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Cultura Pop

Várias coisas que você já sabia sobre Transa, de Caetano Veloso

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Várias coisas que você já sabia sobre Transa, de Caetano Veloso

Transa, de Caetano Veloso, para inaugurar a nova série de “várias coisas que você já sabia sobre”? Vamos por partes. Foi no fim de 1969 que o Brasil mandou aquele abraço para a Tropicália. Caetano Veloso e Gilberto Gil foram exilados enquanto Gal Costa, Mutantes e Tom Zé lançavam as últimas obras que traziam as características em comum do movimento: capas coloridas de artistas como Albery e Rogério Duarte, guitarras de Lanny Gordin, arranjos de Rogério Duprat e produção de Manoel Barenbein.

Mesmo que pesquisadores e entusiastas afirmem que a obra do movimento se estenda até o ano de 1973, é inegável que a partir de 1969 muita coisa mudou. Os que mais sentiram essas mudanças foram, sem dúvida, Gil e Caetano, expulsos do país pela ditadura militar. Longe da família, dos amigos e em uma terra nova e estranha, a dupla iniciou uma outra viagem em suas carreiras, cada um com sua bagagem nas costas.

Gil aprendeu a tocar guitarra e saiu fazendo jams e aprendendo uma nova abordagem de sua música por Londres. Caetano se tornou mais introspectivo e parecia não haver mais lugar em seu imaginário para canções alegres como Superbacana e Atrás do trio elétrico. Em seu primeiro álbum lançado no exílio, em 1971, o que se ouve é melancolia e a saudade de sua terra.

No LP, que leva o apelido de London London, encontramos a maioria das letras em inglês, citações a canções brasileiras e músicas com tempos longos, fora do padrão comercial das rádios. Com tom triste e crítico, Caetano abre o álbum dizendo que um dia teve que deixar seu país e pede notícias da irmã Maria Bethânia. Mas antes de rever seu sol dourado, Caetano gravou seu segundo álbum na Inglaterra.

Várias coisas que você já sabia sobre Transa, de Caetano Veloso

Quando Transa (1972) foi gravado, o sentimento de tristeza já não era mais dominante em Caetano. Considerado pela crítica e por grande parte de seu público um de seus álbuns mais importantes, é um disco de banda, que pode ser considerado um sucessor direto do álbum de 1971 também em seu conceito e sonoridade.

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COMO ASSIM TRANSA? No começo da década de 1970, o verbo ”transar” ou o substantivo “transa” não se referiam somente a sexo – estavam muito mais ligados ao sentido de “transação”. Segundo reportagem da Veja de 19 de abril de 1972 sobre o álbum de Caetano Veloso: “Na linguagem da moda, a palavra ‘transa’ tem a mobilidade das ideias vagas. Em resumo, pode referir-se desde transações comerciais ao negócios mais abstratos, envolvendo ou não duas e mais pessoas. E é nesse vasto campo de possibilidades que se desenham os limites do novo LP de Caetano Veloso”.

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Imagens de shows da época do “Transa” em Paris

O COMEÇO DO REGGAE DO BRASIL pode ser creditado ao Transa. A faixa Nine out of ten começa e termina com alguns compassos inspirados no ritmo jamaicano. A letra abre com Caetano narrando seus passeios pela Portobello Road, rua da capital inglesa que no começo dos anos 1970 possuía lojas que tocavam o som de artistas como Jimmy Cliff.

O CANTOR Péricles Cavalcanti, que sugeriu a inclusão do reggae na música, conta que para fazer a gravação das pequenas passagens foi preciso que o baixista Moacyr Albuquerque aprendesse a tocar o ritmo, já que o estilo não era conhecido no Brasil: “Eu fui com ele em uma loja e nós compramos umas três partituras de ska e através delas ele aprendeu a tocar o ritmo para fazer a gravação”. Caetano considera essa sua melhor canção em inglês e ela esteve presente no repertório do show do álbum Cores, nomes (1982), Zii e zie ao vivo (2010), Dois amigos – Um século de música (2015, com Gilberto Gil). E foi regravada no álbum Velô (1984).

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Caetano e banda gravando em Londres

UM GOSTO DE VIDRO E CORTE reinava nos ensaios para a gravação do LP. No centro de artes londrino Arts Lab, os músicos se reuniam para criar os arranjos e, na mesma época, havia um artista plástico produzindo uma obra com fibras de vidro, que eram cortadas no ambiente. Para desintoxicar do cheiro, Jards Macalé contou em reportagem de Leonardo Lichote que tomavam copos de leite entre as músicas.

