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Crítica

Ouvimos: Fat Dog – “Cancel me (I’m tired)”

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Resenha: Fat Dog - "Cancel me (I’m tired)"

RESENHA: No segundo álbum, Cancel me (I’m tired), o Fat Dog leva o dance-punk a novos extremos, misturando new rave, synthpop, guitarras pesadas e humor politicamente incorreto em músicas sobre poder, opressão e esgotamento.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Domino Recording Co.
Lançamento: 2 de outubro de 2026

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Juro que quando ouvi o Fat Dog pela primeira vez, achei que aquela classe toda fosse gerar uma banda legal, e nada mais do que isso. Woof, a estreia dessa banda britânica (2024, resenhado aqui), revelava um grupo atrevido, imaginativo, chegado a uma estranha mistura de disco music, música eletrônica, emo e sons pesados e dançantes de modo geral – e que poderia ser categorizado naturalmente como indie sleaze, dance-punk, coisas do tipo.

Vai daí que Cancel me (I’m tired), o segundo álbum, é bem mais do que apenas uma surpresa, já que se trata de uma banda que reza no credo de grupos com Viagra Boys, Yard Act e até Shame, mas com personalidade própria. O Fat Dog voltou carregando mais ainda no humor absurdo e num clima musical que coloca a banda como sobrinhos da geração new rave (lembra desse nome?). Ou como uma turma que entendeu que o politicamente incorreto está em mãos erradas, e se arrisca a entrar para o mesmo local onde hoje residem as camisas da seleção brasileira.

Nomes como Devo, Happy Mondays, Battles, David Bowie e até Kaiser Chiefs surgem como evocações e lembranças do álbum, em canções como Smile and wave (quase Viagra Boys + Shame + dance punk), Go fuck urself (rastros de Der kommissar, de Falco, mas com um ar meio chique dado pelo saxofone) e a ótima Shit love – esta, uma zoeira entre rock e música eletrônica, com guitarras em tom sabbathiano.

O eletro-punk comanda em especial The devil, Bad dog (beat pesado e onda sonora próxima de Master Peace), Call it what you want e a ótima faixa-título – mas no novo testamento, o Fat Dog também promove a união de Bowie, Lloyd Cole e synthpop em Heart of darkness, além de unir country e orquestra em Snakes, e de fechar o álbum com uma balada grandiosa e bem diferente do restante do álbum, Aliens.

Nas letras, o Fat Dog aponta suas armas para tudo aquilo que possa significar poder e opressão existencial – tipo o excesso de expectativas e aporrinhações na faixa-título (na qual eles consideram a hipótese até de usar IA para fazer música), Smile and wave e Go fuck urself. Gente com quem o diabo acharia melhor não fazer um pacto aparece em The devil, a revolta política dá as caras em Call it that you want, e gente problemática e “poderosa” cai do cavalo em Bad dog e Heart of darkness. Que virada.

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Ouvimos: Naimaculada – “Acromatopsia” (EP)

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Resenha: Naimaculada - "Acromatopsia" (EP)

RESENHA: Em Acromatopsia, o Naimaculada transforma uma São Paulo cinzenta e padronizada em música, cruzando MPB, metal, jazz e rock progressivo, com participações de Kiko Dinucci, BNegão e outros convidados.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Deck
Lançamento: 14 de setembro de 2026

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A modernidade, segundo gente de áreas como arquitetura e design, e artistas visuais em geral, está se tornando um deserto sem cores, ou com pouca variedade de tonalidades. Basta você olhar para uma área mais colorida ou até poluída visualmente, para que aquilo seja automaticamente associado aos anos 1980. Em compensação, é na era dos lugares “instagramáveis” que tudo parece ficar igual, asséptico, com as mesmas cores – e, no caso do próprio Instagram, com as mesmas fontes de letras.

Indo mais além, nada como a era da IA para tudo ficar REALMENTE parecido – e nem só os textos, mas as ideias, os estilos de vida e uma espécie de combo on-offline da vida, do trabalho e da psiqué de todo mundo. O EP novo do Naimaculada, Acromatopsia, é uma espécie de voyeur dessa falta de variedades tonais: o grupo passeia por uma São Paulo em que tudo é preto e branco.

Apresentando vários convidados (Thalin, do projeto Maria Esmeralda, Nabru, Sol, Kiko Dinucci e BNegão) e parte das gravações realizadas em Shijiazhuang, na China – com músicos tocando instrumentos locais – Acromatopsia vai bem além do progressivo altamente brasileiro e vigoroso da estreia A cor mais próxima do cinza (2024). O título faz referência a uma condição visual rara caracterizada pela incapacidade total ou parcial de perceber as cores. As letras enxergam tudo por esse prisma, em que São Paulo é um festival de inércias e engessamentos, um paraíso que reluz de longe, mas não de perto.

Com a voz forte de Ricardo Paes à frente, as músicas soam as vezes como um improvável encontro entre Black Sabbath, Gilberto Gil e Luiz Melodia, partindo para o jazz do inferno em O pecado tem medo, para um progressivo “distante” em Shangri-La (com os músicos chineses) e para uma MPB-metal afrontosa em O que é que será? Já Terminal Bandeira, com Kiko Dinucci, fica no mesmo corredor de Medusa, novo álbum do músico – abre com uma guitarra bem própria, e vai achando um caminho igualmente particular para chegar a algo que lembra um pós-hardcore. Ou um Nintendocore.

