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Fanzine virando biblioteca, oficina e objeto de estudo em Macaé (RJ)

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Fanzine virando biblioteca, oficina e objeto de estudo em Macaé (RJ)

Se tem gente por aí dizendo que os fanzines são uma mídia antiga e que as pessoas só querem saber de internet, é uma excelente oportunidade para essa pessoa conhecer a turma do Projeto IFanzine, conduzido pelo designer e cartunista Alberto Carlos Paula de Souza (o popular Beralto) no Instituto Federal Fluminense campus Macaé, Rio de Janeiro. Desde 2013, o projeto promove oficinas de fanzine e quadrinhos, e em 2017 passou a ter uma fanzinoteca, para abrigar tanto o acervo local quanto o de outros autores.

O IFanzine tem também produção própria: o zine Peibê, surgido em 2016, que já ganhou até prêmio (o Troféu Angelo Agostini na categoria fanzine). A sede da fanzinoteca tem abrigado trabalhos, mostras, encontros entre alunos e fanzineiros, além das oficinas. E fomos lá bater um papo com o Beralto pra saber o que eles andam fazendo.

Como começou seu relacionamento com os fanzines?

Nos anos 1980. Conheci o primeiro, o Notícias dos Quadrinhos do Ofeliano Almeida, do Rio de Janeiro. Daí me encantei com o mundo dos zines, especificamente os zines de quadrinhos, que é a minha praia. Daí publiquei meus quadrinhos em vários zines da época, Mutação (RS), Politiqua (RS), Aventura (RJ), Marca de Fantasia (PB), Hiperespaço (SP), etc.

Aliás, como começou a estudá-los e colecioná-los?

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Bom, o primeiro zine foi apresentado por um professor na época do ensino médio. Também as revistas Calafrio e Mestres do Terror da Editora D’Arte tinham uma sessão de cartas com anuncio de zines e daí, achando os primeiros zines, a gente achava o fio de ariadne pra transitar e interagir na nossa mídia social analógica.

Já estudar zine ou aplicá-lo na educação foi há cerca de 13 anos, quando comecei a trabalhar como servidor no Instituto Federal Fluminense campus Macaé RJ, uma escola pública da rede federal de ensino profissionalizante. O projeto de zines é uma ação de extensão acadêmica. Nesse contexto começamos a resgatar a paixão pelos zines nesse ambiente do ensino e aprendizagem e vem dando certo, a ponto de termos conseguido em 2017 um espaço físico para montar uma Fanzinoteca.

Fanzine virando biblioteca, oficina e objeto de estudo em Macaé (RJ)

Beralto (esq.) durante oficina de fanzine em escola pública

Como foi que os fanzines chegaram ao Instituto Federal Fluminense?

A partir dessa nossa proposta de oportunizar para os estudantes a proposta Do It Yourself de customizar a mídia tátil com o jeito livre, expressivo e autoral. E ao mesmo tempo apresentar aos educadores o zine como uma ferramenta acessível como estímulo à produção textual e como ferramenta avaliativa.

Fale um pouco sobre o impacto que o projeto provocou no universo dos fanzineiros. Muita gente procura vocês?

Na nossa região circulamos pelas escolas públicas promovendo oficinas de zines e em eventos culturais, eventos de rua e eventos acadêmicos. Fizemos oficinas para idade de 8 a 80, (sem exagero) e para público de ensino fundamental à pós-graduação.

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A partir da criação da Fanzinoteca passamos a receber também a visita de caravanas de estudantes, que não vêm apenas para conhecer a casa dos zines, mas conhecer a escola como um todo, mas a Fanzinoteca passou a fazer parte do tour dos alunos potenciais candidatos do processo seletivo de ingresso na escola. Os jovens com aptidão para as artes ficam encantados.

Quanto à comunidade zineira, desde a criação do projeto em 2013 temos feito parcerias, e temos recebido doações generosas de autores e aficionados da cultura zineira. E somos muito gratos à comunidade zineira por todo apoio. Temos realizado também a Mostra Peibê de Zines e Publicações Independentes que reúne autores veteranos com os novos talentos revelados pelo projeto.

Fanzine virando biblioteca, oficina e objeto de estudo em Macaé (RJ)

Trabalho de língua portuguesa na fanzinoteca

O que você tem guardado na fanzinoteca e como ela pode ser visitada?

A Fanzinoteca tem um acervo atualmente em torno de 3500 exemplares e os zines abarcam a diversidade que o zine contempla, zines de HQ, zines de música, terror e ficção científica, zines de artes visuais, zines de movimentos sociais, zines produzidos por escolas e universidades. Destaque para os zines feitos pelos alunos da escola que, feitos como um espécie de prova alternativa, após atribuição de nota, passam a fazer parte do acervo. É uma ressignificação do processo avaliativo e os docentes de língua portuguesa, espanhol, ingles, história, filosofia e sociologia são os que normalmente demandam o uso de zine nesse contexto pedagógico.

A Fanzinoteca é pública e funciona de segunda a sexta de 13h30 às 16h30, e outros horários podem ser agendados previamente pelo e-mail fanzinotecamacae@gmail.com. Autores de fanzines e publicações independentes podem agendar lançamento de publicações, educadores podem agendar oficinas de zine e visitas coletivas para acesso ao acervo. Como a pandemia estamos com as portas fechadas desde março de 2020, e esperamos retornar no ano que vem em condições seguras assim que possível.

Como vocês fazem para explicar às novas gerações o que é um fanzine, levando em conta que com a internet a novidade da “autopublicação” virou parte do dia a dia de muita gente?

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Justamente por ser o zine uma mídia pré-internet, e por embutir o modo artesanal de fazer e com o jeito analógico de curtir e compartilhar, que faz o zine ser uma novidade para o nativo digital. Pode até haver uma estranheza inicial quando propomos ao jovem fazer um zine nas oficinas, mas logo o pessoal se solta e fazem zines super criativos.

Fanzines ainda têm muito apelo no mundo digital? Como os alunos das oficinas reagem à descoberta de que é possível produzir material físico para leitura com bom conteúdo, muito talento e material caseiro?