ALÉM DE de Jards, que produziu e tocou guitarra e violão no LP, a banda de Transa contou com Tutty Moreno (bateria e percussão), Áureo de Souza (bateria e percussão) e Moacyr Albuquerque (baixo).

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Transa: em Paris com Jards Macalé

A PRIMEIRA VEZ DE ANGELA RO RO em uma gravação foi no Transa. A cantora estava passando uma temporada pela Europa e se encontrou com os baianos durante a viagem. No disco, Ro Ro toca gaita na faixa Nostalgia (That’s what rock n’ roll is all about). Com o cachê da gravação, a autora de Amor, meu grande amor conta que pagou uma semana de aluguel e comprou um par de botas para encarar o frio londrino.

A FICHA TÉCNICA DO DISCO GEROU BRIGAS e manteve muitos pesquisadores confusos por um bom tempo. Para começar, a primeira edição trazia a informação de que Angela Ro Ro havia tocado flauta, ao invés de gaita. Além disso, não havia o nome de Jards Macalé como produtor do álbum, o que foi motivo de afastamento entre ele e Caetano por tempos.

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Várias coisas que você já sabia sobre Transa, de Caetano Veloso

Caetano ao vivo na época do disco

SEGUNDO o baiano, a justificativa se dá pelo fato de que a cultura de colocar o nome dos músicos nos encartes dos álbuns não era comum nos anos 1970. Em 2006, mais de 30 anos depois, as questões relativas ao encarte foram acertadas, com os créditos corretos aparecendo pela primeira vez na edição em CD do álbum que compõe a caixa Quarenta anos Caetanos 1969-1974.

“DISCOBJETO” foi o título dado para batizar o projeto gráfico da edição original do LP, assinado por Álvaro Guimarães e Aldo Luiz. Em formato trifold (triplo), a capa aberta forma uma espécie de prisma triangular, exibindo fotos do cantor e entregando uma outra interpretação. O álbum posteriormente teve reedições em capas dupla e simples, e fita K7, além de versões (em CD e LP) lançadas em outros países como Uruguai, Japão e Argentina.

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Propaganda da Rolling Stone

TODAS AS versões do álbum costumam ser raras por seu valor histórico e pelo status que recebeu ao longo dos anos de disco mais cultuado da obra de Caetano Veloso. Um exemplar da edição original tem, segundo o Discogs, preço médio de aproximadamente R$500 e já chegou a ser vendido no site por R$750.

UMA FESTIVAL DE CITAÇÕES compõe as letras de Transa. Na maioria das faixas Caetano cita a si mesmo e diversos outros compositores – além de regravar uma versão bastante alternativa do samba Mora na filosofia, de Monsueto. Segue uma lista com toda as citações do álbum:

“YOU DON’T KNOW ME”

“Nasci lá na Bahia de mucama com feitor/o meu pai dormia em cama minha mãe no pisador” foi tirada de Maria Moita (Carlos Lyra/Vinícius de Moraes)

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“Laia, ladaia, sabatana, Ave Maria” – veio de Reza (Edu Lobo/Ruy Guerra)

“Eu, você, nós dois, já temos um passado meu amor, um violão guardado, aquela flor, e outras mumunhas mais” – veio de Saudosismo (Caetano Veloso), citada por Gal Costa

“Eu agradeço/ao povo brasileiro/norte, centro, sul inteiro/onde reinou o baião” – veio de Hora do adeus (Luiz Queiroga e Onildo Almeida, gravada por Luiz Gonzaga).

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“TRISTE BAHIA”

As duas primeiras estrofes da música são do poema de Gregório de Mattos de mesmo título. Porém, com uma alteração – o original diz “rica te vi eu já”, enquanto Caetano canta “rica te vejo eu já” – causada por um erro de transcrição presente no livro em que o cantor possuía.

Outras citações presentes na música:

“Eu já vivo tão cansado/ De viver aqui na Terra/ […] Minha mãe eu vou pra lua/ E seja o que Deus quiser” – Eu já vivo enjoado (Mestre Pastinha, com adaptações)

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“Ê galo cantou/Ê galo cantou camará” – Quando eu fui pra liberdade (canto tradicional de capoeira)

“Ê vamos nos embora/ ê pelo mundo afora” – Capoeira do Arnaldo (Paulo Vanzolini)

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“Bandeira branca enfiada em pau forte/ trago no peito a estrela do norte” – Ponto do guerreiro Branco (canto tradicional, gravado também por Maria Bethânia em seu álbum de 1969).

