Cultura Pop
Novo livro analisa o personagem Renato Russo

Ainda há muito (e sempre haverá) o que escrever sobre Renato Russo. Ainda mais em 2021, nos 25 anos de sua morte, quando constata-se que letras como Que país é este, Será e Geração Coca-Cola não perderam a atualidade. Julliany Mucury, mestre e doutora em Literatura Brasileira pela Universidade de Brasília (UnB), hoje morando em Berlim, foi fundo não apenas na análise da produção do líder da Legião Urbana, como também na observação de que o artista Renato Russo era uma entidade que foi criada por Renato Manfredini Jr, seu nome verdadeiro. Daí surgiu o livro Renato, o Russo, que sai em breve pela editora Garota FM Books (da escritora e biógrafa Chris Fuscaldo). E está em campanha de financiamento coletivo pela plataforma Catarse.
Renato, o Russo leva novas descobertas aos fãs da Legião Urbana. A principal: “Renato Russo” não era apenas um nome artístico, como Ringo Starr (Richard Starkey Jr), Fernanda Montenegro (Arlette Pinheiro Monteiro Torres) ou Tony Bennett (Anthony Benedetto). Era um personagem, com personalidade, modo de se vestir, de pensar e estilo de vida próprios. E que encobria e encorajava o tímido Renato Manfredini Jr. Mais uma descoberta: Renato, assim como David Bowie, fez do fim da vida uma obra de arte. O britânico fez isso no desnorteante Blackstar, o brasileiro o fez no desesperadamente triste A tempestade, último disco da Legião lançado com ele em vida. Mas o livro parte de uma pergunta: afinal, Renato Russo era um letrista ou um poeta?
Mesmo que o próprio Renato tenha falado em alto e bom som num show no Jockey Club, na Gávea (Rio) em 1990 que era letrista, e não poeta, o questionamento é muito válido: Renato era leitor compulsivo, era autor de versos bastante originais e compunha letras de uma erudição difícil de ser achada em música popular. Julliany estudou todo o material de Renato e fez leitura crítica de 29 letras escritas por ele. E prefere se referir a Renato como um cancionista, termo do músico e linguista Luiz Tatit que indica uma espécie de malabarista, que se equilibra entre letra e melodia.
Batemos um papo com Julliany e ela revelou o que foi possível revelar (não vamos estragar as surpresas!) sobre Renato, o Russo.
Afinal, como surgiu essa discussão sobre se Renato Russo era poeta ou letrista? Foi numa mesa do CCBB de Brasília, como diz o livro, mas como se deu isso?
Bom, em primeiro lugar, a gente tem um problema técnico com esse nome “poeta”. Eu estudo literatura brasileira, daí você pega e vai trabalhar canção dentro da literatura brasileira. Já quebra um certo padrão aí, né? E para a academia considerar a gente nomear um cancionista de poeta… É como se a gente estivesse invadindo fronteiras, sabe? Aquela coisa do espaço do sagrado. E eu achei uma provocação interessante nessa mesa, onde estava o Vladimir Carvalho, o Nicolas Behr – que é um poeta de Brasília – e a minha orientadora, Sylvia Helena Cyntrão.
Nós captamos essa pergunta como uma provocação e aquilo me incomodou bastante. Legião Urbana divide as pessoas, tem quem ame e tem quem odeie. Muita gente nem considera uma banda, fala: ‘Pô, os caras não tocam nada!’. E eu pensava: ‘Mas ninguém olha a letra? Mais de cem letras escritas com participação do Renato, mais de 29 letras escritas exclusivamente por ele. Vamos ver a densidade disso?’ Essa pergunta, eu quero responder de um jeito sério, quero analisar tudo, não vou dizer por dizer.
Muitas pessoas já afirmavam que ele é poeta, Arthur Dapieve, Carlos Marcelo. Não queria me fiar pelo que os biógrafos diziam, queria eu ter minhas certezas. Foi isso que minha tese me deu. O livro sai com 200 páginas, mas mais de 160 páginas da tese original foram limadas. Aproveitamos para o livro a parte em que eu realmente falo da pergunta. O Carlos Eduardo Lima (editor do site Célula Pop, historiador e jornalista) mexeu no livro comigo e ajudou a tirar o texto da rigidez acadêmica, tornou o texto algo maleável e gostoso de ler. Reconstituímos o cenário de Brasília na época, para quem não conhecia. O eixo Rio-São Paulo era muito diferente, os punks de São Paulo eram até muito mais punks que os de Brasília.
