Cultura Pop
Várias coisas que você já sabia sobre Paranoid, do Black Sabbath

Dizem por aí que o segundo disco é um teste para qualquer artista – ou pelo menos era, quando discos vendiam. Havia também outra categoria de “segundo disco”: era quando o primeiro disco fazia sucesso, o artista embarcava numa turnê e rolava um “rapazes, precisamos de um segundo disco urgente, ainda que seja feito entre um show e outro, com a banda deixando de dormir para escrever músicas”. Foi assim com o Led Zeppelin II, do Led Zeppelin. E foi assim com Paranoid, do Black Sabbath (1970).
O segundo disco do Black Sabbath avançava bastante em relação ao primeiro, e tratava de colocar os pés de Ozzy Osbourne (voz), Tony Iommy (guitarra), Geezer Butler (baixo) e Bill Ward (bateria) na Terra. Em vez de recorrer tão-somente a universos assustadores e a demônios, o grupo falava de pessoas que se defrontavam com seus destinos aterrorizantes (Hands of doom, sobre os soldados que retornavam da Guerra do Vietnã viciados em drogas), disputas de poder (War pigs), o rescaldo da era hippie (Paranoid era sobre abuso de drogas). Se o primeiro disco havia sido gravado em poucas horas, o segundo foi feito no período extravagante de cinco dias, com direito à canção mais pop da história do Sabbath (a faixa-título), uma mudança de título (o disco quase se chamou War pigs) e a algumas experimentações de estúdio – luxo do qual a banda não conseguiu desfrutar no primeiro disco.
Paranoid chegou aos 50 anos em 18 de setembro e ganha agora uma reedição de luxo, num conjunto de cinco LPs que inclui o álbum original, um raro mix quadrafônico de 1974, dois shows de 1970 (de Montreux e Bruxelas, prensados em vinil pela primeira vez). Mais: a caixa vem acomapnhada por um livro de capa dura, com extensas notas de apresentação, entrevistas com todos os quatro membros da banda, fotos raras e recordações, um pôster, além de uma réplica do livro vendido durante a turnê do disco.

E segue aí nosso relatório sobre Paranoid. Leia ouvindo o disco.
ANTES DE MAIS NADA, você já leu aqui no POP FANTASMA um texto parecido com esse sobre o primeiro (e epônimo) disco do Black Sabbath.
DEU BOM. Black Sabbath, a estreia da banda (1970), vendeu discos e, mais que tudo, fez bastante barulho. Todo mundo queria saber qual era a daquela banda barulhenta e cabeluda, cujos integrantes falavam de demônios, contos assustadores e histórias de amor que acabavam mal. Paranoid, o novo disco, viria com um condimento a mais. A banda estava preparando letras mais políticas. War pigs, um dos momentos mais emocionantes dos shows do Sabbath, já tinha virado hit de palco e seria lançada no disco.
DEU RUIM. Para vender bem o Sabbath e angariar fãs nos EUA, a Warner, gravadora do grupo por lá, agendou uma turnê em julho de 1970, onde passariam por lugares de enorme prestígio. Só que a turnê foi cancelada por um motivo pitoresco: a gravadora achou que não seria de bom tom uma banda chamada Black Sabbath se apresentar nos EUA na época do julgamento do lunático Charles Manson, cuja “família” de psicopatas suscitou uma caça aos satanistas do rock.
E MAIS ISSO. A história de Manson foi parar, com riqueza de detalhes, na edição de 1º março de 1970 da Esquire, uma das mais longevas revistas dos Estados Unidos. O artigo era assinado pelo superjornalista Gay Talese (vale MUITO a pena ler este texto).
QUE PARADA É ESSA? Mesmo com a banda ausente dos palcos, rolou uma Parada Black Sabbath em San Francisco, liderada pelo chefe da igreja de satã, Anton LaVey, com o apoio da Warner. O evento foi tão caricato e inacreditável que fez a banda rir assim que viu as fotos. Tinha desde dançarinas até um trio elétrico com uma banda cover do Sabbath.
