Connect with us

Cultura Pop

Várias coisas que você já sabia sobre Fun House, dos Stooges

Published

on

Várias coisas que você já sabia sobre Funhouse, dos Stooges

O produtor Don Gallucci, que cuidou das gravações de Fun house, segundo disco dos Stooges (1970), já tinha visto a banda ao vivo antes de gravar o disco. Mas só percebeu onde estava se metendo quando Iggy Pop (voz), Ron Asheton (guitarra), Dave Alexander (baixo), Scott Asheton (bateria) e Steve Mackay (sax) entraram no estúdio da Elektra, em Los Angeles, em 11 de maio de 1970.

As paredes do local (que tinha o que havia de melhor em aparelhagem de som) costumavam abrigar gravações de artistas bem mais tranquilos e técnicos. Os Stooges, no entanto, chegaram dispostos a fazer o disco mais sujo e agressivo já feito no mundo, com guitarras no talo e várias distorções. “Isso é um pesadelo!”, chegou a afirmar Gallucci, que por sinal foi tecladista dos Kingsmen, banda cuja gravação de Louie Louie é tida como quase um pré-punk (e influenciara os Stooges). Entre mortos e feridos, surgiu dali um dos discos mais barulhentos da história do rock, e que completou 50 anos em julho.

Várias coisas que você já sabia sobre Funhouse, dos Stooges

O aniversário de Fun house aumentou há pouco a discografia dos Stooges. A Rhino pôs nas lojas uma caixa comemorativa incluindo o disco original em vinil duplo, masterizado em 45 rpm, além de treze (!!) LPs com tudo o que foi gravado nas sessões.

FUN HOUSE – 50 ANNIVERSARY

Advertisement

Já o selo Third Man, de Jack White, pôs nas lojas o disco Live at Goose Lake – August 8th 1970, com um dos shows mais significativos da época do lançamento do disco, dado no festival de Goose Lake (em Jackson, Michigan), onde tocaram também Jethro Tull, Chicago, Faces, Bob Seger, MC5. Uma gravação do evento foi descoberta e o disco pôde finalmente chegar às lojas (e às plataformas digitais).

.

E isso aí é um pouco da história de Fun house.

LADO A/LADO B. Um sobrevoo rápido pelo conteúdo de Fun house. O primeiro lado tem Down on the street (uma das melhores aberturas de disco do mundo), segue com a sacana Loose, com TV eye (cuja letra fala do interesse de Iggy pela irmãzinha dos dois Asheton) e Dirt (que lembra vagamente Doors, mas sem teclado, com baixo e groove). No lado B, 1970 (lançada em single como I feel alright, e uma resposta a 1969, do primeiro disco), Fun house (free jazz com punk, com participação ativa de Mackay no sax) e LA blues (tentativa de reproduzir uma jam barulhenta que encerrava os shows da banda).

VIDA SAUDÁVEL. Tudo o que está impresso nos sulcos de Fun house foi iniciado por quatro dos Stooges (Iggy, Alexander e os irmãos Asheton) quando todos decidiram morar numa casa numa região semiabandonada de Ann Arbor, Detroit. O local tinha vários quartos gigantescos, um enorme porão e um milharal (!) na parte de trás. Por acaso, os Stooges pagavam a bagatela de US$ 325 por mês para morar lá.

Advertisement

VIDA SAUDÁVEL (2). O dia a dia dos Stooges na casa, segundo o próprio Iggy Pop, consistia nisso. “Havia uma cozinha, sala de recreação, sala de TV, sala de ensaio, dois quartos adequados, dois apartamentos separados e um sótão e porão reformados. Seis de nós dormíamos lá, a maior parte do tempo. Havia muito consumo de drogas, boa escrita e um pouco de ensaio naquela casa que mais tarde ficou conhecida como The Fun house após o álbum”, afirmou.

CLIPE. Foi nos fundos da casa, com o milharal de cenário, que Nico gravou em 1969 o clipe da assombrosa The evening of light. Por sinal, o filme, feito pela Elektra para alavancar as vendas do disco Marble index (1968), trazia Iggy como figurante de luxo (você já leu sobre isso no POP FANTASMA). Nico teve um namoro de curta duração com Iggy e chegou a morar na Fun house na época.