O nosso projeto resgata e prioriza esse modo de fazer tradicional do zine, mas não descartamos a veiculação nas plataformas digitais, zine físico e zine digital podem e devem conviver pacificamente. Normalmente lançamos o zine fisicamente e depois disponibilizamos no meio digital. Os zines do projeto Fanzinoteca podem ser acessados gratuitamente no site da Editora Marca de Fantasia através deste link.

Confesso que no começo do projeto senti dificuldades de envolver os alunos, mas tudo foi questão de tempo, até o projeto alcançar visibilidade e, contando com a adesão dos professores, o zine hoje é um fenômeno “viral” na escola. Há pouco tempo descobri que os alunos antes de virem estudar aqui já ficam sabendo que tem um tal de fanzine que os professores usam às vezes como forma de avaliação. Isso é inimaginável porque há 9 anos atrás praticamente ninguém sabia, por aqui, o que é um zine.

E hoje os fanzines estão na internet, em PDF. Como vê mais essa possibilidade?

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Uma das formas possíveis de veiculação, de fazer circular os zines. Inclusive durante a pandemia criamos um repositório de zines digitais. E o link está acessível para quem quiser conhecer os web-zines e zines analógicos digitalizados. Temos contatado antigos faneditores na intenção de pedir arquivos digitais de zines para que essa memória nãos e perca. Inclusive nos oferecemos para digitalizar quando o autor não tem tempo ou recursos para esse trabalho. Eis o link da Zineteca Digital Colaborativa, a ZDC.

Fale da Peibê, a publicação feita pelo projeto. Saíram outras publicações dele?

O zine Peibê é o primeiro e principal zine de nosso projeto. O nome foi sugerido pelos estudantes, referenciando o preto e branco das revistas artesanais normalmente em fotocópia. Ele apresenta a proposta de publicar quadrinhos de estudantes da casa e de veteranos no fanzinato, o que representa uma excelente diálogo intergeracional que ajuda a incentivar os novos autores. Apreciamos muito a diversidade de estilos de fazer quadrinhos com essa proposta livre dos zines, e já publicamos quadrinhos com perfil profissional, até as HQs de homem-palito e rabiscos, ou seja, quadrinhos autorais são muito bem-vindos.

O zine Peibê chegou a ganhar um troféu Ângelo Agostini e foi muito bom como conquista coletiva e pra dar visibilidade ao projeto. O Peibê está no número 7 e a oitava edição está em preparação. Depois dele, outros zines do Coletivo Fanzinoteca foram lançados, como o Traços de Memória, Café Filosófico, Afroindi e outros, sempre trazendo a marca do talento e protagonismo dos jovens estudantes da nossa escola.

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Ricardo Schott é jornalista, radialista, editor e principal colaborador do POP FANTASMA.

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Um papo com o Sakim de Kola: o punk vai à escola e zoa o sistema

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Hugo Panicali (voz), Rafael Cassimiro (guitarra). Vinicius “Krnero” Bordon (baixo) e André Bonini (bateria) são o Sakim de Kola, uma banda punk do interior de São Paulo que tem como missão zoar (muito) o governo brasileiro  atual e o conservadorismo, em canções como Vô mito, Carro do ovo e João Dória experiência. O EP de estreia, Cantigas pedagógicas aprovadas pelo MEC, foi ensaiado e parcialmente gravado no pátio de uma escola pública. Boa parte das letras vêm da vivência do batera André como professor. Os títulos das canções são corrosivos e auto-explicativos: UZI, Universidade Federal do Zap, Ministro da educassão, entre outras.

Aproveitamos o lançamento do EP (que dá o pontapé inicial no selo próprio deles, cujo nome, apropriadíssimo, é Quinta Série Records) e fomos bater um papo com eles para saber como surgiram a banda, o EP e a disposição para sacanear bastante essas figurinhas sombrias do poder (foto: Flávia Silvestrini/Divulgação)

Como a banda se formou e como é a cena da cidade em que vocês se formaram?

Hugo: A Sakim de Kola nasceu em 2019, em Santa Fé do Sul (SP). A banda saiu da ideia do André (baterista) e do Rafa (guitarra). Eles já possuíam uma outra banda autoral na cidade, a Cerveza de Litro, que misturava rock com música caipira e letras bem humoradas. Como a banda estava entrando num estado de inércia, eles resolveram montar uma banda de punk, com humor mais ácido e crítico. Eu, Hugo, fui chamado pelo André, que após ter escutado uns áudios meus imitando canções e fazendo umas palhaçadas julgou que eu tinha a versatilidade que ele buscava pra nova proposta. Logo após, chamamos o Krnero, nosso amigo em comum, para assumir o baixo.

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Nosso primeiro encontro para ensaiar rolou em abril de 2019, de onde foram tiradas pela primeira vez Carro do ovo e Vô mito, ambas composições feitas originalmente para a Cerveza de Litro. Uma curiosidade, antes da Sakim, tanto o André como o Krnero nunca haviam tocado seus respectivos instrumentos antes. A partir daí, nossa dinâmica de banda começou a ser construída. Nossa cidade é um reduto conservador, daquelas cidades do interior bem tradicionais, não passando de 30 mil habitantes.

Até o ano de 2017 alguns pequenos shows underground ainda ocorriam por aqui (com certa raridade, mas ocorriam) e, de vez em quando, brotava algum projeto autoral feito por amigos em comum, mas nenhum teve vida longa. O Cerveza por um bom tempo foi a única banda autoral da cidade, até seu fim e o nascimento da Sakim de Kola. Não há algo que podemos chamar de cena por aqui, as pessoas que curtem som underground são as poucas pessoas do nosso convívio, não há mais bandas e tampouco lugar para tocar. Os rolês só acontecem nas cidades ao entorno.

O repertório do disco basicamente foi formado pelas notícias que a gente tá vendo hoje no jornal e na TV. Já pararam pra pensar como vai ser explicar daqui a alguns anos esse momento que a gente tá vivendo? O disco já seria uma boa introdução?

