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Como? Você nunca ouviu falar do Gin Lady?

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Gin Lady

A banda sueca Gin Lady está lançando seu quarto disco, Eletric Earth. Se você está se perguntando “e eu com isso?”, volte três casas e ouça o álbum. Tá aí embaixo.

Vai aí o aviso: se você tem paixão pelos Rolling Stones do comecinho dos anos 1970 – da fase em que Mick Taylor dividia as guitarras com Keith Richards e o grupo se tornou enfim a maior banda de rock do mundo – e pela fase inicial de Alice Cooper, você TEM que ouvir o disco do Gin Lady. Que é uma banda que permanece ainda desconhecida para muita gente, já que costuma rolar pouca informação sobre eles na web (não achei vídeos ao vivo no YouTube, por exemplo, nem entrevistas)

O grupo de Magnus Kamebro (vocais), Joakim Karlsson (guitarra e vocais), Anthon Johansson (baixo e vocais) e Fredrik Normark (bateria) tem influências desse pessoal aí (Alice, Stones), e ainda cita grupos como The Faces, Cream, Blue Öyster Cult. Outra grande preferência dos rapazes é um grupo que provavelmente você não conhece: o Master’s Apprentice, clássico sessentista da psicodelia australiana, considerado por muitos uma espécie de Pink Floyd/The Pretty Things local.

O primeiro single do disco é uma balada – não é a melhor música do disco, em nossa opinião – que poderia estar no Sticky fingers, dos Rolling Stones (1971), Rolling thunder.

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Já esse clássico hippie de 2017, Flower people, é bem melhor.

https://www.youtube.com/watch?v=zCUj6A4WKT0

Fora esse som de seis minutos que parece uma sobra do Hot Tuna, Brothers of the canyon.

https://www.youtube.com/watch?v=76K5N8GoakI

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Electric Earth saiu pelo selo Kozmic Artifacts e até o momento só tenho notícia de edição em vinil (além do formato digital em streaming e Bandcamp). Se você ficar maluco pelo som e quiser comprar o disco, vá aqui.

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Marthe Sessions: apresentando o novo som do Piauí

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O Marthe Festival teve três edições físicas entre 2017 e 2019, com mais de 50 apresentações musicais em mais de dez espaços de Cultura de Teresina (Piauí). O evento volta em edição de bolso neste fim de semana, e – por causa do aumento de casos na pandemia – rola apenas online. O Marthe Sessions vai trazer cinco nomes da região: Bia e Os Becks, Caju Pinga Fogo, Florais da Terra Quente, Monte Imerso e Narcoliricista.

A ideia é ocupar espaços: no sábado (22, meio-dia) e no domingo (23, ás 15h) o evento rola em pré-estreia na TV Assembleia. A gravadora Hominis Canidae Rec, realizadora do evento, vai transmitir tudo no dia 29 em seu canal do YouTube. Além disso, vão sair EPs ao vivo com as apresentações, igualmente distribuídos pelo selo em todas as plataformas.

Batemos um papo com Diego Pessoa, produtor do evento, e ele contou um pouco pro Pop Fantasma o que tá vindo aí – e quais são os planos para esse 2022 ainda repleto de dúvidas seríssimas, ainda mais na área da cultura.

Como tá sendo fazer o Marthe Sessions online e como foi o preparo para isso?

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Tá sendo uma parada muito mais cinema do que evento e música/ festival. O projeto é uma ideia até anterior a pandemia, mas o projeto era bem mais modesto do que acabou acontecendo agora. Sempre achei que seria interessante registrar em vídeos artistas daqui, inclusive em performances ao vivo realmente, nos espaços que fui nas vezes que vim aqui em Teresina antes de morar. Rolavam uns lances bem interessantes que surgiam meio que do nada.

Com a pandemia, bolei o projeto no intuito de apresentar um pouco da nova cena piauiense para o Brasil e também mostrar um ponto turístico ou um espaço bonito de Teresina pra quem é de fora e por que não da cidade. Teresina é extremamente espalhada, os moradores daqui nem sempre conhecem todos os espaços da cidade, então na minha cabeça era a forma de eu conhecer espaços e apresentar. Foi aí que surgiu o Parque da Cidade, um lugar enorme e arborizado que no dia lá da session, descobri que várias pessoas estavam indo lá pela primeira vez ou não iam lá a muitos anos. É um lugar que está meio abandonado pela população e pelo poder público, que eu espero que volte a ser mais vivo.

