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Cultura Pop

Peraí, quem é Celso Zambel?

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Peraí, quem é Celso Zambel?

Recentemente, o cantor e compositor paulistano Celso Zambel foi informado por um amigo de que era ídolo no Japão. “Ele me falou: ‘Seu disco tá custando trezentos dólares lá. Os caras piram ouvindo seu disco!'”, espanta-se ele.

Peraí, quem é Celso Zambel?
Capa do disco “Espírito da noite”, de Celso Zambel (Reprodução da Internet)

Em sua casa no bairro de Interlagos, ele tem guardadas duas cópias de seu primeiro álbum, Espírito da noite, lançado sem muita repercussão pela Som Livre em 1979. Uma delas, tinha sido dada de presente por ele na época à sua mãe, já falecida. Caso resolva vender ambas no Mercado Livre, vai concorrer com vendedores que pedem até R$ 800 pelo mesmo álbum – um preço que surpreende quem nunca tinha escutado falar do disco.

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Celso em 2019: o disco e seus instrumentos (Foto: Keithy Zambel)

Espírito da noite também é um disco surpreendente – a começar por ter sido lançado pela poderosa Som Livre. Celso diz ter recebido um borderô da gravadora informando que 5 mil discos tinham sido vendidos. A contracapa traz a inscrição “também em cassete”, comum em LPs na época – o que já serviria para animar fãs novatos das fitinhas.

https://www.youtube.com/watch?v=t7PelTcN3Uo

“Nunca nem vi fita desse disco”, diz o cantor. A capa, com uma foto de Celso em preto e branco, engana: dá a impressão de um disco lançado pelo selo indie britânico Factory em 1979/1980. Quem ouvir, vai conhecer um lançamento tardio da psicodelia nacional, que chegou às lojas quando os artistas que estourariam no pop dos anos 1980 já davam os primeiros passos.

Rei do lugar, uma das melhores músicas do álbum, dá a impressão de uma mescla de Lou Reed com Arnaldo Baptista. Se é que isso é possível.

Espírito da noite, meio sombria meio psicodélica, lembra um pouco o que aconteceria com o rock brasileiro nos anos 1980.

Por acaso, o disco termina com uma faixa chamada Mágica dos anos 60.

ANTES Espírito da noite surgiu numa época especialmente produtiva para Celso, que em 1979 já acumulava alguns anos de experiência (e certa fama, por vias tortas) no pop brasileiro. Desde o começo dos anos 1970, Celso sonhava em gravar discos próprios e mantinha uma banda chamada Mona, da qual havia participado uma multidão de músicos de São Paulo – entre eles, André Geraissati (guitarra) e Albino Infantozzi (bateria). André, por sinal, é o parceiro de Celso em todas as faixas de Espírito.

Se você leu a biografia A divina comédia dos Mutantes, de Carlos Calado, deve se lembrar que, no auge da fase virtuosística da banda, todos foram à Aclimação conferir o som de uma banda chamada Mescla. O livro conta que o grupo era liderado por um sujeito chamado Bartô, “o mais maluco da turma”, que “chegava a dissolver lascas de LSD direto nos olhos”.

“Eu toquei com o Bartô. Ele morreu ainda nos anos 70, era tecladista também. Ele era gênio e tocava muito, mas exagerou no LSD. Íamos a casa dele pra ensaiar e compor mas com o passar do tempo a coisa ficou pesada. Um dia fomos lá e ele tinha sido internado. Quando saiu da internação, toda vez que íamos a casa dele o pai, preocupado e com razão, nos seguia pela casa com medo que alguém desse algo pro filho dele”, conta Celso. “LSD era líquido e muita gente usava no colírio, porque era mais puro. A Mama Cass (The Mamas & The Papas) fazia isso. As drogas recreativas estavam na moda na época, mas não era a nossa. A gente preferia os enteógenos”, completa o cantor, hoje com 67 anos, “mas com aparência de 66”, brinca.

