Cultura Pop
“The world won’t listen”, dos Smiths, faz 30 anos – descubra!

Duas coisas vieram à cabeça de muitos fãs de música quando os primeiros CDs chegaram ao mercado nos anos 1980: 1) “Oba, CD não arranha e dá pra tratar mal que não estraga”; 2) “Legal, ele tem até 75 minutos de música e cabem dois LPs ali dentro”. Isso porque uma coisa, com certeza, passou pela cabeça de quem, em 1987, foi uma loja aqui no Brasil comprar o LP “The world won’t listen”, coletânea de singles dos Smiths lançada há exatos 30 anos: “Que som de merda!”. O disco espremia quase uma hora de música num só vinil, o que em se tratando das prensagens meia-boca feitas por aqui na época, ganhava efeitos catastróficos.
“The world…” coletava singles do grupo de Manchester lançados entre 1985 e 1987. Fez um baita sucesso lá fora – nas paradas britânicas, chegou logo em segundo lugar. Nem era das coisas mais originais que poderiam sair dos Smiths naquele momento, visto que “Hatful of hollow”, coletânea de raridades publicada em 1984, era bem mais generosa em investir em músicas raras, e “The world…” (que só tinha uma inédita, “You just haven’t earned it yet, baby”) ainda trazia uma música que saíra em LP, “There is a light that never goes out” (do “The Queen is dead”, de 1986).
A situação dos Smiths estava crítica na época: brigas internas, subsituições de músicos (já que o baixista Andy Rourke tinha sido sacado da banda pelo uso de heroína), o guitarrista Johnny Marr viciadíssimo em cocaína e recuperando-se de um acidente de automóvel. E a banda brigando com o selo Rough Trade. Não era das coisas mais fáceis do mundo trabalhar com o grupo, que trocara de empresário – Ken Friedman, que cuidava também da carreira do UB40, foi o escolhido. Bom, “escolhido” muito entre aspas, já que o próprio admitiu em entrevista à biografia “A light that never goes out”, de Tony Fletcher (saiu aqui pela Record), que os problemas de comunicação com a banda o fizeram nem estar seguro de ocupar o cargo – numa reunião na casa de Morrissey, chegou a ouvir um “acho que você é nosso empresário” de Johnny Marr.
Quando “The world…” saiu, a banda já estava com os dois pés na EMI, por onde nem lançaria discos. A situação era horrorosa: os Smiths vendiam bem, tinham prestígio e credibilidade, um monte de gente querendo ganhar dinheiro às custas deles e uma maneira caótica e arrogante de administrar o sucesso – e permaneciam num status alternativo, em termos de influência no mercado.. O grupo considerava que toda a administração à sua volta estava sendo ineficiente. Daí o nome da coletânea, vindo da frustração de Morrissey por achar que as rádios comerciais e os marketeiros não davam ouvidos os Smiths. Seja como for, vendeu bem e deixou a EMI crescendo o olho para cima do quarteto.

O selo do LP nacional, lançado aqui pela WEA: prensagem “naquela base”
Para fãs completistas dos Smiths, aliás, 1987 foi um ano movimentado. Um mês depois de “The world…”, o grupo lançaria outra coletânea de olho no mercado americano, “Louder than bombs”, que unia material já lançado nas duas compilações anteriores, como um substituro exclusivo para elas nos EUA, já que os dois discos eram inéditos por lá. Em setembro, o grupo poria uma pedra na sua carreira e na relação com a Rough Trade com o último disco, “Strangeways, here we come” (cujo título, piada mortal com a gravadora, era uma brincadeira com a prisão de Strangeways, em Manchester).
Pouco antes de “The world…” sair, Friedman tinha tanta dificuldade de comunicação com os Smiths que não conseguia nem fazer com que eles pagassem suas contas – ele lembra que chegava em Johnny Marr, conseguia fazer com que ele assinasse alguma coisa, e ao olhar para o lado, Morrissey tinha sumido. Sem muito a fazer além de explorar a área de shows, o empresário queria que eles assinassem com uma empresa chamada Wasted Talent, que conseguia espaços nos maiores festivais europeus. Tanto quis que conseguiu, mas os Smiths fizeram apenas um show pela empresa – e foi uma aparição no dia 7 de fevereiro de 1987, em playback, no festival de San Remo, na Itália, que alguém subiu pro YouTube.
Olha aí a apresentação na íntegra, com direito a um ping-pong com Morrissey, respondido com certa dose de ironia. “Eles não deveriam ter ido a San Remo, não foi bacana. Por ser americano, eu não sabia como aquilo era ruim. Era uma coisa muito popular. Os Smiths eram o grupo menos provável de ir até lá”, chegou a contar Friedman.
Ficou com vontade de ouvir o disco? Pega aí.
Cultura Pop
No nosso podcast, Alanis Morissette da pré-história a “Jagged little pill”