MESMO SEM SHOWS, Paranoid, primeiro single do disco, foi lançado em agosto de 1970 com um baita sucesso, subindo rapidamente as paradas. Isso credenciou o Sabbath a conseguir ir ao prestigioso Top of the pops, paradão de sucessos britânico, para tocar a música.
ALIÁS E A PROPÓSITO, a banda nunca mais voltou a ser convidada para o programa depois dessa ocasião. Ficaram de saco cheio da equipe da BBC dizendo “não olhe para cá, olhe para cá, fique aqui, vá pra lá”. Iommi ainda arrumou encrenca com um diretor, quando reclamou de um spot de luz que apontava direto para sua cara e o deixava cego.
PASSADO PRA TRÁS. A banda vinha sendo empresariada por Jim Simpson, que tinha – biógrafos do grupo apontam – uma perspectiva um tanto mais humilde para o Sabbath, com shows dados em lugares pequenos, enquanto Paranoid, o single, chegava ao Top 5. Uma equipe de empresários liderada por Patrick Meehan e Wilf Pine (a World Wide Artists) fez tantas promessas mirabolantes para o Sabbath (estouro mundial, grana a rodo) que eles largaram Simpson de mão. Jim recebeu uma carta de um dos advogados da WWA pouco antes do LP Paranoid sair, dizendo que ele “não representava mais a banda nem tinha autorização para contatá-los diretamente”.
ELE FICOU PUTO. Jim, um empresário musical da cidade da banda (Birmingham, na Inglaterra), que tinha arrumado as primeiras oportunidades de peso para o Sabbath, emputeceu-se com a afronta. “Eles disseram que não fiz meu trabalho direito, mas quando deixei o Sabbath, eles tinham um single no Top 5”, reclamou, garantindo que nunca teve rancor de Ozzy, de quem pessoalmente gostava.
MUITO PUTO. Em 2017, quando o Black Sabbath estava fazendo seus dois últimos shows em Birmingham, houve outra história envolvendo Jim, que era popularíssimo na cidade e chegou a dar entrevistas à rádios locais sobre a história da banda: ele não recebeu convite para ir às apresentações e precisou ir por conta própria. “Estou desapontado mas não surpreso”, garantiu.
HIPPIE É O C…. Apesar do Black Sabbath tomar drogas como se fossem Mentos e de, em 1972, dedicar Black Sabbath vol. 4 à “grande indústria da coca de Los Angeles” (isso aparece na ficha técnica), Paranoid tinha como um de seus temas as vidas perdidas por causa de dois assuntos-chave da era hippie: as drogas e a Guerra do Vietnã. A música-título, disse Butler certa vez, falava do estado depressivo pelo qual as pessoas passavam por causa das drogas. Para falar da vivência dos soldados americanos em Hand of doom, a banda recorreu à época em que tocaram em bases do exército dos EUA.
LEGALIZE JÁ. Fairies wear boots, que inicialmente começou como uma letra de Butler sobre um desentendimento da banda com skinheads, ganhou um bizarro acréscimo anti-drogas escrito por Ozzy no final (“o médico me disse: ‘filho, você foi longe demais/fumar e viajar é tudo o que você faz'”). A letra soava como uma bronca em si próprio e nos colegas, já que durante a elaboração de Paranoid, o que a banda mais fez foi fumar maconha. “Por isso que as letras são tão estranhas”, reconhece Iommi.
PARANOID, O SINGLE. Rodger Bain, o produtor, e Tony Allom, o técnico de som (por sinal os mesmos do primeiro disco), no meio das gravações, viram que havia um buraco em Paranoid e faltava uma música. E sugeriram a Iommi que compusesse “uma música curta”, o que nem era a especialidade da banda. O guitarrista compôs a introdução e os riffs rapidamente, enquanto todos foram almoçar. Geezer, quando voltou, fez a letra, aproveitando algumas frases que Ozzy falou enquanto improvisava as linhas vocais. Bill Ward garante que a canção foi composta em “vinte e cinco minutos, se tanto”.
