Cultura Pop
Entrevista: Marcos Valle – “Por causa de ‘Estrelar’, em 1983, eu virei o Xuxo”

Marcos Valle é um cara cheio de energia. Fala rápido, emenda vários assuntos e recorre à música para falar dela própria. Procurado pelo POP FANTASMA para recordar os tempos de seu disco epônimo de 1983 (que acaba ser reeditado em vinil pelo selo Mr. Bongo), ele revisitou Estrelar, o principal hit do disco, imitando até as levadas da canção com a boca.
Por sinal, muita coisa do arranjo que você ouve até hoje – criado pelo inesquecível Lincoln Olivetti – foi criado dessa forma. “Ele fazia tudo com a boca, passava para todo mundo e os caras faziam igual”, recorda. A base instrumental de Estrelar tinha sido composta nos Estados Unidos por Marcos e pelo americano Leon Ware (1940-2017). E, pode acreditar, a música quase ficou de fora do disco, lançado em 1983 pela Som Livre. A gravadora tinha prazos e, até o fim da gravação do álbum, nem o cantor nem seu irmão e letrista Paulo Sergio Valle tinham ainda uma letra pronta. Foi justamente a palavra “energia” que mudou a história da canção,. E turbinou o pop adulto de rádio, que por aqueles tempos ganhava hit atrás de hit (Lulu Santos, Ritchie, Marina Lima, Dalto).
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Já relançado em CD em algumas ocasiões, Marcos Valle, o disco, volta ao universo do vinil, por intermédio do selo inglês Mr. Bongo. Dessa vez, sai numa edição incrível, remasterizada pelo engenheiro de som Miles Showell no lendário estúdio Abbey Road. Para o relançamento, Miles usou a técnica Half-Speed Mastering – na qual o disco é masterizado a uma velocidade menor, resltando em um som mais definido. Batemos um papo com Marcos por telefone e ele relembrou os tempos felizes de Estrelar, música que serviu de trilha sonora para um daqueles períodos raros em que, num país bizarro como o Brasil, parecia que tudo ia dar certo. Não deu até hoje, mas fica a música.
POP FANTASMA: O seu disco de 1983 tem reaparecido hoje em dia como um dos álbuns mais conhecidos da onda boogie, que era um termo que era pouco usado no Brasil naquela época. Como você vê essa redescoberta?
MARCOS VALLE: Na verdade quando eu gravei esse disco, na minha cabeça essa coisa do boogie não era minha meta. Esse disco é uma consequência daquele trabalho que fiz quando fui morar de 1975 a 1980 em Los Angeles, e ali fiz aquela minha parceria com o Leon Ware. A maioria das músicas desse disco, inclusive o próprio Estrelar, são consequências dessa parceria, que caminhou por vários lados. As ligações com o Leon Ware vêm muito pelo som da black music, do soul, do R&B, e do boogie.
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Mas na minha cabeça, o boogie ficou como uma sutileza na história. Eu pensava que estava fazendo uma ligação entre os ritmos brasileiros e a black music. E assim foi nascendo, porque ficava uma mistura de baião com esses estilos. Por exemplo, o Estrelar, no fundo é um funkeado que tem um baião (imita o ritmo com a boca). Eu pensava muito mais no prazer que eu estava tendo com as misturas. Aquele momento pra mim foi saboroso. Mas antes desse disco, eu gravei o Vontade de rever você (1981)…
Que é o primeiro pela Som Livre, inclusive.
Isso, eu volto para o Brasil exatamente porque a Som Livre está pedindo um disco meu. Falaram até com meu irmão: “Pô, fala com o Marcos, ele tem que voltar!”.
E antes você tinha feito coisas para a Som Livre, mas mais como convidado, porque você era da Odeon, certo?
Exatamente, o tempo todo eu fui da Odeon. Naquele momento, a Som Livre, com o Max Pierre, que era o diretor musical, estava interessada naquela mistura que eu estava fazendo. Sabia que o Chicago tinha gravado músicas minhas. Acabei aceitando voltar, porque eu estava com muita saudade do Brasil. Primeiro chego aqui para ver, fui no Arpoador, me encantei com aquilo tudo e falei: “Eu vou voltar!”. Ainda fui para os Estados Unidos, terminei algumas coisas com o Leon Ware, inclusive o Estrelar. E aí entreguei apartamento, aquelas coisas que você tem que fazer na hora de voltar.