Em 1973, de contato em contato, Celso foi convidado por Arnaldo Baptista (“o Syd Barrett brasileiro”, classifica) para participar de um festival de novos artistas da Philips, que aconteceu no Estúdio Eldorado. “Era o verdadeiro Phono 73, com platéia convidada e com todos os novos artistas com potencial nacional e internacional de sucesso. Depois disso é que criaram o festival do Anhembi”, recorda o cantor (Armando Pittigliani e Roberto Menescal, que estavam por trás do Phono 73, foram procurados pelo POP FANTASMA mas dizem não terem lembranças desse evento inicial).

Celso acabou contratado pela Philips, mas (como pedia o espírito da época) sugeriram que ele gravasse apenas repertório em inglês, como fariam também nomes como Fábio Jr, Jessé e Christian. Começava aí uma longa saga de cantor-brasileiro-disfarçado-de-gringo, que rendeu vários lançamentos e alguns hits. E, mesmo que seu trabalho como compositor ficasse obscurecido, rolavam algumas vantagens.

“A grana era fantástica. Pô, com 20 anos eu ganhava uma grana respeitável. Eram quatro compactos simples por mês”, recorda. Contratado por gravadoras como Tapecar (que lançava o selo Stax no Brasil), Philips e Som Livre, Celso usou nomes como Tim Andrews, Detroit Blues Band e o mais famoso deles, Paul Jones. Com esse nome, Celso estourou em 1976 com Those shadows, sucesso em toda a América Latina. E tema de abertura do Jornal Hoje por alguns anos na década de 1970.

https://www.youtube.com/watch?v=fN7IVMM2WUo

Em 1977, mais um estouro: Try to feel good tocava direto na rádio paulistana Excelsior. Foi parar na novela Dona Xepa. Como a trama não ganhou trilha internacional, a música saiu em compactos da Som Livre e no LP Excelsior – A máquina do som vol. 6. A novidade é que a música aparecia nos rótulos dos discos creditada a Paul Jones e Andrew Geraissat. Celso Zambel e André Geraissati, enfim.

O PORTAL E O PORTÃO. A origem de Espírito da noite está na paixão de Celso por assuntos místicos. “Eu sempre gostei de discos que funcionam como portais. É uma coisa mais espiritualista, você acha que é só um disco, mas ele te abre as portas para outra dimensão. Parece papo de maluco, mas isso acontece. O Axis: Bold as love, do Jimi Hendrix Experience, é um portal. Uma ou outra faixa dos Beatles, também. O POP FANTASMA fez uma matéria sobre o A wizard, a true star, do Todd Rundgren, não fez? Esse disco também é um portal”, conta Celso.

“Na época, uma grande parte da juventude brasileira achava esse tipo de assunto interessante. A ideia conceitual do disco foi toda do Celso, as letras são dele. Eu sou um músico até superior a ele, mas naquele disco eu estava subordinado ao Celso. Trabalhar com ele era um grande prazer”, lembra André Geraissati, na época já tocando (e gravando discos) com o grupo D’Alma.

Entre 1978 e 1979, época da elaboração de Espírito da noite, Celso fazia jingles com o Mona. “Pediam à gente: ‘Ah, faz uma música aí que misture música de cowboy com discoteca’. A gente pensava: ‘Putz, que bosta’, mas fazia. Dava grana”, recorda. Também acumulava trabalhos em edição de imagens, já que tinha moviola em casa desde criança. Acabou trabalhando numa empresa dirigida por ninguém menos que Goulart de Andrade, que editava programas como o Globo Repórter, para a Globo. “Trabalhei até no Comando da madrugada, anos depois”, recorda.

