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Cultura Pop

Viktor Tsoi, o Renato Russo da Rússia

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Viktor Tsoi, o Renato Russo da Rússia

Ser roqueiro na União Soviética nos anos 1980 não era das coisas mais moles. Uma atriz chamada Joanna Stingray, vinda da Califórnia, passou um tempinho lá em 1984, conheceu várias bandas locais e, anos depois, relatou que shows na URSS não eram o mesmo que nos Estados Unidos. Se partisse a corda de uma guitarra ou houvesse algum problema técnico durante alguma apresentação, os músicos só improvisariam alguma coisa para tapar buraco se fossem malucos. A KGB (serviço secreto soviético) observava tudo de perto e, num show, só poderia acontecer o que já estava previamente escrito no programa.

Foi nessa que Joanna tomou contato com uma banda chamada Kino (cinema, em russo), liderada por um sujeito chamado Viktor Tsoi. O grupo foi formado em Leningrado em 1982 e Tsoi escreveu quase todas as canções do repertório. Brincamos lá em cima que ele era o Renato Russo local. De certa forma, é verdade: Kino tornou-se uma das bandas mais importantes da antiga União Soviética e Tsoi tornou-se um dos maiores bardos do rock local, assinando canções sobre amor, liberdade e vida urbana.

Filho de pai coreano e mãe russa, Tsoi nasceu em 1962 em Leningrado e, antes da música, trabalhou numa sala de caldeiras e aprendeu a esculpir e a praticar artes marciais. Montou o Kino em 1982 com uma turma de amigos e, apesar de contarem – junto com outros grupos de rock – com a vigilância constante da KGB, desfrutaram de uma popularidade parecida com a das rock brasileiras na mesma época. Eram shows a rodo, turnês, discos lançados um atrás do outro, etc.

Olha aí um dos raros registros da banda que existem no YouTube. Viktor Tsoi à frente.

Peremen (Mudanças) é um dos maiores hinos do Kino. Em 2011, em tempos inflamados na Bielorrússia (muitos protestos contra o presidente Aleksandr Lukashenko), essa canção chegou a ser censurada nas rádios do país.

Em 1988, o Kiko lançou Gruppa krovi (Tipo sanguíneo), que chegou a ter edição norte-americana, pela Capitol. É tido como um dos melhores discos do grupo. A faixa-título espalha brasa para a guerra do Afeganistão, um pesadelo para a juventude soviética que durou de 1979 a 1989.

Viktor Tsoi costumava evitar relacionar as letras do Kino com temas políticos e dizia que basicamente escrevia sobre liberdade. “Só me sinto livre, absolutamente livre”, costumava dizer. De qualquer jeito, dá pra achar respostas à politização extrema da União Soviética em canções como Mama Anarkhiya (Mãe anarquia) e Mi hotim tancevat (Nós queremos dançar).

Tsoi também foi ator e esteve em vários filmes. Num deles, bem no finalzinho, ele aparece com o Kino. É Assa, do cineasta russo Sergey Solovyov (1987).

Em 15 de agosto de 1990, na estrada Sloka-Talsi, Tsol dirigia a 130 km por hora quando colidiu com um ônibus. Morreu na hora. De acordo com a polícia, ele teria dormido ao volante e perdeu o controle do carro.

Na ocasião, o Kino vinha planejando uma turnê no Japão e estava gravando um novo disco, que acabou sendo lançado após a morte de seu líder. Era Black album, que se tornou a maior vendagem da banda. O impacto da morte de Tsoi foi tão grande na juventude da época, que foi registrada uma onda de suicídios nos dias após o acidente.

Essa é uma das últimas entrevistas de Tsoi, em 1989. O vídeo é meramente ilustrativo para quem não sabe uma palavra de russo.

Arrume alguém que saiba russo e peça uma ajuda na tradução desse vídeo. No aniversário de 50 anos de Tsoi, em 2012, a TV local foi atrás do pai do músico, que deu um depoimento.

https://www.youtube.com/watch?v=kkrjZFGfMQc

Tsoi não viveu para ver as mudanças em seu país, mas sua obra e sua figura ainda vivem em grafites nos muros da Rua Arbat, em Moscou. Um bom pedaço da região é conhecido como “o muro de Tsoi”. E seu legado é celebrado num museu, construído justamente nas salas das caldeiras onde Viktor trabalhou quando adolescente. Há pouco, ele também chegou a ser homenageado num selo e também num doodle do Google.