Houve um momento em que se acreditava, no fim do ano, que os eventos presenciais iriam voltar com força total, etc. Como estavam os planos de vocês nessa época? Havia a ideia de fazer uma edição presencial das sessions?

Eu sou biólogo e pesquisei e trabalhei com doenças virais durante boa parte da minha graduação e toda minha pós-graduação. Atrelado a isso, sempre estive envolvido com cultura, seja consumindo e indo em eventos ou produzindo. Eu estou trabalhando full produção cultural / jornalismo cultural desde o final de 2016/ início de 2017 quando vim morar por aqui em Teresina, então estou um pouco enferrujado na parte científica. Mas com a pandemia, comecei a ler diversos artigos no NCBI (Banco de dados internacional que era aberto na universidades de todo o brasil, por conta o governo Dilma), e a capacidade de se espalhar e de gerar novas cepas dessa doença eram bem impressionantes. Então juntando isso e o fato de que a cultura sempre é colocada de lado no Brasil, mais ainda em um período de governo acultural e não científico, nunca estive esperançoso nessa volta com força total.

Viveremos em ondas, acredito que é um momento para fortalecer cenas locais, e acho que será assim nesse ano e talvez no próximo, tudo para conter essa violência extrema do Covid. Então são shows pequenos, com artistas locais ou da região, exatamente para não ter uma bolha tão extensa. Eu acredito nisso e era nesse sentido que estava pensando fazer eventos nesse período de pandemia e pós.

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O Marthe teve três edições físicas e todas as bandas que estão nesse projeto já se apresentaram na mostra em algum dos anos.

Qual o conceito do Marthe Festival? O que vocês tinham em mente quando o evento foi montado?

O Marthe Festival surgiu em 2017, quando comecei a me inserir na cena cultural da cidade como morador. Tinha chegado em Teresina em Outubro de 2016 e após virar o ano, comecei a fazer contato com pessoas que já conhecia aqui por conta do Hominis ou pelo fato de ter vindo aqui algumas vezes antes de vir para morar. Como falei, a cidade aqui é bem espalhada e grande, existem diversas cenas (sonoras e regionalizadas) distintas. A ideia era unir linguagens sonoras diferentes no mesmo palco. E não só musical, mas expandir para outros tipos de artes e se espalhar pela cidade.

Como eu tinha contato com o pessoal que organizava o Dia da Música e já tinha realizado palco dentro do evento, resolvi inserir a Marthe como sendo o primeiro palco do Dia da Música no estado do Piauí. O primeiro ano foi um palco no Espaço Cultural Noé Mendes, que fica na Universidade Federal do Piauí, com entrada franca e conseguimos apoio com a prefeitura de Teresina na época. Foram 10 shows com bandas de Teresina, Parnaíba (cidade do litoral do Piauí), Fortaleza e João Pessoa.

Em 2018, tivemos apoio da Prefeitura para palco e som do festival, mas zero apoio financeiro e mesmo assim tivemos o festival com diversas bandas de diversos estilos da cidade, 2 oficinas e palestras gratuitas, uma exposição da artista que fez a arte daquele ano e uma mostra de cinema e música. Tudo de graça com doação de quilos de alimento.

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Em 2019 tivemos o nosso primeiro edital, que nos garantiu uma verba de R$ 35 mil reais que foi aplicada na realização de shows em vários espaços de Teresina, com bandas que nunca tinham passado pela cidade como Rakta, Curumim, Guitarrada Das Manas, niLL, Dj Buck, MC Nabru, Jair Naves, Lupe de Lupe, D_M_G, em pelo menos 5 palcos diferentes, se misturando com vários artistas locais e realizando palestras, oficinas e ações gratuitas nesse período, além dos shows com preços simbólicos. A ideia em 2019 foi abrir as portas da cidade para as bandas de fora e também tentar fazer mais bandas daqui conseguirem ir para fora, quebrando essa barreira geográfica. Infelizmente a pandemia atrapalhou tudo, mas surtiu efeito o evento a ponto da gente ter planejado algumas tours pelo nordeste e apresentação na cidade com 4 atrações que nunca tinham vindo aqui no primeiro semestre de 2020, o que obviamente não rolou.

Agora não sabemos se iremos voltar a fazer shows um dia, até por que não sabemos se temos condições de realizar isso.

Como foram selecionadas as bandas dessa session?

