Treta: as duas "versões do autor" de Video Killed The Radio Star

Muita gente lembra de Video killed the radio star, sucesso da banda new wave britânica The Buggles. Mais gente ainda, por outro lado, NÃO se lembra que além dos dois integrantes dos Buggles – Trevor Horn e Geoff Downes, que haviam tocado na formação do Yes que lançou o disco Drama (1980) – a música ainda tinha outro autor. Era o compositor, cantor e produtor Bruce Woolley, que também era um buggle no comecinho da banda, e depois atuou apenas como guitarrista convidado em The age of plastic (1979), primeiro álbum da banda.

Em 1979, quando os Buggles lançavam sua música, Woolley montou o grupo The Camera Club – que tinha Thomas Dolby nos teclados – e também fez questão de gravar sua versão da canção. O resultado saiu, digamos, bem menos robótico e mais roqueiro que a versão do grupo.

Bruce Woolley teve lá seus gols no universo pop: é um dos autores de Slave to the rhythm, de Grace Jones, e teve um hit com Baby blue, também escrita ao lado de Downes e Horn, e gravada por Dusty Springfield. De lá para cá, vem colaborando com diversos outros artistas e fazendo shows como tecladista e tereminista.

E, em 2017, mostrou que Video killed the radio starainda rende material para ele. Fez uma versão “reimaginada” da canção, creditada a “Bruce Wooley e Poly Scattergood, com a Radio Science Orchestra”. Ficou bem diferente (e, na boa, não ficou muito legal).

Fãs discutem até hoje sobre se a melhor versão de Video killed the radio star é a de Bruce ou a dos Buggles (bom, isso é chute nosso, sei lá se discutem). Seja como for, rolou certa época uma treta entre Bruce Woolley e Geoff Downes por causa da composição da música, na velha base de “música de três, um não fez”. A música, que Horn descreveu certa vez como tendo vindo “dessa ideia de que a tecnologia estava prestes a mudar tudo”, foi historiada por Bruce, num papo com o site Real Clear Life, como tendo sido uma ideia dele e de Horn, e Downes teria vindo apenas para ajudar a dupla a “organizar” não só Video como Clean clean.

“Agora, isso é tudo semântica e terminologia, mas Geoff realmente não escreveu nenhuma dessas músicas. Trevor e eu escrevemos ambas ao piano, com guitarras e baixo – você sabe, aqui está a música, estas são as palavras, esses são os acordes, esta é a melodia, e assim por diante. Geoff entrou e fez alguns arranjos realmente significativos. Daí Trevor e Geoff sentaram-se comigo numa noite e me disseram: “Olha, Geoff fez essas partes para essas músicas, acho que devemos incluí-lo como autor”. Trevor e Geoff formavam uma equipe na época (…), e eles estavam tentando fazer um acordo com a Island Records, e isso os ajudaria se eles tivessem esse crédito, porque parecia que eles eram a equipe criativa.

Daí eu disse: ‘Vamos ver, Trevor: Geoff não escreveu essas músicas, mas talvez haja um argumento para dar a Geoff uma parte disso’. Então, nós criamos essa solução: em vez de dividir entre todos nós, decidimos fazer uma música metade-metade, e a outra música por três. Para decidir qual das duas músicas seria dividida, tivemos que jogar uma moeda. Tive a sorte de obter as caras, e assim consegui os 50% de Video e dividimos Clean Clean pelos três. Nunca contestei nada disso e nem eles. Parecia ser um equilíbrio justo (…). Nós ainda somos bons amigos, o que é mais do que você pode dizer sobre muitos caras que se conhecem há 40 anos (risos)” (Bruce Woolley)

Já o ex-colega Geoff Downes soube da declaração de Bruce e não ficou nada satisfeito…

“O pobre e velho Bruce Woolley parece ter se esquecido de que eu escrevi sozinho toda a introdução, a ponte e as partes instrumentais, além daquela parte do ‘you are a radio star’. Também escrevi as partes operísticas e as contrapartidas melódicas (as quais ele usou parcialmente em sua versão, que é abaixo do razoável). Deveria ter sido uma divisão a três, e ele é muito sortudo, já que ganhou 50% e nós fizemos muito dinheiro para ele!

E verdade seja dita, Trevor e Bruce tiveram dois versos e um refrão em Video killed the radio star. Foi isso, no começo, e eles trouxeram pra mim uma música pop muito banal e indistinta. Era por causa disso que a versão de Bruce parecia dura como uma tábua. Eu transformei a canção em um épico com todos os acréscimos musicais. Wooley foi um sortudo por ter feito essa versão. Comprou sua casa em Surrey etc etc e ele tem 50%, enquanto eu e Trevor ficamos com divisões. Não tenho amarguras sobre isso, só quero que ele diga a verdade”. (Geoff Downes).

O site Songfacts botou Geoff para falar mais uma vez sobre sua música e ouviu do músico que ele fez a introdução, as orquestrações e a ponte. “Uma vez que chegamos a isso, sentimos que a música tinha potencial. Só aconteceu assim”, recorda. O músico parece que tem todo o interesse do mundo em explicar quem fez o quê na canção. Tem até um vídeo em que ele demonstra tudo no teclado.

“Legal, mas Buggles é total banda de uma música só”, você deve estar dizendo. Nem tanto, já que a banda gravou dois álbuns. Pega aí o lado B do single de Video killed the radio star, a boa Kid dynamo.

Com infos de Progressive Ears.