Connect with us

Cultura Pop

Shangri-Las: descubra agora!

Published

on

Shangri-Las: show no CBGB's e grupo "falso"

Sempre acontece: de uma forma ou de outra, o nome das Shangri-Las costumeiramente retorna pro universo da música pop – e sempre paira como uma espécie de lenda, de grupo de garotas adolescentes faca-na-bota que acabou inspirando o pré-punk e o punk. Se em 2021, o assunto foi o sucesso repentino no Tik Tok de um hit delas de 1964, Remember (Walkin’ in the sand) – aquele do “oh, no! oh, no!”, lembra?” – agora, infelizmente o que rola é a constatação de que sobrou apenas uma integrante viva do grupo, Betty Weiss, atualmente aposentada.

  • Apoie a gente e mantenha nosso trabalho (site, podcast e futuros projetos) funcionando diariamente.

Formado originalmente por dois “casais” de irmãs, o quarteto original perdeu no dia 19 de janeiro Mary Weiss, aos 75 anos, de causas não informadas. As outras irmãs, que por acaso eram gêmeas idênticas, eram Marguerite “Marge” Ganser, morta em 1996 de câncer de mama aos 48, e Mary Ann Ganser, a primeira a sair de cena, em 1970, aos 22 anos, de overdose. As quatro vieram da região rueira do Queens, em Nova York, mesmo lugar em que os Ramones se criariam. Foram lançadas por um sujeitinho bem excêntrico, o produtor George “Shadow” Morton. E quando comparadas a outros grupos femininos pop, ficava nítido que as Shangri-Las pareciam mais “duronas” e vividas do que as adolescentes e jovens dos vários outros grupos da época.

Quase sempre usando vistosas botas de couro, Beth, Mary, Mary Ann e Marge cantavam músicas sobre morte (Leader of the pack é uma história de playboy motoqueiro acidentado e falecido), namoros que deram errado, autoestima baixa, dramas da adolescência e temas sombrios em geral. Remember, com seus sons de gaivotas e lembranças de passeios à beira da praia, é quase terror psicológico, a “sofrência” em seu estado mais puro. Anos depois, bandas como Ramones, Sonic Youth, Blondie e New York Dolls (produzidos por Shadow em seu segundo disco, Too much too soon, de 1974) pagariam tributo a elas.

Mesmo com o sucesso, as Shangri-Las não duraram muito e o futuro delas na música não foi dos mais sorridentes – embora os hits continuassem sendo relançados e muitos artistas continuassem se referindo a elas. Seguem aí seis momentos da história delas para lembrar.

O COMEÇO. Originalmente suburbanas, donas de um sotaque totalmente novaiorquino (o chamado cawfee accent, que dá um clima bem informal às palavras), as quatro Shangri-Las se juntaram em 1963, quando eram bem novas e se apresentavam basicamente em festas de rua e shows de escola. George “Shadow” Morton, produtor, ex-cantor de doo wop, ainda era um autor inédito e topetudo quando escreveu Remember apenas para mostrar ao compositor Jeff Barry que sabia escrever canções.

Como já conhecia as Shangri-Las (inicialmente lançadas por um selo chamado Kama Sutra), Morton decidiu levá-las a um estúdio para gravar uma demo da faixa. Deu liga a ponto das adolescentes serem contratadas por um selo promissor chamado Red Bird Records. Com efeitos especiais para dar a imagem sonora do “passeio na praia” da música, Remember acabou sendo lançada, chegou ao quinto lugar da Billboard Hot 100 e marcou época. “As produções de Morton não eram produções musicais, somente. Eram teatro, eram como mini-peças”, diz o livro Golden hits of the Shangri-las, de Ada Wolin. O produtor, por sua vez, já disse que exigia que elas fossem atrizes cantando, e não apenas cantoras.

RED BIRD. A gravadora que lançou as Shangri-Las não era bem um tubarão do mercado. Era na verdade a segunda tentativa dos compositores pop Jerry Leiber e Mike Stoller, autores de vários clássicos gravados por Elvis Presley (Hound dog, Jailhouse rock), de montarem um selo. Só que dessa vez tendo o executivo do meio fonográfico George Goldner como sócio.