“O vapor de cachoeira não navega mais no mar” – Canto tradicional, gravado também por Maria Bethânia em Cirandas, no álbum Dentro do mar tem rio (2007).

“Pé dentro, pé fora/quem tiver pé pequeno vai embora” – Canto tradicional de capoeira, gravado também por Tom Zé em Lavagem da Igreja de Irará, no álbum Correio da Estação do Brás (1978).

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“Ó virgem mãe puríssima” – Hino a Nossa Senhora da Purificação

“IT’S A LONG WAY”

“O zóio da cobra verde/[..] não amava quem amei”; “Arrenego de quem diz/que o nosso amor se acabou” – Sôdade, meu bem, sôdade (Zé do Norte), gravada por Vanja Orico para a trilha de O cangaceiro, filme de Lima Barreto (1953), e por Nana Caymmi no álbum Renascer (1976).

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“Água com areia/brinca na beira do mar/a água passa a areia fica no lugar” – Água com areia (Jair Amorim/Jacobina). Também gravada com alterações em outras versões registradas antes do lançamento de Transa, como a de Pery Ribeiro (1961).

“E se não tivesse o amor/E se não tivesse essa dor” – Consolação (Baden Powell/Vinícius de Moraes)

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“No Abaeté tem uma lagoa escura/arrudiada de areia branca! – A lenda do Abaeté (Dorival Caymmi)

“NEOLITHIC MAN”

“Quem tem vovó/ Pelanca só” – Palavras atribuídas ao canto do Sabiá da Mata, pássaro muito comum na Bahia.

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OS BEATLES APARECEM NO DISCO em duas citações: It’s a long way (The long and winding road, 1970) e em Neolithic man (You won’t see me, 1966).

MARIA BETHÂNIA além de ter gravado algumas das músicas citadas em Transa, gravou o álbum Drama também em 1972 com os músicos Moacyr Albuquerque (baixo) e Tutti Moreno (bateria). Além disso, o LP possui produção do mano Caetano e o primeiro registro da música Anjo exterminado, de autoria de Jards Macalé.

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CAETANO REJEITOU PARCERIA COM BOWIE na época em que estava exilado. Acontece que Ralph Mace, que produziu Transa, já havia trabalhado com o cantor britânico (é ele o responsável pelos teclados no álbum The man who sold the world, de 1970) e queria unir os dois talentos.

MACE levou o baiano até um show de David Bowie na Round House. Em entrevistas, Caetano revela que não gostou do show e que no camarim ele e o “Camaleão” apenas se cumprimentaram cordialmente. Enquanto o cantor recorda que Ralph queria que ele contribuísse com as músicas de David, o produtor revela o que gostaria de propor a Bowie que traduzisse as letras do artista brasileiro.

O PRODUTOR SE CHATEOU COM CAETANO, não por conta da rejeição à parceria com Bowie, mas porque logo após a finalização das gravações de Transa, houve a possibilidade do cantor voltar ao Brasil e ele assim fez. Ralph queria que o artista continuasse em Londres para divulgar Transa e produzir outros trabalhos, mas ele foi irredutível. Além do mal estar entre os dois, a decisão fez com que o LP não fosse lançado na Inglaterra naquele momento e até hoje não existe uma edição lançada no país.

NA CHEGADA AO BRASIL, O SHOW FOI UM SUCESSO. Mesmo ainda sem os LPs nas lojas, Caetano fez o show com as faixas de Transa assim que voltou do exílio para o Brasil, em Janeiro de 1972. Se em Londres os músicos tocaram no Queen Elizabeth Hall e até em cima de um caminhão, o primeiro destino no Brasil foi o Teatro João Caetano, no centro do Rio de Janeiro.

MUITO COMENTADA na imprensa, a temporada teve dias com ingressos esgotados sem que as portas do teatro foram abertas, para que, além dos 1500 pagantes, outras pessoas pudessem acompanhar o espetáculo. Caetano abria os show com Bim-bom, de João Gilberto, e o repertório incluía músicas que não estavam em Transa, como Você não entende nada, Maria Bethânia, Preta pretinha (Novos Baianos), Que tudo mais vá pro inferno (Roberto Carlos), um pout-pourri de músicas de carnaval e encerrava com Eu e a brisa, de Johnny Alf.

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A CRÍTICA elogiou bastante o show, que também teve temporada em São Paulo (no teatro Tuca, onde Caetano foi bastante vaiado em 1968 pela apresentação da música É proibido proibir) e retornou ao Rio ainda em janeiro para mais três shows resultantes da grande procura por parte do público.

