Se você costuma acompanhar o POP FANTASMA, deve se lembrar da matéria que a gente fez com o cantor, compositor e músico baiano Tony Lopes, que gravou um LP no comecinho dos anos 1990 com seu grupo Os Sobreviventes, De quem é a culpa? E recentemente colocou a obra em streaming, sem nem passar pelo relançamento em CD.

Tony, que é um dos comandantes do Bardos Bardos, no Rio Vermelho, em Salvador, nunca parou de compor e de escrever. Tocou em bandas como Tara Code, Elefantes Elegantes, Koyotes e no projeto Reverendo T e os Discípulos Descrentes, pseudônimo pelo qual também vem atuando como escritor. E além do single novo do Reverendo T, O demônio não sabe jogar, o que Tony mais tem para mostrar são coisas novas.

Ele lançou também dois discos do Elefantes Elegantes, Elepunks e Canções náufragas, lançados neste ano. Tem um EP tributo ao primeiro disco do Reverendo T, Pequenos milagres revisitados, Vol. 1, com participações de Marcio Mello, Soft Porn, do carioca Marco Homobono e de Duda Spínola. E três coletâneas da série Sessões musicais na quarentena, com vários artistas mostrando o material composto durante o isolamento, que sai pela gravadora Trinca de Selos.

“A maioria das bandas/artistas são baianos. Fizemos três volumes mais ecléticos, e um dedicado ao metal. Gravações caseiras, demos, coisas produzidas em plena pandemia”, conta Tony, que também lança o livro virtual de poemas Estranho amor, com ilustrações de Solange Valladão, e um conto no livro Soteropolitanos, organizado por Matheus Peleteiro. “Ou seja, continuo produzindo o máximo possível porque acredito que alguém em algum lugar ou momento vai gostar de ler e até mesmo de saber o que se passa nessa cabeça”, diz.

Tanto o Reverendo T, que completa dez anos em 2020, quanto o Elefantes, são projetos de um homem só – sendo que no caso do primeiro, aparecem parceiros para dividir o trabalho. “É uma banda que tem um certo estilo, estou preparando um novo álbum e espero que até o fim do ano esteja disponível”, conta. “Já Os Elefantes Elegantes é uma viagem mais pessoal. Eu e o garage band de um velho iPad. A única forma que encontrei para dar vazão às outras loucuras. Desde os meus escritos a coisas de Bukowski e de amigos, além de ter feito um álbum com letras do meu irmão André Luiz falecido nos anos 1980. Tudo programado, sem muito compromisso com estilos ou sonoridades”, conta Tony, que se diz um produtor de música artesanal e até tosca, sem preocupação com finalização.

“Esse momento que estamos passando nos deu mais tempo ocioso e também uma certa urgência. Ideal para pessoas, como eu, que curtem mais a quantidade do que propriamente a qualidade”, brinca ele.

O Bardos Bardos, local que começou como loja de discos e já agendou até shows de bandas da Finlândia, ficou fechado por cinco meses por causa da pandemia. Vem voltando timidamente, com cuidados. “Muitos lugares fecharam por aqui e nós só conseguimos sobreviver porque contamos com a ajuda, financeira mesmo, de grandes amigos que são frequentadores e entusiastas do espaço, e de uma galera que vem se unindo há algum tempo chamado de Clube dos Bons Sons”, conta.

De quem é a culpa?, o disco dos Sobreviventes, foi bastante criticado quando saiu – Tony lembra até de ter aparecido nas páginas da Veja. Ele conta que o disco soa melhor hoje e que não mudaria nada lá. “Gosto das imperfeições, das tentativas. Prefiro sempre fazer outro do que consertar ou refazer algo já feito. E também com isso outras pessoas puderam conhecer, ouvir. É um grande orgulho tê-lo feito, na nossa cena baiana temos poucos registros dessa época. Era difícil e caro gravar”, recorda.