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Quando fui fazer o Vontade de rever você, que tem muitas parcerias minhas com o Leon, eu não coloquei o Estrelar. Ela já tinha aquela misturada na época. O disco tinha o Velhos surfistas querendo voar, que é uma adaptação em português do Rockin’ you eternally (gravada por Leon no disco de mesmo nome, 1981). Esse disco tem também A Paraíba não é Chicago, que é uma adaptação do Baby don’t stop me (também gravada por Leon no mesmo disco). Mas ainda não havíamos chegado no boogie.
Esse disco tem essa misturada toda, mas quando chegou no de 1983, o Max me pediu: “Marcos, você e Lincoln (Olivetti) juntos vão botar pra quebrar! Porque é uma linguagem parecida, estão na mesma direção. Ele com essa coisa dos metais, somado aos seus teclados, vai dar uma coisa fantástica”. Topei imediatamente porque eu era fã do Lincoln, ele era meu fã. Aí o disco toma essa forma mais dançante, mais energética, do ritmo prevalecendo. Com os metais do Lincoln isso aparece mais.
E é verdade que Estrelar quase não entrou no disco?
Isso, porque o Estrelar tinha sido uma das últimas músicas que eu gravei com o Leon. Eu cheguei aqui em 1980, tive esse reencontro com o Rio, voltei para lá, trabalhei em algumas músicas – inclusive Estrelar – e voltei. Aí fiz um demo. Como o Leon tinha uma editora dentro da A&M Records, tínhamos um estúdio à nossa disposição para o que fazia com ele. Era só chegar lá e chamar a moçada para gravar com a gente. A gente fez a demo de Estrelar e trouxe essa gravação, mas ela já pronta, mixada. Mostrei para o Max e para o Lincoln. E eles se apaixonaram pela música. Isso na época do segundo disco. Engraçado que não mostrei para eles no primeiro disco, guardei.
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A gente começou a pensar o disco: “Vai ser de músicas novas, misturadas?”. Quando o Lincoln ouviu o demo, falou: “Max, p… que pariu, vamos usar esse demo!”. Mas vimos que tecnicamente ia ser complicado, a gente não tinha feito aquilo como gravação final, nem tinha pistas separadas. A gente achou mais simples imitar a gravação e o Lincoln colocar em cima os metais. Foi gravado, ficou no disco, mas a letra não saía. A gente foi gravando as outras coisas. Meu irmão tinha colocado outras letras, eu e Lincoln fomos gravando as bases, o disco com aquela energia cada vez mais forte… Mas o futuro Estrelar não tinha letra, o Paulo Sergio (irmão de Marcos e letrista) não conseguia.
Até que o Max chegou e falou: “Marcos, essa música vai sair do disco, a gente tem que lançar, tem prazos. Se vocês não fizerem uma letra ela tá fora”. O Lincoln: “Max, não me faça uma coisa dessas!”. Aí a gente foi pro estúdio, já tendo gravado tudo. Botamos Estrelar pra tocar, aquele som, alto pra caramba (imita os metais da abertura). Mas foi bom, porque à medida que a gente ia ouvindo, falava: “O que a letra tá dizendo? Tem que ser agora!”. Alguém falou “energia”, “que energia!”. Quando falaram isso, puxou: “energia, exercício, ginástica”. Peguei uma frase da guitarra (imita), cortei a melodia, porque pra colocar uma letra seria complicado. Aí que surgiu o “tem que correr”, e apareceu a ideia de trazer o tema do verão, da alegria. A gente estava de volta à democracia!
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A música foi lançada na época certa, não é? Passou 1982 e as pessoas tinham alguma certeza de que as coisas haviam mudado no país.
Isso, por isso que caiu no momento certo, com a vibração certa, a coisa dançante, “vamos comemorar”. Foi um série de coisas e ela se tornou a música que puxou o disco. Max quando ouviu chamou os caras de rádio, e disseram: “Cara, isso vai arrebentar!” E ainda por cima tiveram a ideia de mandar a música para as academias de ginástica! Todas começaram a tocar. Essa música depois virou o tal do boogie. Eu estava fazendo isso mas nem sei definir os ritmos que eu faço. Como é uma mistura de baião, samba, funk, eu nem defino.
A foto da capa do disco é emblemática. Você lembra como ela foi tirada?