Hugo: Estamos numa fossa histórica tão grande que vai ser um pega pra capar explicar isso tudo pras gerações futuras, haha. A quimera construída pelo conservadorismo moral aliada ao neo-liberalismo e ao fetiche militar vão deixar chagas tão profundas na nossa sociedade que resultará num árduo trabalho para recuperarmos até o mesmo básico já perdido.

Nosso EP reflete uma das faces da tragédia; o desmonte da educação, a desvalorização e repressão dos professores, a alienação dos alunos cujas máximas ambições não passam de um fetiche consumista ao passo em que são criados como futura mão de obra barata, o desdém pela ciência que os conservadores conspiracionistas promovem… Enfim, um disco cuja proposta é expor, de forma ácida e sarcástica, as entranhas desse projeto nefasto implementado no país, neste caso, na área da educação. Certamente um material que conta um pouco do que estamos vivenciando nesse momento da história, seria uma boa introdução, sim, juntamente com diversos outros materiais do meio underground com o mesmo intuito de denunciar toda essa barbárie lançados nesse mesmo período. E tem muita coisa boa por aí!

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As letras têm muito humor ácido e ironia. Como as pessoas que ouviram as músicas receberam isso? Tem gente que ouve fica chocada?

Hugo: Desde o começo a proposta da banda era essa, fazer um som debochado, sarcástico, meio maluco. Isso não reflete só nas letras, mas na nossa própria sonoridade, na fusão de gêneros do meio punk que resultam na nossa identidade. Até o momento, nunca tivemos grandes problemas com esse tipo de coisa.

Pessoal que já tá habituado com esse tipo de som sacou a proposta direto, até mesmo algumas faixas que antes nos gerava um leve receio por uma possível má recepção, como Educação Moral e Cívica, não nos deram dor de cabeça alguma com más interpretações. A canção Uzi, até o momento, foi a que mais gerou espanto, mas sempre no pessoal que não entende muito a pira do nosso estilo musical, gente de fora da cena, amigos ou familiares nossos. Algumas pessoas não sacaram o que a música quer atacar, acham que é um ode aos tiroteios em escola… pá acabar, haha! Mas quando rola algo do tipo, a gente explica, sem problemas. Como disse, no geral, pessoal sacou nossa proposta, isso nos deixa bem contentes.

André, você é professor. O quanto a vida que você leva na escola influenciou as letras? Como tá sendo dar aula num momento escroto desses?

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André: Trabalhar em uma escola pública possibilita ter uma boa visão de parte da realidade brasileira, principalmente no convívio com os alunos mais carentes. Duas contribuições marcantes dessa vivência são a letra da música Lucasmatheus, que é inspirada nas conversas de adolescentes do nono ano e também a escolha de começar o EP com um som de sirene de escola, o mesmo usado em fábricas, o que diz muito sobre como a educação é vista no Brasil. Lecionar no Brasil nunca foi fácil, mas nesse momento escroto, algumas bizarrices têm se destacado, como vereadores que querem fazer leis estúpidas para interferir no currículo e usar a escola para surfar na onda conservadora e até uma tentativa de transformar em cívico-militar a escola em que trabalho.

E como foi isso do disco ter sido gravado e ensaiado no pátio de uma escola pública? Rolou de aluno da escola terem ouvido as músicas? Tem um coral de adolescentes em Tia Neide, não?

André: Moramos numa cidade bem pequena e por isso não temos estúdios à disposição. Então ensaiar e gravar a bateria na escola foi uma alternativa bem legal já que o espaço é grande e o barulho não chega a perturbar a vizinhança. Somos muito gratos à diretora por isso e até emprestamos nosso equipamento de som para a realização da formatura do nono ano como forma de retribuir.

Os alunos acabam conhecendo as músicas por iniciativa própria, já que só tocamos lá nos fins de semana. Punk rock não está nas preferências musicais dessa geração, mas eles ficam curiosos e curtem saber que o professor toca em uma banda doida dessas. As vozes no final de “Tia Neide” são de alunos meus e foi bem massa essa participação, porque lemos a letra juntos e discutimos o sentido dela antes de gravarem os versos declamados.

Falem um pouco do Quinta Série, o selo que vocês montaram pra lançar o disco. Vão sair outras bandas por ele?

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Hugo: O Quinta Série Records, inicialmente, foi uma iniciativa nossa para lançar os sons da Sakim e de outros projetos que nós, os integrantes, pudéssemos vir a concretizar futuramente. Essa ideia tornou-se mais concreta a medida que fomos adquirindo nossos novos equipamentos de gravação, e eu, Hugo, fui estudando pra poder produzir os materiais.

Toda nossa produção é pelo do it yourself, e neste primeiro lançamento pelo selo, todo o processo, do começo ao fim, foi feito de forma genuinamente independente. Não fomos a nenhum estúdio profissional pra gravar e nem pagamos ninguém pra produzir o disco. Isso nos gerou um envolvimento maior, um propósito maior. Foi minha primeira experiência produzindo um material de forma mais séria, o intuito agora é melhorar as habilidades e conhecimentos de produção pra poder, sim, começar a produzir e lançar outras bandas e projetos underground num futuro próximo.

Nosso EP ficou bem legal, ainda que eu saiba que muita coisa ali pudesse ser melhorada, principalmente na parte de masterização. É um processo, é aprendizado que vem com o tempo. Mas sim, minha vontade maior é poder trampar com outras pessoas de fora pra poder concretizar mais e mais projetos e dar voz a outros artistas que tenham essa necessidade de gritar ao mundo suas revoltas. E que viva o barulho!

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Um papo com Flavio Tris sobre novo álbum, gravações à distância, amor e perdas

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Flavio Tris, cantor e compositor paulista, tem um hiato de quatro anos entre cada disco – era algo que ele não sabia explicar porque acontecia, mas que denota muita reflexão entre cada lançamento, ainda mais numa época em que todo mundo pisca o olho e saem vários novos álbuns e singles.

Vela, o terceiro disco, sai pelo selo Pequeno Imprevisto e tem participações de Monica Salmaso e Lenna Bahule. E é marcado, segundo o próprio Flávio, pela “interferência mínima dos arranjos instrumentais sobre o núcleo das canções”, como já acontecia com o disco anterior.