ELE FOI CONTRA. Inicialmente Geezer Butler não gostou da música: achou o resultado muito parecido com o de Communication breakdown, do Led Zeppelin. Mas ninguém concordou com o baixista e a banda gravou a faixa assim mesmo.
HORA DO SOLINHO. Iommi, por sua vez, diz que detestou a maneira como o solo de Paranoid soou no disco. Tudo por causa de uma caixa Leslie que Rodger insistiu em usar no solo. “Quando ouvi, reclamei, mas deixaram dessa forma. Agora já me acostumei”, contou.
MAIS EFEITOS. Rodger Bain estava animado: além de incentivar a banda a compor sua canção mais pop e de dar seu toque especial no solo da faixa, pôs o tal oscilador Leslie na voz de Ozzy também em Planet caravan e na introdução de Iron man (é o que causa aquela tremedeira no “iron, iron man!”).
E SEGUEM AÍ os dois vídeos oficiais de Paranoid – o primeiro feito para o psicodélico Beat club, da Alemanha, o segundo filmado na Bélgica.
WAR PIGS. O nome da faixa surgiu bem depois: no começo, a ideia da banda era compor uma canção chamada Walpurgis que, segundo Ozzy, era “um termo sobre casamento na magia negra”. Depois o disco quase se chamou War pigs, até que a Vertigo ouviu Paranoid, viu que a canção tinha potencial e a transformou em single.
A CAPA de Paranoid, você deve saber, não faz o menor sentido. Quando o disco ainda se “chamava” War pigs, a gravadora pagou o mesmo cara que havia feito a foto da capa do primeiro disco, Keith Macmillan (ou Keef, como aparece na contracapa) para fazer uma foto de um “maníaco de guerra” no Black Park, em Buckinghamshire. O garoto da capa é um sujeito chamado Roger Brown, que era assistente de Keef.

ADEREÇOS. Antes das fotos (todas feitas à noite), a dupla foi a uma espécie de Casas Turuna local comprar uma espada, um escudo e uma… máscara de porco. Fizeram as fotos com todos os adereços. Keef diz que as fotos com a máscara eram “muito melhores” do que a que foi escolhida para a capa, mas nenhum dos cliques com o guerreiro mascarado foi guardado. Para dar a sensação de movimento da capa, Keith usou flash ultravioleta.
UÉ. Até mesmo os integrantes da banda ficaram surpresos quando viram que o nome do disco havia mudado para Paranoid. Keith, mais ainda. A gravadora havia modificado o título mas – como era bastante comum numa época em que não havia computação gráfica e capas davam (muito) trabalho – nem se importou em encomendar outra foto e embrulhou o produto assim mesmo. “Chegamos a a perguntar à gravadora: ‘O que é que o título tem a ver com a capa?'”, contou Iommi.
ALIÁS E A PROPÓSITO, o parque onde foi feita a foto da capa de Paranoid aparece em vários filmes da franquia James Bond. Tudo porque fica bem próximo ao Pinewood Studios. O Forte Knok de 007 contra Goldfinger (1964) era lá.
SEI NÃO. Tony revela que possivelmente, nem ele nem Ozzy sabiam o que queria dizer “paranoico” naquela época, e atribui a entrada do vocábulo na história da banda à “grande inteligência” de Geezer. Já o baixista afirma que quis falar em “paranoia” porque não conhecia a palavra “depressão” – que é o verdadeiro sentido da letra.
ROBÔ VIVO. Iron man teve sua letra inspirada por uma história em quadrinhos que um dos dos integrantes do Sabbath leu, sobre um robô que ganhava vida. “Mas eu acho que tinha um subtexto sério por trás disso, de que alguém vivo não poderia sair de seu próprio corpo”, viaja Iommi. A canção quase se chamou Iron bloke (algo como “sujeito de ferro”), até que Ozzy ouviu o solo e disse que soava como “um homem de ferro andando”.
