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Cultura Pop

Várias coisas que você já sabia sobre Paranoid, do Black Sabbath

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Várias coisas que você já sabia sobre Paranoid, do Black Sabbath

Dizem por aí que o segundo disco é um teste para qualquer artista – ou pelo menos era, quando discos vendiam. Havia também outra categoria de “segundo disco”: era quando o primeiro disco fazia sucesso, o artista embarcava numa turnê e rolava um “rapazes, precisamos de um segundo disco urgente, ainda que seja feito entre um show e outro, com a banda deixando de dormir para escrever músicas”. Foi assim com o Led Zeppelin II, do Led Zeppelin. E foi assim com Paranoid, do Black Sabbath (1970).

O segundo disco do Black Sabbath avançava bastante em relação ao primeiro, e tratava de colocar os pés de Ozzy Osbourne (voz), Tony Iommy (guitarra), Geezer Butler (baixo) e Bill Ward (bateria) na Terra. Em vez de recorrer tão-somente a universos assustadores e a demônios, o grupo falava de pessoas que se defrontavam com seus destinos aterrorizantes (Hands of doom, sobre os soldados que retornavam da Guerra do Vietnã viciados em drogas), disputas de poder (War pigs), o rescaldo da era hippie (Paranoid era sobre abuso de drogas). Se o primeiro disco havia sido gravado em poucas horas, o segundo foi feito no período extravagante de cinco dias, com direito à canção mais pop da história do Sabbath (a faixa-título), uma mudança de título (o disco quase se chamou War pigs) e a algumas experimentações de estúdio – luxo do qual a banda não conseguiu desfrutar no primeiro disco.

Paranoid chegou aos 50 anos em 18 de setembro e ganha agora uma reedição de luxo, num conjunto de cinco LPs que inclui o álbum original, um raro mix quadrafônico de 1974, dois shows de 1970 (de Montreux e Bruxelas, prensados em vinil pela primeira vez). Mais: a caixa vem acomapnhada por um livro de capa dura, com extensas notas de apresentação, entrevistas com todos os quatro membros da banda, fotos raras e recordações, um pôster, além de uma réplica do livro vendido durante a turnê do disco.

Várias coisas que você já sabia sobre Paranoid, do Black Sabbath

E segue aí nosso relatório sobre Paranoid. Leia ouvindo o disco.

ANTES DE MAIS NADA, você já leu aqui no POP FANTASMA um texto parecido com esse sobre o primeiro (e epônimo) disco do Black Sabbath.

DEU BOM. Black Sabbath, a estreia da banda (1970), vendeu discos e, mais que tudo, fez bastante barulho. Todo mundo queria saber qual era a daquela banda barulhenta e cabeluda, cujos integrantes falavam de demônios, contos assustadores e histórias de amor que acabavam mal. Paranoid, o novo disco, viria com um condimento a mais. A banda estava preparando letras mais políticas. War pigs, um dos momentos mais emocionantes dos shows do Sabbath, já tinha virado hit de palco e seria lançada no disco.

DEU RUIM. Para vender bem o Sabbath e angariar fãs nos EUA, a Warner, gravadora do grupo por lá, agendou uma turnê em julho de 1970, onde passariam por lugares de enorme prestígio. Só que a turnê foi cancelada por um motivo pitoresco: a gravadora achou que não seria de bom tom uma banda chamada Black Sabbath se apresentar nos EUA na época do julgamento do lunático Charles Manson, cuja “família” de psicopatas suscitou uma caça aos satanistas do rock.

E MAIS ISSO. A história de Manson foi parar, com riqueza de detalhes, na edição de 1º março de 1970 da Esquire, uma das mais longevas revistas dos Estados Unidos. O artigo era assinado pelo superjornalista Gay Talese (vale MUITO a pena ler este texto).

QUE PARADA É ESSA? Mesmo com a banda ausente dos palcos, rolou uma Parada Black Sabbath em San Francisco, liderada pelo chefe da igreja de satã, Anton LaVey, com o apoio da Warner. O evento foi tão caricato e inacreditável que fez a banda rir assim que viu as fotos. Tinha desde dançarinas até um trio elétrico com uma banda cover do Sabbath.

MESMO SEM SHOWS, Paranoid, primeiro single do disco, foi lançado em agosto de 1970 com um baita sucesso, subindo rapidamente as paradas. Isso credenciou o Sabbath a conseguir ir ao prestigioso Top of the pops, paradão de sucessos britânico, para tocar a música.