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Aquela vez em que erraram o nome do Celso nos créditos do “Comando da madrugada” (Reprodução)

Entre um trabalho e outro, em 1978, Celso montou uma banda – com integrantes do Mona e agregados – para trabalhar na trilha de uma peça chamada Portão dourado, escrita por Jurandyr Pereira com textos dele e de Hilda Hilst e Renato Haudy. O roteiro, datilografado, dava conta de que a peça era um “tragi-rock”, com a banda finalizada por Celso (cujo nome era Borgo Ni). Entre sombras e velas acesas no palco, Celso cantaria músicas com letras como “eu sei de uma nova maneira de viver/só me tocando de uma lança no meio do som/saca, é uma vida nova/vê se você se liga agora”.

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Script da peça (Foto: Celso Zambel)

“Era um musical feito para encaixar essas músicas. Entramos em estúdio para fazer um disco que seria lançado juntamente com a peça”, conta. O disco do Borgo Ni, no entanto, acabou sendo abortado por uma razão bizarra: algum funcionário do estúdio apagou a fita. Celso não sabe até hoje direito o que aconteceu, mas o acontecimento foi crucial para que ele chamasse Geraissati num canto e começasse a elaborar um novo projeto.

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Script da peça, com letra de música (Foto: Celso Zambel)

“Terminamos uma sessão de gravação numa quinta-feira, às 3h da manhã, e quando voltamos na segunda, a fita tinha apagado. Não rolou, mas aí eu iria arrumar o parceiro que eu quisesse, fazer o disco que eu quisesse. Não aguentava mais esse negócio de Paul Jones”, conta, rindo. “Eu gostava de ir no Chacrinha, dava pra me divertir. Mas o resto era um pé no saco”.

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Pintura de Leila, mulher de Celso, que seria a capa do disco do Borgo Ni que não saiu (Foto: Celso Zambel)

SOM LIVRE. Espírito da noite surgiu por uma negociação com a Som Livre: Celso poderia gravar o que bem entendesse, desde que depois voltasse a gravar como Paul Jones e abastecer as trilhas de novelas.

“Quando o disco ficou pronto, ouvi de alguém da gravadora algo como: ‘E aí, quando vai rolar um ‘pauljonesinho’?”, diz Celso, que se recorda de ter assinado contrato com a Som Livre por intermédio de nomes como João Araújo (presidente da gravadora), Toninho Paladino (diretor de repertório internacional) e Otávio Augusto (produtor da gravadora, também cantor sob o pseudônimo de Pete Dunaway). No bate-bola com a gravadora, Celso se deu até bem demais: conseguiu até horas de estúdio para regravar, com a mesma equipe, o tal disco perdido do Borgo Ni.

O disco começou a ser gravado por ele e André em julho de 1978, no mitológico estúdio Vapor, no Jardim Paulista. “O Vapor parecia uma nave espacial. Tinha 16 canais, era concorrente direto do Level (estúdio da Som Livre). Em termos de equipamento, de sintetizadores, não havia nada igual”, lembra Celso. O Vapor era um desmembramento do estúdio Prova, montado por José Scatena, criador do estúdio Scatena, onde álbuns de artistas como Ronnie Von, Gilberto Gil e Mutantes tinham sido gravados.

“A Prova foi nos anos 70 a maior e melhor produtora de filmes, trilhas, jingles e spots do meio publicitário brasileiro, fornecedora de criação para as grandes agências de propaganda. As madrugadas livres eram ocupadas com a gravação de discos, com a locação do estúdio”, conta José Pedro Scatena, filho do velho Scatena, e sócio do Vapor ao lado de César Castanho, Ricardo Corte-Real, Rodolpho Grani e Manoel Barenbein. “Do Espírito da noite, lembro até hoje do diferencial da produção com uma equipe mínima e ao ineditismo da produção independente em um mercado de feras multinacionais. E do grande prazer que esse trabalho me proporcionou. Me senti um revolucionário. Até hoje tenho lampejos daquela produção em meus sonhos”, completa Scatena.