Eu gosto muito da proposta das 5 atrações da sessão. Gosto do som, gosto delas ao vivo, acho a mistura interessante e são projetos plurais e que mostram um pouco da identidade cultural do piauí e da mistura de som que é essa cidade. Monte Imerso é um indie rock psicodélico lo-fi aqui do bairro onde moro em Teresina, meninos jovens e cheios de talento. A Florais da Terra Quente é um coletivo de jovens artistas e músicos que escrevem e compõe muito bem e bebem na música regional e brasileira de outros tempos.

O Narcoliricista é meu MC favorito aqui do Piauí, tem uma marra bem hip hop, com uma sonoridade mais boom-bap que eu gosto mais e com boas letras e performance de palco. A banda de Pífanos Caju Pinga fogo é um pouco mais antiga que as anteriores e um dos caras da banda sempre esteve envolvido nos corres da Marthe nos outros anos. Fora que ao vivo é muito legal a mistura de regionalismo com modernidade que eles impõem, mesmo usando elementos tradicionais como pífano, rabeca e percussão. A Bia e os Becks tem dez anos de rolê já e só melhoram a cada apresentação que eu vejo. O som é bem pop e dançante, bem agitado ao vivo, então casou bem com o balanço da proposta.

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A ideia era ter três atrações a mais, mas não sabia que o edital da Aldir Blanc de Teresina iria ter o corte total de imposto de renda de 25% do projeto, então tivemos um corte substancial no valor solicitado para proposta e reduzimos algumas ações. Mas tá bonito do mesmo jeito.

A ideia do evento é poder trabalhar com todas as plataformas? Vai rolar exibição na TV, no YouTube, EPs ao vivo.

Sim, a ideia é trabalhar o máximo de plataformas possíveis. Por que a ideia é divulgar a música autoral piauiense para o máximo de pessoas possíveis. Conseguimos colocar a session na TV Assembleia, numa pré-estreia em 2 datas para todo o Piauí na TV aberta. No sábado (22 de Janeiro), meio dia e no domingo (23), às 15h. Depois, o projeto será lançado dia 29 de Janeiro, às 20h, no canal do Youtube do Hominis Canidae. E em fevereiro iremos disponibilizar os sons que foram gravados por canais de forma profissional, mas mantendo aquela vibe que eu adoro de bootleg ao vivo em todos os streams pelo selo Hominis Canidae REC. Um EP de 3 faixas de cada uma das bandas, pra mais gente consumir a música piauiense no máximo de locais possíveis. Eu queria passar no cinema também, mas infelizmente não rola aglomerar no ar condicionado no momento.

Algum plano para 2022? Como estão as movimentações para o evento neste ano?

Por enquanto é trabalhar a session e sentir o terreno cultural brasileiro esse ano, mês a mês, semestre a semestre, com a ideia de shows menores e com atrações mais regionalizadas se possível. Aproveitar que é ano de eleição pra tentar fazer o país voltar para um momento mais cultural e humano e seguir se vacinando, mantendo a saúde em dia. É o que dá pra fazer e pensar no momento. E tentar pagar as contas e viver nesse momento distópico do Brasil, onde o problema é mais politico do que pandêmico, infelizmente. Mas bora mudar no voto esse ano, assim espero.

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Cultura Pop

Coisas que Elza Soares me disse

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Coisas que Elza Soares me disse

Eu não tenho guardados, infelizmente, os áudios das entrevistas que fiz com Elza Soares na época em que eu trabalhava no jornal O Dia. No dia a dia de uma redação, muita coisa é feita por telefone e se perde – até porque qualquer pessoa que já trabalhou em redação sabe o quanto o trabalho é pesado, com várias entrevistas ao longo do dia, muito material que vai sendo jogado para HDs externos, etc.

Quem entrevistou Elza se recorda de uma coisa: ela gostava de falar. O apresentador e jornalista Zeca Camargo me contou – quando o entrevistei para conversar sobre a biografia que ele escreveu sobre dela, Elza – que tinha em seu smartphone cerca de “53 horas” de conversa com a cantora. Eram fatos nunca revelados, como seu breve namoro com as drogas durante os anos 1980, além de muitas histórias sobre seu relacionamento com o jogador Mané Garrincha. E o sempre atento Zeca notou uma coisa a respeito de Elza: a vida da cantora era como um videogame. “Sempre tem uma fase nova, com novos desafios”, contou.

Nas vezes em que entrevistei Elza, fui surpreendido com uma peculiaridade da fala dela: era rápida, e ficava mais rápida ainda quando ela se animava com algum assunto, ou quando se indignava com alguma coisa. Eu sempre fui um entrevistador que vai direto ao assunto. Essa minha característica rendeu bem com ela: a simples menção de alguns nomes, ou de palavras como “machismo” e “racismo”, já fazia com que ela dissesse as frases mais veementes, desse as declarações mais interessantes e falasse bastante. Sendo que cada lembrança, cada fala, cada entrevista, era um aprendizado.