PRODUTORES REJEITADOS. A Elektra chegou a considerar alguns outros nomes antes de Don Gallucci virar o produtor de verdade do disco. Meio cansados da associação com MC5 e Velvet Underground, decidiram não apostar novamente em John Cale, do Velvet, que produzira The Stooges (o primeiro disco, de 1969). Jim Peterman, tecladista de Steve Miller e produtor da Elektra, foi cotado pela gravadora. Jackson Browne, que começava carreira de cantor e compositor folk (e também tinha namorado Nico), incrivelmente, também esteve entre os nomes. Eddie Kramer, que cuidara de discos de Jimi Hendrix, também foi cogitado pelo selo. Mas a banda recusou todos.

DON. Além de ter sido tecladista dos Kingsmen, Gallucci – mais uma vez sugestão da gravadora – tinha produzido recentemente um hit para a Elektra. Era a novata banda Crabby Appleton, com Go back. A Elektra emitiu uma passagem para Gallucci assistir a um show da banda em Nova York. O produtor achou que o som dos Stooges fosse “música maquínica” e não gostou de imediato.

“GO BACK” – CRABBY APPLETON

DEU (ER) BOM. Os Stoones gostaram do fato de Don ter tocado nos Kingsmen (Louie Louie costumava ser tocada pela banda) e já tinham visto o produtor na TV com a banda Don And The Good Times. Don, que achava o som dos Stooges incapaz de ser gravado em estúdio e já tinha avisado isso à gravadora, encarou o trabalho como obrigação profissional. Aliás, elegeu Ron Asheton como seu interlocutor na banda, por achar Iggy maluco demais.

Advertisement
TECLADO. Gallucci tocou órgão numa versão de Down on the street que foi sacada do LP mas acabou lançada como single.
“DOWN ON THE STREET” – SINGLE

DORGAS, MANO. Iggy seria apresentado à cocaína no decorrer do processo de Fun house – seu padrinho no pó foi ninguém menos que Danny Fields, assessor de comunicação da Elektra. Quando foi apresentado a Gallucci e começou o disco com os Stooges, seu negócio era ácido em grandes quantidades. Por sinal, a dificuldade de se comunicar com o produtor vinha do excesso de LSD. Mais tarde, com Fun house já nas lojas, a heroína viraria a droga da vida de Iggy. Que viraria até traficante para sustentar o vício.

COMANDANTE. Quase todo mundo que conversou com Iggy na época de Fun house lembra que boa parte do disco vinha de criações do vocalista, que parecia ter todo o disco na cabeça. O cantor lembra que Ron, guitarrista, não estava sendo tão prolífico porque tinha arrumado uma namorada.

“Eu escreveria um número que achasse que o grupo tocaria bem, traria do meu quarto no sótão e tentaria ensaiar. Uma vez que estivesse sólido, tocaríamos em nossos shows no fim de semana”, lembra Iggy.

MANUAL NO LIXO. Vendo que não dava para gravar os Stooges de forma convencional, Gallucci decidiu tratar Fun house de maneira diferente. E embarcou, a seu modo, na loucura da banda. Botou todos para tocar ao vivo, pôs um microfone na mão de Iggy (em vez do procedimento normal de estúdio) e um PA para o grupo se ouvir.

ENGENHEIRO DE SOM. Brian Ross-Myring, técnico de som do disco, vinha da velha-guarda dos estúdios americanos. E já tinha meia idade quando Fun house começou a ser feito. Fontes garantem que seu último trabalho antes do disco dos Stooges foi com Barbra Streisand. Fuçando rapidamente no Discogs, não se acha o nome dele relacionado a nenhum disco da cantora. Ross-Myring foi fundamental para não deixar a turma perder totalmente a linha no estúdio. “Uma guitarra deve soar como uma guitarra e um sax como um sax. Brian conseguiu isso e também aumentou o calor que buscávamos”, recordou Gallucci.