E olha aí o resultado das investidas de Joanna Stingray às bandas russas. Ela dirigiu um mini-documentário chamado Red wave, que está no YouTube em duas partes. E ainda produziu a coletânea dupla Red wave – 4 underground bands from the USSR. Além do Kino, estavam no álbum Aquarium, Alisa e Strange Games. O disco saiu pela operação americana do selo australiano BigTime.

(quem sugeriu o Viktor Tsoi pra gente foi o amigo Felipe Fela Montparnasse, que ainda mandou links, vídeos, etc – valeu!)

Mais infos de RBTH e Calvert Journal.

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Só acrescentando (bem depois que essa matéria foi escrita e postada) que ano passado saiu um filme sobre Tsoi, Verão, dirigido por Kirill Serebrennikov. Teo Yoo interpretou o músico.

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No nosso podcast, os primeiros anos do Soft Cell

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No nosso podcast, os primeiros anos do Soft Cell

O Soft Cell tá vindo aí pela primeira vez. A dupla de Marc Almond e Dave Ball se apresenta no Brasil em maio, e vai trazer – claro – seu principal hit, Tainted love. Uma música que marcou os anos 1980 e vem marcando todas as décadas desde então, e que deu ao Soft Cell um conceito todo próprio – mesmo não sendo (você deve saber) uma canção autoral. Era um dos destaques de seu álbum de estreia, Non stop erotic cabaret (1981), um dos grandes discos da história do synth pop.

No nosso podcast, o Pop Fantasma Documento, voltamos lá no comecinho do Soft Cell, mostramos a relação da dupla com uma das cidades mais fervilhantes da Inglaterra (Leeds) e damos uma olhada no que é que está impresso no DNA musical dos dois – uma receita que une David Bowie, T Rex, filmes de terror, Kenneth Anger, sadomasoquismo e vários outros elementos.

Século 21 no podcast: Red Cell e Noporn.

Estamos no Castbox, no Mixcloud, no Spotify, no Deezer e no Google Podcasts. 

Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch. Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.

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Cultura Pop

Relembrando: Mick Ronson, “Play don’t worry”

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Guitarrista de David Bowie na fase Spiders From Mars, Mick Ronson foi uma promessa injustamente não cumprida como artista solo. Inicialmente teve cobertura da Mainman (mesma empresa que cuidava de Bowie nessa fase), contrato com a RCA, interesse da mesma imprensa que cobria o dia a dia dos popstars do glam rock, certa migração de fãs do cantor de Starman.

Até porque Ronson estreou com treze shows no Reino Unido em março de 1974, quando Bowie estava fora dos palcos. E o guitarrista volta e meia era chamado de “substituto” de seu patrão. Ironicamente o próprio Bowie ficaria com ciúmes de sua “cria”, começando a armar sua volta aos palcos a partir daí. Esbarraria no fato de que a turnê solo do guitarrista havia comido uma boa parte da grana que seria investida em sua própria carreira, mas isso é outra história.

No começo, Ronson era um músico desprotegido a ponto de, mesmo sendo mais velho que Bowie e sua mulher Angie, ser cuidado pelo casal como se fosse um irmão mais novo. Com Bowie, chamou a atenção das plateias e foi um quase parceiro. Merecia ter ganhado crédito de co-autor em faixas de discos como The man who sold the world, de 1970, cuja gravação havia sido marcada pelo desapego do maior interessado, que era o próprio Bowie. Como compensação, fica o fato de que é impossível lembrar de músicas como Life on Mars? e Starman sem lembrar das guitarras de Ronson.

Surgiu a chance de tornar-se artista solo, quando Bowie havia resolvido ficar longe dos palcos. O repertório da estreia de Ronson, Slaughter on 10h avenue (1974), unia as duas faces do músico, um cara que tocava guitarra como se o instrumento viesse do espaço sideral, e também regia orquestras, além de tocar piano.