TUM DUM TISS. Paranoid, você deve lembrar, tem um tema instrumental meio jazzístico com um solo de bateria fenomenal de Bill Ward, Rat salad. A música une Paranoid a Led Zeppelin II, já que o segundo disco do Led tinha uma música que obedecia à mesma estrutura de Rat salad: Moby dick tinha começo curto, solo de bateria, volta do mesmo tema do início e morte súbita, com a entrada da última música do disco (Fairies wear boots, no caso do Sabbath, Bring it on home, no do LZ).
ALIÁS E A PROPÓSITO, vale citar que solos de bateria estavam em alta no finzinho dos anos 1960. O Iron Butterfly fez sucesso com os quatro minutos de bateria de In a gadda da vida, em 1968. Os Beatles, com Ringo Starr nas baquetas, aderiram no improviso The end, em 1969. O Chicago enchia seu primeiro disco, o duplo Chicago Transit Authority (1969), de solinhos de batera. O Grand Funk Railroad fazia o mesmo em T.N.U.C., faixa quilométrica de seu primeiro disco, On time (1969). O Black Sabbath só estava seguindo uma tendência.
AINDA ASSIM, Geezer diz que a banda, cujos integrantes eram amigos do Led, imitou os colegas sem constrangimentos. “O Led era nossa banda preferida na época”, contou. Tony, sabendo que o LZ roubava um monte de coisas dos outros, nem esquentou a cabeça.
CABELO BONITO. O título Rat salad, segundo Geezer Butler, era uma zoação com o baterista Bill Ward pelo seu hábito de não pentear o cabelo. A música surgiu quando o Sabbath era uma banda iniciante, era paga por hora de show, e Ward precisava inventar alguma coisa para preencher o tempo ocioso no palco.
PERIGO. No começo dos anos 1970, uma enfermeira americana foi encontrada morta e, em seu toca-discos, foi vista uma cópia de Paranoid. A polícia começou uma investigação para descobrir se o disco causou ou não o suicídio dela. Depois chegaram à conclusão de que ela já sofria de depressão e que a banda não teve nada a ver com o óbito.
OZZY PEGADOR. Butler costumava dizer que, por causa da pouca predisposição do Sabbath para compor músicas românticas, não havia garotas nas plateias do grupo. Em sua autobiografia Eu sou Ozzy, Ozzy Osbourne diz ter outra lembrança e conta que certa vez, num hotel Holiday Inn, na Califórnia, protagonizou cenas dignas de Calígula com os companheiros. Para compensar, o Sabbath era seguido de perto por fãs que levavam aquela história de satanismo muito a sério (como o próprio LaVey).
DEU CERTO. Paranoid tornou-se o primeiro álbum da banda a liderar as paradas do Reino Unido e vendeu mais de 4 milhões de cópias somente nos EUA – onde é um disco de 1971, já que só saiu por lá em janeiro. No Brasil, Paranoid foi lançado pela Philips em 1971 com modificações na capa: a gravadora dispensou a capa dupla e pôs uma foto da banda na contracapa. Em Israel, foi lançado com outra capa e outro título, Attention!. O disco, como costumava acontecer com o Sabbath, foi mal recebido pela crítica, até mesmo por jornalistas que depois se tornariam fãs da banda, como o mitológico Lester Bangs.
TURNÊ. Logo que Paranoid chegou às lojas, o Black Sabbath iniciou uma turnê na qual abria para artistas como Alice Cooper, Savoy Brown e Faces. Às vezes a banda era vaiada, às vezes virava o jogo – abrindo para os Faces, deixou a plateia tão maluca que alguns “fãs” vaiaram a banda principal, logo depois. Drogas variadas começaram a aparecer nos bastidores. Ozzy lembra ter sido iniciado na cocaína por Leslie West, do Mountain, que insistiu para o amigo cheirar com ele. Nos camarins de um dos shows da tour, os quatro receberam a visita da gangue de motociclistas Hell’s Angels. Foram avisados de que eles eram fãs da banda e de que o Black Sabbath teria proteção onde estivessem.