Antes a gente lançou o compacto de Estrelar, mas eu nem tinha cortado o cabelo, estava com roupa de ginástica na foto. Essa música Estrelar toma a concepção do disco, embora o resto do disco nem tenha nada a ver com ginástica. Mas para a capa do LP, o Max diz que ela tem que ter a concepção da música. “Tem que trazer esse seu lado saudável, esportivo, é isso que nós queremos, daí vamos botar aqueles sucos”. Eu cortei o cabelo, porque me perguntaram se não dava para fazer um look novo. Assim foi feito. Fizemos a capa, passamos o dia inteiro mexendo naquelas cores.
Foi num estúdio?
Foi em estúdio, acho que foi no da Tycoon, da Globo. Tenho quase certeza que foi no dia em que fiz um clipe, que não foi aquele do Fantástico… Fiz com duas meninas de biquíni num estúdio…

Foi a propaganda do disco na TV, não?
Isso, foi isso mesmo! Foi o dia inteiro a gente naquilo. Eu jamais poderia imaginar que esse disco estaria ate hoje com esse apelo e que a capa viraria o que virou!
Eu acho que se você quiser entender artisticamente os anos 1980, é só olhar para três capas de discos: a sua, a do Thriller, do Michael Jackson, e a do Voo de coração, do Ritchie.
Pois é, né? Mas essas coisas, é como falam de um acidente: “Tem várias coisas que comungam e acontecem na hora certa”. Às vezes são coisas que dão errado, mas tem coisas que dão certo. É uma tempestade perfeita, mas estou falando das coisas que dão certo. No caso, a música é diferente, o ritmo é diferente. A sonoridade é diferente. A gente gravou a base igual à da demo, mas o Lincoln (imita os metais)… E ainda tem os caras que cantavam. O Lincoln ficava: “Ó, faz isso assim, assim. Marcos, tá bom assim?”
Ele passava os arranjos com a boca?
Com a boca, passava para todo mundo e os caras faziam igual. Eu dizia: “Não acredito nisso!” Era ele falar e os caras abriam as notas. Ele só começava a gravar às 2h da manhã. Era um horário muito louco. A Som Livre trabalhava em dois turnos, um depois do almoço, de 14h às 22h. E um das 22h em diante. Eu nem sou de dormir cedo, acordar cedo, mas um dia eu estava lá e depois das 22h não havia chegado ninguém!
Eu falei: “Mas, Max, tem certeza que eles vêm?”. E ele: “Ih, rapaz, esqueci de falar, é assim mesmo!”. Quando chegava, tava todo mundo super alegre, a gente pedia pizza do Domino’s, ali perto. Aliás, na verdade, a gente começava a gravar às 3h da manhã!
Nossa!
Tive que me reformular, o ritmo era esse e eu precisei pegar a energia deles. Os metais do Lincoln era como se fosse aquela base. O disco inteiro foi para esse lado. O Lincoln trouxe um monte de teclados, ele tocava um, eu tocava outro. O Robson Jorge era craque na guitarra, mas também tocava teclados. Eu tinha certeza que nossa junção ia dar no que deu. E assim foi!
O estúdio que você fala é o Level, da Som Livre, em Botafogo, certo?
Isso, foi lá. No segundo andar, a gente ia para lá, tudo gravado ali. Tivemos ali o tempo necessário, sem pressa nenhuma.
E tem uma história de que um cara parou você na rua, nessa época, e falou: “Comecei a fazer ginástica por sua causa!”. Aconteceu isso mesmo?
Sim! Cara, foi engraçado, porque quando a música arrebentou, fui para Búzios. Depois daquelas madrugadas de trabalho, eu precisava dar uma mergulhada. Recebi um recado do Max para eu ligar para ele. Isso era 1983, como não tinha celular, o cara da telefônica ia na sua casa dar a mensagem. Fui na telefônica ligar, e o Max: “Quer saber? A música arrebentou. Tá gostando ou não tá gostando da notícia?” Eu: “Claro!”. “Então volta agora!”. E foi montado um esquema de divulgação, que incluía não só shows mas aqueles shows na periferia…
As caravanas do Chacrinha?
Também! Mas tinha os bailes do Cassino Bangu, você cantava com playback, dobrando com a voz que já estava gravada. Numa das noites, eles me falam: “Pô, você podia vir com uma roupa de ginástica!”. Eu comecei a fazer uma adaptação, botar certas roupas que dessem um sentido de estar esportivo. Soma isso com o Chacrinha e toda semana eu tava ali. O Fantástico fez um clipe…
Como foi feito o clipe?