Batemos um papo com Flavio sobre a história musical dele, o novo disco e, claro, sobre como têm sido esses tempos de volta dos shows (foto: Guta Galli/Divulgação)

No release, diz que você não sabia direito porque havia uma diferença de quatro anos entre cada disco seu. Você diria que é isso tem a ver com a vontade de fazer com que seu som seja devidamente absorvido, a cada disco? Chegou a pensar sobre isso com o disco lançado?

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Possivelmente tem a ver com isso sim, até porque tenho de fato percebido que minha música é de absorção lenta. Pode bater – e bate – de primeira em alguns ouvintes, mas em muitos casos as camadas de entendimento vão sendo assimiladas aos poucos, inclusive por mim mesmo. É comum eu receber feedbacks de ouvintes que vão gostando mais das canções depois de anos da primeira escuta. Mas esse aspecto, acho eu, parece ser só uma das explicações possíveis para esse lapso regular entre os discos.

Existe também um aspecto prático, por exemplo na distância entre Sol velho lua nova (2017) e Vela (2021), que aqui se revela nas circunstâncias que me impediram de gravar esse último disco em 2019, como de início era a ideia. A doença e morte do meu pai, a falta de condições financeiras mínimas para realizar o disco. Mas justo aí reside o mistério, pois essas circunstâncias e o adiamento da gravação acabaram dando forma ao disco. Algumas canções que estão no disco nasceram depois de 2019, ou seja, não era para o disco ser gravado naquele momento, o disco veio mesmo quando tinha que vir. Aí portanto a sensação de que esse lapso era necessário e que não aconteceu por acaso, mas por razões de certa forma enigmáticas que talvez algum dia eu venha a decifrar.

Como você vê essa coisa da modernidade, de bandas e artistas lançarem singles e EPs um atrás do outro? E essa onda que chegou a rolar, de músicas bem curtas?

A onda das músicas curtas eu atribuo a certa superficialidade das novas gerações, em grande parte resultante de uma tendência de comportamento mais ansioso, menos reflexivo. Tem muito a ver com a dinâmica das redes sociais, certamente. E é claro, em termos absolutos não tenho nada contra músicas curtas, aliás a história da canção popular brasileira está cheia delas e muitas são joias indiscutíveis. Em Vela mesmo há uma canção com 2 minutos cravados. O problema não é a música ser curta, é ela ter que ser curta para atender a uma demanda mercadológica, ou pior, a uma involução geracional.

Sobre singles e EPs, sobre serem lançados a todo tempo, não vejo problema. Essa mudança na dinâmica dos lançamentos, apesar de refletir também, em certa parte, esse mecanismo “fast food” de consumir música, me parece legítima. O artista independente de hoje tem que estar trazendo atenção para a sua obra quase diariamente (o que é uma grande distorção, mas é o que é) e portanto é razoável que esses artistas estejam parando de lançar discos apenas a cada dois, três, quatro anos. Eu particularmente gosto de escutar discos inteiros e gosto de gravar discos inteiros, com dramaturgias mais complexas. Imagino que devo continuar a lançar discos inteiros, quem sabe a cada quatro anos, mas me vejo também entrando na dança e lançando singles, EPs, mergulhando em projetos paralelos.

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Você acredita que o fato de ter um espaço bom entre cada disco ajudou bastante no seu amadurecimento como compositor, cantor e criador de discos?

Eu certamente amadureci como ser humano desde o lançamento do meu primeiro disco. Imagino que isso tenha repercussão na minha obra, sobretudo considerando que minhas canções são relatos íntimos e muito verdadeiros de como eu vejo o mundo.

Como foi o processo de gravação? Foi tudo à distância?

De início gravei sozinho, em voz e violão, retirado no interior de SP, as prés do que seriam as canções do disco. Fui compartilhando tudo com o Gui Augusto, que era meu parceiro desde o início do projeto. Depois chamamos César Lacerda para a direção e concordamos em chamar novamente o Elisio Freitas para assinar a produção musical junto comigo, além de criar as guitarras e baixos do disco. Fomos para estúdio gravar o núcleo duro das canções: eu gravando violão, Gui Augusto gravando percussão, César na direção. A partir disso, exceto pela gravação das minhas vozes em estúdio alguns meses depois, tudo foi concebido, arranjado e gravado à distância. Elisio estava no RJ e todas as demais participações vocais e instrumentais foram gravadas pelos próprios músicos/cantores em suas casas ou em estúdio nas cidades onde estavam. Mixagem, masterização e arte gráfica, tudo também foi executado à distância, sempre sob a minha supervisão.

Como foi ter a Monica Salmaso no disco? O convite partiu de você?

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O convite foi ideia do César Lacerda e eu, admirador da Mônica, achei ótimo. Portanto foi nosso o convite. Mônica foi além do programado, gravou contracantos e vocalizes incríveis que não tínhamos imaginado. Abrilhantou a canção com sua musicalidade serena e potente. É um grande privilégio tê-la junto conosco em Vela.

Aliás, como foi trabalhar com o Cesar Lacerda no disco?

César é um amigo querido de longa data, um cantor/compositor extraordinário e um produtor/diretor competentíssimo. Já tínhamos trabalhado juntos em Sol velho, lua nova e o diálogo ao longo da realização de Vela fluiu de modo muito harmonioso. César foi importantíssimo em diversos momentos-chave da feitura do disco, sempre muito preciso e seguro quanto aos caminhos que devíamos seguir nas encruzilhadas com que nos deparamos ao longo do processo.

Você perdeu seu pai e tornou-se pai no meio da gravação. No que isso influenciou nas letras? Músicas como Saudade e Outras manhãs virão vem desses acontecimentos, certo?

Considerando que minhas canções são retratos das coisas que eu vivo e vejo, não havia como esses fatos não influenciarem as canções. A morte de meu pai sobretudo, pois o nascimento da minha filha aconteceu quando já estávamos finalizando as gravações. Saudade é uma canção feita para ele, após sua morte, do jeito mais franco possível. Dia da morte parece ser um tanto a voz dele mais até do que a minha, só que a canção foi criada enquanto ele ainda era vivo. Outras manhãs virão é um pouco anterior a essa vivência, nascida mesmo do meu sentimento diante da tragédia de termos eleito um presidente perverso, desumano, autoritário e incompetente, e num nível mais amplo diante da frustração de ver a ascensão do neo-fascismo no Brasil.

