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Cultura Pop

Várias coisas que você já sabia sobre Transa, de Caetano Veloso

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Várias coisas que você já sabia sobre Transa, de Caetano Veloso

Transa, de Caetano Veloso, para inaugurar a nova série de “várias coisas que você já sabia sobre”? Vamos por partes. Foi no fim de 1969 que o Brasil mandou aquele abraço para a Tropicália. Caetano Veloso e Gilberto Gil foram exilados enquanto Gal Costa, Mutantes e Tom Zé lançavam as últimas obras que traziam as características em comum do movimento: capas coloridas de artistas como Albery e Rogério Duarte, guitarras de Lanny Gordin, arranjos de Rogério Duprat e produção de Manoel Barenbein.

Mesmo que pesquisadores e entusiastas afirmem que a obra do movimento se estenda até o ano de 1973, é inegável que a partir de 1969 muita coisa mudou. Os que mais sentiram essas mudanças foram, sem dúvida, Gil e Caetano, expulsos do país pela ditadura militar. Longe da família, dos amigos e em uma terra nova e estranha, a dupla iniciou uma outra viagem em suas carreiras, cada um com sua bagagem nas costas.

Gil aprendeu a tocar guitarra e saiu fazendo jams e aprendendo uma nova abordagem de sua música por Londres. Caetano se tornou mais introspectivo e parecia não haver mais lugar em seu imaginário para canções alegres como Superbacana e Atrás do trio elétrico. Em seu primeiro álbum lançado no exílio, em 1971, o que se ouve é melancolia e a saudade de sua terra.

No LP, que leva o apelido de London London, encontramos a maioria das letras em inglês, citações a canções brasileiras e músicas com tempos longos, fora do padrão comercial das rádios. Com tom triste e crítico, Caetano abre o álbum dizendo que um dia teve que deixar seu país e pede notícias da irmã Maria Bethânia. Mas antes de rever seu sol dourado, Caetano gravou seu segundo álbum na Inglaterra.

Várias coisas que você já sabia sobre Transa, de Caetano Veloso

Quando Transa (1972) foi gravado, o sentimento de tristeza já não era mais dominante em Caetano. Considerado pela crítica e por grande parte de seu público um de seus álbuns mais importantes, é um disco de banda, que pode ser considerado um sucessor direto do álbum de 1971 também em seu conceito e sonoridade.

COMO ASSIM TRANSA? No começo da década de 1970, o verbo ”transar” ou o substantivo “transa” não se referiam somente a sexo – estavam muito mais ligados ao sentido de “transação”. Segundo reportagem da Veja de 19 de abril de 1972 sobre o álbum de Caetano Veloso: “Na linguagem da moda, a palavra ‘transa’ tem a mobilidade das ideias vagas. Em resumo, pode referir-se desde transações comerciais ao negócios mais abstratos, envolvendo ou não duas e mais pessoas. E é nesse vasto campo de possibilidades que se desenham os limites do novo LP de Caetano Veloso”.

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Imagens de shows da época do “Transa” em Paris

O COMEÇO DO REGGAE DO BRASIL pode ser creditado ao Transa. A faixa Nine out of ten começa e termina com alguns compassos inspirados no ritmo jamaicano. A letra abre com Caetano narrando seus passeios pela Portobello Road, rua da capital inglesa que no começo dos anos 1970 possuía lojas que tocavam o som de artistas como Jimmy Cliff.

O CANTOR Péricles Cavalcanti, que sugeriu a inclusão do reggae na música, conta que para fazer a gravação das pequenas passagens foi preciso que o baixista Moacyr Albuquerque aprendesse a tocar o ritmo, já que o estilo não era conhecido no Brasil: “Eu fui com ele em uma loja e nós compramos umas três partituras de ska e através delas ele aprendeu a tocar o ritmo para fazer a gravação”. Caetano considera essa sua melhor canção em inglês e ela esteve presente no repertório do show do álbum Cores, nomes (1982), Zii e zie ao vivo (2010), Dois amigos – Um século de música (2015, com Gilberto Gil). E foi regravada no álbum Velô (1984).

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Caetano e banda gravando em Londres

UM GOSTO DE VIDRO E CORTE reinava nos ensaios para a gravação do LP. No centro de artes londrino Arts Lab, os músicos se reuniam para criar os arranjos e, na mesma época, havia um artista plástico produzindo uma obra com fibras de vidro, que eram cortadas no ambiente. Para desintoxicar do cheiro, Jards Macalé contou em reportagem de Leonardo Lichote que tomavam copos de leite entre as músicas.