O clipe foi gravado no Recreio, foi um dia inteiro. A gente esperou pelo dia certo, eu fui lá para a Globo do Jardim Botânico. Pegamos um carro vermelho, eu vinha dirigindo o carro com equipe me filmando, a gente saindo do Jardim Botânico e passando pelos túneis, pela Barra. A gente fez essas filmagens até chegar no Recreio. Tinha uns seis ônibus, com figurantes, técnicos, coreógrafos, era quase um escritório na areia, entre a Barra e o Recreio. Tem bar, cadeira, um sofá-cama, bicicletas. Tinha a minha parte passando de bicicleta pra cá e para lá, e um balé, que era no fim da tarde. A gravação começou às 6h da manhã e foi até umas 18h, 19h. Eles queriam pegar o pôr do sol.
Mas enfim, isso tudo foi somando, e eu virei um, digamos, sex symbol. Isso atingiu as idades todas, eu virei meio o “xuxo” (risos), porque os pais vinham e traziam os filhos, uns garotos de seis anos, e o garoto: “Eu adoro você”. Era criança, pai, avó, todo mundo me agradecendo por causa disso, de exercícios. Isso eu ouvi muito! Eram pessoas que tinham me conhecido naquele momento, porque eu tinha passado cinco anos fora do Brasil. Então eu tô ali com uma roupa meio esportiva, com umas meninas fazendo ginástica… Apareceu gente perguntando se eu não podia fazer um vídeo de ginástica, ou dar uma aula. E eu: “Pô, mas eu não sou professor!”. Apareceu até gente querendo botar dinheiro para eu abrir uma academia.
Sério?
Sim! E eu falava: “Não, isso é apenas uma música”. Mas durante um tempo, até as pessoas entenderem a história, me viam como professor de ginástica, porque eu falava: “Tem que correr, tem que suar, tem que malhar”. Mas isso era natural em mim porque eu e Paulo Sergio sempre fizemos ginástica, a gente sempre curtiu isso, nosso pai botava a gente pra fazer vários esportes. Eu fazia na academia, era comum, o professor falava: “Bora, bora, pode parar, pode parar! Marcos, tem que correr!”.
Na hora de botar letra eu trouxe isso junto com o Paulo Sergio. Numa hora em que a gente estava gravando, o Lincoln me disse: “Cara, fala alguma coisa aí na música!”. Aí eu falo: “Não pode parar, vamos nessa!”. Isso são coisas que eu ouvia na academia, era uma coisa natural. Não estava inventando uma história. Mas o “vamos festejar!” resume tudo isso.
E na época estava rolando uma onda fitness, que se estendeu à música. O Raul Cortez gravou um disco de ginástica, o Arnold Schwarzenegger fez outro…
Eu lembro do disco do Cortez. Era uma vontade de “vamos nos cuidar, vamos ser felizes”. E tinha também outras coisas: “Agora a gente vai votar, os artistas vão poder falar o que querem”. Era uma sensação de festa.
Você chegou a desenvolver um certo medo de palco nos anos 1970 e precisou se disciplinar bastante para ir ao Chacrinha, aos programas de TV. Como se deu isso?
Quando eu saí do Brasil em 1975 eu tinha saído daqui porque eu estava psicologicamente abalado pela ditadura, aquilo tudo tinha chegado a um ponto pra mim… Eu nem sabia que aquilo ia me afetar tanto. Eu nem conseguia emitir minha voz, até mesmo falando. Não entendia e comecei a notar que era um bloqueio. Como é que eu poderia ir para um palco? Era uma insegurança profunda que eu estava tendo por causa do regime. Uma vez fui detido com o Chico Buarque e com o Egberto Gismonti. Nesse momento somei tudo e pensei: “Vou sair daqui”. Por ironia, uma das primeiras coisas que eu fiz lá foi cantar com a Sarah Vaughan, naquele disco em que ela canta Beatles. Cantei Something com ela. Mas era estúdio, ali eu pude cantar, e a Sarah era muito legal.
Continuei com os problemas, mas quando eu volto, uma das coisas que mais me auxiliaram foram esses bailes do subúrbio e os programas do Chacrinha. Porque eu tinha que ir lá, mas a base já estava gravada, e ali eu comecei a usar aquilo como laboratório, “é aqui que você vai se soltar”. No programa do Chacrinha você não podia ficar parado, tinha que balançar. A timidez ali… nem pode! Comecei a me soltar, a ver a resposta do público, e comecei a ter abertura comigo mesmo a cada vez que eu cantava junto. A voz começou a voltar, a se projetar.