ALIÁS E A PROPÓSITO, a banda nunca mais voltou a ser convidada para o programa depois dessa ocasião. Ficaram de saco cheio da equipe da BBC dizendo “não olhe para cá, olhe para cá, fique aqui, vá pra lá”. Iommi ainda arrumou encrenca com um diretor, quando reclamou de um spot de luz que apontava direto para sua cara e o deixava cego.

PASSADO PRA TRÁS. A banda vinha sendo empresariada por Jim Simpson, que tinha – biógrafos do grupo apontam – uma perspectiva um tanto mais humilde para o Sabbath, com shows dados em lugares pequenos, enquanto Paranoid, o single, chegava ao Top 5. Uma equipe de empresários liderada por Patrick Meehan e Wilf Pine (a World Wide Artists) fez tantas promessas mirabolantes para o Sabbath (estouro mundial, grana a rodo) que eles largaram Simpson de mão. Jim recebeu uma carta de um dos advogados da WWA pouco antes do LP Paranoid sair, dizendo que ele “não representava mais a banda nem tinha autorização para contatá-los diretamente”.

ELE FICOU PUTO. Jim, um empresário musical da cidade da banda (Birmingham, na Inglaterra), que tinha arrumado as primeiras oportunidades de peso para o Sabbath, emputeceu-se com a afronta. “Eles disseram que não fiz meu trabalho direito, mas quando deixei o Sabbath, eles tinham um single no Top 5”, reclamou, garantindo que nunca teve rancor de Ozzy, de quem pessoalmente gostava.

MUITO PUTO. Em 2017, quando o Black Sabbath estava fazendo seus dois últimos shows em Birmingham, houve outra história envolvendo Jim, que era popularíssimo na cidade e chegou a dar entrevistas à rádios locais sobre a história da banda: ele não recebeu convite para ir às apresentações e precisou ir por conta própria. “Estou desapontado mas não surpreso”, garantiu.

HIPPIE É O C…. Apesar do Black Sabbath tomar drogas como se fossem Mentos e de, em 1972, dedicar Black Sabbath vol. 4 à “grande indústria da coca de Los Angeles” (isso aparece na ficha técnica), Paranoid tinha como um de seus temas as vidas perdidas por causa de dois assuntos-chave da era hippie: as drogas e a Guerra do Vietnã. A música-título, disse Butler certa vez, falava do estado depressivo pelo qual as pessoas passavam por causa das drogas. Para falar da vivência dos soldados americanos em Hand of doom, a banda recorreu à época em que tocaram em bases do exército dos EUA.

LEGALIZE JÁ. Fairies wear boots, que inicialmente começou como uma letra de Butler sobre um desentendimento da banda com skinheads, ganhou um bizarro acréscimo anti-drogas escrito por Ozzy no final (“o médico me disse: ‘filho, você foi longe demais/fumar e viajar é tudo o que você faz'”). A letra soava como uma bronca em si próprio e nos colegas, já que durante a elaboração de Paranoid, o que a banda mais fez foi fumar maconha. “Por isso que as letras são tão estranhas”, reconhece Iommi.

PARANOID, O SINGLE. Rodger Bain, o produtor, e Tony Allom, o técnico de som (por sinal os mesmos do primeiro disco), no meio das gravações, viram que havia um buraco em Paranoid e faltava uma música. E sugeriram a Iommi que compusesse “uma música curta”, o que nem era a especialidade da banda. O guitarrista compôs a introdução e os riffs rapidamente, enquanto todos foram almoçar. Geezer, quando voltou, fez a letra, aproveitando algumas frases que Ozzy falou enquanto improvisava as linhas vocais. Bill Ward garante que a canção foi composta em “vinte e cinco minutos, se tanto”.

ELE FOI CONTRA. Inicialmente Geezer Butler não gostou da música: achou o resultado muito parecido com o de Communication breakdown, do Led Zeppelin. Mas ninguém concordou com o baixista e a banda gravou a faixa assim mesmo.

HORA DO SOLINHO. Iommi, por sua vez, diz que detestou a maneira como o solo de Paranoid soou no disco. Tudo por causa de uma caixa Leslie que Rodger insistiu em usar no solo. “Quando ouvi, reclamei, mas deixaram dessa forma. Agora já me acostumei”, contou.