E já que você chegou até aqui, pega aí um dos usos mais apropriados de Paranoid, a canção: numa das primeiras cenas da animação Angry Birds, the movie.
Infos tiradas de vídeos, sites, entrevistas e dos livros Iron man, de Tony Iommi, e de Black Sabbath, de Mick Wall.
Veja também no POP FANTASMA:
– Demos o mesmo tratamento a Physical graffiti (Led Zeppelin), a Substance (New Order), ao primeiro disco do Black Sabbath, a End of the century (Ramones), ao rooftop concert, dos Beatles, a London calling (Clash), a Fun house (Stooges), a New York (Lou Reed), aos primeiros shows de David Bowie no Brasil, a Electric ladyland (The Jimi Hendrix Experience) e a Pleased to meet me (Replacements). E a Dirty mind (Prince).
– Demos uma mentidinha e oferecemos “coisas que você não sabe” ao falar de Rocket to Russia (Ramones) e Trompe le monde (Pixies).
– Mais Black Sabbath no POP FANTASMA aqui.
Cultura Pop
Billy Corgan e Butch Vig juntos no estúdio de novo após 33 anos

RESUMO: Billy Corgan e Butch Vig retomam a parceria de Gish e Siamese dream em Black stars, faixa da trilha de Jogos vorazes. Um reencontro com o produtor que ajudou a criar o som do Smashing Pumpkins. Relembre o histórico.
Texto: Ricardo Schott – Fotos: Reprodução
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Imagine você entrar num estúdio com Billy Corgan, no começo dos anos 1990, e descobrir que ele quer gravar uma música com dezenas de guitarras. E que, se uma delas não soar exatamente como ele imaginou, vai ter que fazer tudo de novo. Agora imagine que o produtor, em vez de mandar o sujeito sossegar, acha a ideia ótima. Pois era mais ou menos assim que funcionava a parceria entre o Smashing Pumpkins e Butch Vig. E, 33 anos depois, os dois resolveram repetir a experiência.
A novidade é Black stars, música lançada nesta sexta-feira (16) e incluída na trilha sonora de Jogos vorazes: Amanhecer na colheita. A trilha completa sai em 13 de novembro, uma semana antes da estreia do filme. É a primeira gravação lançada pelo Smashing Pumpkins com produção de Vig desde o álbum Siamese dream, de 1993. A faixa também entrou no repertório da atual turnê Rats in the cage.
A história dos dois começou em 1990, quando o Smashing Pumpkins gravou Tristessa, compacto lançado pela Sub Pop, sob a produção dele. Isso foi antes de Vig produzir Nevermind, do Nirvana (1991). Corgan gostou do cara logo de primeira. Numa entrevista à Tape Op, contou que o produtor não tinha pose, trabalhava pra caramba e não se assustava com as ideias que ele e o baterista Jimmy Chamberlin levavam para o estúdio. Pelo contrário: parecia gostar da complicação.
Foi assim que chegaram a Gish (1991), álbum de estreia da banda, primeiro no qual trabalharam juntos. Corgan queria um disco com peso, psicodelia, melodias bonitas e guitarras aparecendo de todos os lados – um baita rock de arena, com ambiência, totalmente o oposto daquela onda da época, de simplesmente colocar quatro músicos numa sala e apertar o botão de gravar. Vig comprou a ideia e ajudou a organizar tudo aquilo. Dá para ouvir o resultado em Siva, Rhinoceros e Daydream, três músicas bem diferentes que parecem fazer parte do mesmo universo.
