Aparentemente não era preciso fazer muita coisa para deixar Lou Reed puto da vida – seus entrevistadores que o digam. Mas um assunto que costumava deixar o cantor irritado era quando alguém fazia interpretações maldosas de uma de suas letras mais, er, doces, Perfect day.

A música apareceu na trilha do filme Trainspotting, o que já fazia com que muita gente achasse que a tal “sangria no parque” era alguma referência à heroína, e que o tal “dia perfeito” fosse cheio de picadas, orgias e daí para cima (ou para baixo). “A visão desse cara de um dia perfeito era a garota, sangria (a bebida) no parque, e então você vai para casa. Um dia perfeito, muito simples. Eu quis dizer exatamente o que disse”, afirmou num papo de rádio em 2000.

Perfect day, a gravação original, trazia Lou Reed muito bem acompanhado: David Bowie nos teclados, Herbie Flowers na tuba (originalmente baixista, ele era o mesmo criador do riff intermitente de Walk on the wild side) e Klaus Voorman, velho parça dos Beatles e criador da capa do LP Revolver, no baixo. E em 1997, muitos anos depois de seu lançamento (a canção é de 1972), a música voltou regravada num esquema meio We are the world, numa campanha da BBC. Olha aí.

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Bom, exageramos um pouco: não se trata de um USA For Africa porque cada cantor aparecia em separado, soltando a voz. O clipe foi feito lado a lado com a agência de publicidade Leagas Delaney, exibido nos canais da BBC e, aliás, complementado com uma mensagem que exaltava o serviço público da emissora britânica: “Seja qual for o seu gosto musical, ele é servido pela Rádio e Televisão da BBC. Isso só é possível graças à forma única como a BBC é paga por você. BBC. Você faz dela o que é”.

A mensagem foi bastante criticada: mas peraí, artistas que ganham cachês altíssimos, muitos deles vivendo em paraísos fiscais, exaltando a grana gasta com os impostos que mantêm a BBC? A emissora se defendeu avisando que cada nome recebeu 250 libras, “mínimo” pago por uma participação na estação. E ainda teve mais: em 17 de novembro de 1997 a canção saiu como single de caridade, para arrecadar fundos para a BBC Children in Need, que ajuda crianças e jovens em situação de necessidade.

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Ficou faltando falar quem estava participando da tal canção, claro. O site The Daily Edge fez um exame detalhado de quando aparece cada nome que soltou a voz na música. Pela ordem, você tem: Bono, Skye Edwards (Morcheeba), David Bowie, Suzanne Vega, Elton John. Depois, Boyzone, Lesley Garrett (apresentadora de TV e cantora de música popular operística), Burning Spear, Bono (de novo).

Mais adiante: Thomas Allen (barítono inglês), Heather Small, Emmylou Harris, Tammy Wynette (cantora conhecida como “a primeira-dama do country”, morta em 1998), Shane McGowan (Pogues), Dr. John, David Bowie (de novo). E também Robert Cray, Huey Morgan (Fun Lovin Criminals), Ian Broudie (The Lightning Seeds), Gabrielle (sensação pop britânica dos anos 90, sucesso com Dreams e Give me a little more time). Depois, Dr. John (de novo), Evan Dando, Emmylou Harris (de novo), Courtney Pine (no sax). Indo pro fim, Brett Anderson (Suede), Joan Armatrading, Laurie Anderson, Heather Small (de novo), Tom Jones, Heather Small (de novo!!!). E Lou Reed fechando.

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