MAIS EFEITOS. Rodger Bain estava animado: além de incentivar a banda a compor sua canção mais pop e de dar seu toque especial no solo da faixa, pôs o tal oscilador Leslie na voz de Ozzy também em Planet caravan e na introdução de Iron man (é o que causa aquela tremedeira no “iron, iron man!”).

E SEGUEM AÍ os dois vídeos oficiais de Paranoid – o primeiro feito para o psicodélico Beat club, da Alemanha, o segundo filmado na Bélgica.

WAR PIGS. O nome da faixa surgiu bem depois: no começo, a ideia da banda era compor uma canção chamada Walpurgis que, segundo Ozzy, era “um termo sobre casamento na magia negra”. Depois o disco quase se chamou War pigs, até que a Vertigo ouviu Paranoid, viu que a canção tinha potencial e a transformou em single.

A CAPA de Paranoid, você deve saber, não faz o menor sentido. Quando o disco ainda se “chamava” War pigs, a gravadora pagou o mesmo cara que havia feito a foto da capa do primeiro disco, Keith Macmillan (ou Keef, como aparece na contracapa) para fazer uma foto de um “maníaco de guerra” no Black Park, em Buckinghamshire. O garoto da capa é um sujeito chamado Roger Brown, que era assistente de Keef.

Várias coisas que você já sabia sobre Paranoid, do Black Sabbath

ADEREÇOS. Antes das fotos (todas feitas à noite), a dupla foi a uma espécie de Casas Turuna local comprar uma espada, um escudo e uma… máscara de porco. Fizeram as fotos com todos os adereços. Keef diz que as fotos com a máscara eram “muito melhores” do que a que foi escolhida para a capa, mas nenhum dos cliques com o guerreiro mascarado foi guardado. Para dar a sensação de movimento da capa, Keith usou flash ultravioleta.

UÉ. Até mesmo os integrantes da banda ficaram surpresos quando viram que o nome do disco havia mudado para Paranoid. Keith, mais ainda. A gravadora havia modificado o título mas – como era bastante comum numa época em que não havia computação gráfica e capas davam (muito) trabalho – nem se importou em encomendar outra foto e embrulhou o produto assim mesmo. “Chegamos a a perguntar à gravadora: ‘O que é que o título tem a ver com a capa?'”, contou Iommi.

ALIÁS E A PROPÓSITO, o parque onde foi feita a foto da capa de Paranoid aparece em vários filmes da franquia James Bond. Tudo porque fica bem próximo ao Pinewood Studios. O Forte Knok de 007 contra Goldfinger (1964) era lá.

SEI NÃO. Tony revela que possivelmente, nem ele nem Ozzy sabiam o que queria dizer “paranoico” naquela época, e atribui a entrada do vocábulo na história da banda à “grande inteligência” de Geezer. Já o baixista afirma que quis falar em “paranoia” porque não conhecia a palavra “depressão” – que é o verdadeiro sentido da letra.

ROBÔ VIVO. Iron man teve sua letra inspirada por uma história em quadrinhos que um dos dos integrantes do Sabbath leu, sobre um robô que ganhava vida. “Mas eu acho que tinha um subtexto sério por trás disso, de que alguém vivo não poderia sair de seu próprio corpo”, viaja Iommi. A canção quase se chamou Iron bloke (algo como “sujeito de ferro”), até que Ozzy ouviu o solo e disse que soava como “um homem de ferro andando”.

TUM DUM TISS. Paranoid, você deve lembrar, tem um tema instrumental meio jazzístico com um solo de bateria fenomenal de Bill Ward, Rat salad. A música une Paranoid a Led Zeppelin II, já que o segundo disco do Led tinha uma música que obedecia à mesma estrutura de Rat salad: Moby dick tinha começo curto, solo de bateria, volta do mesmo tema do início e morte súbita, com a entrada da última música do disco (Fairies wear boots, no caso do Sabbath, Bring it on home, no do LZ).

ALIÁS E A PROPÓSITO, vale citar que solos de bateria estavam em alta no finzinho dos anos 1960. O Iron Butterfly fez sucesso com os quatro minutos de bateria de In a gadda da vida, em 1968. Os Beatles, com Ringo Starr nas baquetas, aderiram no improviso The end, em 1969. O Chicago enchia seu primeiro disco, o duplo Chicago Transit Authority (1969), de solinhos de batera. O Grand Funk Railroad fazia o mesmo em T.N.U.C., faixa quilométrica de seu primeiro disco, On time (1969). O Black Sabbath só estava seguindo uma tendência.