E nada melhor do que ouvir Elza para homenageá-la. E não apenas sua música, mas também tudo o que ela, com vários anos de música, de vivência, de sofrimento, tinha a dizer. Também era adorável observar o carinho e a dedicação com que ela encarava sua música, e a produção de arte num país tão estranho como o Brasil. Nos últimos anos, os discos de Elza eram norteados pela escolha de canções com letras fortes e críticas. Era proposital: ela queria dar voz a uma série de pessoas em situação de vulnerabilidade, e queria produzir eco.

Seguem aí algumas coisas que Elza Soares me contou em algumas entrevistas. Em tempo: o bate papo mais inusitado que tive com ela foi num Prêmio da Música Brasileira, no momento em que repórteres e fotógrafos esperavam pela saída triunfal de Ivete Sangalo. Elza, com quem eu nunca havia me encontrado na vida, passava por ali, simplesmente me cutucou e perguntou “oi, vocês estão esperando quem?”. Parei tudo imediatamente para conversar com ela – uns dez minutos de papo sobre o prêmio – e mandei a conversa para os editores do online. Deve ter sido a entrevista mais surpreendente da minha vida.

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E é isso. Obrigado pela música e pela história, Elza Soares (foto: Stephane Murnier/Divulgação)

“Todo mundo está aqui para fazer uma coisa. Meti na cabeça que vim não para deixar uma marca no mundo, mas uma mancha! Abri uma porta para entrar. Tem sempre que dizer ‘sou boa, sou maravilhosa’, bota isso na cabeça. Olha no espelho e ri para você mesmo, faz alguma coisa. Tem que ter fé, acreditar!”

“Você viu essa história de um funcionário de um bar na Tijuca, negro, que ganhou uma banana do gerente? Tinham que inventar uma vacina contra o racismo! Luto desde sempre contra o preconceito, acreditando em mim, brigando. Levei muita porrada”.

“Gravei Pra fuder (do Kiko Dinucci), mas acho que hoje em dia isso nem choca ninguém, sabe? ‘Fuder’ não pode ser mais feio que desemprego, fome”.

“Maria da Vila Matilde é uma denúncia. Os homens têm que aprender que respeito é bom e a gente gosta. A mulher precisa ser mais amiga da mulher. Elas não têm solidariedade, vivem competindo. É estranho isso. Conto nos dedos quantas amigas mulheres eu tenho. E com quase todas as mulheres isso acontece”.

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Perguntei a Elza sobre a vez em que ela apareceu no programa Calouros em desfile, do Ary Barroso, e foi sacaneada pelo apresentador. Apareceu no palco da atração com um vestido vários números maior, remendado com alfinetes, além de várias marias-chiquinha. Foi recepcionada por ele com um “de que planeta você veio, minha filha?”, e ele respondeu: “Do Planeta Fome, seu Ary”.

Como eu havia conversado antes com ela sobre os programas musicais de TV da década passada (SuperStar, The Voice Brasil, os quais ela dizia não acompanhar), lembrei a ela que a Susan Boyle, candidata do programa Britain’s got talent, havia também sido ridicularizada no palco, por apresentadores e jurados. “Lembro da Susan Boyle. Ela canta pra caramba, calou a boca de todo mundo no programa, né? É a tal discriminação, a pessoa nem conhece e já sai discriminando. E depois eu encontrei o Ary. Ele foi me ver ao vivo e queria mudar o meu nome. Dizia: ‘Esse negócio de Elza não vai dar certo!’”

“Em alguns momentos da minha carreira (nos períodos de baixa), eu hibernava. Às vezes, é bom estar invisível, porque você leva muita pedrada. Quando você está invisível, a pedra passa distante”.

Em junho de 2018, falei com ela sobre o disco Deus é mulher, que ela acabara de lançar. E ela dizia que as letras eram fator determinante para ela escolher repertório. “Eu passo noite e dia pensando no que quero dizer para quem quer me ouvir, para esse povo que me elegeu como cantora. Quero o melhor para o meu país, me orgulho muito de ser brasileira e sofro de ver o país da maneira que está. Acabou o amor, acabou a dignidade. Meu momento é de parar pra pensar se tenho algo a fazer também, para ajudar”.