A Red Bird deu certo por algum tempo: o casal de compositores Ellie Greenwich e Jeff Barry, que trabalhou para Phil Spector, começou a compor canções para o selo. E os dois acabaram se responsabilizando por uma boa parte dos hits das Shangri-Las, como Leader of the pack e Heaven only knows. Mas o fim estava próximo: Goldner estava atolado em dívidas de jogo e o selo acabou sendo absorvido pela máfia, o que dá uma excelente ideia de o que aconteceria com as finanças do quarteto no futuro.

TRAGÉDIA ADOLESCENTE. Entre os anos 1950 e 1960 fez barulho nas paradas uma estética de composição de música pop chamada teenage tragedy, ou “disco da morte”. Eram canções de amor adolescente que invariavelmente acabavam em tragédia, quase sempre com uma das personagens morta. Eram canções como Last kiss, gravada em 1961 por Wayne Cochran (e vários anos depois pelo Pearl Jam) e A young man is gone, canção de Bobby Troup regravada pelos Beach Boys para homenagear o ator James Dean (1931-1955).

As Shangri-Las foram vistas imediatamente como pontas de lança dessa “onda”, já que eram as cantoras de tragédias como Leader of the pack I can never go home anymore (essa, considerada por Amy Winehouse como “a música mais triste do mundo”), de dores de cornx como Remember e Give him a great big kiss, e de paradas bem mais sinistras e abusivas, como em Past, present and future (“não tente me tocar/isso nunca vai acontecer de novo”, diz a letra). A estileira trágica foi se tornando menos comum conforme o rock foi sendo invadido pelas bandas inglesas dos anos 1960, mas vale lembrar que as Shangri-Las chegaram a abrir shows para os Beatles e os Rolling Stones, bem no comecinho.

MUDANÇAS E SUCESSO. As Shangri-Las conseguiram sucesso comprovado: singles, coletâneas, turnês, comerciais (elas foram os rostos da marca de beleza feminina Revlon por uns tempos). Nas internas, as coisas nunca foram muito estáveis: Mary Weiss costumava andar armada (resolveu comprar uma pistola porque o grupo mal tinha segurança nas turnês e era ela quem guardava o dinheiro dos shows), a Red Bird enfrentava problemas financeiros, e o quarteto se tornou trio algumas vezes: Betty engravidou e saiu por uns tempos (voltou depois), e houve uma época em que Marge e Mary Ann se alternavam.

Em 1966 saiu Long live our love, mais um single “trágico”. Só que dessa vez o tema era bastante complexo: a letra, cantada por Mary, homenageava um namorado convocado para lutar na Guerra do Vietnã. “Existe algo entre nós e não é outra garota/outras pessoas precisam de você/há problemas no mundo”, ela canta. “Lançar uma canção patriótica e ostensivamente pró-guerra era uma ideia questionável em 1966. Tanto o movimento anti-guerra quanto a contracultura floresciam em 1966”, escreveu o jornalista Alexis Petridis no obituário de Mary publicado pelo The Guardian. Seja como for, alguns outros hits viriam e a carreira delas durou até 1968.

NAUFRÁGIO. Um detalhe a respeito das Shangri-Las é que ninguém (aparentemente nem Morton) lembrou-se de registrar o nome do grupo. Isso causaria muitas dores de cabeça para elas ao longo do tempo, mas lá por 1967 havia outros tipos de problemas: a Red Bird naufragou, Morton largou mão delas e foi produzir outros artistas, e as Shangri-Las acabaram sendo contratadas pela Mercury – que lançou bem pouca coisa do grupo e logo se desinteressou. Em 1968, o grupo encerrou atividades, todas elas bem chateadas por terem recebido pouco dinheiro por gravações e shows. Nessa época, Mary Ann já estava bastante viciada em drogas pesadas, o que causaria sua morte em 1970.

RETORNOS E NÃO-RETORNOS. Marge, Mary e Betty largaram a música e migraram para outras carreiras. No início dos anos 1970 saíram relançamentos dos singles delas e, em 1976, houve interesse da gravadora Sire Records por um novo álbum – uma vez que artistas do novo rock novaiorquino, como New York Dolls, Ramones e Blondie, adoravam as Shangri-Las. Rolou um show histórico na meca punk de Nova York CBGB’s naquele ano, a Sire bancou sessões com Andy Paley na produção, mas nada aconteceu.

