O livro já chegou na mão da turma que apoiou o crowdfunding e em breve, vai ganhar evento de lançamento e chegar pra todo mundo que estiver a fim de conhecer a música brasileira lançada naquele ano. Ficou um livro bem grande, bem variado (da MPB mais regional à pós-disco music) e bem honesto, como a música de 1979.

(Fotos: Aline Haluch)

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E os 35 anos de Document, do R.E.M.?

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E os 35 anos de Document, do R.E.M.?

Conheci Life’s rich pageant (1986), quarto disco do R.E.M., e Document (1987), o quinto disco, praticamente juntos. Daí até hoje, mesmo sendo discos conceitualmente separados por vários aspectos, só consigo vê-los como sendo interligados.

Life’s ainda é mais sujinho na produção, mas já intenso e variado musicalmente. Document, que completa 35 anos em 31 de agosto, já traz o grupo de Michael Stipe (voz), Peter Buck (guitarra), Mike Mills (baixo) e Bill Berry (bateria) focalizando cada vez mais o lado sessentista e ensolarado de sua música – um lado que sempre esteve lá, desde o começo, ainda que mais envolto em sombras nos primeiros álbuns.

Document marca também a entrada, no dia a dia do quarteto, de um engenheiro de som experiente, que começara a produzir havia poucos anos, e que a partir desse disco produziria vários clássicos do grupo. Scott Litt tinha sido produtor de uma banda amiga do quarteto, The dB, e começou os trabalhos com o R.E.M. quando o grupo fez Romance para a trilha do filme Paixão eterna, de Alan Rudolph.

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Juntos, fizeram as primeiras demos, e logo o novo disco do grupo foi surgindo, com o objetivo de mostrar o R.E.M. com uma banda que, além de ser boa de palco, dava shows nos discos. Sim, porque Peter Buck chegou a dizer à Rolling Stone que a banda queria, mais do que tudo, fazer um disco que soasse como ao-vivo-no-estúdio. “Um disco solto, estranho, com uma postura mais dura”, disse o guitarrista, que sabe-se lá o motivo, via Life’s como “um disco do Bryan Adams”.

Mais do que ajudar o R.E.M. a fazer um excelente disco, Litt ajudou o grupo a quebrar o sistema, reescrever a história do rock e (claro, por que não?) fazer dinheiro – e não custa lembrar, Document é o disco de The one I loveIt’s the end of the world as we know it (And I feel fine). Honrando a tradição dos músicos honestos armados de boas canções (à maneira de Byrds, Bob Dylan e Joni Mitchell), o grupo já fazia  bastante sucesso antes desse LP. Praticamente tudo da banda vendera mais de 500 mil cópias até então.

Mas Document foi o disco que vendeu mais de um milhão de cópias, pôs nos ouvidos dos fãs canções que já nasciam clássicas, e ainda por cima ensinou algumas lições à I.R.S., selo da banda. “Em praticamente todos os discos que entregamos à gravadora, ouvimos opiniões externas de que ‘este é o disco que vai levar vocês à falência’”, contou Buck no papo com a Rolling Stone.

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O R.E.M pegava em fios de alta tensão desde sempre, mas o clima de guerra do governo Ronald Reagan e os ares da década perdida (para os países latinos) estavam pairando no estúdio na era de Document. Tanto que era também o disco de Exhuming McCarthy, que lembrava do cão-fila anticomunista Joseph McCarthy, e falava que a caça às bruxas dos anos 1950 não estava tão distante assim. “É exatamente o que parece – são os anos oitenta, e McCarthy está voltando, então por que não desenterrá-lo?”, contava Buck.

Até o momento, era o disco que melhor valorizava os versos do vocalista e a combinação de letra-e-música das canções, ainda que alguns álbuns anteriores (como Reckoning, de 1983, de So. Central Rain) fossem páreo duro. Com fama de detalhista e de atento ao mercado, Litt deu à voz de Stipe um volume e uma dinâmica inauditos até então, em plena conformidade com o fato do R.E.M ir muito além do pós-punk e ameaçar uma new wave pesada em músicas como Finest worksong. E em pleno acordo com o clima tranquilo de folk rocks modernizados como Welcome to the occupation (cuja letra fala sobre intervenção do governo Reagan na América do Sul e América Central), ou com o tom meio Kinks da própria Exhuming McCarthy.

Havia ainda Disturbance at the Heron House, uma visão muito pessoal do cantor sobre o livro A revolução dos bichos, de George Orwell, e que já havia ganhado múltiplas interpretações até que Stipe explicasse a letra, anos depois. Strange, um punk rock lascado da banda britânica Wire (do LP Pink flag, de 1977), ganhava uma versão quase power pop. The one I love e It’s the end of the world… foram as primeiras músicas que muitos fãs brasileiros do R.E.M. escutaram em suas vidas – numa época em que, diz a velha lenda, locutores de FMs falavam “rem”, sem soletrar, para que o público não entendesse algo como “I am” (eu sou) e procurasse nas lojas o disco de uma banda que não existia.

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Document é mais que um grande disco. É um estudo de caso, uma demonstração do por quê do R.E.M. ter conseguido ao longo de sua carreira, simultaneamente, fazer um som “fora de moda” e tocar quase tantos corações quanto Madonna. Doses quase iguais de mistério, talento, suor e atenção aos sinais contaram para isso, na hora de escrever letras, músicas, dar entrevistas e dialogar com um mercado cada vez mais exigente. Mas havia muita coisa a vislumbrar ali, e ninguém adota impunemente um nome como R.E.M. (rapid eye movement, a fase do sono na qual os sonhos aparecem). Algo que ficaria claro alguns anos depois.

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