“Não quero só ter voz, quero eco. uma andorinha só não faz verão. Gostaria que todo o povo brasileiro tivesse esse momento de ter voz, de falar. O povo está dormindo! Que sono é esse, meu Deus? Vamos acordar. Vê só essa greve dos caminhoneiros, em que ninguém falou nada”.

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“As mulheres estão falando mais, sabem da violência que acontece com elas. Vê só essa morte da Marielle Franco, que coisa estúpida. E não pode parar de falar nisso não, mesmo na Copa do Mundo. Tem que falar, não pode esquecer, não pode deixar de falar sempre”.

“Não sei se minha música atual é samba-punk ou até samba-funk. Sei que é música de qualidade e que tem conteúdo”.

“Deus é mãe, Deus é mãe. Esse país tá precisando de um pouco de colo de mãe. A gente está precisando dar colo para esse país, porque ele tá muito abandonado. Fico muito furiosa não porque penso no futuro, mas porque penso no presente do país. Até hoje se fala que o Brasil é o país do futuro, mas o Brasil tinha que ser o país do presente”.

“Quem faz arte quer sempre fazer uma coisa de valor, que valha a pena”.

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Um papo com Júlio Andrade (Baggios) sobre Tupã-Rá, Nordeste, política e esperança em 2022

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Um papo com Júlio Andrade (Baggios) sobre Tupã-Rá, Nordeste, política e esperança em 2022

Fato: Tupã-Rá, quinto disco de estúdio da banda The Baggios, é um dos melhores álbuns de 2021. Gabriel Perninha (bateria), Júlio Andrade (voz e guitarra) e Rafael Ramos (piano, órgão e baixo), vindos do Sergipe, deram outras dimensões, bem mais variadas, ao termo “rock brasileiro”. Isso rolou em escolhas musicais, como em faixas como Chegança, Clareia trevas e Avia menino!. E também, claro, nos temas das letras, como a overdose de lucidez e protesto de Espelho negro e Barra pesada, essa com participação de Cátia de França e Chico César. No geral, um disco pesado, variado, esperançoso e muito bonito.

Em dezembro, batemos um papo com Julio – cuja carreira solo rendeu uma estreia excelente em 2020, Ikê maré, que assinou usando o apelido Julico. Na época do papo com o guitarrista, a banda estava lançando o novo disco, ocupada em divulgar as músicas e já estava botando um pouco a cabeça para fora, após quase dois anos de isolamento. De lá para cá, saiu até um single novo, Brilhou, feat com a Ferve.

Como está sendo pra vocês lançar um disco bastante esperançoso numa época tão bizarra e perversa como a que estamos vivendo no Brasil atualmente?

Então, acho que a música vem como uma forma até de bater de frente com a realidade, muitas vezes. E como a nossa fase já é muito difícil, já é um momento muito delicado de lidar, que mexe muito com nossa cabeça, nossa auto-estima, nossa esperança… Quis ir pelo caminho contrário, até para me animar também (rindo). A música acaba sendo uma forma de terapia em plena pandemia. Escolhi as músicas mais pra frente, dançantes, vibrantes, justamente por isso. Quis contrastar mesmo com esse momento e não mergulhar nesse breu que a pandemia e o atual governo vêm trazendo pra gente. E pra mim foi muito satisfatório foi muito prazeroso conseguir ter feito isso, fugir dessa névoa obscura e entrar no portal do Tupã-Rá.

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A ideia de encerrar a trilogia iniciada com Brutown com um som mais “pra cima” já vinha de antes ou foi algo que veio por uma observação de vocês, dos tempos em que estamos vivendo? Aliás, vale observar que o clima do disco é bem alegre, mas as novas letras vêm carregadas de denúncias, como a letra de Espelho negro

É curioso porque só agora me dei conta que Sun Rá, última música do disco, é a última música de uma trilogia, que é algo que já vinha do Brutown, mas a gente não aproveitou nem no Brutown nem no Vulcão. São coisas que acontecem sem a gente perceber, se você não citasse nem iria reparar muito nesse detalhe.  Não é pensado o repertório do começo ao fim quando estou compondo. Penso nas nuances, na narrativa do álbum.

O lado A tem uma coisa mais crítica, com esse tom ainda do Brutown, mas um pouco da introspecção do Vulcão. O lado B é mais solar, mais resolvido, mais prafrentex, dançante, temas um pouco mais leves… As músicas têm uma coisa leve, mas tem realmente Espelho negro, que fala de desigualdade, racismo.