AINDA ASSIM, Geezer diz que a banda, cujos integrantes eram amigos do Led, imitou os colegas sem constrangimentos. “O Led era nossa banda preferida na época”, contou. Tony, sabendo que o LZ roubava um monte de coisas dos outros, nem esquentou a cabeça.

CABELO BONITO. O título Rat salad, segundo Geezer Butler, era uma zoação com o baterista Bill Ward pelo seu hábito de não pentear o cabelo. A música surgiu quando o Sabbath era uma banda iniciante, era paga por hora de show, e Ward precisava inventar alguma coisa para preencher o tempo ocioso no palco.

PERIGO. No começo dos anos 1970, uma enfermeira americana foi encontrada morta e, em seu toca-discos, foi vista uma cópia de Paranoid. A polícia começou uma investigação para descobrir se o disco causou ou não o suicídio dela. Depois chegaram à conclusão de que ela já sofria de depressão e que a banda não teve nada a ver com o óbito.

OZZY PEGADOR. Butler costumava dizer que, por causa da pouca predisposição do Sabbath para compor músicas românticas, não havia garotas nas plateias do grupo. Em sua autobiografia Eu sou Ozzy, Ozzy Osbourne diz ter outra lembrança e conta que certa vez, num hotel Holiday Inn, na Califórnia, protagonizou cenas dignas de Calígula com os companheiros. Para compensar, o Sabbath era seguido de perto por fãs que levavam aquela história de satanismo muito a sério (como o próprio LaVey).

DEU CERTO. Paranoid tornou-se o primeiro álbum da banda a liderar as paradas do Reino Unido e vendeu mais de 4 milhões de cópias somente nos EUA – onde é um disco de 1971, já que só saiu por lá em janeiro. No Brasil, Paranoid foi lançado pela Philips em 1971 com modificações na capa: a gravadora dispensou a capa dupla e pôs uma foto da banda na contracapa. Em Israel, foi lançado com outra capa e outro título, Attention!. O disco, como costumava acontecer com o Sabbath, foi mal recebido pela crítica, até mesmo por jornalistas que depois se tornariam fãs da banda, como o mitológico Lester Bangs.

TURNÊ. Logo que Paranoid chegou às lojas, o Black Sabbath iniciou uma turnê na qual abria para artistas como Alice Cooper, Savoy Brown e Faces. Às vezes a banda era vaiada, às vezes virava o jogo – abrindo para os Faces, deixou a plateia tão maluca que alguns “fãs” vaiaram a banda principal, logo depois. Drogas variadas começaram a aparecer nos bastidores. Ozzy lembra ter sido iniciado na cocaína por Leslie West, do Mountain, que insistiu para o amigo cheirar com ele. Nos camarins de um dos shows da tour, os quatro receberam a visita da gangue de motociclistas Hell’s Angels. Foram avisados de que eles eram fãs da banda e de que o Black Sabbath teria proteção onde estivessem.

E já que você chegou até aqui, pega aí um dos usos mais apropriados de Paranoid, a canção: numa das primeiras cenas da animação Angry Birds, the movie.

Infos tiradas de vídeos, sites, entrevistas e dos livros Iron man, de Tony Iommi, e de Black Sabbath, de Mick Wall.

Veja também no POP FANTASMA:
– Demos o mesmo tratamento a Physical graffiti (Led Zeppelin), a Substance (New Order), ao primeiro disco do Black Sabbath, a End of the century (Ramones), ao rooftop concert, dos Beatles, a London calling (Clash), a Fun house (Stooges), a New York (Lou Reed), aos primeiros shows de David Bowie no Brasil, a Electric ladyland (The Jimi Hendrix Experience) e a Pleased to meet me (Replacements). E a Dirty mind (Prince).
– Demos uma mentidinha e oferecemos “coisas que você não sabe” ao falar de Rocket to Russia (Ramones) e Trompe le monde (Pixies).
– Mais Black Sabbath no POP FANTASMA aqui.

Crítica

Ouvimos: Paul McCartney e Wings, “One hand clapping”

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One hand clapping era uma espécie de tesouro secreto-mas-nem-tanto da era Wings de Paul McCartney. Primeiro porque o material já vinha surgindo havia anos em gravações piratas, e muita coisa chegou a reaparecer como bônus de relançamentos de luxo. Gravado “ao vivo no estúdio” (em Abbey Road) entre os dias 16 e 30 de agosto de 1974, em áudio e filme, deu a entender que Paul estava disposto a viver com sua nova banda tudo o que não havia vivido com os Beatles.

