Um tempo atrás me marcaram no Facebook num desses desafios de “melhores discos”. Eu decidi fazer diferente e resolvi escrever, nessa época, sobre discos controversos que, por algum motivo ou outro, eu achava que as pessoas deveriam dar uma segunda chance. Enfim, discos da discórdia (um belo dum trocadalho do carilho, enfim).

Como recentemente aqui no POP FANTASMA eu pus no ar uma série sobre lendas urbanas e umas das diretrizes editoriais (eita!) do site é fazer mais séries sobre assuntos diversos da cultura pop, resolvi transformar os textos numa série com dez álbuns que não são lá grandes campeões de aceitação por parte da crítica, mas que mereciam um pouco mais da sua atenção.

O segundo é um álbum que, quando saiu, deixou muitos fãs de uma certa banda clássica de nariz torcido…

O ROLÊ DO LED ZEPPELIN COM “IN THROUGH THE OUTDOOR” (1979)

O segundo disco da nossa série foi lançado com seis versões diferentes de capa (!), todas cobertas por um papel pardo quando o LP chegou às lojas. In through the outdoor (1979) é o oitavo e último disco do Led Zeppelin, gravado num período de três semanas entre novembro e dezembro de 1978 no estúdio do ABBA, o Polar, em Estocolmo. Vendeu bastante e foi puxado por uma faixa que virou hit até nas FMs brasileiras, All my love. Mas está bem longe de ser unanimidade entre fãs da banda e costuma ficar sempre em último lugar em listas de “discos do Led, do pior ao melhor”. Jimmy Page, guitarrista, detestou o disco quando ouviu e achou que não representava a banda.

In through the outdoor surgiu quando o guitarrista Jimmy Page estava catatônico com a heroína e o baterista John Bonham não estava menos destruído, mas por causa do álcool. Sobrou para o vocalista Robert Plant e o tecladista e baixista John Paul Jones tomarem conta do disco.

Jones estava animadíssimo com sua mais recente aquisição, um sintetizador Yamaha GX-1, e estava preparado para colocá-lo em todas as faixas do disco novo, se houvesse espaço. Jimmy Page, mesmo chumbado por causa de drogas, produziu o álbum e ainda apresentou seu mais novo brinquedinho, o Gizmo – dispositivo de efeitos para guitarra e baixo, patenteado por Kevin Godley e Lol Creme, do 10cc. É o som que você ouve logo na abertura do LP, com In the evening.

JIMMY PAGE, FAÇA ALGUMA COISA!

Pela primeira vez na história do Led Zeppelin, a banda trazia num disco músicas que não tiveram a participação de Jimmy Page como compositor – uma delas justamente o hit All my love. E por ser um disco no qual a presença de John Paul Jones foi intensa, In through é cheio de teclados. E mostra que a banda não tinha passado batida por duas ondas do fim dos anos 1970, começo dos 1980: 1) o rock sintetizado; 2) o rebote do rock progressivo, que foi gerando gradativamente bandas como Saga, Asia, a fase “de rádio” do Genesis, o namoro do Yes com a new wave, Pink Floyd unindo gregos e troianos no rock, etc.

E olha só que interessante: o Led, durante as gravações do disco, se aproximou um pouquinho do punk. Afinal, Wearing and tearing, a música mais suja da história da banda, foi gravada nas mesmas sessões de In through the outdoor (mas só sairia no “póstumo” Coda, de 1982).

Se você for escutar o disco, sugerimos foco na audição da sombria In the evening, que abre o álbum, da animada Fool in the rain (que se transforma num samba de gringo lá pela metade) e da simpática South Bound Saurez. Por outro lado, os dez minutos de Carouselambra (que abrem com uma espécie de forró sintetizado) são para serem escutados com paciência de santo. All my love você com certeza já ouviu, a tristonha I’m gonna crawl é meio pé no saco e a curtinha Hot dog… Bom, Hot dog até que é legal.

PAGE NO BRASIL

Uma história de In through the outdoor é que, no meio da divulgação desse disco, Jimmy Page foi fazer um detox nas ilhas do Caribe com a mulher, e viajou para o Brasil. Acabou indo ao Rio, numa visita que não rendeu show nenhum, mas deu em alguns passeios pela cidade (por sinal, em breve sai o livro Jimmy Page no Brasil, de Leandro Souto Maior, só sobre o relacionamento do guitarrista com a terra descoberta por Cabral – falamos dele aqui).

Pega aí.

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