Eu terminei o texto muito convicta de que há sim qualidade estética no que o Renato produziu. Ele era muito sério e comprometido com a produção dele. Então por que chamamos Renato de cancionista? Cancionista é um termo do Luiz Tatit. E o Renato é um cara que, desde a melodia, até a melodia inserida na palavra, é uma letra de canção que você lê isoladamente e ela conta uma história. Tem uma densidade própria ali. Tanto que virou roteiro de filme. Já foi adaptado duas vezes pelo René Sampaio, teve o Faroeste caboclo e agora o Eduardo & Mônica.

Julliany Mucury
O Renato até via essa coisa do poeta com certa humildade. No show do Jockey Clube, no Rio, ele chega a dizer que “algumas pessoas dizem que eu sou poeta”. Mas por outro lado, em entrevistas, ele dizia que não se considerava um bom letrista, que seu forte era encaixar a letra na música…
Eu acho que isso faz parte dessa construção de personagem, do personagem Renato Russo. Quando a gente coloca o Renato numa construção de panorama, ele negar por si só que é letrista… E quando ele faz o show do Jockey em homenagem ao Cazuza ele diferencia: “Ele é poeta, eu sou letrista”. Nas entrevistas, quando ele era provocado a respeito das letras, ele dizia: “Eu sou só letrista. Poesia eu escrevo mas tá guardada lá em casa”. Na exposição do Museu da Imagem e do Som, a gente viu que até soneto ele escreveu. O Renato tem muita coisa escrita e é um acervo que a gente ainda não teve acesso.
Quem gosta de Legião tem que começar com a biografia escrita pelo Carlos Marcelo, porque ele conta quem foi Renato Manfredini Junior. Quem foi o Junior, da Dona Carmen, aquele menino genial, que ficou paralisado na cama e escreveu o livro The 42nd street band, que depois foi publicado. As pessoas têm que ler em seguida para entender que o Renato traça uma banda imaginária, e que essa banda tem um vocalista chamado Eric Russell. O Eric Russell é o Renato Russo (enfatiza o “é”).
Fernando Pessoa que fazia isso, construía heterônomos, criava poetas reais que escreviam poemas. Renato Russo é quase um heterônomo do Renato Manfredini Jr. O Dapieve fala que o Renato inicialmente falava que era quatro anos mais velho, para parecer mais maduro e ser respeitado. Eles eram muito novinhos, o Renato compõe Faroeste caboclo com 19 anos. Imagina, o que a gente estava fazendo aos 19 anos? Ele dizia que estava compondo a Hurricane dele (canção do Bob Dylan). E ele senta e escreve uma letra daquelas, com aquela intensidade do João de Santo Cristo.
Tem muita coisa ali, não é só a história de um anti-herói que termina assassinado em praça pública. Ele conta toda a dor de uma nação envolvida ali. Isso depois ele estende para Perfeição, para Fábrica, para Que país é este. Ele sabia muito bem o que estava fazendo e tinha muito apuro quando escrevia. Mas não queria assumir, queria brincar com a fronteira das coisas. “Eu gosto de meninos e meninas”, “eu não sou poeta”. E onde é que está o Renato real nessa história toda?
As pessoas parece que têm uma certa raiva da Legião, por serem uma banda que tem um esquema musical bem simples… E hoje há até uma certa pressa em decretar o fim do rock, que o rock acabou, etc.
A raiva é justamente porque não conseguem ofuscar. E aí você tem que detonar. Agora imagina: uma banda de adolescentes em que eles convidam o Dado, que não sabia nem tocar. Eles eram punk rock, mas era punk rock de butique. Eles tinham acesso aos discos que vinham da Inglaterra, as bandas que os influenciaram, The Smiths. Essa galera que eles eram influenciados diretamente, o que eles não negam. O Legião Urbana V era o Pornography do The Cure, na cabeça do Renato. Era uma reimpressão de muita coisa que vinha de fora, mas isso era intencional. A Legião se lançou como uma anti-banda de rock. Negaram o lugar do palco, o Renato quase não fez show. Para o que o público desejava e a gravadora pretendia… O Renato não era um galã como Paulo Ricardo mas o grupo tinha vendagens de 500 mil cópias, um milhão de cópias.
E há o preconceito com o rock´n roll, porque as batidas dos três primeiros álbuns eram pesadas. Era lixão mesmo, era ruído, metal estridente, era para incomodar. Não era um som para você ligar e deixar de música de fundo na sua casa, no elevador. Eles eram uma banda que pretendia fazer isso. Mas não eram como os outros. O Clemente (Inocentes) comenta que quando a Legião vai para São Paulo, fala: “Cara, a gente não é punk, a gente não está nesse nível da galera”. Era coisa de gangue, era pesado.