E tem Barra pesada, que fala de um tema um pouco mais ligado a esse lance da desigualdade, da ganância do homem. Aqui onde eu moro era uma ilha de pescadores que virou um ponto turístico, e virou a chave, porque os nativos viraram empregados dos grandes empresários. Isso acontece em vários lugares do Brasil, não só no lugar que me inspirou, que foi Barra Grande. Mas eu percebi também que vários outros lugares se tornaram algo similar. Isso pode ser relacionado a um garimpo, a um outro tipo de empresa que envolve esse tipo de exploração.

Digaê foi a primeira música composta à distância? Como foi compor assim?

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É a música mais diferentona do álbum, mas você vê que devido a essa personalidade de cada um impressa ali na música… O Gabriel tinha um groove de bateria de estudo dele, e eu comecei a provocar os caras, porque são ótimos músicos, mas a gente nunca tinha composto uma música juntos, assim do zero. Eu sempre chegava com uma composição semipronta. A gente fez duas outras músicas e só entrou uma nesse álbum.

A partir da bateria de Perninha, o Rafa colocou o arranjo de teclado. Isso foi enviado para mim e  aqui em casa, no meu homestudio, eu montei uma canção para aquilo, picotei um pouco, coloquei texturas. E de repente a gente tinha ali uma faixa de dois minutos, troncha, que foge um pouco do som dos Baggios. Nunca nos rendemos a um segmento linear, sempre tivemos em cada disco a ideia de agregar novos ritmos e novos sons, e essa música tá aí, como uma forma de se reinventar. E foi mágico, velho, foi uma musica que surgiu de maneira mágica.

O disco leva o samba para o som de vocês, em Espelho negro. Vocês já haviam feito outras tentativas de levar o ritmo para a sonoridade dos Baggios?

O samba tem me conquistado a cada ano, sim. Eu lancei o Ikê maré, que tem muito de samba rock, samba soul, o som que era feito por Tim Maia, Di Melo, Cassiano. É um lance que me pegou em cheio. Sempre achei Tim Maia, o próprio Jorge Ben, grandes influências pra mim. Sempre foram referências sonoras, de como construir letra em português, de colocar uma verdade, uma originalidade no som. E eu tento colocá-los de alguma maneira nas minha lista de inspirações prioritárias, na música brasileira. Então naturalmente uma hora ia sair algo assim.

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Mas enfim, essa música Espelho negro, eu tenho o maior carinho por ela, por retratar um tema urgente, necessário e que tem o meu ligar de fala ali também. E ao mesmo tempo explorando uma sonoridade nova, misturando samba com baião no meio. E é um som que representa muito o que é a Baggios hoje em dia, uma representação massa do que a gente é hoje.

O disco tem uma chuva de referências legais: música de países africanos, manifestações populares… Vocês diriam que o som de vocês envolve muita pesquisa musical, ou são sonoridades e referências que sempre fizeram parte do dia a dia musical de vocês?

Tudo isso tá impregnado na gente. Afinal de contas toda música brasileira é afrodescendente no final das contas. Se você for rebobinar a fita, a gente tá sempre bebendo da fonte da música africana. Isso me fez chegar no Mali, no Deserto do Saara, para ouvir o blues do deserto, o afrobeat, a música do congo, a música da Etiópia. É uma música que tem grooves que batem com outros sons que eu curto que vêm dos Estados Unidos, da Inglaterra… E vamos conectando os pontos, a cada ano eu vou descobrindo coisas novas. Faz parte de uma pesquisa musical, mas é uma pesquisa que não tem um propósito definido, é uma pesquisa de prazer, de descobrir coisas novas. E quando chega na hora de compor, essas inspirações vão colando em mim.

Como você viu a receptividade a seu disco solo?

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O Ikê maré já me trouxe bastante felicidade de ter sido lançado (rindo). Produzir algo na pandemia não é fácil. A gente tenta se superar, nem artisticamente mas humanamente falando. Tentamos não nos deixar levar por esse clima tenso, que deixa a gente pra baixo. É uma notícia ruim atrás da outra, a gente sempre super mal representado pelo presidente, que só traz o regresso… A gente não vê o cara falar nada que traga um passo a frente, né, velho? É só caos, o cara é o senhor do caos.