Lançado finalmente agora em disco, traz um conjunto precioso de canções – muitas delas pertencendo a era Band on the run (1973) – executadas de maneira urgente e despojada, mas com o rigor que Paul sempre se impôs. Há arranjos de orquestra (a London Symphony Orchestra tocou com traje de gala), as músicas soam similares às gravações em disco e não há espaços desocupados. Vocais, guitarras e sintetizadores (além do saxofone de Jet) estão todos ali, tocados pelo núcleo duro dos Wings (Paul, Linda McCartney e Denny Laine), ao lado de Jimmy McCulloch (guitarra), Geoff Britton (bateria) e convidados.

O conceito original de One hand clapping era igualmente mais despojado ainda. Isso porque a ideia de Paul (conforme o exposto em biografias do cantor) variava entre duas ideias. A primeira: fazer uma espécie de Get back/Let it be dos Wings, com a banda sendo filmada 24 horas por dia durante um ensaio. A outra: apenas gravar uma sessão do grupo em videotape para saber como a banda completa, que ainda não havia excursionado, se sairia no palco.

  • Temos episódio do nosso podcast sobre a era de Band on the run.
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O cineasta era o então inexperiente David Litchfield, que trabalhava como designer gráfico e editor de uma revista de arte que estava quase falindo (David admitiria mais tarde que o trabalho com o cantor salvou o pagamento de seus boletos). Paul havia informado a ele que o documentário era apenas para uso interno – mas não parecia, já que o projeto ganhou um título, One hand clapping. E o beatle gostou tanto da brincadeira que estava despejando uma montoeira de grana naquilo, além de gravar depoimentos e uma narração em off. O diretor chegou a ver Paul entrando em ação para fazer um músico da orquestra parar de enrolar no estúdio: o beatle simplesmente cantou as notas de um solo de violoncelo como se fossem palavras, para orientar o violoncelista. Acabou aplaudido pela orquestra.

No fim das contas, o documentário One hand clapping quase foi vendido a canais de TV, mas foi saindo do radar de Paul, mais ocupado com as brigas judiciais com o ex-empresário Allen Klein e com as turnês. Só chegou a público num relançamento de luxo de Band on the run em 2010. Nos depoimentos do cantor no filme, Paul garantia que adorava fazer parte de um grupo e que os Wings eram uma banda livre, que qualquer um “podia sair e voltar” (mentira: o artista dava esporros trágicos em músicos de sua banda que se envolvessem em projetos paralelos, e agia mais como um déspota boa praça do que como um administrador de clima).

O que importa é: One hand clapping, inteirinho, tá longe de ser um filler, uma encheção de linguiça. Mesmo quando parece ser, já que Paul recorda músicas dos Beatles (Let it be, Lady Madonna e The long and winding road) em vinhetas e parece sem tanta vontade assim de tocar seu repertório sessentista. Uma olhada distraída na lista de músicas já dá uma ideia do que há de magistral no disco. Músicas como Band on the run, Let me roll it, Jet e Live and let die surgem com a ourivesaria do trabalho em estúdio, e a urgência do material ao vivo.

O mesmo acontece com Nineteen hundred and eighty-five (aberta com Paul cantando e tocando a música ao piano, sem acompanhamento) e com Junior’s farm. E baladas como Maybe I’m amazed e My love sempre vão emocionar todo mundo. A lista é complementada com algumas covers (Blue moon of Kentucky, gravada por Elvis Presley, aparece com sotaque country, por exemplo), canções esquecidas dos Wings (o reggae C moon, de 1972) e uma ou outra brincadeira de estúdio. Um presente para os fãs, ainda mais por trazer um gênio do rock jogando uma pelada como se fosse uma partida clássica.

Nota: 8,5
Gravadora: MPL

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Cultura Pop

No nosso podcast. Rita Lee (e Roberto de Carvalho) entre 1980 e 1983

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No nosso podcast. Rita Lee (e Roberto de Carvalho) entre 1980 e 1983

No começo dos anos 1980, se bobear o Brasil tinha bem poucos seres humanos vivos que nunca tinham sequer ouvido falar de Rita Lee – uma cantora que, ao lado do marido Roberto de Carvalho, vendia muitos discos, tinha música em abertura de novela e ganhava especiais de TV no horário nobre. E como se não bastasse, era contratada do verdadeiro canhão de comunicação que era a Som Livre daquela época. Mesmo com a censura do fim do governo militar no contrapé, foi um período de shows inesquecíveis, muitos hits, álbuns lançados um atrás do outro, e uma verdadeira ritaleemania tomando conta do país.