Mas com essas altas vendagens, os poucos shows… O que você acha que atraía tanta gente para as letras do Renato?
A genialidade dele. Muitas letras são creditadas ele, Dado e Bonfá, mas ele trabalhava a letra, ia para o estúdio, eles trocavam coisas. Existia uma troca muito boa, eles trabalhavam bem juntos em estúdio. Só que o Renato não gostava de plateia. Enquanto Dado e Bonfá estavam nas piscinas dos hotéis, jogando futebol com a galera, o Renato estava ficando verde dentro do quarto. Renato teve um sério problema com drogas, era muito introvertido, introvertido mesmo. A questão da homossexualidade era algo muito difícil para ele. O Carlos Trilha (produtor) contou numa entrevista do canal Alta Fidelidade que o Renato cantava as pessoas, era muito tímido mas tinha necessidade de entrar em contato. Ele até falava que ser homossexual no Brasil dos anos 1980, com a aids e com todo o cenário que a gente tinha, era complexo, por causa do preconceito e da pouca informação. Se temos hoje ainda, imagina há quarenta anos.
O Renato não gostava de shows, ele gostava muito de conversar com a plateia. E às vezes ele se excedia e o público tacava coisas no palco. Quantas vezes o Renato não deitou no chão, e fez o show com luzes apagadas? Ou cantou três, quatro cinco músicas e abandonou o palco? Até o momento em que ele falou: não quero mais, não vai rolar. De 1990 para a frente, os shows vão se escasseando e ficam para lugares como o Metropolitan, o Jockey Clube. Eram lugares que tinham uma estrutura maior, até o último show, que acontece em Santos (SP). Ele já estava debilitado fisicamente, vocalmente, já estava sob tratamento e pouquíssimas pessoas sabiam. Quem suspeitava de algo não falava nada. Ele não tinha mais condições, mas queria produzir.
É até essa tristeza que eu falo no livro. A mente e o espírito dele iam aonde o corpo não estava conseguindo mais. O disco A tempestade não é doloroso só por causa do conteúdo, do que ele está escrevendo, do que ele canta, mas é doloroso por causa de como ele canta. Para a gente, que conhece a potência vocal do Renato… Você percebe claramente que tem alguma coisa ali.
O Renato compunha para quem? Existia um tipo de fã de Legião, ou do trabalho dele, que surgia na mente dele na hora de compor?
Ele compunha a partir dele mesmo. Mas ele tinha uma visão muito cosmopolita. A minha experiência com Renato Russo, no meu lugar de feminino hetero, fez sentido para mim. O que o Renato acessa é esse lugar nosso, do sujeito humano. As dores são nossas. Os sofrimentos são nossos. Em discos como V e Descobrimento do Brasil, em que ele já está migrando para uma análise da existência, ele fala muito da dor de existir, dos relacionamentos amorosos. Ele fala disso com muita delicadeza, não é uma música de dor de cotovelo rasgada e caipira. Mas é uma música que fala sobre como seguir adiante, sobre como se levantar, sempre esperançoso, sempre olhando para a frente, como no verso “mas é claro que o sol vai brilhar amanhã”.
Ele tem essas repetições, usa textos bíblicos, Camões, sabia trabalhar o inconsciente coletivo. Era um cara muito antenado, não só no tempo dele, porque quando ele escreve Que país é este é uma canção imortal. Quando a gente escuta Perfeição, aquela ironia, aquele sarcasmo, a gente sabe que aquilo é nosso. Ele acessa esse lugar de antena da raça. Ele, Cazuza, Freddie Mercury, Raul Seixas… Um grupo de artistas que estava à frente daquilo. Fico imaginando eles coexistindo com as pessoas da geração deles, eles à frente de todo mundo. O que será que se passava dentro dessas mentes? Qual o sentimento de mundo que eles tinham? A Nina Simone fala no documentário dela, o What happened, Mrs. Simone: “Um artista tem que falar do seu tempo”. A genialidade do Renato mora na percepção que ele teve ao compor as letras.
Eu nunca tinha percebido que o Renato Russo fez da morte dele uma obra de arte, meio como David Bowie fez em Blackstar. Como foi para você perceber isso?
Eu chamo isso no livro de arquitetônica da despedida. Ele sabia. Ele já não conseguia ir para o estúdio. O Dado produziu o Tempestade sozinho, o Trilha entrou para salvar a pátria, porque o Renato fazia um take e acabou. Mas o que tinha dentro desse sujeito, a percepção, o entendimento da finitude… Eu acho ainda mais grandioso. O Tempestade anuncia uma ruptura, ele é lançado e logo depois o Renato morre. Depois vem o Uma outra estação, que é um disco que as pessoas acham até melhor, mas que é um mix de um monte de coisas que o Renato rejeitou.