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Crítica

Ouvimos: O Preço – “Caóticas palavras”

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Resenha: O Preço – “Caóticas palavras”

RESENHA: Liderado por Christian Targa, fundador dos Blind Pigs, O Preço mistura street punk, ska e reggae em Caóticas palavras, disco de protesto sobre desinformação, escolhas políticas e resistência popular.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 5 de outubro de 2026

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Banda punk paulista liderada por Christian Targa (voz e guitarra), um dos fundadores do Blind Pigs, O Preço não escolheu esse nome à toa: o repertório do álbum Caóticas palavras fala sobre o preço que todo mundo anda pagando pelas escolhas mais erradas que o mundo tem feito. E adianta algumas coisas que, se ninguém tomar cuidado, podem acontecer após o segundo turno das eleições presidenciais no Brasil.

O som do O Preço tem a ver com a vocação rueira do punk dos anos 1970 e 1980, quase sempre apontando para o clima street punk de bandas como Angelic Upstarts, ou para uma versão mais acelerada de bandas como The Clash e The Damned. Começo imediato abre o disco falando em derrotas inaceitáveis e lembra que a vanguarda é o cidadão trabalhador. Maldita calamidade fala de desinformações do dia a dia, em clima que lembra Richard Hell & The Voidods.

No decorrer de Caóticas palavras, hinos marciais como Cara planilha e Desumano não unem-se a canções de guerra como Revolver a evolução, Enquanto houver a esperança e Parentes e amigos – além de letras irônicas e realistas como a de Muamba militar. Inserido no contexto do punk setentista, e recuperados ao longo da história do estilo, gêneros como reggae e ska surgem na faixa-título e no rap-reggae O ska é a munição, com Bocão DRR soltando o verbo do lado da banda.

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Ouvimos: The Jet Black Berries – “Sundown on Venus” (definitive edition)

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Resenha: The Jet Black Berries – “Sundown on Venus” (definitive edition)

RESENHA: O Jet Black Berries resgata a versão original de Sundown on Venus, álbum conceitual de 1985 alterado pela gravadora. Uma mistura de cowpunk, psicodelia, pós-punk e ficção científica.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Propeller Sound Recordings
Lançamento: 25 de setembro de 2026

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“Como você descreveria uma banda com influências tão diversas quanto Aleister Crowley, filmes psicotrônicos, shows de luzes líquidas e Brian Jones?”, diz o release do Jet Black Berries. A melhor descrição seria “psicodélica”, evidentemente – mas a grande surpresa é que se trata de uma banda dos anos 1980, contratada inicialmente pelo selo Enigma, e que em 1985 estreou com Sundown on Venus, um álbum conceitual, girando em torno de um faroeste sci-fi.

O som do Jet Black Berries, na real, tem bem mais do que isso: justamente pela onda “faroeste” do grupo, Kevin Patrick (voz), Gary Trainer (baixo e guitarra), Roy Stein (bateria), Chris Yockel (guitarra) e Mark Shwarz (teclados, baixo, harmônica) chegavam até mais perto da tendência cowpunk (punk + country) em vários momentos. No som do grupo, dava para perceber elementos de bandas como Replacements, Buzzcocks, Cheap Trick, New Model Army e até The Who – além de uma vibração space rock dada pelo teclado.

Lançado pelo selo Pink Dust (uma subsidiária alternativaça da Enigma), Sundown on Venus retorna agora pelo selo Propeller Sound Recordings, só que com diferenças básicas. Pela primeira vez, a banda está disponibilizando o álbum como ele deveria ter sido lançado em 1985, já que a Enigma fez uma série de modificações no conceito original do disco. Isso porque, seguno a banda, houve um detalhe que mudou tudo: pouco antes do álbum, uma música da época em que a banda se chamava New Math, Love under will (opa, olha o velho Aleister aí), havia sido incluída na trilha do filme A volta dos mortos-vivos, de Dan O’Bannon.

Isso fez o olho da Enigma crescer e a gravadora ordenou não apenas a mudança da ordem das faixas, como também a exclusão de algumas faixas e a entrada de algumas covers (tem até uma versão garageira para Shakin’ all over, de Johnny Kidd & the Pirates). Não dá pra dizer que a gravadora não apostava neles: saiu ate uma versão com disco bônus, contendo algumas faixas que não foram reaproveitadas no álbum – e que entram nessa “edição definitiva”. Não deu certo, e o Jet Black Berries ficou com o status indesejado de lenda que não estourou.

Ouvido hoje, Sundown on Venus é psicodelia punk puríssima. Há power pop espacial em Johnsonville (que lembra XTC e o começo do shoegaze) e Bad hombré, uma onda meio Gene Vincent na faixa-título e ondas bew cowpunk em faixas como Double cross, Masked astronaut (ambas lembrando o rock australiano do anos 1980) e All is lost. Há curiosidades estranhas como Macumba love (!) e pelo menos uma música bem na cola do The Damned, Ring of steel.

E lá pelas tantas, o grupo migra pro pós-punk de vez, chegando a lembrar bandas frias e marciais como Teardrop Explodes em faixas como Shadow drive e Noon in Cairo. No geral, uma banda cuja história poderia ter sido bem outra.

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