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Essa última música, por sinal, é a segunda mais ouvida no Spotify, do disco. O título da canção, que é bem esperançoso, deve estar atraindo muita gente para ouvi-la, não?

Essa canção acaba sendo uma provocação para lembrarmos sempre do caráter impermanente da realidade, para percebermos, mesmo dentro do olho do furacão, que muito já aconteceu antes e muito ainda vai acontecer, distante disso que estamos vivendo agora. Essa “esperança” nasce dessa percepção. E estamos quase todos precisados dessa esperança, dessa possibilidade de ver um futuro mais feliz, mais humano, mais generoso.

Fale um pouco da Lenna Bahule, que canta com você no disco.

Lenna é também uma amiga muito querida já há muitos anos. Cantora maravilhosa, compositora maravilhosa, pessoa maravilhosa. Sua participação no disco é uma imensa honra. Ela compreendeu perfeitamente o sentido da canção e sua interpretação é impecável.

Como você se envolveu profissionalmente com a música?

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Faço música desde muito cedo, pois tive aulas de piano quando criança. Pude ver um caminho como profissional da música quando comecei a compor, perto de 2004. Mas estava me formando em Direito, então ainda houve uma transição entre a advocacia e a música. No meio disso fiz um mestrado em Filosofia do Direito, cheguei a dar aulas em universidade, e enfim deixei tudo para me dedicar apenas à música. Gravei um primeiro EP em 2009, pude perceber que minha música tocava as pessoas, e soube ali que seria o primeiro de muitos. Não pretendo fazer outra coisa da vida até meu último dia.

Muita gente já está voltando a sair, a ir a shows, a reencontrar amigos. Como tem sido esse processo para você? Isso chegou a animar você a marcar shows do disco?

Eu imaginei que os shows presenciais só voltariam a acontecer em 2022, portanto estou um tanto atrasado no processo de marcar os shows da turnê de lançamento de Vela. Mas estou animado para isso sim, sempre acompanhando a evolução da pandemia, a circulação das novas cepas. Talvez ainda tenhamos que dar um passinho para trás na flexibilização das medidas de prevenção, mas estou esperançoso que, com a cobertura vacinal avançada que temos, a tendência é a volta a certa normalidade ao longo desse próximo ano.

Por conta sobretudo da nossa filha, eu e minha companheira estivemos bem rigorosos no confinamento durante esse último ano e meio, e ainda por causa dela seguimos tendo um cuidado acima do normal. Mas algum relaxamento já está sendo possível, sobretudo aqui em SP onde o vírus tem circulado menos. Ainda não me sinto seguro para sentar num boteco ao lado de desconhecidos, mas já tenho me permitido estar perto dos amigos e fiz um show recentemente nos arredores de Belo Horizonte para um público de aproximadamente 50 pessoas, com as pessoas seguindo os protocolos de prevenção. Tenho confiança de que em breve vai ser possível lançar o disco em SP. Se puder ser com sorrisos e abraços, tanto melhor.

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Faixa a faixa: Década Explosiva, “A distância entre as cidades”

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Década Explosiva é originalmente o nome de um grupo “pirata”, formado por músicos de estúdio, que gravou coletâneas de covers de sucessos internacionais nos anos 1970, pela antiga Odeon. É também o nome do projeto musical do artista alagoano Marcos Cajueiro, nascido em Arapiraca, com mais de quine anos de carreira independente, passando por bandas como Capona e My Midi Valentine.

“Cresci ouvindo esses discos, em casas de parentes”, explica ele, que lança agora o EP A distância entre as cidades, um disco marcado pela influência da música easy listening (tons de Beatles e Beach Boys podem ser ouvidos aqui e ali). “Na época que fiz essas canções eu estava num relacionamento a distância, então é uma coisa concreta”, recorda Marcos. “Mas também tem uma obra do artista cearense José Leonilson, um bordado que tem as frases ‘se você sonha com nuvens’ e ‘a distância entre as cidades’, que gosto bastante. E ele junta o nome do álbum com o nome da terceira faixa”.

Marcos, que compôs sozinho todas as músicas do disco, mandou um faixa a faixa para o Pop Fantasma. Ouça lendo (foto: Jamille Queiroz/Divulgação).

1 + 1 = 1. A harmonia e a melodia dessa faixa são os elementos mais antigos no disco. Lembro que a fiz no violão, quando ainda morava com minha mãe, há uns 15 anos. Ela estava muito estressada naquela época e odiava o som insistente de qualquer instrumento perto dela. Por isso, comecei a tocar no violão da forma mais suave e minimalista possível. Afinei em D para conseguir acordes abertos mais graves e então foram acontecendo algumas inversões.

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Tentei muito formatar essa composição em alguns de meus projetos anteriores, mas nunca rolou. Quando eu já tinha três faixas definidas para o disco de agora, veio-me a ideia de trazer aquele velho tema como introdução. Experimentei colocar letra na primeira parte do riff de guitarra, mas acabei percebendo que as palavras não eram necessárias ali. Aquilo que queria “dizer” já estava naqueles acordes. Foi quando descartei todo o vocal que havia antes de “rua aberta em mim”.

Resolvi deixar a primeira parte do tema só com a guitarra, por cinco vezes (há algo com os números ímpares em música). Nos encontros com a banda que gravou comigo (Arnon Câmara, bateria; Matheus Miranda, teclados; Reuel Willys, baixo) ainda tentamos acrescentar ambiências na primeira parte (antes da entrada do vocal). Criamos ruídos, colagens aleatórias, sons invertidos de sintetizadores… As ideias eram até legais, mas, após tantas tentativas, senti que a primeira parte deveria conter apenas guitarra e silêncio.