O primeiro baile que eu fiz no subúrbio, eles tinham que levar um artista que atraísse as mulheres, porque elas não pagam. Os homens pagavam, mas eles iam porque tinha muita mulher. E os caras ficavam me olhando firme, tipo “quem é esse cara?”. Mas fiz o show inteiro. No final, falaram: “Olha, tá ótimo mas você tem que se mexer. Você tá cantando ‘tem que correr’ e tá parado. Se solta aí, meu amigo!”. Aí que eu comecei a usar isso, e foi gradativo. Essa música, além de trazer essa abertura de alegria geral, me trouxe a alegria de botar a voz para fora, de cantar. Foi um grande laboratório para mim. Eu lembro que eu me inspirava naquele programa Soul train, quando eu fazia playback.
Putz, o Soul train era bom demais.
Era maravilhoso: James Brown, Marvin Gaye, todo mundo fazendo playback. Quando eu fui fazer o primeiro playback, eu estava apavorado. Perguntei pro Max se ia dar certo, e ele: “Não, cara, já tá dando certo. Você estava nos Estados Unidos, não lembra do Soul train?”. Me imaginava no Soul train e não deu outra, lógico que deu certo. Às vezes eu fazia por noite uns oito shows. Você chega com o carro, canta seis música, o empresário tá ali pegando o dinheiro, e depois você pega o carro e vai para outro lugar.
Teve depois Bicicleta, que foi só um single. E foi a última coisa que você fez pela Som Livre. Por que o contrato acabou?
A Som Livre ia dissolver o elenco. Queriam que eu gravasse mais uma música nesse sentido, e falei com o Paulo: “Pô, a gente já falou o que tinha que falar, mas como essa música pegou muito com a criançada, vamos fazer uma coisa que tenha a ver com exercício mas para criança”. E ele deu a ideia da Bicicleta, que é uma coisa que crianças adoram. Eu mesmo curti muito bicicleta na minha vida, quando fui a Friburgo. E é exercício, passeio, junta todo mundo e vamos passear. E fiz o compacto, que pegou uma carona no sucesso do Estrelar. Tanto que se você pegar minha trajetória no Chacrinha, eu emendava uma semana lá com Estrelar e outra com Bicicleta. O Chacrinha chegou a fazer um clipe, comigo e com as Chacretes na Praia do Pepino. Ele adorava a música, gostava de dar ideias.
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Cultura Pop
Qual é a do The Coverups, banda de covers de Billie Joe (Green Day) e amigos?

Antes de Bruce Dickinson, cantor do Iron Maiden, aparecer de surpresa no palco em Québec, o The Coverups já dava muitos sinais de vida havia anos. O projeto paralelo de Billie Joe Armstrong continua funcionando exatamente como nasceu: como uma desculpa para tocar músicas que seus integrantes amam, sem a pressão de lançar discos ou sair em turnê.
Criado em 2018, o grupo reúne integrantes e colaboradores do Green Day em apresentações pequenas, normalmente em clubes da Califórnia. A formação original contava com Billie Joe Armstrong (voz e guitarra), Mike Dirnt (baixo e voz), Jason White (guitarra), Bill Schneider (baixo) e Chris Dugan (bateria) – Mike e Jason são os únicos que fazem parte também do Green Day, sendo que Jason atua como músico de turnê. Nos últimos anos, porém, Dirnt deixou de participar dos shows, e o The Coverups passou a atuar como quarteto.
O repertório é uma carta de amor ao rock e ao punk. Clássicos de Ramones, David Bowie, The Clash, Cheap Trick, Joan Jett, Tom Petty, Misfits, Nirvana, Rolling Stones e até Strokes costumam aparecer nas apresentações, que muitas vezes são anunciadas poucas horas antes de acontecer. Diferentemente de outros projetos paralelos de Billie Joe, como Foxboro Hot Tubs e The Longshot, o The Coverups nunca teve a intenção de gravar músicas próprias. A proposta é apenas revisitar clássicos em um ambiente intimista, recriando um pouco da atmosfera dos primeiros dias do Green Day nos clubes da região de Berkeley e Oakland.
Mesmo sem lançar um único álbum de estúdio, a banda conquistou um público fiel justamente por isso: oferece a rara oportunidade de ver Billie Joe tocando as músicas que ajudaram a moldar sua formação musical, longe das grandes produções e da rotina de estádios do Green Day.
