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Crítica

Ouvimos: Lutalo – “The academy” (versão deluxe)

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Primeiro álbum de Lutalo, The academy volta em edição deluxe, a tempo de ser descoberto por quem ainda não ouviu o som desse cantor norte-americano que fala de vivências pessoais nas suas músicas.

RESENHA: Primeiro álbum de Lutalo, The academy volta em edição deluxe, a tempo de ser descoberto por quem ainda não ouviu o som desse cantor norte-americano que fala de vivências pessoais nas suas músicas.

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Talvez você ainda não conheça Lutalo, então vamos lá: Lutalo Jones é um jovem (24 anos) músico, compositor e produtor do Minnesotta. Ele é primo de Adrianne Lenker (Big Thief), já abordou em suas músicas temas espinhosos como a situação dos negros e indígenas nos Estados Unidos, e volta e meia recorre à própria história para fazer suas canções. Lançado em 20 de setembro de 2024, seu álbum de estreia, The academy, mergulha em suas memórias de ex-aluno da escola que dá nome ao disco, em St Paul – uma instituição tão clássica que o escritor F Scott Fitzgerald estudou lá.

Lutalo, que enfrentou várias barras pesadas familiares ao longo da vida, estudou lá com bolsa de estudos, teve diversos problemas de adaptação e sofria para tirar boas notas. “Como não tirava as melhores notas, presumi que era simplesmente ruim em aprender. Refletindo, sinto que não sou – a estrutura de aprendizagem simplesmente não funcionava para mim. Passei a entender e respeitar isso e simplesmente aproveitar o que pude”, disse num papo com a Rolling Stone britânica. Faixas do disco como o soul blues climático Big brother e o shoegaze Oh well vão fundo nessas lembranças, falando de uma crise econômica (em 2008) que deixou sua família sem teto, e da separação de seus pais.

  • Ouvimos: Ethel Cain – Willoughby Tucker, I’ll always love you
  • Ouvimos: Jehnny Beth – You heartbreaker, you
  • Ouvimos: Alex G – Headlights

Já Summit Hill, folk cheio de cortes no ritmo, além de “defeitos especiais” de gravação, abre colocando o/a ouvinte no tema, lembrando que Lutalo e um amigo, ambos outsiders em meio aos ricaços, costumavam andar pelas cercanias da escola observando as casas de alto luxo, sempre pensando no abismo social que os separava daquela turma. Oceans swallow him whole, um guitar rock que une sombra e luz, e tem evocações de bandas como Placebo, fala indiretamente sobre alguém que tentou atingir Nova York seguindo por um lugar menor, mas deparou com montes de injustiças sociais.

The academy volta agora em edição deluxe, com quatro faixas a mais, aumentando o escopo musical do álbum. Se você ouvir apenas o comecinho de The academy, com Summit Hill e Ganon, vai ver em Lutalo um revivalista do blues rock dos anos 1970, e um experimentalista do folk. O disco avança para o shoegaze, para sons assemelhados ao britpop (Broken twin), para o country-rock com clima beatle (3 tem andamento lembrando o hit Come together) e até para algo que fica entre Pixies e Slowdive – em About (Hall of egress) e na faixa bônus Cracked lip. Há também emanações mais sombrias no folk psicodélico Haha halo, e no quase-trip hop Lightning strike.

Como letrista, Lutalo nem sempre é direto – às vezes parece criar diálogos nas letras, como o encontro de gerações de The bed. Já Oh well relata as tragédias familiares lembrando que o céu parecia desmoronar, e que os maiores problemas vividos por sua mãe não saíram nos jornais, nem foram “mostrados e contados”. No geral, uma poesia que machuca.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Winspear
Lançamento: 19 de setembro de 2025

Crítica

Ouvimos: Ladylike Dragons – “Ladylike dragons” (EP)

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Resenha: Ladylike Dragons – “Ladylike dragons” (EP)

RESENHA: O francês Ladylike Dragons cruza garage rock, pós-punk e batidas dançantes em quatro faixas de guitarras secas e vocais à la Nico e Chrissie Hynde, com ecos de Strokes, Eurythmics e até ABBA.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Nice and Rough Records
Lançamento: 10 de outubro de 2026

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A França tem bandas indie bacanas que, mesmo tendo muito tempo de existência, passam batidas para quem não mora lá ou não acompanha o que rola por lá. O Ladylike Dragons começou em 2006 e segue uma onda indie-chique bem interessante, com uma cara sonora elegante e garageira – é como se eles aguentassem o calor na garagem usando casaco de couro e óculos escuros, e investindo num clima musical meio roqueiro, meio maquínico.

Challenge the law, faixa de abertura do novo EP, é tudo isso junto: tem guitarras simples na onda do pós-punk, bateria socada, vocais blasé lembrando um misto de Nico e Chrissie Hynde (a frontwoman Cindy Chaillou é especialista nisso)… Never listening é guitar rock com batida dançante e impaciente e We’re the ocean é bem pós-punk, com baixo à frente, riffs econômicos e algo entre Strokes, ABBA e Eurythmics. Nessa, Cindy manda bala nos vocais dramáticos, cantando uma letra em que amor e paixão são quase como um estilo de vida.

Eleven past nine encerra o EP com guitarras ruidosas e um curioso clima de dub + garage rock, em que tudo ressoa e ganha peso. Conheça agora.

