Talvez os movimentos revolucionários fossem mais ingênuos nos anos 1990. Ou quem sabe as estações de TV tivessem menos aporrinhações e rigores com a produção. Mas imagina isso acontecendo hoje em dia. Em 1991, no antigo Matéria Prima, da TV Cultura, Serginho Groisman convidou integrantes do movimento anarcopunk para um papinho em frente às câmeras.

O programa abre com um clássico dos Sex Pistols, New York (teria mais a ver abrir a reportagem com uma música do Exploited, enfim). E logo na abertura, um dos garotos sai distribuindo panfletos entre os participantes. Serginho pede um dos panfletos e lê em frente às câmeras.

A ida dos rapazes e garotas ao programa não tinha acontecido por acaso. Pouco antes, havia acontecido lá um debate sobre brigas nos shows dos Ramones no Brasil. E alguns participantes colocaram os punks como culpados da violência. Os anarcopunks procuraram o programa e pediram para ir, como direito de resposta (“já estávamos atrás deles, mas eles não têm telefone, é tudo na base da caixa postal”, diz Groisman).

“Temos ideias anarquistas, negamos qualquer princípio de autoridade, negamos o Estado e todas as instituições que existem aí para garantir os privilégios de toda essa classe que vive às custas da gente”, diz um garoto. “Lutamos por uma revolução social que seria o fim de todos os privilégios. E abriria caminho para uma nova sociedade onde vai haver realmente solidaridade”.

Outro garoto tenta explicar as diferenças entre punks e anarcopunks. Já outro responde que o movimento “é internacionalista, lutamos por um mundo sem qualquer fronteira”, ao ouvir um questionamento de um garoto da plateia de que o movimento “é sem sentido para o Brasil” (um debate desses hoje em dia terminaria em porradaria, agressões verbais e virtuais, e gente postando vídeos lacradores, vale dizer).

“Esse lance de utopia… A burguesia chega e esclarece pra gente: ‘Não, isso aí é utopia’. A partir do momento em que eles colocam na cabeça da gente que isso aí é utopia, todo mundo vai pensando que é utopia. E não é. O povo tem a força, o povo unido tem a força. Eles colocam para a gente que isso não existe e não pode ser, e a gente começa a pensar que nem eles. A burguesia coloca que é utopia, todo mundo pensa assim e ninguém luta”, diz uma anarcopunk chamada Giana a Serginho Groisman.