Nos últimos meses, o The Coverups voltou a fazer apresentações esporádicas na Califórnia, mantendo esse espírito despretensioso. Não havia qualquer indicação de mudanças de rumo, nem anúncios de gravações ou turnês. A maior novidade acabou sendo justamente a participação-surpresa de Bruce Dickinson em um show realizado em Québec. Sem aviso prévio, o vocalista do Iron Maiden subiu ao palco para cantar All the young dudes, clássico do Mott the Hoople escrito por David Bowie, num encontro improvável que reuniu dois dos nomes mais conhecidos do rock em um contexto bastante informal.
Houve uma outra novidade recente, que rolou durante o show da banda no Roxy, na Califórnia, dia 21, uma segunda-feira. Antes de tocar Drain you, clássico do Nirvana (do disco Nevermind, de 1991), Armstrong dedicou a música a Jennifer Finch, baixista do L7, que morreu recentemente. Antes, Adrienne Armstrong, esposa do músico, havia doado US$ 5 mil para uma campanha criada para ajudar a custear o tratamento de Finch.
De qualquer jeito, Bruce fi a primeira participação especial de grande repercussão na história recente do The Coverups e, naturalmente, chamou muito mais atenção do que os próprios shows da banda. Ainda assim, tudo indica que o projeto continuará exatamente como sempre foi: um grupo de amigos reunidos para tocar os discos que mudaram suas vidas, sem maiores pretensões além da diversão.
Ah, sim: importante falar que All the young dudes faz parte do repertório solo de Bruce há bastante tempo. Ele a havia regravado em seu primeiro álbum solo, Tattoed millionaire, de 1990. Na época, teve até clipe da faixa.
Foto: Reprodução Internet
Cultura Pop
Qual é a dos dois discos novos de Lana Del Rey?

Lana Del Rey passou tanto tempo adiando e reformulando o próximo álbum que já dava para imaginar que ele nunca chegaria. Primeiro era Lasso. Depois virou The right person will stay. Em seguida apareceu como Stove. Agora a cantora resolveu complicar um pouco mais o roteiro: além de Stove, ela diz que também está preparando um segundo álbum inédito.
A novidade surgiu em uma publicação no Instagram, onde Lana contou que o disco extra nasceu durante o mesmo processo criativo do sucessor de Did you know that there’s a tunnel under Ocean Blvd. Segundo ela, o novo trabalho funciona como uma espécie de “companion album”, desenvolvido quase ao mesmo tempo que Stove.
- Os bastidores do raro Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, que ganha lançamento oficial
A cantora também afirmou que esse segundo disco surgiu das transformações pessoais e criativas que viveu nos últimos quatro anos, funcionando como uma espécie de contraponto ao álbum principal. Se tudo correr como planejado — e essa ressalva é indispensável quando o assunto é cronograma de Lana Del Rey — os dois discos devem ficar prontos em cerca de um mês para seguir para a prensagem em vinil.
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Ela também afirmou que ambos já têm capas prontas e descreveu os projetos como algumas das obras de que mais se orgulha. O álbum principal, Stove, continua reunindo os singles Henry, come on, Bluebird e White feather hawk tail deer hunter, além de outras músicas que ela vem mostrando ao vivo nos últimos meses. Tudo indica que First light, single lançado como single da trilha sonora do jogo 007 First Light, escrito em parceria com David Arnold, é só um projeto à parte e não estará no disco.
Embora Lana ainda não tenha confirmado um título para o álbum companheiro, fãs passaram a chamá-lo de Spyda após identificarem esse nome em uma das artes divulgadas pela cantora nas redes sociais (aliás, no Reddit, tem fãs reclamando que a imprensa tá caindo rapidamente numa suposição deles mesmos, os fãs)
Ainda não há datas de lançamento para nenhum dos dois discos. Mas, considerando o histórico recente da cantora, talvez seja prudente evitar tatuar qualquer título no braço até que eles realmente apareçam nas plataformas de streaming. Afinal, se um álbum já mudou de nome três vezes antes de nascer, nada impede que um quarto nome apareça antes do play.
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Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.
Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.
Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.
O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.
Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.
Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.
Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.
Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.
A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.
Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.
E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.
Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.
Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.
Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.
Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.
Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.
Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.
Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.
O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.
O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!
Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.
Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).
Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.
A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.
Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.
Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.
Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.
Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.








