O Uma outra estação, apesar de ter Clarisse, que é bem depressiva, é um disco bem mais alegre, por sinal.
Por aí você vê que ele sabia o que ele estava fazendo, porque o que ele vetou não entrou no A tempestade. Ele queria uma carta de despedida. Ele queria um conjunto de letras que dissessem aquela mensagem. Ele pensou em tudo. E outra: ele terminar a vida recluso, fechado no apartamento, com o pai. Uma das raras cenas que descrevem o estado físico do Renato nessa época está na biografia do Dado Villa-Lobos (Apenas um legionário, escrita ao lado de Felipe Demier e Romulo Mattos), quando o Dado conta a chegada dele no apartamento do Renato. Ele fala: “Meu deus, o Renato era um fiapo!”. A gente não viu isso, o Renato foi cremado, está no jardim do sítio do Burle Marx e acabou. Eu acho bem interessante isso de você pensar numa despedida, num legado.
No programa do Serginho Groisman ele até falou: “Gente, eu não sou um messias”, “eu não quero educar vocês!”. Mas ele parava o show para pregar para os jovens. Ele sabia que ele tinha um apelo muito grande para a juventude. Imagina, uma juventude saindo da ditadura militar, carente de referências positivas e heroicas… Se você for pegar todas as bandas, quem que fazia pregações nos shows? Renato Russo.
Lá fora, nas páginas da Wikipedia dedicadas a artistas, costumeiramente há um item inteiro só para falar dos legados deles, do que eles deixam para a arte, para nomes novos. É algo que não se faz muito aqui no Brasil, nas páginas de artistas nacionais. Como você vê o legado do Renato? O que ele deixou para novos artistas?
(nota: a página de Renato na Wikipedia não tem este item)
Eu gosto muito de uma fala do Dinho, do Capital Inicial, quando perguntam para ele, numa das homenagens dos 20 anos da morte do Renato, sobre o que foi o legado do Renato. E ele fala: “Cara, todo mundo olhava pro Renato”. Todo mundo daquela geração olhava para o Renato, ele era diferente de tudo que estava acontecendo. Não era igual a Paralamas do Sucesso, não era igual a Capital Inicial, nem a Biquíni Cavadão.
Nem quando começam a surgir as outras bandas, como Racionais MCs, Raimundos… O Renato permanecia naquele lugar de dândi, carregava um certo mistério. Quando ele ia se apresentar e começava aquela dancinha Morrissey, completamente maluca e catártica. Era aquilo, ele era muito errático porque não tinha compromisso com posar em nada. As falas dele saíam do jeito que saíam e era puro Renato Russo. Quando ele estava à vontade afinava a voz, quando queria vestir o personagem era outra entonação. E aí você vai percebendo essas nuances do Renato.
O grande legado dele foi a consciência artística, eu acho. Ele teve isso acima de muitos outros. Também a noção de mercado que o Renato tinha, que era enorme. Os álbuns da Legião continuaram sendo produzidos com uma demanda de fábrica. Os três primeiros eram com material que eles já tinham. A partir do quarto eles precisavam produzir coisas. Ele tá passando no estúdio, o pessoal do 14 Bis tá fazendo uma música, ele gosta da melodia e põe uma letra. Ele faz a mesma coisa com a Marisa Monte, em Soul parsifal, que vira Celeste. É a experiência de viver seu tempo, contar seu tempo do jeito que ele contou. E depois conduzir sua carreira até o fim do jeito que você quer fazer. Isso para mim é o maior legado do Renato. E ele conseguiu. Ele se negava a fazer coisas. E o estúdio negava coisas a ele, ele queria álbuns duplos para o Dois e o A tempestade e não conseguiu.
Como você foi reunindo as letras que analisa no livro?
Peguei todas que estão nos encartes e mais algumas que são inéditas. E algumas que não foram musicadas. Falo dela na análise mas não analiso junto com as 29 que analisei. Fui descobrindo que o Paraná (Kadu Lambach, guitarrista da Legião durante curto período antes da fama do grupo) tinha duas letras e musicou as duas, e que uma banda, Urban Legion, estava musicando outras duas letras do Renato. Do quarto disco em diante as letras começam a ser todas divididas entre Dado, Bonfá e Renato. Até que ponto isso foi estendido para todos terem direitos autorais?
As letras eram divididas também?
