A artista plástica e ocultista Rosaleen Norton (1917-1979) assustou bastante a Austrália nos anos 1950. Auto-denominada bruxa, abertamente bissexual e fora dos padrões durante toda a vida, ela costumava abordar temas sobrenaturais em seu trabalho como pintora – retratando mulheres nuas, bacanais, demônios e o deus pã. Era praticante de magia sexual desde a juventude, seguindo os rituais divulgados pelo ocultista Aleister Crowley. Por causa do seu trabalho, e pelo fato de ter morado durante muitos anos no bairro de Kings Cross, em Sydney, ela era chamada de “a bruxa de Kings Cross”.

Botar medo no padrão católico da Austrália custou caro a Rosaleen. Como lembra uma reportagem do The Guardian, ela foi presa, teve obras de arte destruídas (ou simplesmente recolhidas pela polícia) e virou uma figura típica dos tabloides e programas de TV sensacionalistas locais. Em várias reportagens de televisão, ela era enxergada quase da mesma forma que Pedro de Lara era visto aqui no Brasil. Era uma figura folclórica e engraçada, que lançava feitiços nos outros, e e era vista com desprezo e horror num país formado por 90% de católicos. Ainda assim, não se recusava a dar entrevistas e volta e meia aparecia até usando um chapéu pontudo, de bruxa.

A novidade é que acaba de sair um filme sobre Rosaleen. The witch of Kings Cross foi dirigido por Sonia Bible. A diretora, ciente de que estava lidando com uma história que precisava ser resgatada o mais rápido possível, desbravou vários arquivos sobre Rosaleen e entrevistou as últimas fontes que ainda estavam vivas. O documentário foi feito com orçamento bem apertado e Sonia chegou a recorrer ao crowdfunding para financiar boa parte dele. Mesmo com o aspecto documental, há uma atriz que interpreta a ocultista: é a australiana Kate Elizabeth Laxton.

Com uma beleza bem diferente dos padrões, Rosaleen chegou a trabalhar como modelo quando jovem, além de colaborar com uma revista de arte de vanguarda. Assim que começou a pintar, foi acusada de comercializar pornografia e de atentar contra os valores católicos do seu país. A pintora teve vários parceiros ao longo da vida, com os quais praticava magia sexual e sexo tântrico. Todos foram perseguidos do mesmo jeito que ela.

As pesquisas e rituais eram uma preferência pessoal e devocional de Rosaleen, mas estavam também ligadas à sua história. A pesquisadora Marguerite Johnson, que fez um artigo sobre o documentário no site de notícias da emissora ABC, conta que a bruxaria “especialmente desde a época vitoriana” ajudava no empoderamento e na busca por liberdade de mulheres não convencionais. Rosaleen costumava contar que desde criança via “marcas de bruxa” em seu corpo.

Marguerite lembra também que boa parte da obra de Rosaleen foi criada para ser usada em seus próprios rituais, e refletiam suas experiências. Já Sonia recorda que a artista surgiu num tempo em que mal ainda havia “cultura jovem” e o rock ainda não existia. “Mas era a preparação para a contracultura”, diz.

The witch of Kings Cross pode ser assistido (inclusive no Brasil) no site do filme. Está disponível na Amazon, no iTunes, no Vimeo e no GooglePlay.

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