Só que os dois tinham um problema: não sabiam a hora de parar. Corgan contou à Rolling Stone italiana que Vig pegava pesado com afinação, ritmo e vocais. Fazia Billy cantar a mesma parte tantas vezes que ele começava a achar que não sabia cantar. O engraçado é que, olhando para trás, o vocalista reconhece que aquela cobrança fez toda a diferença.
Em Siamese dream (1993), o segundo disco, a situação ficou ainda mais complicada. A banda já tinha uma gravadora grande esperando resultados, Billy passava por uma fase emocional difícil e os integrantes não se entendiam nada bem. Foram gravar em Atlanta, mas os problemas viajaram com a banda nas malas.
Corgan acabou tocando praticamente todas as guitarras e boa parte dos baixos. Algumas músicas ganharam tantas camadas que Vig precisava descobrir como fazer tudo caber na mixagem. Era guitarra em cima de guitarra, com mais uma guitarra aparecendo quando você achava que já tinha acabado. E, se alguma coisa não estivesse perfeita, lá iam eles gravar de novo. O disco demorou, custou caro e deu um trabalhão. Só que saiu dali Siamese dream, com Cherub rock, Today, Disarm e vários clássicos.
Corgan nunca escondeu o quanto Vig foi importante. Nos textos da reedição de Siamese dream, em 2011, escreveu: “Butch me apoiou o tempo todo nessa visão maluca”. E completou: “Butch era a única pessoa que poderia ter feito aquele disco conosco, porque o respeitávamos tanto que queríamos estar à altura dos padrões elevados dele”.
Mas aí chegou a hora de fazer o duplo Mellon Collie And The Infinite Sadness (1995), e Billy resolveu mudar tudo. Chamou Flood e Alan Moulder para produzir, porque queria sair daquela maneira de trabalhar. Numa entrevista ao Grammy.com, explicou que Vig havia ajudado a construir uma versão quase idealizada do Smashing Pumpkins. Flood queria outra coisa: ouvir a banda como ela realmente soaria nos shows.
E não, a troca não aconteceu por causa de alguma briga. Em 2011, perguntaram a Corgan se ele toparia trabalhar novamente com Vig. “Eu amo Butch e temos uma relação muito boa. Adoraria. Ele provavelmente é uma das únicas pessoas com quem eu voltaria a entrar em estúdio”, respondeu. Vig também sempre pareceu adorar Corgan, embora já tenha declarado algumas vezes que o músico foi “um pentelho” no estúdio (quem conhece a história de Billy sabe que isso é um nome até carinhoso).
Pois bem: demorou 15 anos para aquela declaração virar realidade. Black stars coloca novamente os dois no estúdio, agora com décadas de experiência acumulada e sem a obrigação de repetir o que fizeram em 1993.
Ainda não há indicação de que a parceria vá render um álbum inteiro. Por enquanto, é uma música para uma trilha sonora. Mas já dá para imaginar a cena: Billy aparece com uma ideia complicada, Butch escuta, pensa um pouco e resolve que dá para melhorar. E lá vem outra guitarra…
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Cultura Pop
Bono trapalhão? U2 antes da fama, na TV irlandesa, usando fantasias de palhaço

RESUMO: Antes da fama, o U2 tocou Out of control na TV irlandesa vestido de palhaço. Tem gente achando que é obra da IA, mas não é não.
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução
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No comecinho de sua história, prestes a fazer as primeiras gravações, o U2 fez um vídeo de Out of control na TV irlandesa em clima de circo, com maquiagens faciais e roupas de palhaço. Tá aí o vídeo.
O vídeo é de 1979 e pertence aos arquivos da RTÉ, emissora pública irlandesa – e pelo que a emissora diz, apareceu no programa Our times. Já teve gente levantando a hipótese de ser obra de IA. Não é, pelo visto. “Embora a estética crua e a qualidade amadora das possam levar os espectadores a questionar a sua autenticidade, este vídeo específico foi documentado e discutido pela comunidade de fãs do U2 como uma peça genuína da história da banda”, diz um comentário publicado no canal do YouTube @DutchU2Fan.