O Ikê maré veio nesse tumulto, mas foi quando começou a pandemia e eu me vi com vários instrumentos. Só pensei: “Vamos lá gravar!” Foi sem muita pretensão, de ser um disco que soasse grandioso, foi algo mais caseiro. Mas foi muito boa a recepção. Todo mundo que chegou a ouvir, viu uma direção musical diferente do que a Baggios tava trazendo. Claro que minha guitarra e minha voz estão ali presentes, mas minha intenção era valorizar mais esse segmento do samba-soul, da própria soul music. Essa brasilidade não era tão explorada com a Baggios. E isso me trouxe muita realização pessoal como compositor, produtor, ver as pessoas descobrindo um disco massa ali me deixou feliz.

É comum que discos solo de integrantes de bandas sirvam para abrir os horizontes do grupo, trazer novas influências, dar uma arejada. Como foi isso com os Baggios no caso do seu disco?

Ele foi um laboratório muito positivo nesse sentido, de trazer um segmento novo para o que a Baggios costuma fazer.  Abriu mais um portal de referência musical, de produção. Acredito que a cada trabalho que eu vá fazendo paralelo, vá abrir um outro horizonte para um trabalho da Baggios, também. Ano que vem devo gravar um outro álbum solo, já tentando fugir um pouco do que foi o Tupã-Rá e trazendo outras coisas.

Para mim é um laboratório. A todo momento eu estou aprendendo coisas. Estou com meu estúdio aqui, num momento massa de desenvolvimento, de estar produzindo outros artistas sergipanos. Fico feliz de estar sendo identificado como um produtor musical, podendo contribuir com sons que fogem da minha percepção de música, do meu lugar comum. O ruim é ficar parado e venho me mantenho em movimento.

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Como foi feita a capa do disco? Houve alguma referência de alguma capa clássica?

Ela veio de um insight que eu tive, lendo uma matéria sobre o Marku Ribas, que tinha lançado um álbum pela revista Noize. Um álbum que era bem difícil de ser encontrado, porque foi um disco independente, que foi redescoberto depois de muito tempo. E aí eu tive a felicidade de comprar uma cópia pra mim. Sou muito fã dele. Soube que foi um disco trabalhado sem grana, com os brothers que tinham parceria com ele, contribuindo como músicos… Ele prensou o disco e foi vendendo de mão em mão nos shows. O Marku era um artista que tinha lançado discos muito bons nos anos 1970, zerou ali e voltou  a ser um artista independente, fazendo shows, vendendo disco dessa forma.

Isso me fez refletir muito sobre o artista independente mesmo, que muitas vezes tarda a ser descoberto. Isso me trouxe uma imagem de alto desértico na cabeça e a Baggios estaria sendo redescoberta no futuro, já com o desgaste aparente (rindo), com bastante história para contar, mas de uma maneira tardia. Eu gosto de mexer muito com imagens que tragam essa reflexão do tempo e veio esse insight junto com essa obra do Marku Ribas. Trouxe o deserto, a areia, o sair do underground, do subsolo. Foi uma forma de refletir um pouco essa redescoberta. Uma coisa que me veio também foi representar a redescoberta da música brasileira, esses artistas da vanguarda paulista, as bandas underground de rock, como Perfume Azul do Sol – que trazia muita coisa nordestina mesmo sendo de São Paulo.

E é um disco com um clima Nordeste, eu queria um clima mais árido também. Uma coisa que me lembrasse o barro. As cabeças são feitas de barro. O disco tem participações só de nordestinos, uma influência da música nordestina muito forte. É um conjunto de ideias que me veio para chegar nessa conclusão. A foto foi do Marcelinho Hora, que é um parceiro antigo nosso, fotografa a gente de dez anos pra cá e é um grande nome da fotografia sergipana.

Como surgiu a ideia de trazer Cátia de França e Chico Cesar para cantar em Barra pesada, e como foi o contato com eles?

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O contato com a Cátia de França pintou através do Ruan, que até então era o produtor dela. A gente estava no festival Psicodália em 2017, ele tinha acabado de deixar a Cátia no aeroporto, só que a gente não encontrou com ela. Ele estava precisando voltar para o festival e ele estava com a van. Oferecemos uma carona para ele, ele comentou que o show do dia anterior foi massa, que era o produtor da Cátia… E todo mundo aqui curte o trabalho dela. Ele começou a manter contato com a gente, foi num show nosso no Rio. Eu vi através dele essa possibilidade e fiquei muito feliz. Sem dúvida é a música que mais trouxe um peso de participação. Ela com Chico César foi uma participação dobrada.

