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Cultura Pop

A palestra do Professor Iggy Pop

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Saiu um clipe (oficial) de "The passenger", do Iggy Pop

Em 13 de outubro 2014, a John Peel Lecture – série de palestras dadas por figuras notáveis da música e organizadas pela BBC numa homenagem ao lendário DJ britânico – recebeu ninguém menos que Iggy Pop. O ex-stooge foi o quarto palestrante do ciclo, que estreou em 2011 com ninguém menos que Pete Townshend. Para sua aula, Iggy escolheu um tema que, passados seis anos, ainda dá pulga na cama dos donos de gravadoras e fãs de música: Música livre numa sociedade capitalista.

Iggy, vale dizer, sempre foi um artista que viveu de maneira bem livre, num mercado musical acostumado a arrancar sangue de músicos e a tirar qualquer naco possível para conseguir lucro. Teve momentos de alta (a época de Lust for life, em 1977), de altíssima (o retorno pop com Blah, blah, blah, em 1985) e várias fases em que foi completamente ignorado (entre o fim dos anos 1970 e o começo dos anos 1980). Teve momentos de muita grana, oportunidades em que foi ajudado por amigos (de  David Bowie ao ex-The Doors Ray Manzarek) e situações em que ficou esquecido num canto. Ninguém mais apropriado para falar do assunto, portanto.

A palestra, caso você queira escutar, tá aí em cima, em inglês com legendas. Vale dizer que Iggy começa o papo focando no lado destrutivo do capitalismo e dizendo que isso era perceptível em ações de marketing abiloladas como a que o U2 tinha feito recentemente em parceria com a Apple – a banda e a empresa enfiaram o disco Songs of innocence (2014) nas contas de meio bilhão de assinantes do iTunes, de graça, e sem perguntar a eles se queriam. A ativação foi vista como intrusiva. “Nesse momento foi quando a merda bateu no ventilador”, disse Iggy.

O QUE ROLOU AFINAL?

Pega aí alguns momentos interessantes da palestra (alguns deles compilados pelo The Guardian).

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  • Iggy diz que trabalhou metade da sua vida de graça e que não havia outro jeito, até que os “mestres do mercado fonográfico” começassem a reclamar que ele não estava rendendo grana. Disse também que dinheiro era algo que nem tinha importância na época, porque todo mundo queria mesmo era fazer um bom disco. “Era algo que tinha força, personalidade e uma história como eu e você”, recorda.
  • Só que aí bateu a realidade. “Cheguei aos 30 e vi que minha música não só era inábil para ser lançada, como também a música tinha virado uma arte industrial. E que os caras que chegaram num ponto de excelência na indústria é que tinham como fazer essa arte”.
  • Iggy diz que “as gravadoras quase sempre estão atrás de você por tudo que você tem” e que muita gente vai esperar pra comprar você em baixa por um preço barato e, quem sabe, lucrar na alta. “Existem caras bons na indústria fonográfica, mas são os que dirigem gravadoras por amor. Igualmente, porém, existem selos independentes tão inescrupulosos quanto os piores grandes nomes”, afirma.
  • O cantor notava que boa parte do mercado naquela época vinha mesmo era da pirataria, após as gravadoras terem colocado nas lojas tudo o que podiam e não podiam em CD. “É bom para as gravadoras se ferrarem na era digital, porque tiraram proveito do artista e do consumidor quando tinham o poder”, reclamou.
  • Peraí, se a música é de graça, ninguém mais precisa pagar o artista por nada? Não é bem assim, apesar de Iggy defender que muitos lançamentos interessantes dos Stooges eram piratas. “Não é ruim oferecer escolha. O que é ruim é roubar, então ninguém precisa mais pagar ao artista por nada”, contou.
  • Os Stooges, quem diria, eram tão comunitários quanto os Novos Baianos na gestão financeira – com direito a grana guardada em clima de “saco atrás da porta”. O grupo viu na contracapa de um disco dos Doors que todo mundo da banda compunha todas as canções e decidiu adotar o mesmo sistema. “Achamos que já era uma glória fazer música, não que seríamos pagos por isso”, recorda.

Um detalhe curioso sobre o John Peel Lecture é que, um ano antes de Iggy, a palestrante era ninguém menos que Charlotte Church, a cantora de ópera pop que, em 1999, tinha feito sucesso cantando o tema de abertura da novela Terra nostra e se apresentou até no Domingão do Faustão. Charlotte falou basicamente sobre o lugar da mulher na música pop.