EM ESTÚDIO. Na elaboração de Espírito da noite, André ficou com guitarras, violões e alguns teclados – o cantor tocou sintetizadores, bateria e percussão. Apenas os dois músicos no estúdio. “O Celso chegava, fazia os sons com a boca. Às vezes falava: ‘Não, André, não é isso, você não pegou o barato’. Eu via o Celso tocando através do vidro do estúdio. Quando a gente atingia o ‘barato’, via a cara dele mudando. Era muito legal. Foi tudo feito sem compromisso”, recorda Geraissati. Celso lembra que as músicas iam sendo criadas lá mesmo.

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Ficha de gravação do disco no Prova (Foto: Celso Zambel)

“Entramos sem nada composto. As músicas que a gente tocava com a banda não daria para a gente fazer. Lembro que o André falou: ‘Vamos nos aprofundar na história do ‘portal’, vamos fazer um negócio diferente. Começamos a fazer e saia um troço completamente diferente. Não dava nem para explicar muito, se explicar a gente vai pirar na batatinha. Nem eu nem ele esperávamos”, diz. A censura do governo militar, na lembrança de Celso, deixou a dupla compor em paz quase todo o tempo. “Só que em Notícia pra você eu precisei voltar no estúdio para regravar um verso que censuraram, era algo como ‘segura no gostoso’. E o disco já estava até prensado. Esse verso aparece nas primeiras edições”, recorda.

As encucações esotéricas da dupla entraram em canções psicodélicas como Divino Espírito Santo, Parada dos livres, o quase instrumental (cheio de vozes distorcidas no teclado) O mágico e a tensa Abmas. “O nome é samba ao contrário, a música tem um andamento de samba ao inverso”, conta Celso. “Quando entreguei o disco, ninguém na Som Livre entendeu nada”.

O tal projeto de “você grava o que quiser, desde que faça um disco em inglês” acabou não rolando. “Depois a gravadora conseguiu uma maneira de trazer fonogramas internacionais mais baratos para o Brasil e não fiz o disco como Paul Jones. Mas surpreendentemente fiz o Borgo Ni e a Som Livre me deu os direitos, além da fita”, conta Celso, surpreso até hoje com o que conseguiu.

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André e Celso na contracapa do disco (Reprodução)

PELADOS NA BOLHA. Se Espírito da noite fosse lançado de acordo com a concepção original de Celso e André, das duas uma: ou a censura embarreiraria o disco, ou provocaria um barulho dos diabos nas lojas. A ideia original era que Celso e André aparecessem na capa numa foto em dupla exposição, dentro de uma bolha de plástico, pelados – alcançando em 1979 um efeito mais aproximado das cabriolas psicodélicas do Flaming Lips, que só surgiria na década seguinte. A foto chegou a ser produzida.

“A Som Livre censurou, claro. Dava para ver tudo”, brinca Celso. O disco deveria ter sido assinado em dupla por Celso e André – que, na contracapa, aparece usando uma camiseta do São Paulo Jazz Festival, em que tocaria com o D’Alma em 1980. O lançamento em dupla acabou não acontecendo e o LP virou solo, com a tal foto em preto e branco na capa, além de imagens de André e Celso na contracapa. “A Hilda Hilst me disse que não me reconheceu na capa, ‘não é você ali'”, conta Celso.

“Lembro que essas fotos da bolha foram tiradas numa casa no Brooklyn. O Celso é um puta editor de vídeo, a Leila (mulher de Celso) também. Ele arrumou essa bolha, daquelas que as crianças brincam dentro. Minha lembrança é que a bolha furou, talvez tenha ficado meio feio…”, recorda André. “Mas devia dar para ver tudo dentro”.

Mais complexo ainda: o encarte deveria trazer uma “bula” para ouvir o disco, que incluía alusões sutis a drogas. Celso mandou fazer um modelo do encarte, que submeteu ao amigo Toninho Paladino, na Som Livre. “Não era tão explícito, mas a Som Livre não gostou”, lembra. O disco se tornou quase um lançamento independente dentro da Som Livre, sem propaganda na Rede Globo, clipe no Fantástico (honraria que até bandas como Mutantes e Casa das Máquinas tiveram) ou música incluída em novelas.