Era o disco da hard roqueira Only after dark, do blues glam I’m the one (de Annette Peacock, musicista pioneira dos sons eletrônicos que também gravava pela RCA naquele período). E da grandiloquência da faixa título (uma canção dos anos 1930 revisitada), do romantismo de Love me tender (aquela mesma, imortalizada por Elvis Presley). Mick, por sua vez, era o guitarrista experiente que tinha talento dramático a ponto de fazer um anúncio-curta metragem para divulgar Slaughter – a foto da capa, que trazia o guitarrista chorando, era um trecho do tal filme.

Muita coisa contribuiria para afastar a Mainman de Ronson e entre elas, estava o fato da relação entre Bowie e o empresário Tony Defries estar saindo do controle e ter chegado a um ponto bem complicado em 1974.Por acaso, foi em janeiro de 1975 que saiu Play don’t worry, o segundo disco do guitarrista.

Era mais um disco realizado sob as barbas de Pin-ups, disco de covers de Bowie (1973). O primeiro de Ronson havia sido gravado com a mesma banda do cantor na época, assim que o serviço no disco do patrão terminara. Já em Play, Mick reaproveitava uma backing track realizada para Pin ups, e nunca lançada: a da versão de White light/white heat, do Velvet Underground, mais viva e pesada que a original, e uma das melhores faixas do disco de um compositor e guitarrista que, ao se tornar um intérprete e fazedor de covers, quase sempre acertava.

Play don’t worry tinha a mesma aparência ora melancólica, ora feliz do disco anterior. Era o disco da balada glam Angel nº9, releitura do grupo country-rock Pure Prairie League (de cuja gravação original Mick havia participado fazendo arranjos), e do agito de Girl can’t help it, clássico do repertório de Little Richard, relido em clima protopunk. Outro rock countryficado do Pure Prairie League, Woman, encerrava o álbum. Por outro lado, Empty bed, versão de Io me ne andrei, do pop-roqueiro italiano Claudio Baglioni, era um baladão romântico, pronto para entrar em trilha de novela no Brasil (infelizmente não entrou).

Ronson aparecia como autor apenas em duas faixas, talvez escolhidas a dedo para mostrar que nem tudo ali eram flores. Play don’t worry, feita ao lado do amigo produtor e compositor Bob Sargeant, falava sobre os altos e baixos da vida, e era a provável admissão de que a vida de potencial rockstar havia trazido mais problemas do que soluções. Hazy days, faixa-solo, trazia aquelas discussões sobre a obsolescência programada do pop, típicas da própria música de Bowie (“o que você vai fazer agora, quando você achar que estou no passado?”, diz a letra).

Parecia recado para alguém. Talvez para o próprio Ronson, que não se sentia nem um pouco confortável ou feliz como artista solo. “Sabia que as pessoas perceberiam meu desconforto na plateia e eu não queria isso”, chegou a afirmar o músico, que também considerava a vida de popstar solo algo parecido como ter dúvidas e ter que responder suas próprias dúvidas, sem contar com a parceria de ninguém.

Mick respondeu suas próprias dúvidas quando resolveu, ainda com Play don’t worry em curso, juntar-se ao Mott The Hoople, banda do amigo Ian Hunter. O Mott estava com os dias contados e restou a Mick voltar à vida de músico contratado. Gravou com muita gente, mas ficou conhecido pelas colaborações com Ian, com quem chegou a gravar um disco em dupla – Yui orta, de 1990. Infelizmente tornou-se menos reconhecido do que deveria, e a decepção com as expectativas do pop tornou-se um vazio nunca devidamente preenchido.

Mick morreu em 29 de abril de 1993, já resgatado para as novas gerações. Pouco antes, havia produzido Your arsenal, de Morrissey, e tinha se juntado a David Bowie, a Ian Hunter e aos remanescentes do Queen no concerto de tributo a Freddie Mercury. A notícia de sua partida ressoa até hoje como os últimos ruídos de guitarra de Play don’t worry, a canção. São sons que desaparecem aos poucos, como numa transmissão de TV cheia de interferências que vai sumindo. Nossa sorte é que o recado estava dado: “Não pense muito neles/comece a sonhar novamente com o amanhã”.