Shangri-Las no CBGB's

Shangri-Las no CBGB’s (Reprodução da internet)

Mary disse que, no papo com as gravadoras, percebeu que elas queriam transformá-las num grupo disco, que era o som da moda. E a história do “retorno” parou por aí. O que ninguém esperava era que uma nova versão das Shangri-Las, que não tinha nenhuma das integrantes originais na formação, começasse a se apresentar nas casas de shows dos EUA nos anos 1980.

Olha aí o espanto delas ao dar de cara com a novidade, em 1989, no Entertainment Tonight. As Shangri-Las vivas foram à justiça brigar pelos seus direitos, já que como se não bastasse haver um cover não-autorizado, as “novas” Shangri-Las comportavam-se no palco como se fossem as irmãs da formação original (dizendo coisas como “um dos nossos sucessos”, etc). Depois disso, vácuo quase total de novidades sobre elas. Mas em compensação Mary Weiss lançaria um disco solo em 2007, Dangerous game, ao lado da banda The Reigning Sound – e se tornaria a única integrante da banda a ter uma carreira própria, ainda que fosse de curta duração.

Cultura Pop

Relembrando: The Seahorses, “Do it yourself” (1997)

Published

on

Relembrando: The Seahorses, "Do it yourself" (1997)

“Os Seahorses incorporaram as piores tendências do rock britânico pós-Oasis. A ironia colossal é que o Oasis devia muito de seu som e arrogância ao The Stone Roses em primeiro lugar”.

O jornalista Ed Power, que assinou recentemente no jornal The Telegraph uma matéria sobre a segunda banda do guitarrista e ex-Stone Roses John Squire – aquele cara que lançou agora um disco com Liam Gallagher – não é o único a pensar mal dos Seahorses. Formada na época em que o Oasis dominava o mercado do brit-pop fazendo uma excelente curadoria de referências dos Beatles, a banda de Squire, de Chris Helme (voz, guitarra), Stuart Fletcher (baixo) e Andy Watts (bateria) era pródiga em unir a sujeira do pós-punk a toques de Beatles, Rolling Stones, Kinks, Who, David Bowie, T. Rex e, especialmente, Led Zeppelin.

São lembranças do quarteto inglês de rock pauleira que aparecem aqui e ali no primeiro e único disco do grupo, Do it yourself, produzido por Tony Visconti (ex-produtor de Bowie e T. Rex) e lançado em 26 de maio de 1997. Era fácil tacar pedra nos Seahorses – e mesmo o Oasis era visto de soslaio por muita gente. Mas é difícil não se impressionar, por exemplo, com Love is the law, canção de quase oito minutos que é um dos destaques do disco. E que une, ao jeito largado do Primal Scream, do T. Rex e do próprio Stone Roses, solos e bases que lembram bastante Jimmy Page, guitarrista do Led.

O próprio Squire já declarou que a matéria-prima dos Seahorses foi a precipitação. Brigadíssimo com o vocalista dos Stone Roses, Ian Brown, ele saiu do grupo e foi tratar da vida profissional lançando rapidamente uma nova banda, que soava mais urgente e menos deslavadamente neo-psicodélica que o SR. Para montar a banda (cujo nome vem de um anagrama da frase “he hates roses”, uma piada cruel com seu ex-grupo), saiu à cata de músicos e deu de cara com Chris Helme. Chris era um cantor de boa voz e… influências de folk, até mesmo na atitude de palco, o que deixava Squire bastante aborrecido (“ele cantava até de olhos fechados”, reclamou). O guitarrista quase mandou Helme pastar várias vezes e não gostava das canções feitas por ele, mas acabou convidando o cantor para a banda.

Squire já declarou também ser um sujeito bastante antidemocrático, algo que evidentemente dificulta bastante o convívio com ele num grupo. Seja como for, Do it yourself tem até duas músicas feitas apenas por Helme: a boa Blinded by the sun (que, para o desgosto do patrão Squire, é a faixa mais ouvida dos Seahorses no Spotify) e a balada Standing on your head, que lembra Pearl Jam e Pink Floyd. Não são as faixas mais prototípicas do disco, já que Squire investe na maior parte do tempo em hinos brit-pop – todos cheios de riffs, com alguns refrãos que pegam. Além de incursões por um blues-rock mais “sujo”, como em I want you to know, Suicide drive, e The boy in the picture, uma balada repleta de recordações pessoais.