VEJA TAMBÉM NO POP FANTASMA:

– Como surgiu a capa de Brick by brick, de Iggy Pop
– Saiu um clipe (oficial) de The passenger, do Iggy Pop
– Iggy Pop lançando um disco obscuro na TV em 1979

Tem conteúdo extra desta e de outras matérias do POP FANTASMA em nosso Instagram.

Cinema

No podcast do POP FANTASMA, a redescoberta de Jim Morrison em 1991

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No podcast do POP FANTASMA, a redescoberta de Jim Morrison em 1991

Indo na onda do documentário Val, sobre o ator Val Kilmer, e recordando os 50 anos da morte de Jim Morrison, lembramos no nosso podcast, o POP FANTASMA DOCUMENTO, aquela época em que Val virou Jim. O ator de filmes como Top Secret interpretou o cantor no filme The Doors (1991), dirigido por Oliver Stone. E, de uma hora para outra, mais uma vez (e vinte anos após a partida de Jim Morrison), uma geração nova descobria canções como Light my fire, Break on through e L.A. woman.

No podcast do POP FANTASMA, a redescoberta de Jim Morrison em 1991

O Pop Fantasma Documento é o podcast semanal do site Pop Fantasma. Episódios novos todas as sextas-feiras. Roteiro, apresentação, edição, produção: Ricardo Schott. Músicas do BG tiradas do disco Jurassic rock, de Leandro Souto Maior. Arte: Aline Haluch. Estamos no SpotifyDeezerCastbox Mixcloud: escute, siga e compartilhe! Ah, apoia a gente aí: catarse.me/popfantasma.

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Cultura Pop

Quando pegaram Gary Cherone (Extreme) para Cristo

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Em 1994, pouco antes de gravar o quarto disco com sua banda Extreme (o pseudo-conceitual Waiting for the punchline, de 1995) e de fazer uma tentativa de virar o vocalista do Van Halen (que deu no disco Van Halen III, de 1998, e numa turnê), o cantor Gary Cherone encontrou Jesus. Bom, mais que isso: ele se tornou Jesus, como ator da ópera-rock Jesus Christ Superstar, mas apenas nas montagens da peça em Boston, em 1994, 1996 e 2003.

O papel de Gary incluiu a crucificação e tudo, e o cantor chegou a declarar que a peça era uma antiga obsessão sua. “Sempre adorei a música dessa peça”, contou. O musical foi uma produção da Boston Rock Opera, trazia ainda Kay Hanley (Letters To Cleo) como Maria Madalena, e participação de vários roqueiros locais. Gary realmente curtia Jesus Christ Superstar: segundo uma matéria do The Boston Globe, a equipe que fazia o musical estava pensando em não apresentar nada na páscoa de 1994. Só que Gary não deixou: tinha visto uma encenação em Boston em 1993, gostou do que viu, passou a mão no telefone e ligou pessoalmente para a turma oferecendo-se para o papel.

A equipe ouviu o pedido do vocalista do Extreme, achou que ser maluquice não aproveitar a oferta do cantor e partiu para os ensaios. Detalhe que Gary, depois de três temporadas sendo crucificado, se preparava para outro desafio na mesma peça: iria interpretar Judas, o amigo da onça de Jesus. “Gosto do papel de Jesus, mas Judas tem músicas mais pesadas”, chegou a dizer.

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Isso de Gary resolver interpretar Judas e gostar do lado meio pesado da história (e ele fez mesmo o papel em 2000) reacendeu uma velha polêmica em relação a Jesus Christ Superstar. Criada por Andrew Lloyd Webber e Tim Rice inicialmente como uma ópera-rock lançada apenas em disco (ninguém tinha grana para levar aquilo tudo ao palco e não surgiam produtores interessados), a história discutia os papéis de Jesus Cristo e de seus apóstolos durante sua última semana de vida. E quando a peça foi à Broadway, com Jeff Fenholt como Jesus e Ben Vereen como Judas, não faltou gente reclamando que Judas parecia bastante simpático na peça.

Interpretando Jesus, por sinal, Gary encarou um papel que já foi vivido por outro vocalista de rock. Ninguém menos que Ian Gillan, que foi Jesus no LP da ópera-rock, feito quando ainda não havia planos para levá-la aos palcos. Mas Gillan não quis subir ao palco quando a montagem começou a ser feita, alegando que não queria virar ator. Um tempo depois, o papel de Jesus passou a ser tão cobiçado por roqueiros que até Sebastian Bach (o próprio) interpretou o papel.

Se você mal pode esperar para ver o ex-Skid Row interpretando o papel (bom, vai demorar pro POP FANTASMA fazer outra matéria sobre o mesmo assunto…) tá aí.

