Brother de John Lennon, cantor do clássico Everybody’s talkin’ e doidão contumaz, o americano Harry Nilsson resolveu seguir um pouco os passos de artistas como os Beatles (que haviam feito o desenho animado Yellow submarine em 1967) e lançou em 1970 um hoje pouco lembrado disco conceitual infantil, The point!.

The Point!: Harry Nilsson para crianças

Detalhe: assim como no disco dos Beatles, o cantor também soltou uma versão em desenho animado da fábula. A diferença é que The point!, o filme, não foi um grande sucesso dos cinemas – foi ao ar apenas pela rede NBC, em fevereiro de 1971, e depois foi reprisado algumas vezes.

The Point!: Harry Nilsson para crianças

O plot de The point! é bem psicodélico, e Nilsson estava bastante chapado quando bolou tudo. “Eu estava tomando ácido e olhei as árvores. Percebi que todas elas ficavam em pontas, e os galhinhos ficavam em pontas, e as casas ficavam em pontas. Eu pensei, ‘Oh! Tudo tem um propósito, e se não tiver, então existe um ponto para isso'”, contou.

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A ideia doidaralhaça de Nilsson evoluiu para uma história bastante educativa sobre preconceito e tolerância. Em The point!, um garoto chamado Oblio era a única pessoa de cabeça redonda que morava num lugar chamado Vila Pontiaguda, onde todas as pessoas tinham cabeças (claro!) pontiagudas. O garoto só é aceito na cidade, desde a infância, após topar botar um chapéu pontiagudo. Logo após ter seu segredo descoberto por um coleguinha, Oblio e seu cachorro Arrow são expulsos do lugar onde viviam e vão parar num lugar chamado Pointless Forest (“floresta sem pontos”). Só que lá fazem uma série de descobertas e encontram seres fantásticos.

Depois da tal viagem de ácido, Nilsson começou a rascunhar as canções, aproveitando também o bom momento que estava vivendo. O cantor estava recém-casado, morando numa casa de cinco quartos na cobiçadíssima Laurel Canyon (lugar no qual dez entre dez roqueiros dos anos 1970 sonhavam viver, e local da tal viagem de ácido que originou o disco) e num ponto (sem trocadilho) em que vendia muitos discos e tinha linha direta com o universo do cinema, graças à entrada de Everybody’s talkin na trilha do sucesso Perdidos na noite.

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Antes de The point!, Nilsson havia pensado em fazer um filme chamado The paradise hat, que ele dizia ter sido baseado num conto de Kurt Vonnegut. Só que a ideia não foi para a frente, e o cantor começou a retrabalhar as canções que já iniciara para fazê-las caber na nova história. O disco The point! acabou ganhando um lançamento bem ousado, com Nilsson narrando toda a história e fazendo as vozes de todos os personagens, em faixas como Everything’s got ’em, Me and my arrow (único single do álbum) e Are you sleeping?. O LP ainda trazia um álbum em quadrinhos com uma espécie de storyboard da história.

The Point!: Harry Nilsson para crianças

Assim que começou a trabalhar em The point!, Nilsson teve a ideia: por que não transformar a história em desenho animado? Resolveu procurar o animador Fred Wolf (que havia ganhado o Oscar de curta-metragem em 1968 pela animação The box) e apresentou a ele a ideia. Wolf topou e o material foi apresentado à ABC. Na equipe, entraram roteiristas como Caroline A. Beers (que ajudou Nilsson a criar os nomes dos personagens) e Norm Lenzer.

Wolf, décadas depois de The point!, lembrou que a ABC não curtiu de início as músicas apresentadas por Nilsson. Só que o trabalhou acabou engrenando e, em seguida, a emissora pediu pressa a todo mundo, com a ideia de que o filme pudesse ser exibido no Natal de 1970. Mas não rolou, e The point foi ao ar apenas em 2 de fevereiro de 1971. No elenco, vozes como a de Dustin Hoffman (narrador), Joan Gerber (mãe de Oblio) e Mike Lookinland (ator de séries e comerciais, com 10 anos na época, fez Oblio).

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Hoffman, apesar de ser amigo de Nilsson, pediu 20 mil dólares para que sua voz aparecesse apenas na primeira transmissão. Para evitar mais gastança de grana, a ABC foi mudando a voz à medida que o filme foi sendo reprisado. Só que na versão lançada em VHS e DVD, um outro grande amigo de Nilsson, Ringo Starr, faz a voz do narrador. Por sinal, essa versão com Ringo foi até lançada em Blu-Ray recentemente (em fevereiro de 2020).

Aliás, The point! pode estar longe de ser o mais célebre projeto no estilo rockstar-lança-ópera-rock. Mas por vários anos, seguiu o mesmo esquema de licenciamento de Tommy, do Who. Virou até peça de teatro. Uma das versões de palco foi encenada em Londres, em 1977, com dois ex-Monkees (Micky Dolenz e Davy Jones) no elenco. Aliás, assim como aconteceu com a ópera de Pete Townshend, essa peça ganhou uma trilha sonora à parte.

E a versão da terceira transmissão do filme (com Alan Thickle como narrador) está no YouTube. Pega aí.

Via Night Flight, Bright Lights Film e o livro Nilsson: The life of a singer-songwriter, de Alyn Shipton