Eles trabalhavam juntos, o Renato declarou isso muitas vezes. Por mais que ele escrevesse as letras, sugeria-se alguma coisa aqui e outra ali. Chegar nas 29 foi muito tranquilo, foi só pegar o encarte. Não deixei nada de fora. Peguei o Música para acampamentos porque tem o Canção do senhor da guerra. E aí começam as surpresinhas. Se o Uma outra estação não tivesse sido feito pelo Trilha, não teríamos acesso a Dado viciado, Marcianos invadem a Terra, a Marianne – que tem Marianne 2. As canções feitas sozinho pelo Renato perfazem uma história: Geração Coca-Cola, Faroeste caboclo, Fábrica, Índios, Que país é este. Se você pensa nos maiores hits da Legião, tava tudo nele. O segredo do negócio estava nele. Dado e Bonfá não negam isso. Tanto que eles falam que a banda acabou depois disso.
Eu lembro que quando Renato morreu, uma rádio bem popular aqui do Rio levou ao ar um especial da Legião com as músicas do A tempestade, intercaladas com mensagens dos ouvintes que eram fãs da banda. Alguns estavam chorando e pedindo para o Dado e o Bonfá não acabarem com a banda, para continuar mesmo sem o Renato. Isso apareceu no rádio! Aí acaba entrando naquela seara em que as pessoas querem escutar aquele repertório, de que ele faz muita falta…
Vou além: lembro que aquele especial da MTV com Wagner Moura foi doloroso de assistir. O Wagner estava lá como cantor amador, topou fazer aquilo, mas a plateia cantou do começo ao fim. E no fim, Será, é cantada pela plateia, com Wagner deitado no chão chorando. Acontecem coisas incríveis, existe um legado incrível nas pessoas que gostam de Legião Urbana, que é como se não precisasse do Renato. Quando Dado e Bonfá se reúnem, existe uma coisa que é tão poderosa, é uma presença-ausência tão presente ainda para eles, que eles fazem com que faça sentido.
Então tá lá, teve o André Frateschi conduzindo com eles, teve a turnê dos 30 anos… Foi um processo complicado para o Dado e o Bonfá realizarem aquilo também. E o Dado fala: a gente gostaria de estar tocando. Quem não gostaria? São as músicas que eles fizeram!
O Nasi, do Ira!, uma vez falou numa entrevista que banda não é como álbum de família, com aquelas pessoas insubstituíveis…
E a ideia original do Renato era que o nome fosse Legião Urbana porque os músicos seriam rotativos. E aí entra nessa discussão que estamos levando agora. Um outro problema é que o Brasil não tem memória, tá aí o que vem acontedcendo com nossos prédios, nossos centros históricos… Por que se escreve ainda sobre Renato? É importante, é a história de um cara que ainda ecoa.
Qual a maior surpresa que seu livro traz para o fã de Legião?
Ah, nem sei se devo revelar (rindo), mas o maior gatilho é a descoberta dessa personagente, de como o Renato Russo se distancia do Renato Manfredini. Eu faço essa dicotomia, entre Renato e Russo. Mas e você, qual surpresa viu no livro? (me perguntando)
Bom, acho que essa semelhança entre a morte dele e a do David Bowie, e o fato de “Renato Russo” não ser apenas um nome artístico, ser um personagem mesmo.
É verdade. Mas se você for ver, de acordo com a (professora) Eliana Yunes, todos nós somos isso. Existe as pessoas que somos e as que criamos. Se entra um novo indivíduo numa conversa, não é mais a gente que está ali. A gente é a partir da interação com aquele indivíduo, conforme o estatuto social que temos nessa relação. Se é seu marido, sua mulher, seu marido, seu filho, e você institui personas, as máscaras que usamos. Quantas versões suas ou minhas? É infinito.
Agora quanto mais você adentra a história do Renato, mais percebe um sujeito extremamente carente. O barato dele era ligar para as pessoas de madrugada, ele era noturno. E aí vários amigos declararam isso ao longo do tempo, ele passava três quatro, horas conversando com as pessoas. Então você imagina o que era receber uma ligação dele para trocar ideias. Várias ideias nasceram dali. Nasceram coisas com o Trilha, o disco em inglês, em italiano. Renato deixou uma ópera, uma peça de teatro. Ele queria fazer roteiro de filme, tinha várias ambições para a própria vida. Ele não queria ser só um rockstar, queria mais.
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Cultura Pop
Billy Corgan e Butch Vig juntos no estúdio de novo após 33 anos

RESUMO: Billy Corgan e Butch Vig retomam a parceria de Gish e Siamese dream em Black stars, faixa da trilha de Jogos vorazes. Um reencontro com o produtor que ajudou a criar o som do Smashing Pumpkins. Relembre o histórico.