Não foi a primeira vez que a banda esteve na atração: em 13 de novembro de 1978, tocaram a música The fool, numa apresentação que acabou sendo reprisada em 27 de novembro. Aliás, a primeira vez que Bono, The Edge, Larry Mullen e Adam Clayton foram à RTE rolou em 2 de março de 1978, quando ainda se chamavam The Hype – na ocasião, foram a programa Youngline e cantaram Street mission.
Além das maquiagens, Bono surge usando apetrechos teatrais e fazendo caras e bocas para a câmera – em alguns momentos, tudo parece uma cena de humorístico brasileiro dos anos 1970. E naquela altura, Out of control era praticamente o cartão de visitas do U2. Em agosto de 1979, o radialista Dave Fanning apresentou três músicas do grupo em seu programa na RTÉ — Out of control, Stories for boys e Boy/Girl — e deixou os ouvintes escolherem qual delas deveria ocupar o lado A do primeiro lançamento da banda. Out of control venceu. No mês seguinte, as três músicas apareceram no EP Three, cuja primeira edição teve mil cópias numeradas.
A canção também tinha uma origem bastante pessoal. Bono a escreveu quando completou 18 anos, pensando no desconforto de perceber que dois dos acontecimentos mais importantes da existência estão totalmente fora das nossas mãos: ninguém decide nascer e, em última instância, também não controla a própria morte.
Agora: por que diabos eles estão vestidos daquele jeito?
Bom, não há, pelo menos na documentação conhecida sobre a apresentação, uma explicação de Bono, The Edge, Adam Clayton ou Larry Mullen Jr. para as roupas, mas maquiagens e os apetrechos. Também não aparece nos arquivos disponibilizados pela RTÉ uma justificativa para o figurino. Pode ter sido uma ideia do programa, uma brincadeira da própria banda ou simplesmente parte da estética daquela atração
O vídeo pertence a uma fase realmente embrionária do U2, que ainda traria uma apresentação no programa Aspects Of rock em setembro de 1979, tocando Life on a distant planet. Em janeiro de 1980, a banda chegou ao Late late show com Stories for boys. E pouco depois, aquela banda de garotos que ainda podia surgir fantasiada na televisão começaria a gravar a estreia Boy, lançada em outubro de 1980. Um primeiro passo na construção do U2 que a gente conhece hoje.
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Cultura Pop
Video Vanguard Award: afinal, que prêmio é esse que o Nirvana recebeu?

RESUMO: O Nirvana recebeu o Video Vanguard Award no VMA e entrou numa história que começou em 1984 com Beatles e David Bowie. Entenda como surgiu e por que o prêmio mudou ao longo das décadas.
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução
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O Nirvana voltou ao VMA neste domingo (27) para receber um prêmio que, de certa forma, conta a própria história da MTV. Dave Grohl, Krist Novoselic e Pat Smear subiram ao palco para buscar o Video Vanguard Award, homenagem pelo conjunto da obra audiovisual da banda.
Recebendo a honraria, os mais ilustres três ex-integrantes vivos da baanda entraram numa lista que começou com Beatles e David Bowie e, ao longo de mais de quatro décadas, passou por Madonna, Michael Jackson, R.E.M., Beastie Boys, U2, Beyoncé e vários outros.
Mas o que exatamente é o Video Vanguard? Bom, temos duas respostas, uma curta e uma longa. A resposta curta: é uma espécie de prêmio pelo conjunto da obra do VMA, dedicado a artistas que tiveram impacto importante sobre o videoclipe e a cultura pop. Não está ligado a um vídeo específico lançado naquele ano e nem sequer é entregue em todas as edições.
A resposta longa é… a própria história do prêmio. E é a melhor resposta, já que o prêmio nasceu junto com o próprio VMA, em 1984. E não custa lembrar que nessa época videoclipe ainda era uma linguagem em formação e a MTV tinha apenas três anos. Na primeira cerimônia, só pra você ter uma ideia, David Bowie ganhou o prêmio, e houve menção especial aos Beatles e a Richard Lester, que dirigiu os filmes Help e A hard days night, do quarteto.