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Crítica

Ouvimos: Phoebe Bridgers – “Lost weekend”

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Resenha: Phoebe Bridgers - "Lost weekend"

RESENHA: Em Lost weekend, Phoebe Bridgers mistura folk, ambient, dream pop e psicodelia para revisitar a relação com o pai, traumas familiares e amores desfeitos. Um disco sombrio, delicado e quase cerimonial.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Dead Oceans
Lançamento: 14 de agosto de 2026

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Há uns anos, fiz um curso de roteiro em que o professor costumava dizer que fazer o script de um filme, uma novela ou um programa de TV era basicamente tomar decisões – você podia dar ao personagem um fim de vida indigno, um amor bem ou mal resolvido, um enredo batido ou o que quer que passasse pela sua cabeça, mas sempre teria que tomar as melhores decisões. No fim de tudo, ia restar disso uma novela ótima, um filme horrível, um abacaxi que ninguém veria… Muita coisa diferente.

As decisões que Phoebe Bridgers toma para sua carreira… Bom, são decisões que só podem ser tomadas por ela e mais ninguém – ou você imagina outro artista ousando fazer shows-surpresa, tendo a certeza de que tem fãs doentes a ponto de ficar tentando descobrir para qual cidade a caravana do sujeito (ou sujeita) vai? A identificação de seu público com ela e com sua música parece ter efeitos quase hipnóticos, pelo que dá para entender das reportagens que saem sobre seus fãs e seus shows.

A pior decisão que Phoebe poderia tomar nesse momento seria lançar um disco ruim, coisa que ela não fez em Lost weekend, nem de longe. Detalhe que, antes de qualquer coisa. Lost weekend é um disco hipnótico, assumidamente influenciado por climas ambient, em que quase todo o repertório tem uma cara meio cerimonial, enlutada, até mesmo no momentos de explosão. The outside, na abertura, já estabelece o clima meditativo – é uma balada sentimental e voadora, com vocais parecendo vir do céu. Tem um vocoder logo no começo, assim como rola em Lost boys, música bonita e meio folk, bem tristinha graças às cordas e aos vocais meio Beach Boys. Folk e cordas são a base também de Kill me, na sequência.

Na real, em boa parte do tempo, Lost weekend alude a algo perdido no tempo e no espaço. E nem sempre isso vem necessariamente de Phoebe. Muita coisa parece vir de uma sensação de masculinidade tóxica perdida, ou de homens tóxicos perdidos no tempo – ou de relacionamentos que se transformaram em cidades-fantasma. A morte do abusivo pai de Phoebe gerou vários dos sentimentos misturados e espalhados pelo álbum e por todos os seus “produtos”, como a historinha viking do clipe de Lost boys. Ou o clima antigo, de som das cortes antigas, de The governor’s waltz, música balizada por um clima que lembra um vento a levar tudo para bem longe.

Essa ventania dá as caras na psicodelia misteriosa de Bobby, na onda desesperançada do reggae-folk Haunted e na delicadeza de Other plans. A reaproximação de Phoebe com o pai na época da pandemia surge cercada de lembranças – nem todas são boas, como na história de violência do dream pop noturno Still standing, em cuja letra ela recorda ter visto a mãe “sangrando na pia”. Após as frases soltas de Never going back!, surge uma mensagem do pai gravada no celular, em tom simultâneo de cobrança e amor. Ou talvez só de cobrança, com amor embebido em trauma.

A Phoebe que emerge de Lost weekend é quase tão ligada aos elementos da natureza quanto Stevie Nicks e Rita Lee – e bastante linkada ao folk e ao sons ambient como catalisadores musicais, como sinais de que algo no tempo vai mudar, como indicadores de coisas que ficaram perdidas no passado e ainda doem. Tipo em Other plans, música em que um corte na letra mostra como planos antigos são interrompidos “por amor”.  Já I can’t wait, com participação de Cameron Winter (Geese) promete ser o sing-along triste do ano, enquanto a curta Panorama insere fuga e beleza na história.

No roteiro de Lost weekend ainda tem um folk cigano saltitante “da nova era” – que na verdade começa como dance music e só depois vai se descolando da matriz. É Liberty tree, que soa como um hino às contradições da vida – as raízes emocionais que prendem todo mundo, os relacionamentos escrotos que todo mundo vai deixando pra trás. É um tema igualmente recorrente num disco em que uma das faixas, a delicada Panorama, tem sua letra resumida à frase “nunca mais voltarei / o jeito que costumava ser não é mais o jeito que é”. E nada permanece igual. Nunca.

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Crítica

Ouvimos: Zada – “Heart of a lion” (EP)

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Resenha: Zada – “Heart of a lion” (EP)

RESENHA: Em Heart of a lion, a cantora etíope Zada cruza reggae lo-fi, R&B, acid jazz, afrobeat e dance music com sonoridade vintage. Quatro faixas sobre respeito, aceitação e união, com participação de King Cruff.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Z-ZAD Entertainment
Lançamento: 25 de setembro de 2026

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Nascida na Etiópia e radicada em Whistler, Colúmbia Britânica, Zada é uma cantora com um lance bem vintage no som, na voz, na produção. O EP Heart of a lion poderia ser uma daquelas descobertas de DJs dos anos 1990, abrindo com o clima bonito e cru de Leave the show, reggae com efeito lo-fi, parecendo em alguns momento vir de uma fita K7. O r&b They’ll never find us vem na sequência, propondo um “além do horizonte” que pode ser encontrado dentro de nós mesmos.

São só quatro faixas em Heart of a lion – a faixa título tem participação do rapper canadense King Cruff e põe certo clima acid jazz + afrobeat na mistura sonora de Zada, que ganha na mesma faixa um ar experimental e meio maquínico. We’ve been runnin’, no final, une algo de rock dos anos 1960 na melodia e no arranjo, mas se torna logo uma dance music texturizada e vintage. No geral, um pop alternativíssimo e muito bem realizado – sempre apontando para temas como respeito aceitação e união em todos os momentos.

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