Crítica
Ouvimos: Madre, “Vazio obsceno”

- Vazio obsceno é o primeiro álbum do Madre, projeto da cantora e compositora Luiza Pereira, conhecida por seu trabalho na banda Inky. Luiza canta, toca guitarra, sintetizador e compôs todas as faixas. A produção é dela e de Luccas Villela.
- Para o álbum, Luiza criou uma espécie de manifesto anti-digital. Vazio só vai estar disponível nas plataformas durante seis meses, e depois poderá apenas ser ouvido em versão física.
- “Estão claros os efeitos negativos – e positivos também – que a cultura digital trouxe para a música independente, mas sinto que nos tornamos reféns e que estamos acovardados diante do que parece ser a única alternativa (…). Existem outros caminhos para resgatar o consumo de música e a relação de ouvinte/artista de forma mais humana, para além do digital. Música sempre foi sobre comunidade e experiência. Tenho mais interesse em ter uma micro comunidade de pessoas reais que me acompanham, do que focar em números virtuais que muitas vezes nem convertem em nada concreto”, diz.
Vazio obsceno, a estreia em álbum do projeto Madre, de Luiza Pereira, tem simultaneamente um ar anos 1990, graças às guitarras e ao peso da gravação, e um clima espacial e psicodélico, dado pela produção, pelos efeitos e pelo uso dos instrumentos. Na mixagem, a voz de Luiza aparece como um dos instrumentos, nem sempre como um destaque à frente de tudo. Várias canções do disco soam hipnóticas, em melodia, produção e mixagem.
Entre referências de Radiohead, Portishead, e um tanto de post-rock, a ambiência do disco é dada por músicas como De um jeito ou de outro, com vocal soando quase como um teclado ou guitarra (e referência de When the levee breaks, do Led Zeppelin segundo a própria Luiza). Ou o som psicodélico de Lá longe no espaço e de Transe, a primeira num clima meio stoner, meio industrial, a segunda com baixo bem forte no ouvido e valorização de graves. Já Tento ou Azul imenso são quase baladas – na real, baladas ruidosas nas quais a aproximação com bandas como Pixies e Radiohead é evidente.
Ainda em Vazio obsceno, Caos é um som quase grunge, quase na cola de bandas como Tad e Soundgarden, Fantasma é pós-punk trevoso, pesado e suingado. No encerramento, Sirenes sugere algo de The Cure e Siouxsie and The Banshees, com abertura acústica e quase hispânica. As letras, por sua vez, metaforizam assuntos como relacionamentos, isolamento na pandemia, sexo, morte e assuntos sobrenaturais.
Nota: 8
Gravadora: Seloki Records
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Crítica
Ouvimos: Scrambled Heads – “Inward, then apart” (EP)

RESENHA: No segundo EP, Inward, then apart, o duo curitibano Scrambled Heads mistura emo, pós-hardcore, shoegaze e hardcore dos anos 1990 em músicas sobre dúvidas, inseguranças e culpa, entre peso e melodia.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 7 de agosto de 2026
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Buga (Redlightz, também ex-Abraskadabra) e André Pamplona (ex-Monaco Beach) fizeram do Scrambled Heads um projeto de estúdio, bem diferente das outras bandas que eles já tiveram. Com um bom tempo de experiência no DIY curitibano, eles já passaram por turnês (fora do Brasil inclusive) com sérias restrições orçamentárias, viagens de van por tudo quanto é canto, e o Scrambled Heads vem num momento de sossego para ambos.
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Inward, then apart, segundo EP do grupo investe em uniões de emo, pós-hardcore, shoegaze e hardcore californiano dos anos 1990 – com uma certa pressão nesse terceiro estilo. Não chega a ser um “punk pop”, mas as melodias em sua maioria são ganchudas e cantaroláveis, cabendo boas harmonizações em The observer, linhas vocais bem construídas em Chaos left unsaid e porrada punk em faixas como Wildfire e I build shelter from branches of second-guessing – esta, com andamento sinuoso, meio herdado do skate-rock e do reggae.
As letras acompanham a porrada, falando de dúvidas, inseguranças e sombras – além do fantasma da culpa tomando conta de Guilt trip. Som de peso, em busca da calma.
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Crítica
Ouvimos: 14 Flamingos – “Fine art” (EP)

RESENHA: O coletivo canadense 14 Flamingos, que chega a reunir até 14 músicos em shows, lança em Fine art, EP de três faixas que cruza rock setentista, soul, yacht rock, psicodelia e pós-punk com arranjos expansivos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 27 de agosto de 2026
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O 14 Flamingos era só uma banda-dupla – depois virou uma banda de verdade, e depois, uma multidão de colaboradores, que chega a somar 14 pessoas dependendo da gravação e do objetivo a alcançar. O EP Fine art, com três faixas, usa essa turma toda para contar histórias através das letras, das melodias e dos arranjos.
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O grupo (que vem do Canadá) é tão bom em bandeirar seu próprio trabalho, que dá até pra deixar a banda falando sobre si própria. Como em Habsburg chin, que eles definem como “imagine um baile em Versalhes, só que a banda foi substituída por um grupo de pessoas que provavelmente entraram pela porta dos fundos de uma taverna” – na verdade é um rock anos 1970, que tem muito de soul e yacht rock, e até das invenções musicais de Kevin Ayers e Tom Waits.
Yesterday’s fair responde pelo lado mais carnavalista do disco, chegando a lembrar Mutantes em alguns momentos. The duke, terceira e última faixa, é uma fanfarra pós-punk, com ritmo funkeado, e a mehor melodia do disco.
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Crítica
Ouvimos: Cella – “Efeito borboleta”

RESENHA: A amazonense Cella estreia com Efeito borboleta, disco de MPB-pop que cruza ritmos nortistas, reggaeton, funk e dance music em canções sobre mudanças, amores e autoconfiança.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 7,5
Gravadora: Urban Pop
Lançamento: 8 de maio de 2026
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Estreia da amazonense Cella, que é cantora e atriz (esteve na montagem carioca da peça Fala sério, mãe, ao lado da autora Thalita Rebouças), Efeito borboleta é um disco de mudanças pessoais em clima de MPB-pop. Cella mistura sons de sua terra e climas de reggaeton e funk, relembrando amores em que precisou se esforçar para caber na vida de outra pessoa (Demais pra você) e de situações bem mais tranquilas e empoderadoras (Encantaria, Meu norte). Mas depois as coisas saem do controle, romanticamente falando, com as lentinhas Veneno (com participação de Doral) e Me ignora.
É um pop correto, brasileiro, bem produzido, com boas canções e cantado em tons de bossa – e que, de certa forma, reapropria muitas vibes sonoras do Norte que volta e meia aparecem em gravações feitas em outros lugares. Lá pelo final, Karma junta dance music, latinidade e riffs de guitarrada, seguida por dois remixes (da própria Karma e de Meu norte).
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