SAX PUNK. A história de como Steve Mackay entrou (embora não totalmente) para a turma dos Stooges é pitoresca. Ele trabalhava na mesma loja de discos na qual Iggy havia trabalhado anos antes, a Discount, e era amigo do cantor. Foi chamado em cima do laço para viajar para a Califórnia e se juntar à equipe.

Advertisement

“Quando cheguei lá, era óbvio que ele tinha um plano. Me pedia: ‘Toque algo como Maceo Parker no ácido!’. Daí, elaboramos Funhouse e 1970. Eu fiz alguns shows com eles e me apaixonei pelo resto das músicas também”, recordou Mackay, que morreu em 2015.

DESPEDIDO. Mackay, apesar de listado na contracapa como integrante da banda, não aparece nas fotos do disco. Ele foi demitido da banda alguns meses após os primeiros shows de Fun house. Até morrer, afirmava que o pé na bunda tinha sido a melhor coisa que lhe aconteceu, graças aos problemas que os Stooges passariam a enfrentar. “Eu até recuperei meu emprego na loja de discos”, conta.

DROGAS E ORGIA. Na Califórnia, durante a gravação de Fun house, a banda fez shows no Whiskey A Go-Go, em San Francisco. Iggy se entupiu de drogas, foi parar numa orgia gay do grupo de teatro Les Cockettes, se envolveu com prostitutas (uma delas de 14 – ! – anos) e se aproveitou da amizade com Augustus Owsley Stanley III, guru americano do LSD, para passar o tempo todo viajando. De volta a Los Angeles, a banda sentou praça no Tropicana Motel, em West Hollywood, e vivia em festas com as mais variadas groupies. Andy Warhol, que vivia ali pelo hotel, tentou se aproximar da banda, mas não fez sucesso.

VENDAS. Fun house conseguiu vender mais que o primeiro disco, mas não balançou os cofres da Elektra e os Stooges não passariam muito tempo mais lá.

GOOSE LAKE. Os Stooges estavam entre os artistas que tocariam nesse festival. O show acabou rolando de forma bastante problemática, com Iggy apagando no palco por causa do excesso de drogas, e Alexander travando por causa de uma quantidade surreal de maconha e bebida. Iggy demitiu o baixista imediatamente alegando que ele não tocara nada no show. A gravação lançada agora pelo Third Man revela que, sim, Alexander tocou.

“1970 (I FEEL ALRIGHT)”

E NO BRASIL? Fun house não foi lançado aqui de imediato. Chegou às lojas brasileiras apenas em 1982, numa edição da Warner nacional.

Advertisement

MACKAY. O saxofonista de Fun house morreu de verdade em 2015. Mas boatos sobre uma suposta “morte” sua já circulavam havia tempos. Biografias dos Stooges publicadas em sites grandes afirmavam que ele havia morrido de overdose nos anos 1970 ou de aids. Enfim, em 1999, Steve começou a fazer gravações solo e as notícias falsas foram desmentidas. Depois trabalhou com os Violent Femmes e até com os próprios Stooges.

MAIS BRASIL. A formação com Mackay tocou no Brasil,em 2005, no festival Claro Q É Rock. Mike Watt estava no baixo.

E já que você chegou até aqui, pega aí uma música que sampleou a introdução de Loose, do Fun house. Nada menos que Manguetown, de Chico Science & Nação Zumbi. Presta atenção no começo de uma e no fim de outra.

Advertisement

Com informações de Mixonline, Punk Globe, Poeira Zine e do próprio Iggy Pop. E do livro Open up and bleed, a vida e a música de Iggy Pop, de Paul Trynka.

Veja também no POP FANTASMA:
– Demos o mesmo tratamento a Physical graffiti (Led Zeppelin), a Substance (New Order), ao primeiro disco do Black Sabbath, a End of the century (Ramones), ao rooftop concert, dos Beatles, e a London calling (Clash).
– Demos uma mentidinha e oferecemos “coisas que você não sabe” ao falar de Rocket to Russia (Ramones) e Trompe le monde (Pixies).