DUPLA. Espírito da noite mal teve show de lançamento. Celso lembra que André propôs a ele que montassem uma “dupla sertaneja de rock” tocando pelo Brasil, mas que não curtiu a ideia. “Acho que ele ficou até chateado comigo porque não eu quis fazer. O André falou: ‘Eu toco muito e você arranha, você canta e eu não canto nada. Vamos montar uma dupla sertaneja-pop-psicodélica e sair pelo Brasil'”, brinca Celso, explicando que o conceito era bastante ousado para 1979: os dois comprariam um gravador de 4 canais e levariam as bases das músicas gravadas para os palcos. Detalhe: na época, mal existia sampler. “Ele não se interessou muito. Mas sabe que até hoje eu penso nisso? Se no Brasil tivessem pego o country americano…”, recorda André.

E DEPOIS? André passou a gravar e tocar com o trio D’Alma e, no fim dos anos 1980, lançou uma série de discos de violão solo pela Warner. Celso, por sua vez, tomou outros caminhos, fazendo edição de vídeo para emissoras de TV como Record e SBT, além de comerciais. Continuou tocando e voltou a gravar em 2015, lançando um EP caseiro, Nu, cru e malpassado.

Espírito da noite nunca saiu em CD ou qualquer outro formato mais recente, e não chegou nem sequer a se tornar um disco cult – caminho que álbuns de nomes como Ronnie Von e Arthur Verocai tomaram. Eduardo Lemos, da loja paranaense Melômano Discos, acredita que o disco esteja sendo hoje “supervalorizado” por certos lojistas, embora recentemente tenha vendido uma cópia por R$ 100. Ele recorda que já viu uma meia dúzia de cópias na loja.

“Acho que circulou bastante em distribuição de rádio. Não é um disco raro. O disco é muito bom, é uma obra muito boa, lembra um pouco de Walter Franco, psicodelia, guitarra fuzz… Acho que ele sairia por uns R$ 200, de repente. Mas ele custar quase mil reais é só especulação. Tem muito comerciante que trabalha assim”, conta o lojista.

O POP FANTASMA conheceu Espírito da noite por causa de um post do colecionador campista Gustavo Landim Soffiati. Que conseguiu o álbum por um preço insignificante, embora tenha visto um amigo vendendo o LP por R$ 450. “O disco parece ter tido uma tiragem abaixo das normais do selo. Não sei bem o que justifica o preço”, afirma.

Celso, enquanto acompanha uma pequena onda de interesse por seu disco de 1979, faz planos para outro lançamento. “Vou lançar o disco do Borgo Ni ainda esse ano, e em vinil”, explica o músico. “A qualidade é excelente e temos músicos legendários ali: tem o Fábio Gasparini (guitarrista do Magazine, de Kid Vinil), Paulo Soveral (baixo) e a cozinha dos irmãos Pedro e Albino Infantozzi. Além de mim e do André”, conta. É esperar.

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Celso em 2019 (Foto: Keithy Zambel)

Agradecimentos: Fernando Carneiro de Campos, Silvio Atanes, João Pedro de Souza e Celso Zambel.

Cultura Pop

No nosso podcast. Rita Lee (e Roberto de Carvalho) entre 1980 e 1983

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No nosso podcast. Rita Lee (e Roberto de Carvalho) entre 1980 e 1983

No começo dos anos 1980, se bobear o Brasil tinha bem poucos seres humanos vivos que nunca tinham sequer ouvido falar de Rita Lee – uma cantora que, ao lado do marido Roberto de Carvalho, vendia muitos discos, tinha música em abertura de novela e ganhava especiais de TV no horário nobre. E como se não bastasse, era contratada do verdadeiro canhão de comunicação que era a Som Livre daquela época. Mesmo com a censura do fim do governo militar no contrapé, foi um período de shows inesquecíveis, muitos hits, álbuns lançados um atrás do outro, e uma verdadeira ritaleemania tomando conta do país.

