Nunca tinha ouvido falar do Drunk Dial? Vamos lá: lembra quando o Black Sabbath pôs no encarte de Black Sabbath vol. 4 (1972) um agradecimento à “grande indústria da coca de Los Angeles”? Ou dos Mutantes, no mesmo ano, agradecendo aos efeitos da maconha em Mutantes e seus cometas no país do Baurets?

Pois agora existe uma gravadora ideal para esse tipo de lançamento em que os músicos perdem a linha entre uma gravação e outra. Ou melhor: a perdeção de linha é uma das matrizes da Drunk Dial, selo de Portland (EUA) especializado em levar artistas para o estúdio, enchê-los de qualquer substância (legal ou ilegal) que os deixe fora de órbita e, a partir disso, gravar discos dessa turma.

Até agora, foram apenas quatro compactos, das bandas Ghost Ring, Eskare, The Hound Of Love, Billy August & The Monarchy. Na contracapa dos disquinhos, um aviso: “Essas músicas foram gravadas sob o efeito de bebidas, mezcal em pequenos lotes, um estojo de cerveja, maconha sem fim e muitos cogumelos alucinógenos”.

Parece uma ideia bastante arriscada, e é. O fundador do selo, Jordan Stamm, bateu um papo com o New Musical Express e disse que no começo, parecia uma ideia de merda, que ele teve durante uma conversa de bar. E que a ideia de levar todo mundo doidão para o estúdio segue um conceito: em vez de lançar músicas que os artistas passaram meses mexendo e remexendo entre uma sessão de estúdio e outra, o Drunk Dial prefere trabalhar com material que corre o risco de ser descartado no dia seguinte.

“O que queremos é capturar as músicas que só saem na traseira de uma van de turismo, em torno de uma fogueira ou que acabariam ficando só num notebook. As bebidas e drogas são realmente os meios de chegar ao nosso destino, não a razão pela qual estamos fazendo isso”, afirmou o maluco.

E qual o método de trabalho pra isso? Jordan diz que a banda agenda uma data em que se sentirá a vontade para encher a cara ou usar suas drogas (er) preferidas no estúdio. Só na data acordada é que o trabalho começa. Os singles do selo têm uma original e uma cover. A cover pode ser ensaiada antes, o autoral tem que ser feito na doideira.

Não rola nem um preparinho antes para garantir que as coisas não vão ficar tão ruins assim? Não. “É essencial que eles não tenham escrito, praticado ou planejado a música original antes que a zoeira comece”, disse. Assim, com essa pinta de reality show do demônio, a gravadora vem fazendo seus lançamentos.

“No final do dia, seja lá o que tenha acontecido, os músicos terão uma música original e uma cover gravada, que lançaremos em vinil de 7 polegadas. Quando os discos chegam, a banda recebe a parte deles, a gravadora recebe a parte deles, e não há dinheiro, papelada ou requisitos depois disso”, afirma o chefão da gravadora.

Tem mais dois disquinhos do selo vindo aí, um deles da banda italiana Hakan, que será o sexto lançamento da Drunk Dial. “A banda quase rendeu nosso primeiro vômito no microfone”, conta Jordan. O dono do selo conta que até o momento a bagunça está relativamente sob controle. “Ainda somos convidados a voltar para todos os estúdios com os quais trabalhamos”, afirma.