ALÉM DE de Jards, que produziu e tocou guitarra e violão no LP, a banda de Transa contou com Tutty Moreno (bateria e percussão), Áureo de Souza (bateria e percussão) e Moacyr Albuquerque (baixo).

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Transa: em Paris com Jards Macalé

A PRIMEIRA VEZ DE ANGELA RO RO em uma gravação foi no Transa. A cantora estava passando uma temporada pela Europa e se encontrou com os baianos durante a viagem. No disco, Ro Ro toca gaita na faixa Nostalgia (That’s what rock n’ roll is all about). Com o cachê da gravação, a autora de Amor, meu grande amor conta que pagou uma semana de aluguel e comprou um par de botas para encarar o frio londrino.

A FICHA TÉCNICA DO DISCO GEROU BRIGAS e manteve muitos pesquisadores confusos por um bom tempo. Para começar, a primeira edição trazia a informação de que Angela Ro Ro havia tocado flauta, ao invés de gaita. Além disso, não havia o nome de Jards Macalé como produtor do álbum, o que foi motivo de afastamento entre ele e Caetano por tempos.

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Caetano ao vivo na época do disco

SEGUNDO o baiano, a justificativa se dá pelo fato de que a cultura de colocar o nome dos músicos nos encartes dos álbuns não era comum nos anos 1970. Em 2006, mais de 30 anos depois, as questões relativas ao encarte foram acertadas, com os créditos corretos aparecendo pela primeira vez na edição em CD do álbum que compõe a caixa Quarenta anos Caetanos 1969-1974.

“DISCOBJETO” foi o título dado para batizar o projeto gráfico da edição original do LP, assinado por Álvaro Guimarães e Aldo Luiz. Em formato trifold (triplo), a capa aberta forma uma espécie de prisma triangular, exibindo fotos do cantor e entregando uma outra interpretação. O álbum posteriormente teve reedições em capas dupla e simples, e fita K7, além de versões (em CD e LP) lançadas em outros países como Uruguai, Japão e Argentina.

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Propaganda da Rolling Stone

TODAS AS versões do álbum costumam ser raras por seu valor histórico e pelo status que recebeu ao longo dos anos de disco mais cultuado da obra de Caetano Veloso. Um exemplar da edição original tem, segundo o Discogs, preço médio de aproximadamente R$500 e já chegou a ser vendido no site por R$750.

UMA FESTIVAL DE CITAÇÕES compõe as letras de Transa. Na maioria das faixas Caetano cita a si mesmo e diversos outros compositores – além de regravar uma versão bastante alternativa do samba Mora na filosofia, de Monsueto. Segue uma lista com toda as citações do álbum:

“YOU DON’T KNOW ME”

“Nasci lá na Bahia de mucama com feitor/o meu pai dormia em cama minha mãe no pisador” foi tirada de Maria Moita (Carlos Lyra/Vinícius de Moraes)

“Laia, ladaia, sabatana, Ave Maria” – veio de Reza (Edu Lobo/Ruy Guerra)

“Eu, você, nós dois, já temos um passado meu amor, um violão guardado, aquela flor, e outras mumunhas mais” – veio de Saudosismo (Caetano Veloso), citada por Gal Costa

“Eu agradeço/ao povo brasileiro/norte, centro, sul inteiro/onde reinou o baião” – veio de Hora do adeus (Luiz Queiroga e Onildo Almeida, gravada por Luiz Gonzaga).

“TRISTE BAHIA”

As duas primeiras estrofes da música são do poema de Gregório de Mattos de mesmo título. Porém, com uma alteração – o original diz “rica te vi eu já”, enquanto Caetano canta “rica te vejo eu já” – causada por um erro de transcrição presente no livro em que o cantor possuía.

Outras citações presentes na música:

“Eu já vivo tão cansado/ De viver aqui na Terra/ […] Minha mãe eu vou pra lua/ E seja o que Deus quiser” – Eu já vivo enjoado (Mestre Pastinha, com adaptações)

“Ê galo cantou/Ê galo cantou camará” – Quando eu fui pra liberdade (canto tradicional de capoeira)

“Ê vamos nos embora/ ê pelo mundo afora” – Capoeira do Arnaldo (Paulo Vanzolini)

“Bandeira branca enfiada em pau forte/ trago no peito a estrela do norte” – Ponto do guerreiro Branco (canto tradicional, gravado também por Maria Bethânia em seu álbum de 1969).