Advertisement

Cultura Pop

Meat Loaf: descubra agora!

Published

on

O Brasil ainda não descobriu Meat Loaf, um sujeito com mais de 50 anos de carreira artística, morto aos 74 anos no dia 20 de janeiro. Há exceções nesse desconhecimento: muita gente deve lembrar que ele fez um papel importante no filme Clube da luta, de David Fincher (o ex-fisiculturista Bob). A comédia Roadie, de 1980, dirigida por Alan Rudolph e protagonizada por ele, vale um texto inteiro no Pop Fantasma – e possivelmente foi vista por uma turma boa aqui no Brasil. E surpreendentemente, até mesmo o Jornal Nacional fez matéria (rápida) sobre a partida do cantor.

Os fãs brasucas do clássico disco Bat out of hell (1977), debute solo de Meat Loaf, talvez não sejam muitos. Mas são os fieis admiradores de um álbum de muito sucesso, que funciona como o retrato de uma época. E que seguia à risca a mesma cartilha estudada por artistas como Queen, The Who, Pink Floyd e Rick Wakeman a partir de determinado momento dos anos 1970.

Meat Loaf, o compositor Jim Steinman (autor de todas as músicas do álbum, morto ano passado) e o produtor Todd Rundgren compreenderam que a fórmula do rock operístico poderia ajudar a contar histórias fenomenais, propiciando “clássicos” de bolso, prontos para agradar até mesmo quem não ouvia rock – o que geraria espetáculos grandiosos, e de teor altamente democrático, musicalmente falando.

O resultado foi que Bat out of hell vendeu o que ninguém nunca mais vai vender na história do universo (43 milhões de cópias em todo o mundo, disco de platina 14 vezes). Também projetou a carreira de Meat Loaf como ator e cantor, e um profissional possuidor de atributos altamente dramáticos. E ainda gerou continuações – sim, existem Bat out of hell volumes 2 e 3, lançados respectivamente em 1993 e 2006, além de um musical exibido em 2017. Vale só lembrar que a discografia de Meat Loaf não se reduz só a esse disco, e que ele já vinha de antes.

Advertisement

Bat out of hell, que completa 45 anos em 21 de outubro, é assunto para ser discutido em um texto maior aqui no Pop Fantasma – quem sabe num podcast do Pop Fantasma Documento. Por enquanto a gente traz aqui nove músicas para quem quiser começar a entender qual é a de Michael Lee Aday, nome verdadeiro de Meat Loaf (o “bolo de carne” é um apelido do tempo em que ele jogava futebol americano). Vale ouvir em alto volume e esquecer a safra final de declarações negacionistas do cantor – que elogiou Donald Trump e declarou que “continuava abraçando pessoas” em tempos de pandemia.

“WHAT YOU SEE IS WHAT YOU GET” (1971). Após se juntar ao elenco de Los Angeles do musical Hair, Meat Loaf começou a fazer sucesso. A Motown, a partir de sua subsidiária rocker, a Rare Earth (batizada assim porque o maior sucesso do selo era aquele grupo do hit I just want to celebrate), não perdeu tempo: reservou algumas horas de estúdio e juntou o cantor com sua colega no musical, Shaun Murphy, a popular Stoney. Stoney & Meatloaf, o disco da dupla (com Meat Loaf grafado como uma só palavra), foi feito inteiramente por uma equipe de produtores e compositores. A dupla só apareceu na hora de colocar os vocais. Mas gerou boas canções e um bom single.

“MORE THAN YOU DESERVE” (1973). Em 1973, Meat Loaf fez um teste para o elenco do musical More than you deserve, escrito por Jim Steinman e Michael Weller, que ficou em cartaz naquele ano em Nova York. O cantor não apenas passou no teste e participou da peça, como iniciou sua parceria com Steinman aí. O single com a canção-título da peça trazia uma versão de Presence of the lord, do Blind Faith, no lado B. Foi lançado apenas em versão promocional e não deu muito certo.