Você pensava que o Pop Fantasma Documento, nosso podcast, não ia mais voltar? Olha ele aqui de novo, por três edições especiais no fim de 2025 – e ano que vem estamos de volta de vez. No segundo e penúltimo episódio desse ano, o papo é um dos maiores sucessos dos anos 1990. Sucesso, aliás, é pouco: há uns 30 anos, pra onde quer que você fosse, jamais escaparia de Alanis Morissette e do seu extremamente popular terceiro disco, Jagged little pill (1995).
Peraí, “terceiro” disco? Sim, porque Jagged era só o segundo ato da carreira de Alanis Morissette. E ainda havia uma pré-história dela, em seu país de origem, o Canadá – em que ela fazia um som beeeem diferente do que a consagrou. Bora conferir essa história?
Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch (foto: Capa de Jagged little pill). Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.
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Cultura Pop
No nosso podcast, Radiohead do começo até “OK computer”

Você pensava que o Pop Fantasma Documento, nosso podcast, não ia mais voltar? Olha ele aqui de novo, por três edições especiais no fim de 2025 – e ano que vem estamos de volta de vez. Para abrir essa pequena série, escolhemos falar de uma banda que definiu muita coisa nos anos 1990 – aliás, pra uma turma enorme, uma banda que definiu tudo na década. Enfim, de técnicas de gravação a relacionamento com o mercado, nada foi o mesmo depois que o Radiohead apareceu.
E hoje a gente recorda tudo que andava rolando pelo caminho de Thom Yorke, Jonny Greenwood, Colin Greenwood, Ed O’Brien e Phil Selway, do comecinho do Radiohead até a era do definidor terceiro disco do quinteto, OK computer (1997).
Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch (foto: reprodução internet). Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.
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4 discos
4 discos: Ace Frehley