“O vapor de cachoeira não navega mais no mar” – Canto tradicional, gravado também por Maria Bethânia em Cirandas, no álbum Dentro do mar tem rio (2007).

“Pé dentro, pé fora/quem tiver pé pequeno vai embora” – Canto tradicional de capoeira, gravado também por Tom Zé em Lavagem da Igreja de Irará, no álbum Correio da Estação do Brás (1978).

“Ó virgem mãe puríssima” – Hino a Nossa Senhora da Purificação

“IT’S A LONG WAY”

“O zóio da cobra verde/[..] não amava quem amei”; “Arrenego de quem diz/que o nosso amor se acabou” – Sôdade, meu bem, sôdade (Zé do Norte), gravada por Vanja Orico para a trilha de O cangaceiro, filme de Lima Barreto (1953), e por Nana Caymmi no álbum Renascer (1976).

“Água com areia/brinca na beira do mar/a água passa a areia fica no lugar” – Água com areia (Jair Amorim/Jacobina). Também gravada com alterações em outras versões registradas antes do lançamento de Transa, como a de Pery Ribeiro (1961).

“E se não tivesse o amor/E se não tivesse essa dor” – Consolação (Baden Powell/Vinícius de Moraes)

“No Abaeté tem uma lagoa escura/arrudiada de areia branca! – A lenda do Abaeté (Dorival Caymmi)

“NEOLITHIC MAN”

“Quem tem vovó/ Pelanca só” – Palavras atribuídas ao canto do Sabiá da Mata, pássaro muito comum na Bahia.

OS BEATLES APARECEM NO DISCO em duas citações: It’s a long way (The long and winding road, 1970) e em Neolithic man (You won’t see me, 1966).

MARIA BETHÂNIA além de ter gravado algumas das músicas citadas em Transa, gravou o álbum Drama também em 1972 com os músicos Moacyr Albuquerque (baixo) e Tutti Moreno (bateria). Além disso, o LP possui produção do mano Caetano e o primeiro registro da música Anjo exterminado, de autoria de Jards Macalé.

CAETANO REJEITOU PARCERIA COM BOWIE na época em que estava exilado. Acontece que Ralph Mace, que produziu Transa, já havia trabalhado com o cantor britânico (é ele o responsável pelos teclados no álbum The man who sold the world, de 1970) e queria unir os dois talentos.

MACE levou o baiano até um show de David Bowie na Round House. Em entrevistas, Caetano revela que não gostou do show e que no camarim ele e o “Camaleão” apenas se cumprimentaram cordialmente. Enquanto o cantor recorda que Ralph queria que ele contribuísse com as músicas de David, o produtor revela o que gostaria de propor a Bowie que traduzisse as letras do artista brasileiro.

O PRODUTOR SE CHATEOU COM CAETANO, não por conta da rejeição à parceria com Bowie, mas porque logo após a finalização das gravações de Transa, houve a possibilidade do cantor voltar ao Brasil e ele assim fez. Ralph queria que o artista continuasse em Londres para divulgar Transa e produzir outros trabalhos, mas ele foi irredutível. Além do mal estar entre os dois, a decisão fez com que o LP não fosse lançado na Inglaterra naquele momento e até hoje não existe uma edição lançada no país.

NA CHEGADA AO BRASIL, O SHOW FOI UM SUCESSO. Mesmo ainda sem os LPs nas lojas, Caetano fez o show com as faixas de Transa assim que voltou do exílio para o Brasil, em Janeiro de 1972. Se em Londres os músicos tocaram no Queen Elizabeth Hall e até em cima de um caminhão, o primeiro destino no Brasil foi o Teatro João Caetano, no centro do Rio de Janeiro.

MUITO COMENTADA na imprensa, a temporada teve dias com ingressos esgotados sem que as portas do teatro foram abertas, para que, além dos 1500 pagantes, outras pessoas pudessem acompanhar o espetáculo. Caetano abria os show com Bim-bom, de João Gilberto, e o repertório incluía músicas que não estavam em Transa, como Você não entende nada, Maria Bethânia, Preta pretinha (Novos Baianos), Que tudo mais vá pro inferno (Roberto Carlos), um pout-pourri de músicas de carnaval e encerrava com Eu e a brisa, de Johnny Alf.