O ÁLBUM TAMBÉM DIVIDIU OPINIÕES na imprensa. O número 487 da revista Intervalo 2000, em matéria sobre o lançamento do LP garantiu: “Não tenham dúvida: já pode ser considerado o disco do ano”. Outra edição, de número 500, lançada em agosto de 1972, dizia que “Nostalgia”, faixa que encerra o disco, estava fazendo um grande sucesso. Em O Jornal, a crítica foi dura: “Este LP não é, de modo algum, um produto do talento com T maiúsculo do Caetano”.

UMA QUANTIDADE GRANDE DE LPS VEIO EMPENADA DE FÁBRICA em uma edição recente fabricada na Alemanha. Lançado pela gravadora Universal Music em 2012, o disco recria o “discobjeto” e teve problemas por conta de sua plastificação. Com a capa feita de um papel de alta gramatura e com o plástico lacrado de forma muito apertada, várias unidades tiveram o vinil entortado pela pressão.

HEITOR Trengrouse, proprietário da loja de discos Tracks, no Rio de Janeiro, teve essa edição a venda e comenta: “Praticamente todas as unidades que recebemos desse LP vieram com esse problema, o que é lamentável porque é um disco histórico e que foi poucas vezes relançado. Eu acredito que o motivo de ele ter saído também em capas duplas e simples tenha a ver com a complexidade dessa capa. Os próprios lojistas deveriam reclamar porque é um disco difícil de acomodar nas prateleiras com esse padrão diferente”.

O CANTOR PAULISTANO ROMULO FRÓES estreou em junho de 2014 um show em que apresenta as canções de Transa na íntegra. Inicialmente parte do projeto Radiola Urbana 1972 (em que 20 artistas diferentes interpretaram álbuns que estavam então completando 40 anos), a apresentação contou com o guitarrista Kiko Dinucci (Metá Metá), o saxofonista Thiago França (Metá Metá); o violonista e guitarrista Rodrigo Campos; o baixista Marcelo Cabral (Passo Torto); e o baterista Pedro Ito (do grupo de jazz Improvisado).

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A BANDA das apresentações contou com outras formações, que incluíram músicos como o guitarrista Guilherme Held, o baixista Marcos Gerez e o baterista Richard Ribeiro. A sonoridade é completamente diferente do que está no álbum, o que torna o show muito interessante. Rômulo e os músicos mudam a roupagem das colagens sonoras de Caetano e fazem versões totalmente imersas na estética da geração atual da música de São Paulo.

CAETANO DISSE QUE NÃO FARÁ UM SHOW COM O REPERTÓRIO DO ÁLBUM mesmo com abaixo-assinados para a realização do show terem circulado na internet. O cantor considera Transa um disco de banda e disse que não tem intenção de se reunir sem o músico Moacyr Albuquerque, falecido em outubro de 2000.

APESAR de não fazer um show com o repertório do álbum, algumas músicas do LP apareceram em shows da trilogia . Na versão ao vivo do álbum (2007) Caetano canta Nine out of ten (que também fez parte do show Dois amigos, um século de música, com Gilberto Gil) e You don’t know me e em Abraçaço ao vivo (2014) foi incluída a música Triste Bahia.

HOJE Transa é considerado um dos mais importantes da música popular brasileira e da discografia de Caetano. Segundo reportagem de Marcus Preto, a adoração se intensificou tanto no público quanto entre músicos na década de 1990. Em entrevista a Marcelo Perrone, o cantor revelou: “Eu gostei dele quando o fiz. Mas o achei mais satisfatório com o passar do tempo. Mas o fato é que não ouço meus discos quase nunca. Então, não sei direito”.

Mais várias coisas que você já sabia sobre aqui.

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Cinema

Toomorrow: quando Olivia Newton-John fez um musical espacial “jovem”

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Toomorrow: quando Olivia Newton-John fez um musical espacial "jovem"

Fãs de Olivia Newton-John (que saiu de cena nos últimos dias) deram uma reclamada, com razão, quando viram nas redes sociais um bando de gente que só lembrou da fase Physical da cantora. Ou de clássicos da telinha como Grease e Xanadu, surgidos de uma fase em que Olivia já era tudo, menos um rosto novo. Antes disso, ela já vinha gravando discos na onda do country pop e do folk desde 1971, tinha conseguido o primeiro disco de ouro em 1975 com o sexto álbum, Clearly love, e vinha fazendo filmes desde o começo da década.

