Não foi só no fato de ter inventado o heavy metal que a estreia do Black Sabbath (lançada em 13 de fevereiro de 1970) foi um disco inovador.

O debute de Ozzy Osbourne (voz), Tony Iommi (guitarra), Terry “Geezer” Butler (baixo) e Bill Ward (bateria) foi também: 1) um dos primeiros discos de estreia com capa dupla; 2) uma das primeiras produções independentes a serem vendidas in natura a uma gravadora; 3) um dos primeiros álbuns de estreia que dispensaram a foto do artista na capa (para frustração de Ozzy, que sonhava em aparecer na capa, “que nem os Beatles”).

E enfim, demoramos mas segue aí nossa homenagem ao disco que formatou para sempre o som pesado.

1) Existia uma conexão entre o Earth, embrião do Black Sabbath, e o New Yardbirds, banda da qual saiu o Led Zeppelin. Tudo porque o grupo de Jimmy Page foi assistido por Tony Iommi e Bill Ward quando aquele se apresentou numa casa de Birmingham chamada Henry’s Blues House. Por causa desse show e das conexões que viram entre o som pesado do Earth e o blues psicodélico do Led Zeppelin, Tony procurou o chefão do Earth e pediu uma chance na casa.

2) Foi por causa dessa chance no Henry’s que Tony Iommi ficou um tempo tocando guitarra no Jethro Tull, já que o Earth abriu para eles na casa.

3) Tony não durou muito no Jethro, já que não curtiu os métodos de liderança do criador da banda, Ian Anderson (“ele andava separado dos outros caras, sentava numa mesa e eles em outra”). Agora, o músico detestou mais ainda ter ouvido do empresário do JT que ele “era um cara de muita sorte” por ter conseguido entrar na banda. “Isso realmente me deixou bravo. Pensei: ‘Não é sorte. Eles me chamaram aqui porque sei tocar — não porque tenho sorte!'”.

4) A música Black Sabbath surgiu ainda nos tempos do Earth e nem tinha esse nome no começo. A canção surgiu na hora em que Geezer Butler começou a tocar no baixo Marte, trecho da suíte Planetas, do compositor inglês Gustav Holtz. Iommi ouviu, mudou um pouco a música e saiu a introdução de Black Sabbath, a canção.

5) Todo mundo comenta que a canção faz uso do chamado trítono (ou “intervalo do diabo”, proibido pela Igreja na Idade Média). Iommi diz que mal sabia disso e que Black Sabbath praticamente se escreveu sozinha.

6) Por ter sido a primeira música que a banda escreveu sozinha de verdade, foi Black Sabbath que transformou o grupo no que ele seria depois.

7) O nome da canção (e da banda) foi tirado de um filme homônimo de Mario Bava de 1963, também chamado de As três máscaras do terror, estrelado por Boris Karloff. Só foi acrescentado depois que a música já estava pronta (não existe, você deve saber, a expressão “Black Sabbath” na letra).

8) E, talvez você saiba, Geezer Butler inspirou-se numa visão que teve de um sujeito demoníaco em seu quarto, para fazer a letra.

9) “Era o ‘a figure in black which points at me’ da letra. Aquilo me gelou o sangue! Acordei de repente, e lá estava, tipo, essa silhueta escura parada na beira da minha cama. Eu não tinha usado drogas nem nada e não tinha bebido naqueles dias”, contou.

10) Até então, o baixista era meio fanático por assuntos de magia e satanismo, e mantinha contato com ocultistas. Geezer chegou a pensar em ser padre quando mais novo. Quando viu a tal personificação do demo, largou toda a memorabília que colecionava, pintou seu apartamento de laranja (as paredes eram pretas) e se afastou daquilo.

11) Naquele momento, a maior ligação entre os quatro integrantes da banda era que todos adoravam filmes de terror e ficção científica.

12) O primeiro disco do Black Sabbath foi uma gravação independente. Um produtor independente chamado Tony Hall mandou a banda para um estúdio chamado Regent Sounds, em Londres, para gravar com um produtor chamado Rodger Bain.