Dizem por aí que muita gente só vai recordar de Gene Simmons e Paul Stanley, os chefões do Kiss, quando o assunto for negócios e empreendedorismo no rock – ao contrário das recordações musicais trazidas pelo nome de Ace Frehley, primeiro guitarrista do grupo, morto no dia 16 de outubro, aos 74 anos.
Maldade com os criadores de uma das maiores bandas de rock de todos os tempos, claro – mas quando Frehley deixou o grupo em 1982, muita coisa morreu no quarteto mascarado. Paul Daniel Frehley, nome verdadeiro do cara, podia não ser o melhor guitarrista do mundo – mas conseguia ser um dos campeões no mesmo jogo de nomes como Bill Nelson (Be Bop De Luxe), Brian May (Queen) e Mick Ronson (David Bowie). Ou seja: guitarra agressiva e melódica, solos mágicos e sonoridade quase voadora, tão própria do rock pesado quanto da era do glam rock.
Ace não foi apenas o melhor guitarrista da história do Kiss: levando em conta que o grupo de Gene e Paul sempre foi uma empresa muito bem sucedida, o “spaceman” (figura pela qual se tornou conhecido no grupo) sempre foi um funcionário bastante útil, que lutou para se sentir prestigiado em seu trabalho, e que abandonou a banda quando viu suas funções sendo cada vez mais congeladas lá dentro. Deixou pra trás um contrato milionário e levou adiante uma carreira ligada ao hard rock e a uma “onda metaleira” voltada para o começo do heavy metal, com peso obedecendo à melodia, e não o contrário.
Como fazia tempo que não rolava um 4 Discos aqui no Pop Fantasma, agora vai rolar: se for começar por quatro álbuns de Ace, comece por esses quatro.
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução
“KISS: ACE FREHLEY” (Casablanca, 1978). Brigas dentro do Kiss fizeram com que Gene, Paul, Ace e o baterista Peter Criss lançassem discos solo padronizados em 1978 – adaptando uma ideia que o trio folk Peter, Paul and Mary havia tido em 1971, quando saíram álbuns solo dos três cujas capas e logotipos faziam referência ao grupo. Ace lembra de ter ouvido uma oferta disfarçada de provocação numa reunião do Kiss, quando ficou definido que cada integrante lançaria um disco solo: “Eles disseram: ‘Ah, Ace, a propósito, se precisar de ajuda com o seu disco, não hesite em nos ligar ‘. No fundo, eu dizia: ‘Não preciso da ajuda deles’”, contou.
Além de dizer um “que se foda” para os patrões, Ace conseguiu fazer o melhor disco da série – um total encontro entre hard rock e glam rock, destacando a mágica de sua guitarra em ótimas faixas autorais como Ozone e What’s on your mind? (essa, uma espécie de versão punk do som do próprio Kiss) além do instrumental Fractured mirror. Foi também o único disco dos quatro a estourar um hit: a regravação de New York Groove, composta por Russ Ballard e gravada originalmente em 1971 pela banda glam britânica Hello. Acompanhando Frehley, entre outros, o futuro batera da banda do programa de David Letterman, Anton Fig, que se tornaria seu parceiro também em…
“FREHLEY’S COMET” (Atlantic/Megaforce, 1987). Seguindo a onda de bandas-com-dono-guitarrista (como Richie Blackmore’s Rainbow e Yngwie Malmsteen’s Rising Force), lá vinha Frehley com seu próprio projeto, co-produzido por ele, pelo lendário técnico de som Eddie Kramer (Jimi Hendrix, Beatles, Led Zeppelin) e Jon Zazula (saudoso fundador da Megaforce). Frehley vinha acompanhado por Fig (bateria), John Regan (baixo, backing vocal) e Tod Howarth (guitarras, backing vocal e voz solo em três faixas).
O resultado se localizou entre o metal, o hard rock e o rock das antigas: Frehley escreveu músicas com o experiente Chip Taylor (Rock soldiers), com o ex-colega de Kiss Eric Carr (Breakout) e com John Regan (o instrumental Fractured too). Howarth contribuiu com Something moved (uma das faixas cantadas pelo guitarrista). Russ Ballard, autor de New York groove, reaparece com Into the night, gravada originalmente pelo autor em 1984 em um disco solo. Típico disco pesado dos anos 1980 feito para escutar no volume máximo.
“TROUBLE WALKING” (Atlantic/Megaforce, 1989). Na prática, Trouble walking foi o segundo disco solo de Ace, já que os dois anteriores saíram com a nomenclatura Frehley’s Comet. A formação era quase a mesma do primeiro álbum da banda de Frehley – a diferença era a presença de Richie Scarlet na guitarra. O som era bem mais repleto de recordações sonoras ligadas ao Kiss do que os álbuns do Comet, em músicas como Shot full of rock, 2 young 2 die e a faixa-título – além da versão de Do ya, do The Move. Peter Criss, baterista da primeira formação do Kiss, participava fazendo backing vocals. Três integrantes do então iniciante Skid Row (Sebastian Bach, Dave Sabo, Rachel Bolan), também.
“10.000 VOLTS” (MNRK, 2024). Acabou sendo o último álbum da vida de Frehley: 10.000 volts trouxe o ex-guitarrista do Kiss atuando até como “diretor criativo” e designer da capa. Ace compôs e produziu tudo ao lado de Steve Brown (Trixter), tocou guitarra em todas as faixas – ao lado de músicos como David Julian e o próprio Brown – e convocou o velho brother Anton Fig para tocar bateria em três faixas. A tradicional faixa instrumental do final era a bela Stratosphere, e o spaceman posou ao lado de extraterrestres no clipe da ótima Walkin’ on the moon. Discão.
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