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Os discos do poeta John Sinclair

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Os discos do poeta John Sinclair

O nome de John Sinclair, morto nesta terça (2) aos 82 anos. não é tão estranho assim para o fã de rock clássico. Afinal, ele foi empresário do MC5 na época do disco Kick out the jams (1969), foi homenageado por John Lennon numa música justamente chamada John Sinclair (de 1972) e até mesmo aquele discurso que o ativista Abbie Hoffman tentou fazer durante o show do Who no Festival de Woodstock (1969) aconteceria para conscientizar as pessoas em relação à situação de John. Que estava encarcerado por tráfico após vender maconha a um policial disfarçado.

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John havia sido condenado a dez anos de prisão, uma arbitrariedade. Mas foi solto em 1971 quatro deias depois de Lennon organizar um comício por sua liberdade, ao lado de Bob Seger, Stevie Wonder, Bobby Seale (do Partido dos Panteras Negras) e outros. Assim que saiu da prisão, Sinclair mergulhou de cabeça no ativismo pró-maconha e na produção de livros e escritos de poesia. Só que como seu estilo de texto tem tudo a ver com a cadência do jazz, pela maneira como é escrito e declamado, normal que ele não tenha ficado restrito aos livros, jornais e revistas. Tanto que dos anos 1990 para cá, ele vinha acumulando uma discografia bem grande.

Em 1994, por exemplo, saiu Full moon night, primeiro disco no qual Sinclair aparecia acompanhado pela agremiação variável de músicos que ganhou o nome de The Blues Scholars. O disco trazia textos como Homage to John Coltrane, Spiritual e Like Sonny, e saiu direto em CD por um selo chamado Total Energy, responsável por lançamentos retrospectivos de pré-punk – álbuns escarafunchando os baús de grupos como The Deviants, The New Race e o próprio MC5 saíram por esta etiqueta. Em 1996 saiu Full circle, mais um CD de Sinclair e sua banda, com participação de ninguém menos que o ex-MC5 Wayke Kramer, morto recentemente.

Um outro álbum bastante significativo de Sinclair saiu em 2008, com o nome de sua banda modificado para His Motor City Blues Scholars. É o ao vivo Detroit life, trazendo 15 faixas entre o jazz e o blues, com John declamando (às vezes bem alto, com voz gutural) textos de inspiração beat como The screamers, April in Paris, Let’s call this e Walking on a tightrope. As músicas são grandes, e boa parte dos números é quase instrumental, cabendo intervenções de John lá pelos dois minutos de faixa, em alguns casos.

A discografia de Sinclair inclui também vários discos apenas com seu nome (o mais recente é Beatnik youth, de 2017) além de álbuns impressionante feitos com a banda de jazz experimental e ruidoso Hollow Bones – como Honoring the local gods, de 2011. Já o percussivo PeyoteMind, de 2002, foi gravado ao lado da banda de psicojazzfolk Monster Island, e traz recordações de uma viagem feita em 1963 sob o efeito do psicoativo peiote.

Esse material vem encontrando relativamente poucos ouvintes nas plataformas – no Spotify, John tem apenas 207 (207!) ouvintes mensais. Não são discos muito divulgados –  enfim, poesia e jazz não formam exatamente uma combinação de sucesso. E saíram por selos independentes de alcance restrito. Mas boa parte do que Sinclair gravou está lá, e está ao alcance de futuros fãs – mesmo com a barreira da língua, tem a declamação de John e a maneira como ele faz tudo parecer uma espécie de jazz maldito e tribal. Além do seu ativismo anti-capitalismo, pró-maconha e pró-liberdade de expressão, perceptível em vários versos.

E só pra complementar, um material multimídia recente e importantíssimo saiu justamente da última aparição ao vivo de Sinclair. Em Paris, no dia 16 de fevereiro, ele leu o longo poema 21 days in jail, gravado por uma pessoa da plateia. A letra já havia sido musicada e gravada por ele com os Blues Scholars, mas aqui aparece sendo lida pelo autor.

Foto: Wikipedia.

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