Happiness is eggshaped funciona num meio-caminho entre Beatles e Byrds, um rock com cara country que, mexendo dali e daqui, vira um power pop – é uma das melhores do álbum. E seguindo a linha do Oasis, de colecionar referências beatlemaníacas, Love me or leave me, parceria de Squire e Liam Gallagher, é uma balada (boa, por sinal) abre com o verso “don’t believe in Jesus/don’t believe in Jah”, referência à lista de descréditos cantada por John Lennon na balada de piano God.

Outra crítica que muita gente fez ao Seahorses foi que as letras de Squire não são lá muito empolgantes e são bastante ingênuas – de fato, se comparadas até mesmo às letras do Oasis, elas parecem coisa de adolescente. Ouvindo hoje, dá pra perceber porque é que Do it yourself sobrou como uma grande recordação do brit-pop em vez de ser “o” grande clássico da época. Mas é um daqueles discos que têm tantas qualidades que dá pra admirar até os defeitos. Quanto ao futuro do grupo, Squire reconheceria mais uma vez que bandas não são seu forte, e os Seahorses só durou esse álbum, mesmo.

Continue Reading

Cultura Pop

No nosso podcast, Lou Reed de “New york” a “Magic and loss”

Published

on

Em 1987, Lou Reed perdeu uma das pessoas que mais apostaram no seu trabalho: Andy Warhol. Com a morte do esteta pop, várias lembranças do passado, do começo de sua ex-banda Velvet Underground, de pessoas perdidas pelo caminho e da vida em Nova York durante os anos 1960 e 1970, voltaram – como se toda sua vida passasse diante dos olhos. No funeral de Andy, Lou reviu o ex-colega de banda John Cale, com quem estava brigado havia anos, e do encontro surgiu a ideia de fazer uma homenagem ao amigo e mentor.

A tal homenagem (que só sairia em 1990) seria o disco/filme Songs for drella, dividido por Reed e Cale, mas a cerimônia de despedida daria início a uma fase introspectiva e cheia de recordações, que geraria ainda o disco New York (1989) e Magic and loss (1992). Ambos lançados por um Lou Reed tomado por lembranças, e por constatações de que o tanto o mundo à sua volta, quanto sua vida pessoal, nunca mais seriam os mesmos. E é dessa fase de Lou que a gente fala nesse episódio do nosso podcast, o Pop Fantasma Documento.

Nomes novos que recomendamos e que complementam o podcast: Rui Gabriel e Gueersh.

Estamos no Castbox, no Mixcloud, no Spotify, no Deezer e no Google Podcasts. 

Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch. Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas!

Continue Reading

Cinema

Biopics de música que deram (muito) problema: descubra agora!

Published

on

Biopics de música que deram (muito) problema: descubra agora!

É melhor assistir à cinebiografia de um artista morto do que assistir a um show com holograma do falecido – ou uma apresentação-tributo ao pranteado. Ok, é apenas uma constatação óbvia, mas serve para justificar a atenção que o mercado de cultura dá às biopics. Especialmente quando o personagem principal é alguém que já não está mais aqui e não tem como engordar seu orçamento e o de seus familiares fazendo mais shows.

Para justificar mais e melhor ainda, só vendo o dinheiro que as cinebios movimentam. Bob Marley: One love, que conta a história do rei do reggae, já está no cinemas desde 14 de fevereiro, e já arrecadou 123 milhões de dólares – quase o dobro dos 70 milhões investidos. Aliás, foram coletados 80 milhões de dólares pouco após a primeira semana, o que faz do filme a segunda estreia de cinebiografia musical mais bem sucedida da história do cinema, abaixo apenas de Bohemian Rhapsody, sobre o Queen (fonte: O Farol).

Enquanto você espera pelas próximas cinebios (uma lista que inclui filmes sobre os quatro beatles, sobre Amy Winehouse e até um filme ainda sem data e elenco sobre Rita Lee), confira aí o outro lado dos biopics em sete exemplos: filmes que geraram críticas negativas, que arrumaram problemas com parentes e amigos dos artistas enfocados, e coisas do tipo.