Texto: Ricardo Schott – Fotos: Reprodução
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Imagine você entrar num estúdio com Billy Corgan, no começo dos anos 1990, e descobrir que ele quer gravar uma música com dezenas de guitarras. E que, se uma delas não soar exatamente como ele imaginou, vai ter que fazer tudo de novo. Agora imagine que o produtor, em vez de mandar o sujeito sossegar, acha a ideia ótima. Pois era mais ou menos assim que funcionava a parceria entre o Smashing Pumpkins e Butch Vig. E, 33 anos depois, os dois resolveram repetir a experiência.
A novidade é Black stars, música lançada nesta sexta-feira (16) e incluída na trilha sonora de Jogos vorazes: Amanhecer na colheita. A trilha completa sai em 13 de novembro, uma semana antes da estreia do filme. É a primeira gravação lançada pelo Smashing Pumpkins com produção de Vig desde o álbum Siamese dream, de 1993. A faixa também entrou no repertório da atual turnê Rats in the cage.
A história dos dois começou em 1990, quando o Smashing Pumpkins gravou Tristessa, compacto lançado pela Sub Pop, sob a produção dele. Isso foi antes de Vig produzir Nevermind, do Nirvana (1991). Corgan gostou do cara logo de primeira. Numa entrevista à Tape Op, contou que o produtor não tinha pose, trabalhava pra caramba e não se assustava com as ideias que ele e o baterista Jimmy Chamberlin levavam para o estúdio. Pelo contrário: parecia gostar da complicação.
Foi assim que chegaram a Gish (1991), álbum de estreia da banda, primeiro no qual trabalharam juntos. Corgan queria um disco com peso, psicodelia, melodias bonitas e guitarras aparecendo de todos os lados – um baita rock de arena, com ambiência, totalmente o oposto daquela onda da época, de simplesmente colocar quatro músicos numa sala e apertar o botão de gravar. Vig comprou a ideia e ajudou a organizar tudo aquilo. Dá para ouvir o resultado em Siva, Rhinoceros e Daydream, três músicas bem diferentes que parecem fazer parte do mesmo universo.
Só que os dois tinham um problema: não sabiam a hora de parar. Corgan contou à Rolling Stone italiana que Vig pegava pesado com afinação, ritmo e vocais. Fazia Billy cantar a mesma parte tantas vezes que ele começava a achar que não sabia cantar. O engraçado é que, olhando para trás, o vocalista reconhece que aquela cobrança fez toda a diferença.
Em Siamese dream (1993), o segundo disco, a situação ficou ainda mais complicada. A banda já tinha uma gravadora grande esperando resultados, Billy passava por uma fase emocional difícil e os integrantes não se entendiam nada bem. Foram gravar em Atlanta, mas os problemas viajaram com a banda nas malas.
Corgan acabou tocando praticamente todas as guitarras e boa parte dos baixos. Algumas músicas ganharam tantas camadas que Vig precisava descobrir como fazer tudo caber na mixagem. Era guitarra em cima de guitarra, com mais uma guitarra aparecendo quando você achava que já tinha acabado. E, se alguma coisa não estivesse perfeita, lá iam eles gravar de novo. O disco demorou, custou caro e deu um trabalhão. Só que saiu dali Siamese dream, com Cherub rock, Today, Disarm e vários clássicos.
Corgan nunca escondeu o quanto Vig foi importante. Nos textos da reedição de Siamese dream, em 2011, escreveu: “Butch me apoiou o tempo todo nessa visão maluca”. E completou: “Butch era a única pessoa que poderia ter feito aquele disco conosco, porque o respeitávamos tanto que queríamos estar à altura dos padrões elevados dele”.
Mas aí chegou a hora de fazer o duplo Mellon Collie And The Infinite Sadness (1995), e Billy resolveu mudar tudo. Chamou Flood e Alan Moulder para produzir, porque queria sair daquela maneira de trabalhar. Numa entrevista ao Grammy.com, explicou que Vig havia ajudado a construir uma versão quase idealizada do Smashing Pumpkins. Flood queria outra coisa: ouvir a banda como ela realmente soaria nos shows.
E não, a troca não aconteceu por causa de alguma briga. Em 2011, perguntaram a Corgan se ele toparia trabalhar novamente com Vig. “Eu amo Butch e temos uma relação muito boa. Adoraria. Ele provavelmente é uma das únicas pessoas com quem eu voltaria a entrar em estúdio”, respondeu. Vig também sempre pareceu adorar Corgan, embora já tenha declarado algumas vezes que o músico foi “um pentelho” no estúdio (quem conhece a história de Billy sabe que isso é um nome até carinhoso).
