Never mind the bollocks, disco único dos Sex Pistols, foi lançado na Espanha em 1977 – um ano antes de sair no Brasil, inclusive. Após a morte do ditador espanhol Francisco Franco em 1975, o reino caminhava para a democracia, com direito à aprovação de uma nova Constituição (em 1978). Mas o clima por lá continuava mais punk impossível, com a existência de movimentos radicais e tentativas de golpe militar.

E, sabe-se lá se por causa do clima tumultuado da Espanha, tinha uma turma grande querendo ouvir os Sex Pistols por lá. Tanto que em 1978 uma gravadora espanhola chamada Nevada, especializada em discos de covers de sucessos, decidiu soltar um disco chamado Los exitos de Sex Pistols, creditado a uma banda chamada Los Punk Rockers. Olha aí a capa.

O álbum, com uma garota com visual de motociclista na capa, ainda tinha o aviso “contém God save the Queen“. Não continha só God save the queen, continha todo o disco Never mind the bollocks regravado na ordem (isso seguindo a edição mais conhecida do disco, com doze músicas, incluindo Sub-mission) pelos tais Los Punk Rockers.

Não foi só o disco dos Sex Pistols que saiu pela coleção. Álbuns de Julio Iglesias, de grandes hits mundiais (no estilo da K-Tel), LPs de poesia falada e até fofíssimos discos infantis também faziam parte da série. Vale lembrar que naquela época, álbuns vendidos a preços baratos, que traziam hits regravados, eram popularíssimos no mundo todo. Inclusive no Brasil. Falamos certa vez disso aqui e aqui.

O site Shit-Fi, cujos textos são basicamente sobre discos malucos, estranhos ou ruins, falou sobre o álbum e revelou algumas curiosidades nesse texto aqui (em inglês). O disco foi lançado também em fita K7, era facilmente encontrado em supermercados e lojinhas de beira de estrada (coisa típica de lançamento ilegal, rentável mas “escondido”). E tem fãs a ponto de ter ganhado uma reedição bootleg em 2014. Por outro lado, o LP original é tão raro que, ao ser vendido numa loja em Barcelona em 2007, provocou espanto no dono do estabelecimento: era o primeiro exemplar que ele via em mais de uma década.

“Mas e aí, como é que eu faço para ouvir esse disco? O som é legal?”, você deve estar querendo saber. Uma pergunta de cada vez: dá para o álbum no YouTube, sim. Quanto ao som: é como se o disco dos Sex Pistols fosse regravado por aquelas bandas brasileiras dos anos 1960, começo dos 1970, que volta e meia são classificadas como “psych-fuzz” ou “proto-punks” em catálogos ou lojinhas de discos raros. Ou imagine ouvir Holidays in the sun tocada por uma banda powerpop bem fraquinha, com um vocalista que se comunica num inglês rudimentar.

Olha a anarquia na Espanha pós-ditadura aí. Sim, parece a Vovó Mafalda cantando.

Não dá pra negar: a releitura de Pretty vacant conseguiu superar o modelo em termos de estética punk. Se você acha difícil entender o sotaque classe-operária de Johnny Rotten no disco do Sex Pistols, aqui a coisa piora um pouco.

Finalmente, God save the Queen.

Aliás pega logo aí todo o disco, que alguém jogou numa playlist do YouTube.

Na contracapa de Los exitos de Sex Pistols não há crédito pra nenhum músico. Rola um boato nunca confirmado de que o Asfalto, uma conhecidíssima banda progressiva da Espanha, teria gravado o disco em seu comecinho de carreira. Sex Pistols não tinha nada a ver com o som deles, lógico. Mas boa parte da suspeita vem pelo fato de em 1976, eles terem gravado uma Homenaje a The Beatles. E aí, será?

Via Reprobate Magazine.