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Cultura Pop

Tem aniversário de Controversy, do Prince, vindo aí!

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Tem aniversário de Controversy, do Prince, vindo aí!

A capa do quarto disco de Prince, Controversy (lançado em 14 de outubro de 1981 e prestes a fazer 40 anos) já era (hum, ok) controversa. Transformado em escândalo público por causa do disco anterior, Dirty mind (1980, e do qual já falamos aqui), Prince estava nas manchetes. E elas estavam, de brincadeira, na capa do novo álbum.

Dirty mind tinha dado uma bela crescida musical – do pós disco dos álbuns anteriores, a uma mistura de soul, rock, um tantinho de psicodelia e até folk urbano herdado de Joni Mitchell. A crítica não deixou de prestar atenção nas letras beem safadas do álbum – que se chamava “mente poluída” e trazia Prince em frente às molas de uma cama, na capa. Robert Christgau comparou Prince a Jim Morrison e John Lennon, e ainda arrematou com uma frase lapidar: “Mick Jagger deveria recolher seu pau e ir para casa”. Na Rolling Stone, Ken Tucker dizia que Prince era um romântico ingênuo nos dois primeiros discos, mas finalmente estava à solta nas sacanagens e na música.

Controversy foi lançado doze meses após Dirty mind, e foi feito numa época de bastante trabalho para Prince – que pouco antes tinha produzido, assinando o trabalho como Jamie Starr, o disco de estreia do The Time, banda liderada pelo seu vocalista Morris Day. Como na época vários colunistas de jornal já faziam comentários sobre a sexualidade do cantor, não tinha como o assunto ficar de fora do álbum, a faixa-título (que abre o disco) já abre com vários questionamentos: “Sou preto ou branco? Eu sou hetero ou gay?/ Controvérsia / Eu acredito em Deus?/Eu acredito em mim?/Controvérsia”, perguntava Prince.

>>> Mais Prince no POP FANTASMA aqui.

Não era só nos jornais que Prince passava por esse tipo de situação. Abrindo para os Rolling Stones em 9 de outubro de 1981, o cantor (usando a roupa da época da turnê Dirty mind, que incluía uma tanguinha preta) foi vaiado e ouviu xingamentos homofóbicos da plateia, no Memorial Coliseum, em Los Angeles.

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Não só vaias: Prince e seus músicos foram atingidos por comida, latas, garrafas e tudo o que estivesse ao alcance do público. Prince ia desistindo de fazer o show do dia 11 de outubro, ate que Mick Jagger ligou para ele para encorajá-lo. “Eu disse a ele: se você chega a ser uma atração principal realmente grande, você tem que estar preparado para as pessoas jogarem garrafas em você à noite. Preparado para morrer!”, brincou Jagger.

Em Controversy, mais uma vez Prince tocou tudo “sozinho” – enfim, mais ou menos, porque em Jack U off, a última faixa, aparecem Bobby Z. (bateria), Lisa Coleman (teclados e vocais de fundo) e Dr. Fink (teclados). Andre Cymone, baixista de turnê de Prince, compôs a safadíssima Do me baby. Mas como estava sendo cada vez mais comum no universo de Prince naquela época, não recebeu crédito pela faixa, que apareceu assinada pelo patrão nas primeiras edições.

Não era o único momento de safadeza no disco, claro. Private joy era pura sacanagem, com versos como “todos os outros garotos amariam transar com você, mas você é meu brinquedo privativo” e “você pertence a Prince”. Mas Sexuality inovava por misturar sexo, política e futurismo (“precisamos de uma nova raça, líderes, levante-se, organize-se/não deixe seus filhos assistirem televisão até que saibam ler”).

Anne Christian era a resposta de Prince ao levante pós-punk, com peso, intensidade e uma letra que fala sobre uma prostituta que “matou John Lennon, atirou nele a sangue frio” e “tentou matar Reagan”. Ronnie, talk to Russia mostrava que Prince vinha acompanhando as tensões entre Ronald Reagan, então presidente dos EUA, e o governo da União Soviética, mas que estava do lado do seu país, enfim (“você pode ir ao zoológico, mas não alimente guerrilheiros de esquerda”).

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Para os fãs brasileiros, Controversy trazia uma novidade: Dirty mind não tinha saído aqui em tempo real (só foi lançado no Brasil em 1990!), mas o quarto disco de Prince saiu aqui imediatamente. Com um aviso na capa: “inclui Sexuality e Controversy“. Incluía mesmo.

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