Hoje no nosso podcast, o Pop Fantasma Documento, damos um sobrevoo na trajetória de Rita e Roberto no começo dos anos 1980 – a época dos álbuns Rita Lee (mais conhecido como Baila comigo, 1980), Saúde (1981), Rita Lee & Roberto de Carvalho (mais conhecido como Flagra, 1982) e Bom bom (1983). Ouça em alto volume e escute os discos depois.

Século 21 no podcast: Jane Penny e Bel Medula.

Estamos no Castbox, no Mixcloud, no Spotify, no Deezer e no Google Podcasts. 

Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch (fotos: reproduções das capas dos álbuns de Rita entre 1980 e 1983). Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.

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Crítica

Ouvimos: Alan Vega, “Insurrection”

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Ouvimos: Alan Vega, "Insurrection"

Alan Vega e sua ex-banda Suicide não eram apenas “rock industrial”. Eram música infernal, mostrando para todos os ouvintes que situações assustadoras eram vividas não apenas em filmes de terror, mas no dia a dia. No contato com vizinhos perturbados, na violência nossa de cada dia, na vida fodida dos debandados do capitalismo – que é o verdadeiro assunto de Frankie Teardrop, música assustadora lançada no epônimo primeiro disco da dupla formada por ele e Martin Rev, de 1977.

Vega viveu no limite: antes do Suicide ter qualquer tipo de sucesso, passou fome e enfrentou dificuldades. No palco, era do tipo que se cortava e saía sangrando dos shows. Seu som sempre teve ideais radicais, inclusive politicamente – ele chegou a ser atacado pela polícia ao participar de passeatas, e o Suicide homenageou Che Guevara na música Che. Dos dois integrantes do Suicide, hoje só Martin Rev vive para perturbar os ouvidos dos outros com som pesado, distorcido e sintetizado. Alan, que prosseguiu por décadas como lenda viva do punk e da música eletrônica, lançando discos e fazendo exposições de arte, teve um derrame em 2012 e morreu durante o sono em 2016.

Seu material como compositor, ironicamente, devia bastante às raízes do rock, e à postura de “herói” do estilo. O novaiorquino Alan era fanático por Iggy Pop e Stooges, e seu vocal variava entre dois uivos – o de Elvis Presley, cujo visual inicial trabalhado-no-couro passou a imitar, e evidentemente o de Iggy. Os primeiros álbuns solo de Alan variavam entre o synth-pop nervoso e uma espécie de rockabilly aceleradíssimo e violento (o melhor exemplo é a estreia epônima de Vega, lançada em 1980). Não custa lembrar que o som do Suicide, de fato, chegou a impressionar até mesmo Bruce Springsteen, que já disse ser (pode acreditar) fã da dupla.

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Insurrection é uma coletânea de gravações inéditas que estavam no baú de Alan. São músicas industriais e infernais feitas no fim dos anos 1990, todas falando sobre morte, sofrimento e contagem de mortos como se fosse algo natural, do dia a dia – e pensando bem, olhando os jornais e andando pelas ruas, é meio isso. É “bom de ouvir” dependendo do seu humor: é o disco das dançantes e góticas Sewer e Crash, do synth pop monocórdico Invasion, do pesadelo selvagem Cyanide soul e do lamento sonoro (de quase dez minutos) de Murder one.