Advertisement

“ROCKY HORROR SHOW” (1975). Os produtores do musical pensavam alto: chegaram a sonhar com Elvis Presley fazendo o papel de Eddie, na peça. O rei do rock possivelmente deve ter sido uma opção muito cara e lá se foi Meat Loaf interpretar não apenas o motociclista, mas também o mordomo maluco Riff-Raff. No filme dirigido por Jim Sharman, Meat Loaf fez apenas o papel de Eddie – no teste, conseguiu o personagem sendo capaz de interpretar o número Hot Patootie/Bless my soul sem se perder na quantidade de palavras por verso. Na época, ele e Steinman já tinham até começado a trabalhar num rascunho de Bat out of hell.

“STREET RATS” – TED NUGENT (1976). Enquanto Bat out of hell era recusado por praticamente todas as gravadoras existentes nos Estados Unidos, Meat Loaf dava um passo adiante no mercado discográfico fazendo alguns dos vocais principais de Free for all, segundo disco solo do guitarrista reaça Ted Nugent. Derek St Holmes, guitarra base e titular das vozes ao lado de Ted, havia deixado a banda por uns tempos, e Meat acabou soltando a voz em cinco das nove faixas.

“BAT OUT OF HELL” (1977). Pronto: após dois anos de testes, refações e rejeições humilhantes por parte de várias gravadoras (segundo Meat Loaf, Clive Davis, da Arista, chegou a dizer a Jim: “Você não sabe escrever música!”), Bat out of hell estava pronto para conquistar o mundo. Considerado o melhor disco de metal pela Kerrang! em 1989, tem mais que isso: une terror psicológico, histórias românticas, certo humor sombrio e muito, mas muito rock operístico.

Advertisement

“DEAD RINGER FOR LOVE” (1981). Rolou uma separação rápida entre Meat Loaf e Jim Steinman após o sucesso de Bat out of hell, que gerou uma turnê exaustiva e repleta de excessos. Por causa do abuso de drogas, Meat perdeu a voz e o disco que Steinman estava compondo para ele, Bad for good, acabou sendo o primeiro álbum solo do compositor. Só quatro anos após a estreia, Meat Loaf voltaria com Dead ringer, o segundo disco, com Jim compondo todas as faixas – uma delas era este primeiro single.

“BLIND BEFORE I STOP” (1986). A parceria entre Meat Loaf e Jim Steinman acabou após brigas e processos e, durante os anos 1980, o cantor procurou outros compositores – além de ter passado a compor seu próprio material. O quinto disco do cantor – por sinal gravado para a mesma Arista que pisara em Bat out of hell anos antes – trazia Meat Loaf fazendo hard rock, mas aderindo a teclados e programações eletrônicas, como na faixa-título. Curiosidade: Frank Farian, o produtor, era o criador da armação disco Boney M e estava perto de montar o Milli Vanilli.

Advertisement

“I’LL DO ANYTHING FOR LOVE (BUT I WON’T DO THAT)” (1993). Opa: a parceria entre Meat Loaf e Jim Steinman voltou e lá se foram os dois para o estúdio mais próximo. E saiu Bat out of hell II: Bat into hell, continuação do multiplatinado disco de estreia do cantor. O primeiro single (essa música aí) tinha doze minutos. A crítica, em pleno auge do grunge, torceu o nariz – a Spin disse que a faixa era “um movimento ousado para ignorar os quinze últimos anos da história do pop-rock”. Mas o disco vendeu mais de 14 milhões de cópias, e ainda tinha uma atração extra: faixas com nomes estranhos e quilométricos como Life is a lemon and I want my money back e Objects in the rear view mirror may appear closer than they are.

“I’D LIE FOR YOU (AND THAT’S THE TRUTH)” (1995). Com a ajuda de amigos como Sammy Hagar, Steven Van Zandt (E Street Band) e Jim Nevison, lá se for Meat Loaf fazer seu próprio disco conceitual, Welcome to the neighborhood (1995). O álbum tinha duas canções de Steinman, mas o material teve diversas fontes incluindo canções de Diane Warren, Tom Waits (Martha, uma antiga música do compositor) e até mesmo um retrabalho em cima de Good times, da banda australiana The Easybeats, que era Runnin for the red light (I gotta life).