Em O ouvido pensante, Schafer diz que as canções também nos ouvem. É justamente esse minimalismo de 1 + 1 = 1 que cria espaço suficiente de escuta para deixar a música ouvir. E à medida que os acordes vão decaindo em silêncio, os sons ao nosso redor começam a se tornar mais perceptíveis. O vocal entra exatamente quando ocorre uma modulação tonal. Suspeito que aqui haja algo de Tom Jobim no vocal, algo presente nas canções mais introspectivas na linha piano e voz, tipo “canção em modo menor”.

Uma das coisas mais surpreendentes e maravilhosas dessa canção é a percussão que o Gilú Amaral criou para ela. A música já estava “pronta”, em fase de mixagem, quando tocou aleatoriamente no meu streaming Dança do pajé, do Hermeto Pascoal. Naquela hora, soou um estalo: “é isso!”. Talvez faltasse um elemento místico, algo que evocasse uma natureza encantada. Foi quando pedi ao Matheus algumas frases de piano elétrico meio “arpeggiadas”.

Disse ao Thiago (do estúdio Toca do Lobo, onde o disco foi masterizado) que precisava de uma percussão como aquela. Ele disse que tinha gravado no dia anterior com um percussionista muito bom (e ele tava certo). Isso levou a música exatamente (e mais um pouco) para a atmosfera que eu queria. Inclusive, ela ainda apresentava uma parte final só de guitarra que acabei cortando nos últimos momentos da mixagem, já que não me parecia fazer mais sentido qualquer coisa depois do clímax.

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Os versos são frases que se referem a uma paisagem emocional que não pode ser nomeada. Alguns desses versos foram coletados, como “rua aberta em mim”, de Walter Benjamin, referindo-se a uma paixão. “Summer, hummingbird” é de um lindo poema de Raymond Carver. O título da canção aparece escrito na parede num cenário do filme Nostalgia, de Tarkovsky.

Lembro que pesquisei a respeito da equação 1 + 1 = 1. Encontrei um texto que, de acordo com a tradução do google, afirmava que a sequência tinha algo relacionado ao monismo, à unidade das coisas, à imagem de uma gota de água que se junta à outra gota de água formando não duas gotas diferentes, mas uma única gota. Essa ideia é retomada em Década explosiva romântica, com o verso “eu sou você”.

ARIZONA SONHO. O riff principal de Arizona sonho me perseguia há um tempo. Tinha tentado desenvolver esse rascunho algumas vezes, mas não encontrava uma forma. Faltava refrão. Foi quando assisti, em 2020, ao filme Arizona dream (1993), do Kusturica. Já gostava muito do realizador e achei especialmente bonito um monólogo do personagem interpretado por Johnny Depp. Fui pesquisar no script do filme e não sei explicar bem como isso ocorreu, mas percebi que as frases encaixavam perfeitamente com a métrica daquele velho riff e que elas poderiam ser os versos da canção. Obrigado, Kusturica, meu parceiro, pelos versos!

Àquela altura, precisava como sempre de um refrão (malditos refrões, estão cada dia mais difíceis de se pescar). Ouvindo um antigo rascunho, meio jam, do riff, percebi que havia tentativas de improviso para uma linha de baixo e que, em determinado momento, surgia a frase melódica de she is the dream that I have as I wake, então ajustei o final da frase pensando no flow do vocal do Mos Def, na canção Creole do Carlie Hunter. Que música!

Nessa época, ainda não havia o projeto Década explosiva. Eu estava super perdido no hiato pós Capona, sem saber se ainda era indie, se queria ser guitarrista de jazz, cantar em inglês ou português etc. Um pouco depois, quando percebi que tinha material para um EP e que queria mesmo cantar em português, pensei em alterar a letra. Mas gostava tanto da minha parceria transtemporal com Kusturica que também não podia abrir mão da letra em inglês.

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Ao perceber que ainda havia espaço para dois blocos de versos, resolvi fazê-los em português. Quando já tinha verso, refrão e letra, parti à procura de uma linha de baixo. Precisava de algo como aquela linha de baixo absurda de Tart do Elvis Costello, mas como não manjo dos grooves de baixo, simplesmente não me saia.

Ainda sem banda, mas já começando a produção do que viria a ser o disco com Thiago, joguei pra ele a ideia do baixo. Falei da referência e sugeri que ele desenrolasse. Dias depois, ele me alegrou imensamente com a linha de baixo incrível que hoje tá na música. Thiago, além de ser um grande produtor, engenheiro de mixagem etc., é um músico excelente, grande amigo e adorador de gatos.

Em algum momento do final da mixagem, ainda pensei em tirar essa música do disco, numa tentativa de manter certa unidade estética entre todas as outras faixas, que notoriamente possuem elementos MPB 70/80. Mas me dei conta de que a unidade já tava lá. Essa ideia de unidade me vinha por achar que o Pink Floyd não deveria ter gravado Welcome to the machine e Have a cigar no disco Wish you were here. Pensei que simplesmente seria muito foda um disco composto “apenas” por Shine on you crazy diamond (parts I-IV) + Wish your were here + Shine on you crazy diamond (parts VI-IX) – não que as outras duas canções do álbum não sejam legais, mas elas emanam outra atmosfera.

SE VOCÊ SONHA COM NUVENS. Com exceção da letra, Se você sonha com nuvens é uma música antiga. Numa longínqua noite arapiraquense, soube que um grande ex-amor da época da faculdade estava em outro relacionamento, e que eles iriam ter um filho. Isso me deixou meio atordoado e fiquei ali, ruminando a notícia com o violão em mãos. Assim me vieram os acordes e a melodia, quase que de uma vez. Com o tempo, fui alterando alguns acordes e ela acabou ficando mais complexa nesse sentido.

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Interessante pensar que, naquela época, meu conhecimento de harmonia era muito básico. Só sabia os campos harmônicos maiores e menores e suas respectivas escalas. Então, não podia justificar nem nomear os acordes subV7 e as modulações, mas sabia que funcionavam bem. Com a banda que tinha naquele período (Super Amarelo, que tem o disco For your babies, 2015), ainda tentamos tocar essa canção com letra em inglês, mas não me parecia dar certo.