Hoje no nosso podcast, o Pop Fantasma Documento, damos um sobrevoo na trajetória de Rita e Roberto no começo dos anos 1980 – a época dos álbuns Rita Lee (mais conhecido como Baila comigo, 1980), Saúde (1981), Rita Lee & Roberto de Carvalho (mais conhecido como Flagra, 1982) e Bom bom (1983). Ouça em alto volume e escute os discos depois.

Século 21 no podcast: Jane Penny e Bel Medula.

Estamos no Castbox, no Mixcloud, no Spotify, no Deezer e no Google Podcasts. 

Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch (fotos: reproduções das capas dos álbuns de Rita entre 1980 e 1983). Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.

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Crítica

Ouvimos: Alan Vega, “Insurrection”

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Ouvimos: Alan Vega, "Insurrection"

Alan Vega e sua ex-banda Suicide não eram apenas “rock industrial”. Eram música infernal, mostrando para todos os ouvintes que situações assustadoras eram vividas não apenas em filmes de terror, mas no dia a dia. No contato com vizinhos perturbados, na violência nossa de cada dia, na vida fodida dos debandados do capitalismo – que é o verdadeiro assunto de Frankie Teardrop, música assustadora lançada no epônimo primeiro disco da dupla formada por ele e Martin Rev, de 1977.

Vega viveu no limite: antes do Suicide ter qualquer tipo de sucesso, passou fome e enfrentou dificuldades. No palco, era do tipo que se cortava e saía sangrando dos shows. Seu som sempre teve ideais radicais, inclusive politicamente – ele chegou a ser atacado pela polícia ao participar de passeatas, e o Suicide homenageou Che Guevara na música Che. Dos dois integrantes do Suicide, hoje só Martin Rev vive para perturbar os ouvidos dos outros com som pesado, distorcido e sintetizado. Alan, que prosseguiu por décadas como lenda viva do punk e da música eletrônica, lançando discos e fazendo exposições de arte, teve um derrame em 2012 e morreu durante o sono em 2016.

Seu material como compositor, ironicamente, devia bastante às raízes do rock, e à postura de “herói” do estilo. O novaiorquino Alan era fanático por Iggy Pop e Stooges, e seu vocal variava entre dois uivos – o de Elvis Presley, cujo visual inicial trabalhado-no-couro passou a imitar, e evidentemente o de Iggy. Os primeiros álbuns solo de Alan variavam entre o synth-pop nervoso e uma espécie de rockabilly aceleradíssimo e violento (o melhor exemplo é a estreia epônima de Vega, lançada em 1980). Não custa lembrar que o som do Suicide, de fato, chegou a impressionar até mesmo Bruce Springsteen, que já disse ser (pode acreditar) fã da dupla.

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Insurrection é uma coletânea de gravações inéditas que estavam no baú de Alan. São músicas industriais e infernais feitas no fim dos anos 1990, todas falando sobre morte, sofrimento e contagem de mortos como se fosse algo natural, do dia a dia – e pensando bem, olhando os jornais e andando pelas ruas, é meio isso. É “bom de ouvir” dependendo do seu humor: é o disco das dançantes e góticas Sewer e Crash, do synth pop monocórdico Invasion, do pesadelo selvagem Cyanide soul e do lamento sonoro (de quase dez minutos) de Murder one.

Mercy é um estranho e assustador pedido de clemência, falando em gritos, anjos sangrando e tempestades sombrias. E nessa música o vocal de Alan lembra de verdade o de Elvis Presley, o que soa mais estranho ainda. Os beats são dados por uma percussão intermitente e tribal, seguida por uma batida eletrônica mais próxima do “dançante”. Soa mais insociável do que qualquer coisa lançada pelo Ministry ou pelo Alien Sex Fiend, por exemplo. Chains soa como entrar numa bizarra ressonância magnética de distorção. E Fireballer spirit oferece a mesma sensação, só que acrescida de barulhos eletrônicos.

Nota: 7,5
Gravadora: In The Red

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