Mercy é um estranho e assustador pedido de clemência, falando em gritos, anjos sangrando e tempestades sombrias. E nessa música o vocal de Alan lembra de verdade o de Elvis Presley, o que soa mais estranho ainda. Os beats são dados por uma percussão intermitente e tribal, seguida por uma batida eletrônica mais próxima do “dançante”. Soa mais insociável do que qualquer coisa lançada pelo Ministry ou pelo Alien Sex Fiend, por exemplo. Chains soa como entrar numa bizarra ressonância magnética de distorção. E Fireballer spirit oferece a mesma sensação, só que acrescida de barulhos eletrônicos.

Nota: 7,5
Gravadora: In The Red

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Cultura Pop

4 discos: Joy Division e seus “the best of”

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Peter Hook: "Roubamos muito o Kraftwerk"

O material não-lançado pelo Joy Division em LP dá (como aliás deu) um número considerável de coletâneas. Ainda que o grupo tenha só dois LPs para contar história (Unknown pleasures, de 1979, e Closer, de 1980). Mesmo que não seja um número maluco de coletâneas como acontece com o Who – que tem um monte de “the best ofs” com poucas diferenças entre um álbum e outro – quem quiser se abastecer de discos com faixas de singles, ou melhores sucessos do grupo, não fica sem opções. Pode achar por aí discos unindo músicas do JD e de sua continuação post-mortem, o New Order. Ou sets variados com gravações da BBC, faixas ao vivo, compactos e músicas mais conhecidas dos dois álbuns.

Comemorando os 46 não-redondos anos de Unknown pleasures (lançado em 15 de junho de 1979), tá aí uma lista condensadíssima – só quatro discos – de coletâneas que em algum momento valeram a pena para futuros fãs do grupo.

“WARSAW” (1981, RZM). Apesar do título, esse disco não traz só as sessões do grupo com seu primeiro nome. Dependendo da edição, tem as demos do Warsaw que depois foram lançadas já como Joy Division no EP An ideal for living (1978), as gravações feitas no período breve em que o Joy Division quase foi contratado pela RCA (igualmente em 1978) e o lado B As you said. As primeiras edições traziam as ondas de rádio da capa de Unknown pleasures ocupando quase toda a arte. Em Portugal, o disco chegou a ser lançado semioficialmente pelo selo Movieplay.

“SUBSTANCE (1978-1980) (1988, Factory). O correspondente do Substance do New Order levava para vinil e CD oficiais faixas obscuras de singles do grupo, incluindo material do pirata Warsaw. Além de faixas mais conhecidas lançadas em compacto, como Dead souls, Atmosphere e Love will tear us apart. O principal era que o disco mostrava, de maneira cronológica, o Joy partindo do punk para a quase neo-psicodelia, indicando que a banda talvez se tornasse uma ótima concorrente de grupos como Echo and The Bunnymen, Teardrop Explodes e Cocteau Twins caso o vocalista Ian Curtis não tivesse morrido (falamos desse disco aqui).

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“PERMANENT” (1995, London). Lançada quando o antigo selo Factory já havia declarado falência e seu material estava nas mãos da London Records, essa coletânea teve grande valor quando lançada. Pelo menos por aproveitar o então recente retorno do New Order com o disco Republic (1993) e o hit Regret, e o começo da revalorização do rock inglês via Oasis, Blur, Elastica, Suede e vários outros nomes. Love will tear us apart aparecia em duas versões: a versão gravada no Pennine Studios, mais rara, lançada até então apenas no lado B do single original (e depois resgatada para uma versão expandida de Substance), e um novo mix.

“HEART AND SOUL” (1997, London). Para fãs extremamente roxos do JD, essa caixa quádrupla tem praticamente todo o material de estúdio que havia surgido do grupo até então. Nos dois primeiros CDs, Unknown pleasures e Closer surgem expandidos com material de compactos e coletâneas. O terceiro CD traz faixas de compactos, demos e sessões de rádio – incluindo as demos de Ceremony e In a lonely place, gravadas um mês antes da morte de Ian Curtis (essas músicas seriam depois gravadas pelo New Order). O quarto CD tem só material gravado ao vivo.

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