Advertisement

 

 

Continue Reading

Cultura Pop

E os 35 anos de Warehouse: Songs and Stories, do Hüsker Dü?

Published

on

Bob Mould, líder da banda punk americana Hüsker Dü, passou por uma transformação pessoal pouco antes de fazer as canções do disco Warehouse: Songs and stories, o sexto e último álbum do grupo (lançado em 19 de janeiro de 1987).  Ainda que o cantor e guitarrista não fizesse o gênero junkie, sua relação autodestrutiva com a bebida já tinha chegado a níveis altíssimos – Mould teve uma fase duradoura em que bebeu todos os dias, deixava uma garrafa de uísque de prontidão na gaveta da escrivaninha e inventava desculpas do tipo “se não está atrapalhando meu trabalho, tudo bem, posso encher a cara”.

O cantor diz ter seguido um caminho bem sui generis: não seguiu nenhum programa de doze passos, nem nenhum tipo de aconselhamento. Apenas parou de beber de uma hora para outra. Se você tem problemas com bebida, recomendamos que faça uma visita ao AA. Mas enfim, foi desta forma que deu certo para Mould, no fim de 1986, quando ele se trancou no quarto para começar a imaginar o disco.

>>> Ei, apoia a gente aí: catarse.me/popfantasma

“Eu estava começando a me evadir da cena e da própria banda”, recordou ele em seu livro See a little light: The trail of rage and melody, lembrando que a banda começava a se separar ali, com Greg Norton (baixo) casado e Grant Hart (bateria) mais ocupado com outros rolês. A boa e velha competição com Grant, segundo compositor e “arma secreta” do grupo, voltava firme e forte. Com o agravante de que a banda mal se falava, e o comportamento passivo-agressivo era a maneira como os três muitas vezes escolhiam se comunicar.

Por acaso, Warehouse, um disco duplo (assim como o fenomenal Zen arcade, de 1984), é o LP em que a divisão de canções entre Mould e Hart aparece mais acentuada. Praticamente uma canção de um, seguida de uma canção de outro, sem pular. Hart brigou para ter mais músicas, conseguiu, mas ouviu de Mould que “jamais voltaria a ter metade das composições num disco do Husker Dü” (sem problemas, já que o grupo encerrou atividades).

Advertisement

Uma coisa que pode surpreender fãs do Hüsker Dü é que Mould não é um grande fã de Warehouse – pelo menos é o que ele revela no livro. O cantor diz que teria lançado um excelente disco simples se tivesse resolvido cortar algumas canções. Maldade com um disco que tem Could you be the one (“escrita especificamente para ser um single”, ele diz), These important years, Too much spice, Standing in the rain, She floated away e várias outras. Provavelmente o excesso de lembranças ruins turvou algumas coisas.

O álbum foi todo ensaiado num velho armazém (daí o título, “armazém: canções e histórias”) e foi quase um lançamento indie dentro da Warner, com Hart e Mould dividindo a produção e adotando técnicas malucas de gravação, como gravar os pratos da bateria em separado. Greg Norton, por sua vez, engoliu o fato de seus colegas terem resolvido regravar eles mesmos algumas linhas de baixo, sem avisá-lo. O grupo começou a sofrer pressões da Warner para entregar um disco mais comercial e surpreendentemente, não viu cara feia da gravadora quando avisou que havia feito um LP duplo. Só precisaram engolir uma redução de royalties, porque a multinacional só topava se eles não se incomodassem de receber o equivalente a um LP simples.

Entre brigas, animosidades e problemas com gravadora e empresários, o Hüsker fez de Warehouse um disco excelente, do tipo que passa voando, mas você vai querer voltar para ouvir um detalhe ou outro. O trio, formado por punks influenciados por Who e Byrds, retornava falando basicamente sobre desencontros, como em It’s not peculiar, Standing in the rain (sobre um pé na bunda mortal), Ice cold ice e várias outras. Charity, chastity, prudence and hope era um comentário particular de Hart sobre ganância.