Já o Chico, a gente já se encontrou algumas vezes no aeroporto, ele já tinha vindo algumas vezes para Sergipe, foi no nosso show em São Paulo. Saímos depois, conversamos bastante sobre música, vida, política e ele deixou telefone com a gente. Falei: “A hora é agora”. Tivemos em 2019 essa cartada e no final de 2020 mandei uma ideia para ele, já falando da Cátia, achando que era massa ter os dois na mesma música. Tem o lance do baião aguçado ali… mas com um rock da pesada. E ele é um ótimo instrumentista, vejo ele como um cara muito guitarreiro também! É uma referência musical.

Como surgiu Baggios encontra Siba? É uma música feita em quarteto? O nome é um “título de trabalho” que acabou ficando?

Com o Siba, desde 2017, a gente vem fazendo alguns encontros em shows. Em Vulcão (disco de 2018) já tem uma música que era mais rascunhada para fazer com ele, mas não botei para a frente porque já estava com repertorio fechado e com pouco tempo de finalizar. E acabou que ele fez participação em outro show da gente. Falei: “Nesse disco, que vai ter o Nordeste como um dos fios condutores, tem que ter o Siba!!” Ele é um ótimo poeta, letrista, guitarrista e toca rabeca.

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Lembrei da rabeca, sugeri a ele botar rabeca em vez da guitarra para ser um elemento novo. Fiz grande parte da música e separei um trecho ali – uns 40 segundos da faixa – para ele improvisar na rabeca e ficar livre para fazer os versos. Isso aconteceu com Chico também, falei que tinha um trecho da música para ele fazer o que quisesse: um poema, uma narração, qualquer coisa. Isso foi muito massa porque eles contribuíram na faixa, como letristas e arranjadores também. Eles deixaram a impressão deles com mais propriedade na faixa!

Além da própria eleição do Bolsonaro, qual foi a maior tragédia que o Brasil teve desde 2018?

Cara, eleger Bolsonaro foi a principal tragédia mesmo… De todas as coisas que aconteceram de 2018 para cá, ele tem culpa. Quando o cara foi eleito, a gente já sabia que a cultura e a  arte não iriam ser valorizadas. É um cara de extrema-direita, que vai valorizar um nicho diferente da economia, olhar menos para a desigualdade, porque economistas querem  saber de lucros, de grana, que os pobres dependam ainda mais dos ricos… Que sirvam mais para os ricos, enfim.

A fala do cara já dizia isso. Tava na testa. E aí no fim das contas, o Brasil sofreu com a ideologia do Bolsonaro. A gente não tem esperança nenhuma de melhorar nada até o fim do ano. Perdemos bastante força dos incentivos à cultura, à educação, nas vias que trariam uma força popular. Porque para essas pessoas o poder popular significa construir um inimigo. Eles não querem as pessoas mais inteligentes, consumido arte. Querem as pessoas na rédea, que sigam as leis e vontades deles. Claro que a pandemia já foi outra tragédia mais mundial, não foi só no Brasil. Mas seguimos aí nesse luto até o fim de 2022.

Nenhuma esperança mesmo em 2022?

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Em 2022 eu espero que o povo brasileiro tenha enxergado os quatro anos de regresso, e que tirem esse cara do poder. Temos muitos candidatos aí, né? O Lula para mim é uma força grande que pode tirar o Bolsonaro do poder. Deposito uma esperança grande no Lula para ele tirar esse atraso de quatro anos e botar o país no eixo novamente. Que não vire uma chacota mundial como tem sido, uma vergonha onipresente, né, velho? Onde o cara vai, ele passa vergonha, e as pessoas não valorizam. A gente tem um poder máximo na política brasileira, que é a presidência, que não representa ninguém, só aquele nicho dele. Infelizmente é isso que a gente tem para oferecer nesse momento. Mas minha esperança vai estar nas eleições desse ano.

Como está sendo esse período de retorno ao mundo “fora de casa” para vocês, como pessoas e como profissionais? Já conseguiram encontrar amigos? Os shows começaram a rolar?

Esse momento de retorno tem sido revigorante. A Baggios mesmo já tem ganhado força novamente, voltou a ensaiar, tem promessas de show, voltei a fazer show solo de voz e violão… Isso já está trazendo uma alimentação para minha alma que estava um pouco mais para baixo, mais triste. O contato com o público é revigorante. Voltamos a abraçar pessoas, a ter contato físico. A gente estava há dois anos numa jaula. Todos os que eu ando estão vacinados. Infelizmente tem quem siga outra rota. Essa coisa de não acreditar na ciência, de seguir os passos de um presidente como Bolsonaro… Mas estamos bem nesse momento. Aos poucos o disco vai chegando na galera.

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