Um filme bem interessante que Olivia fez, e que está inteiro no YouTube (pelo menos por enquanto), tem um plot bem curioso, e ainda por cima rendeu um trilha sonora que prometia. Aliás, o próprio filme foi uma promessa – que não rolou. Toomorrow, dirigido por Val Guest, saiu em 27 de agosto de 1970 no Reino Unido, e tinha a cantora como protagonista. Olivia fazia uma personagem chamada Olivia, que era a líder de um grupo pop (cujo nome era Toomorrow) que era observado de longe por extraterrestres, e acabava sendo abduzido.

Além da cantora, o grupo tinha Karl Chambers (bateria), Ben Thomas (voz, guitarra) e Vic Cooper (teclados). Essa turma, que mantinha a banda como uma forma de financiar os estudos, acabava envolvida numa trama que misturava musical, ficção científica e filme “jovem”, com direito a cenas de protestos estudantis e sit-ins alegres. Se você nunca viu, nem ouviu falar e tem curiosidade, segue aí.

Toomorrow não chegou a ser um grande sucess… não, pensando bem foi um retumbante fracasso. O filme teve problemas desde o começo porque sua dupla de produtores começou trabalhando direitinho e depois passou a se odiar. Os dois eram ninguém menos que Harry Saltzman, que produziu filmes de James Bond, e Don Kirshner, que foi o primeiro produtor dos Monkees. Nessa época inicial, problemas com o roteiro, que nunca ficava do jeito que a dupla e o diretor queriam, e problemas maiores ainda com grana (Guest diz nunca ter sido pago pelo filme) melecaram o processo ainda mais. Olivia chegou a afirmar que o filme “pelo menos valeu a experiência”.

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No fim das contas, Toomorrow foi exibido por apenas uma semana em Londres, e ressurgiria anos depois em exibições especiais, além de seu lançamento em DVD. O mais curioso é que o filme teve até uma trilha sonora, lançada pela RCA. Apesar de ser uma trilha, era creditada à banda Toomorrow, que não existia na prática. Esse disco, um não-marco do pop gostosinho, está até no Spotify.

A tal trilha saiu em 1970, junto do não-lançamento do filme, e honrava bem um projeto que, de certa forma, havia começado com a ideia torta de ser um Monkees de luxo da nova década. Don Kirshner atuou como supervisor musical (todo o material foi publicado em sua editora) e tanto as composições das faixas quanto a produção do LP são creditadas ao cantor e compositor Ritchie Adams e ao produtor Mark Barkan. Chegaram a sair mais duas faixas do Toomorrow num single, também de 1970, lançado pela Decca – a capinha do disco anunciava até pôsteres do grupo.

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Cultura Pop

Relembrando o 120 Minutes da MTV em site e clipes

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Relembrando o 120 Minutes da MTV em site e clipes

Tá faltando gente pra fazer isso com os programas de música do Brasil – ok, dá mais trabalho, enfim. Lá fora tem uma turma bastante dedicada a recordar os bons tempos do 120 minutes, programa “de música alternativa” da MTV que misturava novos lançamentos, entrevistas, bate-papos reveladores e apresentadores especiais (gente como Lou Reed e Henry Rollins).

O programa durou de 1986 a 2000 (foi encerrado pelo canal sem alarde) e foi substituído por um programa análogo chamado Subterranean, além de dois retornos à telinha, no canal associado MTV 2. Entre os apresentadores titulares, gente como JJ Jackson, Martha Quinn e Adam Curry. Agora, a lista de músicas que foram lançadas pela atração e que hoje são tidas e havidas como clássicos, assusta. Tem Smells like teen spirit (Nirvana), Under the milky way (The Church), Kool thing (Sonic Youth), Mandinka (Sinead O’Connor), World shut your mouth (Julian Cope), Seattle (Public Image Ltd), Just like heaven (The Cure) e outras, umas mais, outras menos conhecidas.

A novidade é que um sujeito chamado Chris Reynolds subiu no YouTube uma playlist chamada 120 minutes full archive, com supostamente todos os clipes que foram lançados pela atração.

E uma radialista chamada Tyler Marie criou um site que traz tudo (ou quase tudo) sobre o programa: quem apresentou cada edição, os convidados, os clipes que foram apresentados, etc. “A partir de nossa página inicial , você pode navegar por 27 anos de playlists de 120 Minutos da MTV e seu sucessor, Subterranean“, explica ela. “Este projeto começou em 2003 como o site não-oficial do 120 Minutes, quando o programa ainda estava no ar na MTV2. Surgimos com a ideia de postar a playlist toda semana, porque a MTV não o fazia”, completa.