Advertisement

No reservations, de Mould, é tristeza pura (“como uma telha solta numa tempestade de vento/devo me soltar e voar?”), mas termina com notas de otimismo. A bela Turn it around, também de Mould, parecia um recado para Hart, assim como as músicas do baterista pareciam ter Mould como destinatário. Era nesse pé (de guerra!) que Warehouse poderia ser entendido.

O fim do Hüsker Dü viria em breve, e geralmente é creditado ao vício de Hart em heroína. O baterista sempre questionou isso, e em 1989 diria à Spin que apenas deixou a banda, e só conseguiu largar a droga quando finalmente ficou solo. Houve outros problemas graves que apressaram o fim, como a morte do empresário da banda, David Savoy – além de muita falta de comunicação, animosidade e arrogância, em doses quase iguais. Seja como for, a música de Bob Mould, Grant Hart e Greg Norton continua vencendo as barreiras de tempo e espaço.

Continue Reading

Cultura Pop

Coisas que Elza Soares me disse

Published

on

Coisas que Elza Soares me disse

Eu não tenho guardados, infelizmente, os áudios das entrevistas que fiz com Elza Soares na época em que eu trabalhava no jornal O Dia. No dia a dia de uma redação, muita coisa é feita por telefone e se perde – até porque qualquer pessoa que já trabalhou em redação sabe o quanto o trabalho é pesado, com várias entrevistas ao longo do dia, muito material que vai sendo jogado para HDs externos, etc.

Quem entrevistou Elza se recorda de uma coisa: ela gostava de falar. O apresentador e jornalista Zeca Camargo me contou – quando o entrevistei para conversar sobre a biografia que ele escreveu sobre dela, Elza – que tinha em seu smartphone cerca de “53 horas” de conversa com a cantora. Eram fatos nunca revelados, como seu breve namoro com as drogas durante os anos 1980, além de muitas histórias sobre seu relacionamento com o jogador Mané Garrincha. E o sempre atento Zeca notou uma coisa a respeito de Elza: a vida da cantora era como um videogame. “Sempre tem uma fase nova, com novos desafios”, contou.

Nas vezes em que entrevistei Elza, fui surpreendido com uma peculiaridade da fala dela: era rápida, e ficava mais rápida ainda quando ela se animava com algum assunto, ou quando se indignava com alguma coisa. Eu sempre fui um entrevistador que vai direto ao assunto. Essa minha característica rendeu bem com ela: a simples menção de alguns nomes, ou de palavras como “machismo” e “racismo”, já fazia com que ela dissesse as frases mais veementes, desse as declarações mais interessantes e falasse bastante. Sendo que cada lembrança, cada fala, cada entrevista, era um aprendizado.

E nada melhor do que ouvir Elza para homenageá-la. E não apenas sua música, mas também tudo o que ela, com vários anos de música, de vivência, de sofrimento, tinha a dizer. Também era adorável observar o carinho e a dedicação com que ela encarava sua música, e a produção de arte num país tão estranho como o Brasil. Nos últimos anos, os discos de Elza eram norteados pela escolha de canções com letras fortes e críticas. Era proposital: ela queria dar voz a uma série de pessoas em situação de vulnerabilidade, e queria produzir eco.

Seguem aí algumas coisas que Elza Soares me contou em algumas entrevistas. Em tempo: o bate papo mais inusitado que tive com ela foi num Prêmio da Música Brasileira, no momento em que repórteres e fotógrafos esperavam pela saída triunfal de Ivete Sangalo. Elza, com quem eu nunca havia me encontrado na vida, passava por ali, simplesmente me cutucou e perguntou “oi, vocês estão esperando quem?”. Parei tudo imediatamente para conversar com ela – uns dez minutos de papo sobre o prêmio – e mandei a conversa para os editores do online. Deve ter sido a entrevista mais surpreendente da minha vida.