No caso dos Beatles e Lester, a escolha reconhecia especialmente a importância dos filmes do grupo para aquilo que, anos depois, se consolidaria como a linguagem do videoclipe – e da mesma forma, Bowie havia desenvolvido muito do idioma dos clipes vários anos antes. Na real, como ainda nem sequer havia uma “história” do videoclipe, era fundamental apontar quem havia ajudado a inventar aquela nova linguagem.
Nos anos seguintes, por sua vez, já estava claro que o grande lance era premiar quem já estava fazendo história ali mesmo, com a linguagem dos clipes. Em 1985, ganharam o prêmio David Byrne (então apenas o líder dos Talking Heads) e os diretores Russell Mulcahy e Godley & Creme. Madonna recebeu em 1986. Peter Gabriel, em 1987.
Detalhe: Michael Jackson ganhou em 1988 e, a partir de 1991, seu nome passou a ser associado oficialmente à honraria, que durante décadas ficou conhecida como Michael Jackson Video Vanguard Award. Em 2019, a MTV silenciosamente, mas nem tanto, tirou o nome do astro do prêmio. Nesse ano, a vencedora foi a rapper Missy Elliott.
Na década seguinte, a lista parece quase um resumo do período em que rock e MTV andavam grudados. Bon Jovi recebeu o Vanguard em 1991; Guns N’ Roses, em 1992; Tom Petty e Rolling Stones, em 1994; R.E.M., em 1995; Red Hot Chili Peppers, em 2000; U2, em 2001; e Duran Duran, em 2003. Exceções à regra: em 1997 o rapper LL Cool J levou a estatueta pra casa. No ano seguinte, os Beastie Boys ganharam o prêmio.
Depois, o perfil foi mudando junto com a própria MTV e com a cultura pop. Britney Spears, Justin Timberlake, Beyoncé, Kanye West, Rihanna, Pink, Jennifer Lopez e Missy Elliott estão entre os homenageados. Nos últimos anos vieram Nicki Minaj, Shakira, Katy Perry e Mariah Carey. Agora o prêmio volta ao rock com o Nirvana.
Dá pra dizer que poucos grupos carregam uma ligação tão evidente com a era clássica da MTV. Smells like teen spirit não apenas virou um dos clipes mais associados aos anos 1990 como ajudou a transformar a imagem do rock no canal. Come as you are, In bloom e Heart-shaped box reforçaram uma identidade visual que misturava estranheza, humor, desconforto e uma boa dose de antipatia pelos padrões do estrelato.
No VMA deste ano, coube a Chuck D, do Public Enemy, entregar o prêmio. Novoselic aproveitou o discurso para colocar Kurt Cobain no centro da história e lembrou que muitas ideias dos vídeos vinham da visão artística do vocalista. Para ele, a permanência do Nirvana também tem relação com uma busca do público por autenticidade.
Grohl, Novoselic e Smear receberam a homenagem sem Cobain, morto em 1994, mas com sua imagem aparecendo durante a cerimônia. A escolha fecha um círculo curioso: uma banda que ajudou a definir a MTV dos anos 1990 recebe, mais de três décadas depois, um prêmio criado justamente para reconhecer quem mudou a maneira de juntar música e imagem.
Mais do que um troféu para quem acumulou clipes famosos, o Video Vanguard começou como uma homenagem a quem empurrou o videoclipe para algum lugar novo. E sua lista de vencedores acabou registrando também as mudanças da própria MTV: dos Beatles e dos diretores pioneiros ao domínio do rock, daí às grandes estrelas do pop e do hip hop.
Agora o Nirvana entrou nessa história. Digamos que, para uma banda que chegou à MTV parecendo não pertencer àquele mundo, demorou bastante.
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