STARDUST (dirigida por Gabriel Range, 2020). Praticamente ninguém gostou de verdade dessa confusa biopic de David Bowie (epa, numa das raras resenhas de filmes que publicamos, vimos um monte de qualidades nela). O filme acompanha a ida de Bowie aos Estados Unidos em 1971, avisado pela filial norte-americana do selo Mercury de que havia interesse lá por seu disco The man who sold the world. E também narra o nascimento do personagem Ziggy Stardust.

Stardust dá uma dramatizada básica na situação. Ao contrário do que aparece lá, a ida de Bowie aos EUA até que teve lá seus frutos e ele não estava tão desenturmado assim quando resolveu viajar – e olha que. em alguns momentos, o filme rola quase na linha do “um cantor inglês atrapalhado vai pros EUA tentar a sorte e arruma altas confusões”. Mas não custa dizer que a atuação de Johnny Flynn, que interpreta Bowie, foi bastante criticada, e que o filme não traz nenhuma música do cantor (já que o espólio de Bowie não deu autorização), o que foi mais criticado ainda.

THE DOORS: O FILME (dirigido por Oliver Stone, 1991). A biopic de Jim Morrison, com participação de seu grupo, deixou marcas no mercado da música: a discografia da banda voltou a vender como nunca, muitas pessoas que nem sequer eram nascidas quando Jim morreu descobriram seu trabalho. No Brasil a biografia de Jim, Ninguém sai vivo daqui, de Daniel Sugerman e Jerry Hopkins, virou figurinha fácil em livrarias – ainda que tivesse que ser importada de Portugal, na edição da Assírio & Alvim.

Em termos de arrecadação (34,4 milhões de dólares), The Doors: o filme não foi nenhuma maravilha, ultrapassando não lá muito os gastos (32 milhões). Val Kilmer, interpretando Morrison, foi elogiado. Mas a recepção em geral foi bem mediana. Fãs e pesquisadores reclamaram das imprecisões históricas (detalhes pequenos e importantes, como a roupa que Jim vestia ao apresentar Light my fire no Ed Sullivan Show). Ray Manzarek, tecladista dos Doors, disse que “o cara sensível que eu conheci não estava no filme”, chamou o Jim de Oliver Stone de “psicopata à solta”, e reclamou que o filme apresentava os outros Doors como camaradas que o cantor relegava à aba de seu chapéu. E mesmo integrantes do grupo que toparam dar consultoria afirmavam que Oliver Stone tirou tudo de sua própria cabeça e ignorou as colaborações deles. Discussões sobre a qualidade de The Doors: o filme costumam varar a noite até hoje, enfim.

THE RUNAWAYS (dirigido por Floria Sigismondi, 2010). A visão original de Floria sobre a cinebiografia das Runaways é que não deveria ser uma biopic comum, mas um filme no estilo coming of age, mostrando a idade adulta chegando, as pessoas tomando atitudes, lidando com o crescimento da maneira que podem. Foi elogiado pela crítica, mas teve lá sua dose de problemas. Mesmo tendo sido baseado no livro de memórias da vocalista Cherie Currie, a cantora disse que que o filme “é a versão deles da história”. E ainda que tivesse atuado como produtora executiva do filme, a guitarrista Joan Jett não gostou de ver que The Runaways acabou mais centrado na vocalista. “É uma narrativa paralela das Runaways”, disse à Interview Magazine.

PISTOL (dirigida por Danny Boyle, 2022). Você duvidava de que um produto biográfico feito sobre os Sex Pistols provocaria o ódio do vocalista Johnny Rotten? Pistol, série de seis episódios produzida para o canal FX, foi chamada pelo ex-cantor da banda (mais conhecido hoje como John Lydon) de “a merda mais desrespeitosa que tive que suportar”. Por acaso, o texto da série foi baseado em Lonely boy, biografia do guitarrista Steve Jones, o que aumentou a irritação.

“Eles chegaram ao ponto de contratar um ator (Anson Boon) para me interpretar, mas no que esse ator está trabalhando? Certamente não é meu personagem. Não pode ir para outro lugar a não ser o tribunal”, contou na época. Danny Boyle disse que tentou contactar Lydon mas o roqueiro não quis falar com ele. O site Complete Music Update teceu bons argumentos em defesa do filme dizendo que “Boon pode obter material ou insights dos mais de 40 anos de carreira pública de Lydon, com vários documentários e três autobiografias. Não é como se Lydon tivesse mantido segredo”. E toda a banda, incluindo o ex-baixista Glen Matlock, brigou para que a música dos Pistols aparecesse no filme – e conseguiu.