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Aqui no Pop Fantasma, a gente já recordou o dia, em 1986, que Lou Reed foi um dos apresentadores do programa. Só que chegou usando óculos escuros quase cobrindo o rosto todo, falando com voz grave, de cara amarrada, e disposto quase a encher um convidado da atração de porrada – ninguém menos que Mark Josephson, um dos criadores do New Music Seminar, painel de música que serviu de modelo para vários music conferences ao redor do mundo, reunindo bandas, novos artistas, CEOs de gravadoras, gente de mídia, etc. Mas ele também deu uma de fan boy quando entrevistou a iniciante Suzanne Vega e apresentou clipes.

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Cinema

Tangarella: uma pornochanchada com Jô Soares e Paulo Coelho (!)

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A carreira de Jô Soares como ator incluiu um filme que pediu para ser trash e ficou três vezes na fila: Tangarella, a tanga de cristal era uma pornochanchada soft lançada em 1976, dirigida e escrita por Lula Campello Torres, e que tinha o humorista interpretando uma espécie de mordomo trapalhão (Erasmo), meio viciado em participar de concursos, que trabalhava para uma família disfuncional e falida, e que complementava a renda trabalhando como consultor sentimental numa revista.

A grande curiosidade é a participação de ninguém menos que Paulo Coelho (!), naquele que talvez seja seu único papel no cinema, interpretando Avelar, um garotão meio vida-torta. Numa das cenas, Paulo aparece sentadão numa poltrona, lendo um exemplar da revista Vampirella. Por acaso, Cachorro urubu, parceria dele com Raul Seixas, aparece na trilha do filme (na interpretação de Raul no disco Krig ha bandolo, de 1973).

Tangarella: pornochanchada de 1975 com Jô Soares e Paulo Coelho (!)

A tal família esquisita era o prato principal do filme. Lucio Tangarella (Jardel Filho), um marido abusivo, viciado em jogo, violento com a mulher e a filha, Sandra – que assiste a todas as brigas dos pais. Ele fica viúvo e casa-se com Luísa Maria (Lidia Mattos), uma dondoca também viúva, que tem três filhos, Âncora (Regina Torres), Alvorada (Fanny Rose) e o tal Avelar. Sem grana por causa do vício em jogo do marido, Luisa sai em busca de um empregado que não saiba fazer nada direito, para que ela possa pagar bem pouco a ele. Erasmo, que mal consegue carregar objetos sem se atrapalhar, é contratado.

O que a madame não contava era que Lucio desaparecesse e deixasse a esposa com o três filhos, com o mordomo e… com a filha Sandra, já adolescente (e interpretada por Alcione Mazzeo). Ela sofre bullying da família e é tratada como uma criada. Até que surge na história um garotão interiorano, rico e meio outsider, Muniz Palacio (interpretado pelo designer de capas de discos e editor do jornal alternativo Presença, Antonio Henrique Nitzche) e algumas coisas mudam.

Tangarella foi lançado discretamente, em cinemas do Rio e de São Paulo, e foi considerado um filme “leve”, liberado para jovens de 14 anos. É uma produção que dá vontade de socar as paredes de tão trash, mas é um filme bem legal – aliás é uma boa indicação para quem curte ver imagens antigas do Rio de Janeiro, já que aparecem lugares como a Lapa, o Largo da Carioca, o Túnel do Pasmado (mesmo local em que o personagem de Roberto Carlos já havia entrado com um helicóptero no filme Em ritmo de aventura, de 1967) e até o Carnaval carioca (que dá sentido à tal “tanga de cristal” do título).

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Lula Campello Torres é um cineasta sobre o qual há bem pouca informação – na Globo, em 1991, ele escreveu uma minissérie chamada Meu marido, ao lado de Euclydes Marinho, que foi assistente de direção em Tangarella. O filme foi todo montado como se fosse uma espécie de documentário ou novelinha de rádio “com imagens”, já que um narrador (Aloysio Oliveira, dublador de filmes da Disney e criador do selo bossa-nova Elenco) vai explicando toda a história. As aparições do já saudoso Jô Soares são quase sempre de rolar de rir, especialmente quando ele participa de uma maratona de corredores sambistas, ou quando se veste de fada madrinha para ajudar Sandra.

Pega aí antes que tirem do YouTube.

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