Depois tentei levá-la para a Capona, mas nosso querido baterista era muito grunge cheirador de benzina em flanela (metaforicamente falando, é claro), tanto que se negava a tocar uma música tão “fofa”. Quando ele finalmente cedeu, gravamos no disco Atom heart auto (2017) – que eu odeio muito e queria que ninguém ouvisse, diferentemente do Adults are the young who failed (2015), do qual eu gosto muito e queria que todo mundo ouvisse -, com o nome de She’s open seas (nome inspirado naquele título She’s thunderstorms, do Arctic Monkeys).

Contudo, o fantasma dessa canção, mesmo depois de gravada com a Capona, nunca me abandonou. Era como se eu não tivesse lhe dado a forma devida. Segui mexendo nela, alterando acordes, acrescentando cromatismos. Ela começava com E/G# (nossas casas…) e depois seguia para C#7b9. Acabei substituindo esse E/G# por um C#b7#9 (lembro, numa aula de harmonia, um professor ter falado algo como “esse acorde com a nona aumentada não é nem maior nem menor, é ambíguo, tenso.. Há uma música do Toninho Horta que já começa com esse acorde…”).

Aquela foi a primeira vez em que ouvi falar no Toninho e pensei “também quero ter uma música que comece assim”. Depois ainda lembrei do velho caminho darksideano do b7#9 para o b7b9. O último acorde dela era um D7/A, com a melodia finalizando na nota A. Mas, durante as aulas de guitarra jazz, descobri que a galera curtia terminar as músicas numa modulação de acorde com sexta.

Substituí o D7/A por um C6, mantendo a última nota do vocal no A, que é o 6º grau do C – Matheus ainda sobrepõe um acorde diferente (que não lembro qual) no piano e que ficou muito legal. Nessa música, começam os arranjos de metais do disco. Nunca tinha gravado com músicos profissionais, contratados. Fazia bandas com meus melhores amigos, independentemente de suas aptidões musicais.

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Lembro que, certa vez, precisava de um guitarrista e meu amigo Rodolfo me disse: “Tem o João Paulo! Agora, assim, ele literalmente não sabe tocar guitarra, mas tem ideias muito boas porque conhece muita coisa foda”.

Minha ideia pro disco, no sentido dos arranjos, era que soasse como algo clássico e velho, no caminho da MPB dos anos 70/80. Então eu tinha essa ideia de arranjo de metais. Além de influências mais diretas como o disco do Verocai (1972), esses arranjos de metais também se remetem a uma vibe easy listening, tipo Burt Bacharach. Esse vocal do refrão tem uma passagem relativamente aguda pra minha voz (F#). Fiz questão de treinar muito pra conseguir alcançar essa nota da maneira mais suave possível. Queria algo com aquele lance melódico suave do Clube da Esquina.

Por fim, o título é de uma obra em bordado do artista Leonilson. Lembro que um amigo comentou sobre essa obra lá por 2007 e aquelas frases – se você sonha com nuvens/ a distância entre as cidades – nunca mais saíram da minha cabeça.

DÉCADA EXPLOSIVA ROMÂNTICA. É curioso pensar que a canção de abertura da maior coletânea de músicas internacionais românticas de todos os tempos (Década explosiva romântica) não é uma canção de amor romântico no sentido conjugal da coisa, mas uma música sobre amizade, a velha ponte sobre as águas “troublulentas”. Preciso ressaltar que Bridge over the troubled water, talvez pelo arranjo e aquele clímax foda do final, seja a melhor canção popular de todos os tempos. Apesar das várias esquinas temáticas ao longo de seus sete minutos de duração, Década Explosiva Romântica é uma canção sobre amizade.

Eu costumava sair de casa para trabalhar com meu computador em algum café de Maceió. Também levava o violão. Ia tocando no caminho de ida, nos intervalos do trabalho e na volta, sempre procurando resolver alguma melodia incompleta. Certa vez, voltando pela avenida Amélia Rosa, acabei recordando uma velha progressão que por algum motivo me soava interessante: | Ab Gm7 | F |. Não sei se essa progressão tem um nome específico, mas o Gm7 funciona como um acorde pivô e a modulação para o F fica quase que naturalmente imperceptível.

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Pensei logo que aquela progressão funcionaria muito bem com uma letra em português, pois na época estava perdido na tentativa de compor na minha língua após anos criando quase que exclusivamente letras em inglês. Achei que o caminho seria modular esse F para Fm, daí naturalmente puxei o Bb7/9.

Certo dia, mexendo na progressão que viria a ser o refrão, cheguei na melodia e simultaneamente me veio a frase cantar canções de amor, o que coube perfeitamente. Então tive o insight de me referir à Década Explosiva Romântica. Sou muito fã, desde pequeno, daquelas músicas internacionais super apaixonadas. Tem algo de universal nelas, de catártico, mesmo quando as pessoas não entendem as letras, ainda é possível sentir a força, em qualquer lugar do mundo, inclusive, em Arapiraca, Alagoas.

Então eu costumava fazer umas noites de cantoria com meu querido amigo Tales Maia (ainda tentei o broder, broder… como tales, tales…), da My midi. Ficávamos bebendo, ele tocando piano e eu cantando só as pedras românticas. A gente morava junto nessa época e ele estava numa fase um tanto autodestrutiva, o que me deixava preocupado. Então pensei que a música seria sobre a gente, sobre amizade, depressão e de como poderíamos enfrentar tudo isso cantando em voz alta nossas velhas canções de amor, até o fim.

Em princípio, ela já começava com eu sou você. Lembro que um dia mandei o rascunho a um amigo, que achou a frase muito boa pra ser entregue assim de cara. Foi genial a observação dele. Fiquei sem saber o que fazer, porque é bem mais difícil criar um novo começo do que acrescentar possibilidades ao final. Se eu sou você é uma espécie de conclusão, então eu precisaria primeiramente entender todas as coisas que eu não sou, até restar apenas aquilo que eu sou.

Como numa investigação negativa não dualista, quando você percebe tudo aquilo que você não é, logo encontra a unidade. Então descartei qualquer ideia de introdução. Tinha que começar cantando para que a música não ficasse cansativa. Lembrei de Falso inglês do Toninho Horta e comecei. Mantendo apenas os dois acordes IIm7 – V7, num movimento de tensão sem resolução. Fiz quatro versos e percebi que precisava, sem aliviar a tensão, de um clímax. Consegui compor a linha de baixo groovada no estilo Colin Greenwood. Criei uma vocalização em falsete e fiz um solo de guitarra groovado jazz fusion. Instaurei o mini clímax inicial.