Advertisement

E é isso. Obrigado pela música e pela história, Elza Soares (foto: Stephane Murnier/Divulgação)

“Todo mundo está aqui para fazer uma coisa. Meti na cabeça que vim não para deixar uma marca no mundo, mas uma mancha! Abri uma porta para entrar. Tem sempre que dizer ‘sou boa, sou maravilhosa’, bota isso na cabeça. Olha no espelho e ri para você mesmo, faz alguma coisa. Tem que ter fé, acreditar!”

“Você viu essa história de um funcionário de um bar na Tijuca, negro, que ganhou uma banana do gerente? Tinham que inventar uma vacina contra o racismo! Luto desde sempre contra o preconceito, acreditando em mim, brigando. Levei muita porrada”.

“Gravei Pra fuder (do Kiko Dinucci), mas acho que hoje em dia isso nem choca ninguém, sabe? ‘Fuder’ não pode ser mais feio que desemprego, fome”.

“Maria da Vila Matilde é uma denúncia. Os homens têm que aprender que respeito é bom e a gente gosta. A mulher precisa ser mais amiga da mulher. Elas não têm solidariedade, vivem competindo. É estranho isso. Conto nos dedos quantas amigas mulheres eu tenho. E com quase todas as mulheres isso acontece”.

Advertisement

Perguntei a Elza sobre a vez em que ela apareceu no programa Calouros em desfile, do Ary Barroso, e foi sacaneada pelo apresentador. Apareceu no palco da atração com um vestido vários números maior, remendado com alfinetes, além de várias marias-chiquinha. Foi recepcionada por ele com um “de que planeta você veio, minha filha?”, e ele respondeu: “Do Planeta Fome, seu Ary”.

Como eu havia conversado antes com ela sobre os programas musicais de TV da década passada (SuperStar, The Voice Brasil, os quais ela dizia não acompanhar), lembrei a ela que a Susan Boyle, candidata do programa Britain’s got talent, havia também sido ridicularizada no palco, por apresentadores e jurados. “Lembro da Susan Boyle. Ela canta pra caramba, calou a boca de todo mundo no programa, né? É a tal discriminação, a pessoa nem conhece e já sai discriminando. E depois eu encontrei o Ary. Ele foi me ver ao vivo e queria mudar o meu nome. Dizia: ‘Esse negócio de Elza não vai dar certo!’”

“Em alguns momentos da minha carreira (nos períodos de baixa), eu hibernava. Às vezes, é bom estar invisível, porque você leva muita pedrada. Quando você está invisível, a pedra passa distante”.

Em junho de 2018, falei com ela sobre o disco Deus é mulher, que ela acabara de lançar. E ela dizia que as letras eram fator determinante para ela escolher repertório. “Eu passo noite e dia pensando no que quero dizer para quem quer me ouvir, para esse povo que me elegeu como cantora. Quero o melhor para o meu país, me orgulho muito de ser brasileira e sofro de ver o país da maneira que está. Acabou o amor, acabou a dignidade. Meu momento é de parar pra pensar se tenho algo a fazer também, para ajudar”.

“Não quero só ter voz, quero eco. uma andorinha só não faz verão. Gostaria que todo o povo brasileiro tivesse esse momento de ter voz, de falar. O povo está dormindo! Que sono é esse, meu Deus? Vamos acordar. Vê só essa greve dos caminhoneiros, em que ninguém falou nada”.

Advertisement

“As mulheres estão falando mais, sabem da violência que acontece com elas. Vê só essa morte da Marielle Franco, que coisa estúpida. E não pode parar de falar nisso não, mesmo na Copa do Mundo. Tem que falar, não pode esquecer, não pode deixar de falar sempre”.

“Não sei se minha música atual é samba-punk ou até samba-funk. Sei que é música de qualidade e que tem conteúdo”.

“Deus é mãe, Deus é mãe. Esse país tá precisando de um pouco de colo de mãe. A gente está precisando dar colo para esse país, porque ele tá muito abandonado. Fico muito furiosa não porque penso no futuro, mas porque penso no presente do país. Até hoje se fala que o Brasil é o país do futuro, mas o Brasil tinha que ser o país do presente”.

“Quem faz arte quer sempre fazer uma coisa de valor, que valha a pena”.

Advertisement
Continue Reading
Advertisement

Trending