Pois bem: demorou 15 anos para aquela declaração virar realidade. Black stars coloca novamente os dois no estúdio, agora com décadas de experiência acumulada e sem a obrigação de repetir o que fizeram em 1993.
Ainda não há indicação de que a parceria vá render um álbum inteiro. Por enquanto, é uma música para uma trilha sonora. Mas já dá para imaginar a cena: Billy aparece com uma ideia complicada, Butch escuta, pensa um pouco e resolve que dá para melhorar. E lá vem outra guitarra…
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Cultura Pop
Bono trapalhão? U2 antes da fama, na TV irlandesa, usando fantasias de palhaço

RESUMO: Antes da fama, o U2 tocou Out of control na TV irlandesa vestido de palhaço. Tem gente achando que é obra da IA, mas não é não.
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução
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No comecinho de sua história, prestes a fazer as primeiras gravações, o U2 fez um vídeo de Out of control na TV irlandesa em clima de circo, com maquiagens faciais e roupas de palhaço. Tá aí o vídeo.
O vídeo é de 1979 e pertence aos arquivos da RTÉ, emissora pública irlandesa – e pelo que a emissora diz, apareceu no programa Our times. Já teve gente levantando a hipótese de ser obra de IA. Não é, pelo visto. “Embora a estética crua e a qualidade amadora das possam levar os espectadores a questionar a sua autenticidade, este vídeo específico foi documentado e discutido pela comunidade de fãs do U2 como uma peça genuína da história da banda”, diz um comentário publicado no canal do YouTube @DutchU2Fan.
Não foi a primeira vez que a banda esteve na atração: em 13 de novembro de 1978, tocaram a música The fool, numa apresentação que acabou sendo reprisada em 27 de novembro. Aliás, a primeira vez que Bono, The Edge, Larry Mullen e Adam Clayton foram à RTE rolou em 2 de março de 1978, quando ainda se chamavam The Hype – na ocasião, foram a programa Youngline e cantaram Street mission.
Além das maquiagens, Bono surge usando apetrechos teatrais e fazendo caras e bocas para a câmera – em alguns momentos, tudo parece uma cena de humorístico brasileiro dos anos 1970. E naquela altura, Out of control era praticamente o cartão de visitas do U2. Em agosto de 1979, o radialista Dave Fanning apresentou três músicas do grupo em seu programa na RTÉ — Out of control, Stories for boys e Boy/Girl — e deixou os ouvintes escolherem qual delas deveria ocupar o lado A do primeiro lançamento da banda. Out of control venceu. No mês seguinte, as três músicas apareceram no EP Three, cuja primeira edição teve mil cópias numeradas.
A canção também tinha uma origem bastante pessoal. Bono a escreveu quando completou 18 anos, pensando no desconforto de perceber que dois dos acontecimentos mais importantes da existência estão totalmente fora das nossas mãos: ninguém decide nascer e, em última instância, também não controla a própria morte.
Agora: por que diabos eles estão vestidos daquele jeito?
Bom, não há, pelo menos na documentação conhecida sobre a apresentação, uma explicação de Bono, The Edge, Adam Clayton ou Larry Mullen Jr. para as roupas, mas maquiagens e os apetrechos. Também não aparece nos arquivos disponibilizados pela RTÉ uma justificativa para o figurino. Pode ter sido uma ideia do programa, uma brincadeira da própria banda ou simplesmente parte da estética daquela atração
O vídeo pertence a uma fase realmente embrionária do U2, que ainda traria uma apresentação no programa Aspects Of rock em setembro de 1979, tocando Life on a distant planet. Em janeiro de 1980, a banda chegou ao Late late show com Stories for boys. E pouco depois, aquela banda de garotos que ainda podia surgir fantasiada na televisão começaria a gravar a estreia Boy, lançada em outubro de 1980. Um primeiro passo na construção do U2 que a gente conhece hoje.
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Cultura Pop
Video Vanguard Award: afinal, que prêmio é esse que o Nirvana recebeu?

RESUMO: O Nirvana recebeu o Video Vanguard Award no VMA e entrou numa história que começou em 1984 com Beatles e David Bowie. Entenda como surgiu e por que o prêmio mudou ao longo das décadas.
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução
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O Nirvana voltou ao VMA neste domingo (27) para receber um prêmio que, de certa forma, conta a própria história da MTV. Dave Grohl, Krist Novoselic e Pat Smear subiram ao palco para buscar o Video Vanguard Award, homenagem pelo conjunto da obra audiovisual da banda.
Recebendo a honraria, os mais ilustres três ex-integrantes vivos da baanda entraram numa lista que começou com Beatles e David Bowie e, ao longo de mais de quatro décadas, passou por Madonna, Michael Jackson, R.E.M., Beastie Boys, U2, Beyoncé e vários outros.