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Depois retornei ao bloco de conclusões negativas em tensão IIm7 – V7 até que finalmente cheguei no eu sou você, resolvendo a progressão em C7M. Essa resolução da harmonia com a afirmação da letra talvez seja meu momento preferido de todo o disco. Analisando a harmonia, pensei que poderia ser uma resolução deceptiva modulante, mas depois entendi que a música poderia estar implicitamente em C maior desde o início e que a progressão Fm6 – Bb7/9 poderia funcionar como backdoor progression da tonalidade maior (IVm7 – bVII7 – I). Tais ambiguidades harmônicas são maravilhosas.

Essa é a música mais jazz fusion setentista MPB do disco. Fiquei feliz por ela ter ainda dois solos de guitarra. Tem algo do Jacarandá (1973) do Bonfá. Já havíamos gravado os metais, sem o sax soprano. Foi tudo muito rápido num único dia, sem qualquer conversa prévia com os músicos dos metais. Depois pensei que deveria ter colocado o sax soprano, da forma mais romântica possível ali pelo refrão. Então retornei ao estúdio para gravar algo mais e joguei a ideia de marcar novamente com o Wellington, para ele acrescentar o sax soprano. Por coincidência, ele havia esquecido o carregador do celular no estúdio e voltou para buscá-lo naquela mesma noite. Gravamos o sax soprano e ficou incrível, principalmente quando vem o bloco modal F – Ab – Bb – C e ele solta um improviso que ainda toca meu coração.

No refrão, eu tinha o verso cantar canções de amor, cantar canções de amor, mas sentia que faltava um clímax, uma puxada modulante que pudesse fechar o refrão. Fui pelo caminho que o Herbert usou em Quase um segundo, quando ele faz será que você/ ainda pensa em mim/ será que você / ainda (aqui acontece a quebrada harmônica) pensa em mim / da ra ra ra…. Então saiu o cantar canções que ainda vão nos ouvir, e aqui usei o ensinamento do Schafer.

Lembro com muita alegria da noite em que Reuel e eu harmonizamos as vozes dessa parte (e isso me remete a I’ll remember Frank Lloyd Wright / All of the nights we’d harmonize ‘til dawn). Sou muito fã do Paul Simon e foi um prazer colocar Simon e Garfunkel com sotaque brasileiro na letra. Inclusive, as letras talvez sejam o elemento menos relevante pra mim nas composições, o que eu realmente quero dizer está sempre nos sons, nunca nos seus significados. São os fonemas que me importam. Alma ao mar – soou bem, coube ali e pronto.

RAISA. Fiz as letras do disco em 2020, quando estava deprimido, sem vontade sequer de sair da cama, morrendo de ansiedade, achando que tinha falhado em tudo na vida. Estava apaixonado, mas na época Raisa e eu morávamos em cidades diferentes. Durante as fases mais duras da pandemia, não podíamos nos encontrar. Então fomos nos desencontrando.

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Conheci Raisa em 2012, durante uma turnê da My Midi pelo nordeste. Ficamos juntos uma noite. Ela me desenhou algumas vezes depois disso e eu sempre dizia que queria lhe retribuir com uma canção. Nos reencontramos em 2019. Eu tinha passado os últimos anos me prometendo que nunca mais faria uma canção de amor. Dos nossos últimos encontros, ficou a frase “eu sou doidinho por ti”, que ela dizia adorar no meu sotaque alagoano.

É engraçado pensar que há lugares no nordeste brasileiro onde não se fala ti e di, mas “tchi” e “dji”. Então pensei que precisava fazer uma música com essa frase, o que em princípio me incomodava, pois meus ouvidos indies anglosaxões insistiam em taxar a frase como “brega”. Venci isso com a ajuda do Torquato, que, em defesa de um “pop genuinamente brasileiro”, declarou que deveríamos “assumir completamente tudo o que a vida dos trópicos pode dar, sem preconceitos de ordem estética, sem cogitar de cafonice ou mau gosto, apenas vivendo a tropicalidade e o novo universo que ela encerra”.

Comecei a mexer na frase em GM7, fui pra Gm6, F#m7 e fluiu o II – V – I menor. Quando percebi, tinha uma bossa nova. Apesar de estar decidido a percorrer estéticas “clássicas” brasileiras no disco, não queria uma bossa nova propriamente dita, por causa da quase inevitável estrutura harmônica AABA. Queria o bom e velho “verso – refrão – verso – refrão…”.

Com uma violência de jardineiro de bonsai, tentei atrofiar a canção para que ela atendesse a meu desejo, mas ela se mostrou uma árvore indomável e surgiu o segundo galho A, o fruto B e o terceiro galho A. Tava lá, a bossa nova. Daí me lembrei da estreitíssima linha entre shoegazer e bossa nova: melodias melancólicas sussurradas sobre uma base de ritmo lento e levemente dançante. Ela tinha que começar ruidosa, com camadas de guitarras distorcidas, o tremolo deixando o pitch da guitarra flutuando, durante toda a parte A(1).

Em seguida, na parte A(2), percebi que era a hora da transmutação: as guitarras shoegazers dão espaço para o arranjo bossa nova propriamente dito, entram o piano elétrico e as frases suaves de metais. Essa saída da parte A(1)-ruidosa para a parte A(2)-bossa-nova-elegante também é uma das minhas partes preferidas do disco. Fiquei muito orgulhoso quando meu pai ouviu essa canção e me disse que primeiramente achou que tinha algo errado no começo, até que meu irmão explicou a ele que era intencional.

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Passei vários anos evitando compor canções de amor (apesar de ouvi-las cotidianamente). Pensava que era algo como ser ateu e adorar a música do Arvo Pärt, mas quando me vi dizendo a Raisa que queria morar com ela, não era mais uma questão de escrever ou não canções de amor. Eu estava, afinal, escrevendo sobre mim.

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