CAZUZA – O TEMPO NÃO PARA (dirigida por Sandra Werneck e Walter Carvalho, 2004). A cinebiografia de Cazuza foi lançada com destaque e fez sucesso. Mas teve lá sua (boa) dose de controvérsia. Ney Matogrosso, que teve um relacionamento com o cantor, não gostou nem um pouco de não ter aparecido no filme (segundo Ney, “depois me disseram que eu era um personagem tão grande que não cabia no filme”). Lobão afirmou que a abertura deveria ter sido a cena que ele narrou em algumas entrevistas, com Cazuza e ele cheirando uma carreira de cocaína sobre o caixão de Julio Barroso (Gang 90).

Já Roberto Frejat reclamou, durante uma entrevista ao jornal O Dia em 2010, que jamais disse a Cazuza que o Barão Vermelho não tocava samba, como aparece numa cena. “Colocaram isso na minha boca, justo eu que sempre dividi o gosto pelo samba com o Cazuza”, contou, deixando claro que era “a única coisa que me incomodava no filme”.

NINA (dirigida por Cynthia Mort, 2016). O ataque a essa biopic da cantora e ativista Nina Simone foi tão imenso e tão traumático que a própria atriz que interpretou Nina, Zoe Saldana (a Gamora do Guardiões da Galáxia) chegou a afirmar que “nunca deveria tê-la interpretado” e que “ela merecia coisa melhor”. O espólio de Nina levou em consideração que a atriz, de ascendência afro-latina, tem pele mais clara e traços bem diferentes dos da cantora. A família não gostou do roteiro e classificou várias passagens como mentirosas – houve consternação especial com a exibição de um relacionamento amoroso entre ela e seu agente, Clifton Henderson (“isso nunca aconteceu”, disse afilha de Nina, Lisa Simone Kelly).

Para tornar tudo mais tenso, chegou a ser publicado um tweet na conta oficial de Nina pedindo à atriz que tirasse “o nome de Nina da boca pelo resto da vida”. Lisa defendeu Zoe (“está claro que ela deu o seu melhor para este projeto”), mas apontou o dedo para a diretora, Cynthia Mort, que seria responsável pelas “mentiras” do filme. Já Cynthia entrou na justiça alegando que sua ideia original foi sequestrada pelos produtores e que ela mesma não decidiu nada.

JOHNNY & JUNE (James Mangold, 2005). Dificilmente filhos de biografados curtem ver como ficaram as histórias de seus pais na tela. Fácil de entender: situações altamente traumáticas (como violências físicas, ausências, porrancas, prisões, traições e demais dissabores familiares) são geralmente colocadas numa fórmula de roteiro hollywoodiano. Muitas vezes, uma “fábula do herói” que quase nunca permite emoções mistas e visões particulares.

O filme que retrata o relacionamento dos cantores country Johnny Cash e June Carter foi elogiado e rendeu uma baita grana. Mas causou tristeza nas filhas de Johnny com sua primeira esposa, Vivian Distin. Walk the line (nome original do filme) mostra June Carter como a grande salvadora da vida do errático Johnny, e exibe Vivian, interpretada por Ginnifer Goodwin, como uma dona de casa histérica que só tirava Cash do sério.

Em 2020, as quatro filhas do casal Johnny e Vivian colaboraram com o documentário My darling Vivian, que escarafunchava o baú da família e mostrava, com farta documentação, que a primeira esposa não apenas era grande incentivadora da carreira do ex-marido, como também havia comido o pão que o diabo amassou com ele. Descendente de italianos, irlandeses e africanos, Vivian foi perseguida por supremacistas brancos quando estava casada com Cash. No dia a dia, desempenhava o papel da esposa que, enquanto o marido dava shows, cuidava dos filhos e da casa (uma propriedade isolada no topo de uma colina, onde volta e meia apareciam cascavéis, das quais ela mesma precisava se livrar). Um caso de filme polêmico que acabou gerando outro filme, enfim.

Continue Reading
Advertisement

Trending