13) O Regent não era um graaande estúdio, mas tinha história. Os Rolling Stones gravaram seu primeiro álbum lá, os Kinks e Jimi Hendrix gravaram demos, parte do disco A quick one, do Who (1966) foi feita lá. O site do estúdio conta que Fixing a hole, dos Beatles, teve uma parte gravada lá – e foi um dos raros momentos em que os Beatles não gravaram em Abbey Road.

14) Hall conseguiu duas gravadoras interessadas no Sabbath, ambas pertencentes à Philips holandesa: o selo pop Fontana e o selo esquisitão Vertigo, montado para concorrer com o selinho progressivo da EMI, a Harvest. O disco já estava pronto e pago, e quem lançasse não teria muitos gastos.

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15) A Fontana condicionou o contrato do Sabbath à gravação de um cover – Evil woman (Don’t you play your games with me), do Crow, uma banda de Minneapolis. A Vertigo, doida para lançar algo estrepitoso, recebeu o Sabbath de braços abertos. Mas ainda assim a banda manteve o tal cover (que a Fontana lançou em single) no disco.

16) E olha que interessante: Tina Turner e Ike Turner também gravaram a mesma música, só que com o nome trocado para Evil man. A versão mantém o riff inicial do original do The Crow (que o Sabbath também gravou na música).

17) N.I.B. (que é “nib” mesmo e surgiu de um apelido do baterista Bill Ward, Nibby) foi uma brincadeira de Geezer e Iommi com duas coisas, respectivamente: as músicas românticas (“eu sempre ouvi o clichê de alguém apaixonado prometendo à pessoa amada a lua e as estrelas, etc., então pensei que se o diabo se apaixonasse, ele poderia realmente prometer a lua e as estrelas; ele tem esse poder”, falou o baixista, autor da letra) e o riff de Sunshine of your love, do Cream.

18) Behind the wall of sleep surgiu de uma adaptação do conto Beyond the Wall of Sleep, de H.P. Lovecraft. Geezer dormiu lendo o conto, sonhou com ele e fez a música.

19) Na época do primeiro disco, músicas que seriam gravadas futuramente, como Faires wear boots e Solitude (que quase se chamou Changing phases) foram testadas no Regent Sounds.

20) A gravação de Black Sabbath, você deve saber, foi feita em duas sessões de 12 horas no Regent Sound Studio, em Londres, nos dias 17 e 18 de novembro de 1969. Rodger Bain, o produtor, costuma ser elogiado pela banda – muito embora haja testemunhas de que ele participou pouco da gravação e basicamente mandou apertar os botões de play e rec.

21) Tom Allom, técnico de som do disco, conta que o volume de gravação foi enorme (“tonitruante”, disse) durante as sessões de Black Sabbath. Na real foi tão grande que abalou os funcionários de um estúdio de gravação no andar superior.

22) O tal estúdio fazia animações e a câmera precisava ficar totalmente parada. Por causa do baixo de Geezer, a câmera se movia o tempo todo, involuntariamente. “Eu tive que dizer a Geezer: ‘Sinto muito. Este estúdio custa apenas 10 libras por hora, mas lá em cima são 100 libras, e eles estão ficando meio zangados'”, conta Allom.

23) Warning, o outro cover do disco, era uma música original do grupo Ansley Dunbar Retaliation, banda do baterista Aynsley Dunbar. A versão que saiu no disco de estreia da banda tem oito minutos. Em alguns shows, ela podia chegar a meia hora (!). A versão abaixo tem 18 minutos.

24) Como você já sabe, a modelo da capa do disco do Black Sabbath agora tem nome: ela se chama Louisa Livingstone, trabalha com música eletrônica com o nome Indreba e tem Twitter. E também trabalhou como atriz: fez o papel de Brenda Clarke num episódio da série britãnica Kids (1979), entre outros serviços pequenos. E nunca foi fã do Black Sabbath na vida. Aparecer na capa do disco foi um bico que ela fez como modelo aos 18, 19 anos.

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Olha ela!

25) E essa aí é a capa de Paranoid, o segundo disco do Black Sabbath (1970) na Suíça. Sim, pegaram a capa do primeiro disco, mexeram daqui e dali e saiu isso.

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(uma parte desse texto saiu dessa reportagem da Rolling Stone, e a outra de Black Sabbath – A biografia, livro de Mick Wall)

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