A CRÍTICA elogiou bastante o show, que também teve temporada em São Paulo (no teatro Tuca, onde Caetano foi bastante vaiado em 1968 pela apresentação da música É proibido proibir) e retornou ao Rio ainda em janeiro para mais três shows resultantes da grande procura por parte do público.

O ÁLBUM TAMBÉM DIVIDIU OPINIÕES na imprensa. O número 487 da revista Intervalo 2000, em matéria sobre o lançamento do LP garantiu: “Não tenham dúvida: já pode ser considerado o disco do ano”. Outra edição, de número 500, lançada em agosto de 1972, dizia que “Nostalgia”, faixa que encerra o disco, estava fazendo um grande sucesso. Em O Jornal, a crítica foi dura: “Este LP não é, de modo algum, um produto do talento com T maiúsculo do Caetano”.

UMA QUANTIDADE GRANDE DE LPS VEIO EMPENADA DE FÁBRICA em uma edição recente fabricada na Alemanha. Lançado pela gravadora Universal Music em 2012, o disco recria o “discobjeto” e teve problemas por conta de sua plastificação. Com a capa feita de um papel de alta gramatura e com o plástico lacrado de forma muito apertada, várias unidades tiveram o vinil entortado pela pressão.

HEITOR Trengrouse, proprietário da loja de discos Tracks, no Rio de Janeiro, teve essa edição a venda e comenta: “Praticamente todas as unidades que recebemos desse LP vieram com esse problema, o que é lamentável porque é um disco histórico e que foi poucas vezes relançado. Eu acredito que o motivo de ele ter saído também em capas duplas e simples tenha a ver com a complexidade dessa capa. Os próprios lojistas deveriam reclamar porque é um disco difícil de acomodar nas prateleiras com esse padrão diferente”.

O CANTOR PAULISTANO ROMULO FRÓES estreou em junho de 2014 um show em que apresenta as canções de Transa na íntegra. Inicialmente parte do projeto Radiola Urbana 1972 (em que 20 artistas diferentes interpretaram álbuns que estavam então completando 40 anos), a apresentação contou com o guitarrista Kiko Dinucci (Metá Metá), o saxofonista Thiago França (Metá Metá); o violonista e guitarrista Rodrigo Campos; o baixista Marcelo Cabral (Passo Torto); e o baterista Pedro Ito (do grupo de jazz Improvisado).

A BANDA das apresentações contou com outras formações, que incluíram músicos como o guitarrista Guilherme Held, o baixista Marcos Gerez e o baterista Richard Ribeiro. A sonoridade é completamente diferente do que está no álbum, o que torna o show muito interessante. Rômulo e os músicos mudam a roupagem das colagens sonoras de Caetano e fazem versões totalmente imersas na estética da geração atual da música de São Paulo.

CAETANO DISSE QUE NÃO FARÁ UM SHOW COM O REPERTÓRIO DO ÁLBUM mesmo com abaixo-assinados para a realização do show terem circulado na internet. O cantor considera Transa um disco de banda e disse que não tem intenção de se reunir sem o músico Moacyr Albuquerque, falecido em outubro de 2000.

APESAR de não fazer um show com o repertório do álbum, algumas músicas do LP apareceram em shows da trilogia . Na versão ao vivo do álbum (2007) Caetano canta Nine out of ten (que também fez parte do show Dois amigos, um século de música, com Gilberto Gil) e You don’t know me e em Abraçaço ao vivo (2014) foi incluída a música Triste Bahia.

HOJE Transa é considerado um dos mais importantes da música popular brasileira e da discografia de Caetano. Segundo reportagem de Marcus Preto, a adoração se intensificou tanto no público quanto entre músicos na década de 1990. Em entrevista a Marcelo Perrone, o cantor revelou: “Eu gostei dele quando o fiz. Mas o achei mais satisfatório com o passar do tempo. Mas o fato é que não ouço meus discos quase nunca. Então, não sei direito”.

Mais várias coisas que você já sabia sobre aqui.

Cultura Pop

Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

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Peter Hook: "Roubamos muito o Kraftwerk"

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.

Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.

Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.

O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.

Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.

Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.

Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.

Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.

A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.

Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.

E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.

Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.

Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.

Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.

Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.

Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.

Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.

Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.

O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.

O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!

Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.

Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).

Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.

A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.

Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados ​​de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.

Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.

Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.

Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.

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“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

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“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

Quem assistiu ao clipe de Adjourn it, single novo de Tom Morello (que tem participações de seu filho Roman Morello, na guitarra, e do cantor do System Of A Down, Serj Tankian, nos vocais) reparou que há várias cenas em preto e branco, com greves, manifestações e gente sendo presa. Dirigido por Isabella Margolis, o clipe intercala cenas do trio em estúdio, com trechos do filme Salt of the Earth, lançado em 1954, e que conta a história real de mineiros mexicano-americanos que lutaram contra a opressão e o racismo.

Salt of the Earth tem muita história: para começar, ele foi dirigido por Herbert Biberman (1900-1971), um cineasta que fazia parte da lista dos “dez de Hollywood” – um grupo de dez roteiristas e cineastas de esquerda, que estava sendo vítima de uma caça às bruxas. Ou melhor, de uma caça a supostos comunistas, realizada no começo da guerra ideológica entre Estados Unidos e União Soviética.

Biberman chegou a ficar encarcerado durante seis meses, e ao sair da prisão, decidiu dirigir um filme ficcional sobre a greve dos mineiros do Condado de Grant, no Novo México. O tal filme acabou ganhando roteiro de Michael Wilson e produção de Paul Jarrico – e ele é justamente Salt of the Earth, uma produção que já inovava por ser totalmente independente, off-Hollywood.

O filme acabou sendo uma das principais aparições na telona da atriz mexicana Rosaura Revueltas – por sinal, durante as filmagens, ela foi presa por uma suposta violação de passaporte e acabou sendo proibida de trabalhar nos Estados Unidos, um baque nunca superado em sua carreira. Ela interpreta Esperanza Quintero, a esposa de um mineiro, que faz parte de um grupo de manifestantes mexicano-americanos – a queixa deles era que a Delaware Zinc, Inc, para a qual trabalhavam, não dava a eles a mesmas condições que dava aos mineiros anglo-saxões.

Pra acompanhar a história é melhor ver o filme (tá no YouTube), mas vale dizer que Esperanza fica grávida, seu marido acaba preso e ela se junta a um grupo de esposas de mineiros, que faz piquete no lugar dos maridos. Um detalhe importante sobre Salt of the Earth é que só cinco atores profissionais estavam no elenco: Biberman e a produção convocaram mineiros de verdade, além de moradores do Condado. Nas cenas que você vê no filme, muita gente viveu aquilo de verdade.

Se você está achando que isso foi uma ideia para dar mais veracidade ao filme, não foi nada disso: os sindicatos de atores e de profissionais de Hollywood simplesmente proibiram seus associados de ter qualquer relação com Salt of the Earth, e a equipe ficou sem ter com quem contar. Houve quem notasse que aquela situação era absurda, já que eram sindicatos prejudicando um filme que fazia basicamente uma apologia ao movimento sindical. Mas isso não ajudou em nada, até porque veículos como Hollywood Reporter e Newsweek já estavam falando barbaridades como “filme de comunistas anti-americanos” e outras babaquices.

Claro que a pós-produção e o lançamento de Salt of the Earth não foram nada tranquilos: a equipe teve dificuldade de achar laboratórios que terminassem o filme e ele foi censurado e incluído na lista anti-comunismo dos EUA (foi o único filme incluído lá, aliás). Pauline Kael, uma dessas críticas de cinema que tiravam o sono dos cineastas, desprezou o filme e ainda escreveu que ele não passava de “uma peça de propaganda comunista tão clara quanto qualquer outra que tivemos em muitos anos”. Com o tempo, o filme foi sendo descoberto, e ganhou lançamentos em formatos como laserdisc e DVD. Uma matéria recente do The Guardian traz uma declaração de Biberman dizendo que ele foi “o primeiro longa-metragem já realizado nos EUA pelos trabalhadores, sobre os trabalhadores e para os trabalhadores”.

Salt of the Earth foi um poderoso ato de desafio em sua época e, mais de meio século depois, seus temas continuam a ressoar no cenário político atual. Adjourn it canaliza o legado de resistência do filme, reforçando a importância da solidariedade para unir as pessoas contra o medo e a divisão”, escreveu Tom Morello num dos textos de divulgação do clipe. E os dois (clipe e filme) estão aí embaixo.

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Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”

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O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).

“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.

Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.

Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.

“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.

“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.

E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.

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