Mas o que exatamente é o Video Vanguard? Bom, temos duas respostas, uma curta e uma longa. A resposta curta: é uma espécie de prêmio pelo conjunto da obra do VMA, dedicado a artistas que tiveram impacto importante sobre o videoclipe e a cultura pop. Não está ligado a um vídeo específico lançado naquele ano e nem sequer é entregue em todas as edições.
A resposta longa é… a própria história do prêmio. E é a melhor resposta, já que o prêmio nasceu junto com o próprio VMA, em 1984. E não custa lembrar que nessa época videoclipe ainda era uma linguagem em formação e a MTV tinha apenas três anos. Na primeira cerimônia, só pra você ter uma ideia, David Bowie ganhou o prêmio, e houve menção especial aos Beatles e a Richard Lester, que dirigiu os filmes Help e A hard days night, do quarteto.
No caso dos Beatles e Lester, a escolha reconhecia especialmente a importância dos filmes do grupo para aquilo que, anos depois, se consolidaria como a linguagem do videoclipe – e da mesma forma, Bowie havia desenvolvido muito do idioma dos clipes vários anos antes. Na real, como ainda nem sequer havia uma “história” do videoclipe, era fundamental apontar quem havia ajudado a inventar aquela nova linguagem.
Nos anos seguintes, por sua vez, já estava claro que o grande lance era premiar quem já estava fazendo história ali mesmo, com a linguagem dos clipes. Em 1985, ganharam o prêmio David Byrne (então apenas o líder dos Talking Heads) e os diretores Russell Mulcahy e Godley & Creme. Madonna recebeu em 1986. Peter Gabriel, em 1987.
Detalhe: Michael Jackson ganhou em 1988 e, a partir de 1991, seu nome passou a ser associado oficialmente à honraria, que durante décadas ficou conhecida como Michael Jackson Video Vanguard Award. Em 2019, a MTV silenciosamente, mas nem tanto, tirou o nome do astro do prêmio. Nesse ano, a vencedora foi a rapper Missy Elliott.
Na década seguinte, a lista parece quase um resumo do período em que rock e MTV andavam grudados. Bon Jovi recebeu o Vanguard em 1991; Guns N’ Roses, em 1992; Tom Petty e Rolling Stones, em 1994; R.E.M., em 1995; Red Hot Chili Peppers, em 2000; U2, em 2001; e Duran Duran, em 2003. Exceções à regra: em 1997 o rapper LL Cool J levou a estatueta pra casa. No ano seguinte, os Beastie Boys ganharam o prêmio.
Depois, o perfil foi mudando junto com a própria MTV e com a cultura pop. Britney Spears, Justin Timberlake, Beyoncé, Kanye West, Rihanna, Pink, Jennifer Lopez e Missy Elliott estão entre os homenageados. Nos últimos anos vieram Nicki Minaj, Shakira, Katy Perry e Mariah Carey. Agora o prêmio volta ao rock com o Nirvana.
Dá pra dizer que poucos grupos carregam uma ligação tão evidente com a era clássica da MTV. Smells like teen spirit não apenas virou um dos clipes mais associados aos anos 1990 como ajudou a transformar a imagem do rock no canal. Come as you are, In bloom e Heart-shaped box reforçaram uma identidade visual que misturava estranheza, humor, desconforto e uma boa dose de antipatia pelos padrões do estrelato.
No VMA deste ano, coube a Chuck D, do Public Enemy, entregar o prêmio. Novoselic aproveitou o discurso para colocar Kurt Cobain no centro da história e lembrou que muitas ideias dos vídeos vinham da visão artística do vocalista. Para ele, a permanência do Nirvana também tem relação com uma busca do público por autenticidade.
Grohl, Novoselic e Smear receberam a homenagem sem Cobain, morto em 1994, mas com sua imagem aparecendo durante a cerimônia. A escolha fecha um círculo curioso: uma banda que ajudou a definir a MTV dos anos 1990 recebe, mais de três décadas depois, um prêmio criado justamente para reconhecer quem mudou a maneira de juntar música e imagem.
Mais do que um troféu para quem acumulou clipes famosos, o Video Vanguard começou como uma homenagem a quem empurrou o videoclipe para algum lugar novo. E sua lista de vencedores acabou registrando também as mudanças da própria MTV: dos Beatles e dos diretores pioneiros ao domínio do rock, daí às grandes estrelas do pop e do hip hop.
Agora o Nirvana entrou nessa história. Digamos que, para uma banda que chegou à MTV parecendo não pertencer àquele mundo, demorou bastante.
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